• Nenhum resultado encontrado

63mostram um papel menos determinante na regulação da resposta emocional Os

pensamentos intrusivos apresentaram-se como fortes preditores do distress emocional nos dois primeiros momentos de avaliação, mas menos importantes no terceiro, enquanto que o evitamento não apresentou qualquer relação com o distress (id., ibid.).

Também o pós-stress traumático tem sido uma das dimensões da saúde mental avaliadas em estudos na área da oncologia. Smith et al. (1999) reviram nove estudos (Stuber et al., 1991, 1996, Butler et al., 1996, Kazak et al., 1997, Pelkovitz et al., 1996, Cordova et al., 1995, Alter et al., 1996, Tjemsland et al., 1998, cit. in Smith et al., 1999) que avaliam o distúrbio de pós-stress traumático em doentes com cancro, distúrbio que incluiu recentemente as doenças ameaçadoras da vida como um acontecimento traumático precipitante. Esta inclusão foi, no entanto, controversa (id.,ibid.), pois as características dos stressores tidos em conta até aqui diferem qualitativamente da experiência do cancro, sobretudo porque não é um único acontecimento mas sim uma série de eventos sucessivos relacionados com o curso clínico da doença, que se estendem no tempo. Outra característica que distingue a experiência desta doença dos outros precipitantes traumáticos é a possibilidade do sujeito exercer controlo sobre vários aspectos dessa experiência, participando nas decisões tomadas relativamente aos tratamentos, por exemplo. Os estudos referidos por Smith et al. (1999), predominantemente de corte transversal e que usavam pequenas amostras de adultos e crianças que sobreviveram ao cancro, e de pais destas crianças, com a ressalva de que utilizavam metodologias distintas, revelam sintomas que se enquadram neste distúrbio tanto nos doentes como em familiares próximos.

Também Butler et al. (1999) referem que, apesar da identificação deste síndrome ser rara entre doentes com cancro, são comuns os sintomas clinicamente relevantes de stress traumático (citam os trabalhos de Alter et al., 1996, Cordova et al., 1995, Green et al., 1998 e de Koopman et al., 1997). O estudo que desenvolveram sobre stress e suporte emocional numa amostra de 125 mulheres com cancro da mama metastizado indica que mais de metade das mulheres experienciaram níveis significativos de sintomas de stress traumático associado ao cancro. Um terço das doentes apresentou níveis de sintomas de intrusão e mais de um quarto reportou sintomas de evitamento (Butler et al., 1999:557-558). Os autores encontraram uma associação entre estes sintomas e outras circunstâncias de vida das doentes (no presente e passado), muito embora não se tenha determinado o efeito directo do stress associado a acontecimentos de vida relevantes nos sintomas apresentados, considerando-se que podem, no entanto, constituir-se como factores de vulnerabilidade.

64

Palmer Kagee, Coyne, e DeMichele (2004) estudaram o trauma, o distress e o pós-stress traumático em 115 doentes com cancro da mama com base nos critério da DSM-IV. Encontraram uma prevalência baixa de pós-stress traumático associada ao cancro (4%), tendo encontrado uma elevada percentagem de pessoas que declararam lidar com o cancro com um medo intenso, deseperança ou horror (41%), e que apresentavam distress psicológico (38%).

Manne, Glassman e Hamel (2000) levaram a cabo um estudo que pretendeu avaliar a interacção entre a intrusão, o evitamento e o distress psicológico em 189 doentes com cancro, em tês momentos distintos, separados por 3 meses. Foi verificado o papel mediador do evitamento entre os doentes em estádios avançados de cancro, mas o mesmo não aconteceu nos doentes em estádios precoces.

Relativamente a Portugal, foi apresentada uma comunicação em poster (Ribeiro, Pires & Monteiro, 2008), no VII Congresso Português de Psico-oncologia, realizado em Novembro de 200827, com dados relevantes. Este estudo revelava que, numa amostra de

599 doentes hospitalizados sinalizados à Unidade de Psiquiatria do IPO de Lisboa, avaliados através de uma entrevista clínica não-estruturada baseada na DSM-IV e no CID-10, 32% dos doentes revelavam perturbação de adaptação e 31% perturbação afectiva28. Os autores referem que a taxa de referenciação tem aumentado nos últimos

dois anos, sendo, à data, calculada em 30%.

Sabemos que o cancro implica uma ampla gama de situações relativamente às quais o doente tem de lidar e accionar estratégias para tal. Estas condicionam necessariamente as relações interpessoais e as próprias estratégias que a família e os outros sistemas de suporte escolhem para se relacionarem com o doente e a doença.

Desde os anos 50 do século passado que esta é uma área de estudo que tem provocado interesse da comunidade científica. Foram inicialmente desenvolvidos estudos descritivos (Shands, Finesinger, Cobb, & Abrams, 1951, Bard & Sutherland, 1955, Quint, 1965, cit. in Dunkel-Schetter, 1999), tendo, em meados dos anos 70, sido conduzidas investigações sistemáticas através de diferentes metodologias que revelaram uma relação entrepadrões de coping e distress emocional em doentes com cancro (Weisman, 1979 in op. cit.). Estes padrões dependem de um conjunto de factores (Dunkel-Schetter, 1999:1) factores situacionais, relacionados com a situação clínica do doente, tais como a localização (topografia) do cancro, o estádio da doença, o tempo a partir do diagnóstico, o tratamento, entre outros; 2) características sociodemográficas, tais como o sexo, idade,



27 VII Congresso de Psico-Oncologia “Distress, 6º Sinal Vital em Oncologia”, 6 e 7 de Novembro de 2008, Instituto

Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil, EPE, organizado pela Academia Portuguesa de Psico-Oncologia.

28 A avaliação foi feita com base numa observação para 44% da amostra, em duas observações a 28% e com três ou mais

observações a outros 28%. As restantes situações avaliadas foram as seguintes: delirium (13%), perturbação da ansiedade (6%), sem diagnóstico psiquiátrico (6%), sendo os restantes distribuidos entre outros diagnósticos psiquiátricos.

65