• Nenhum resultado encontrado

A norma jurídica é o sentido de um ato de vontade dirigido à conduta humana;

é um objeto que está no âmbito do intelecto, é resultado de um processo interpretativo, mas que, frise-se, para se difundir intersubjetivamente recorre à linguagem.

Tem-se estudado a estrutura da “norma jurídica” sem se fazer, ainda, a distinção entre a norma jurídica geral e abstrata e a norma individual e concreta. É sobre tal diferenciação que cuida este tópico.

Deve-se à Teoria Pura do Direito e à KELSEN108 essa distinção na sua melhor forma científica, vendo nas normas individuais e concretas verdadeiras fontes do Direito, na lição de PEREZ DE AYALA.109

Seguindo o mesmo passo, CANOTILHO enfatiza que “uma norma jurídica adquire verdadeira normatividade quando com a ‘medida de ordenação’ nela contida se decide um caso jurídico (...)”. Logo, a norma geral e abstrata, que representa o resultado intermediário do processo de concretização, não tem normatividade imediata, pedindo para passar à “normatividade concreta” que a norma jurídica seja revestida em “norma de decisão”, na sua expressão, que regula concreta e vinculativamente o caso específico.110

107 CARVALHO, P. de B. Curso de direito..., p. 238.

108 KELSEN, H., op. cit., p. 81, 112, 113, 258-263.

109 Perez de Ayala ensina que essa distinção é também realizada por Carnelucci, para quem: “son normas abstractas las que se dictan para regular situaciones y hechos hipotéticos, y para el supuesto de que tales hipótesis se realicen. Normas concretas, las dictadas para regular hechos específicos, ya producidos”. (PEREZ DE AYALA, J. L., op. cit., p. 62.)

110 CANOTILHO, J. J. G., op. cit., p. 1207.

Da mesma forma, a necessidade de expedição de norma individuais e concretas para tornar, precisamente, possível a aplicação das normas gerais e abstratas também é pontuada por NORBERTO BOBBIO:

Que um ordenamento todo composto por um conjunto de normas gerais e abstratas seja um ideal que parece que possa ser confirmado pelo fato de que um tal ordenamento dificilmente poderia subsistir. Se nós admitirmos, como fizemos até aqui, que estabelecido um sistema de normas, deva-se prever sua violação, deveremos também admitir, ao lado das normas gerais e abstratas, normas individuais e concretas, não fosse exatamente para tornar possível a aplicação, em determinadas circunstâncias, das normas gerais e abstratas.111

Pois bem. As normas gerais e abstratas são abstratas e genéricas, como o próprio nome indica, e, em função disso, não têm condições efetivas de atuar em caso materialmente definido; decorrem da interpretação de proposições ou enunciados jurídicos no âmbito geral e abstrato. A norma geral e abstrata, portanto, indica um rol de eventos, dirige-se a uma classe de pessoas, define conseqüências gerais, traz, enfim, as linhas gerais de um evento a ser juridicizado. Tudo em um plano teórico, geral e abstrato. Na síntese de SOUTO MAIOR BORGES:

A norma tributária geral, que não se confunde com a norma geral de Direito Tributário (CF, art. 146, I-III), liga a um fato nela abstratamente descrito uma conseqüência também abstratamente estatuída. A aplicação da norma geral consiste na sua individualização e concretização.112

No âmbito do Direito Tributário, o exemplo maior de norma geral e abstrata é a regra-matriz de incidência tributária.

No descritor da norma (hipótese, suposto, antecedente) teremos diretrizes para identificação de eventos portadores de expressão econômica. Haverá um critério material (comportamento de alguma pessoa), condicionado no tempo (critério temporal) e no espaço (critério espacial). Já na conseqüência (prescritor), toparemos com um critério pessoal (sujeito ativo e passivo) e um critério quantitativo (base de cálculo e alíquota). A conjunção desses dados indicativos nos oferece a possibilidade de exibir, na plenitude, o núcleo lógico-estrutural da norma-padrão, preenchido com os requisitos significativos necessários e suficientes para o impacto jurídico da exação.113

111 BOBBIO, Norberto. Teoria da norma jurídica. Tradução de: Fernando Pavan Batista e Ariani Bueno Sudatti.

2. ed. Bauru: Edipro, 2003. p. 183.

112 BORGES, J. S. M. Lançamento tributário, p. 82.

113 CARVALHO, P. de B. Direito tributário..., p. 80-81.

Na hipótese da norma geral e abstrata, tal como ocorre na hipótese de incidência tributária, não há a descrição de um fato específico, mas de uma classe de eventos, onde se encaixam diversos acontecimentos concretos. Não há, do mesmo modo, no prescritor da norma geral e abstrata, a indicação objetiva dos sujeitos da relação jurídica a nascer, e tampouco a própria relação já definida, mas a indicação dos possíveis sujeitos e, do mesmo modo, de uma base de cálculo abstrata.

É precisamente diante dessa premissa que PAULO DE BARROS CARVALHO, ao estudar a norma geral e abstrata tributária, rechaça a utilização da expressão “elementos”, optando por usar “critérios”. Isso porque, na norma geral e abstrata, de fato, são oferecidos

“critérios” para a identificação dos acontecimentos do mundo fenomênico que irão se subsumir a ela.114

A norma individual e concreta é, pois, aquela que individualiza a norma geral e abstrata em determinada situação real e concreta. Ela é expedida pelo órgão ou pela pessoa competente, diante da subsunção de um evento numa classe. “‘Geral’, é, portanto, qualificativo que se contrapõe a ‘individual’”. E, “‘abstrato’ é qualificativo que se contrapõe a ‘concreto’”.115

As normas gerais e abstratas vão desencadear, quando se projetam sobre relações sociais, em outras regras que evoluem para atingir o caso específico: as normas individuais e concretas. Esse processo de projeção, até chegar ao plano das condutas efetivas, é chamado de “processo de positivação do direito”. Em outros termos, “processo de positivação” é o procedimento em que o Direito parte de noções abrangentes (de normas gerais e abstratas) para chegar a condutas individualizadas e intersubjetivas (normas individuais e concretas). Trata-se de um processo que deve ser, necessariamente, percorrido, possibilitando a regulação das condutas intersubjetivas pelo Direito, uma vez que a norma geral e abstrata, para alcançar o pleno teor de juridicidade, pede pela edição da norma individual e concreta, que irá atingir e produzir efeitos no plano da realidade social.116

“A norma jurídica só adquire verdadeira normatividade quando se transforma em norma de decisão aplicável a casos concretos”.117 Logo, a previsão existente em termos gerais e abstratos, na norma geral e abstrata, não é suficiente para disciplinar a conduta intersubjetiva da prestação tributária, sendo necessária a edição da norma individual e

114 Ibid., p. 78-81.

115 BORGES, José Souto Maior. Obrigação tributária: uma introdução metodológica. 2. ed. São Paulo:

Malheiros, 1999. p. 194.

116 CARVALHO, P. de B. Direito tributário..., p. 34.

117 CANOTILHO, J. J. G., op. cit., p. 1207.

concreta, “constituindo em linguagem o evento contemplado na regra-matriz, e instituindo também em linguagem relacional, que deixa atrelados os sujeitos da relação (...)”.118 Na síntese do próprio KELSEN: “A aplicação do Direito é, por conseguinte, criação de uma norma inferior com base numa norma superior ou execução de um ato coercivo estatuído por uma norma”119.

Assim, a presença do homem, do ser humano, é fundamental na criação do Direito, precisamente ao produzir a norma individual e concreta.

Vale repetir que é o homem que movimenta as estruturas do direito, sacando de normas gerais e abstratas outras gerais e abstratas, gerais e concretas, individuais e abstratas e individuais e concretas, para disciplinar juridicamente os comportamentos intersubjetivos.120

Na conclusão de CANOTILHO, de fato:

se a norma jurídica só adquire verdadeira normatividade quando se transforma em norma de decisão aplicável a casos concretos, conclui-se que cabe ao agente ou agentes do processo de concretização um papel fundamental, porque são eles que, no fim do processo, colocam a norma em contacto com a realidade.121

Nessa mesma linha, JOSÉ SOUTO MAIOR BORGES, ao examinar a natureza jurídica do lançamento tributário, matéria que será objeto de exame a seguir, critica a doutrina tradicional que pondera que somente a norma jurídica geral e abstrata pode ser considerada genuinamente uma norma jurídica, criadora do Direito. Para citado autor, a produção da norma individual e concreta é também fonte criadora do Direito, como denunciou a Teoria Pura do Direito. Na verdade, “todo ato normativo importa, ao mesmo tempo, criação e aplicação do Direito”, de modo que o ato jurídico de produção da norma individual e concreta (e de criação do Direito), é também um ato de aplicação da norma geral e abstrata.122

Cumpre, contudo, comentar que, para PAULO DE BARROS CARVALHO123, não existe nenhuma diferença, como “atividade”, entre o ato praticado pelo agente administrativo

118 CARVALHO, P. de B. Direito tributário..., p. 220.

119 KELSEN, H., op. cit., p. 261.

120 CARVALHO, P. de B. Direito tributário..., p. 34.

121 CANOTILHO, J. J. G., op. cit., p. 1207-1208.

122 BORGES, J. S. M. Obrigação tributária..., p. 115.

123 CARVALHO, P. de B. Direito tributário..., p. 248.

e o ato do particular ao identificar os eventos ocorridos no mundo real, que guarda relação com os critérios estabelecidos na norma geral e abstrata (regra matriz de incidência), e descrevê-los em linguagem própria. Em função disso, considera que também o particular produz a norma individual e concreta.124

124 No mesmo sentido: CAVALCANTE, D. L., op. cit., p. 104.