1. O DEGASE COMO INSTITUIÇÃO SOCIOEDUCATIVA
1.4 O DEGASE e sua estrutura de funcionamento
No estado do Rio de Janeiro, o DEGASE é a instituição responsável pela execução das medidas de privação (medida socioeducativa de internação e internação provisória) e medida de restrição de liberdade, isto é, medida socioeducativa de semiliberdade. A estrutura de atendimento socioeducativo do DEGASE conta com o funcionamento de 24 unidades distribuídas pelo Estado do Rio de Janeiro. A seguir, o mapa de distribuição das unidades do DEGASE pelo estado do Rio de Janeiro:
Figura 1- Mapa das unidades socioeducativas do DEGASE por municípios no estado do Rio de Janeiro
O mapa apresentado na Figura 1 nos permite ter uma ideia da abrangência do atendimento do DEGASE. Nos municípios coloridos pela cor azul existem unidades socioeducativas de restrição e/ou privação de liberdade. Podemos perceber que nem todos os municípios oferecem esse atendimento; entretanto, vale ressaltar que o DEGASE se faz presente de norte a sul do território.
A medida socioeducativa de internação prevê, dentre os direitos que devem ser garantidos ao jovem-adolescente, seu cumprimento “na mesma localidade ou naquela mais próxima ao domicílio de seus pais ou responsáveis” (BRASIL, 1990, Art. 124). Esse direito não se efetiva plenamente, apesar de a instituição ter investido na construção de unidades nos últimos anos, conforme apresentado anteriormente.
No que concerne à restrição e privação de liberdade, apresentaremos a seguir tabelas que nos permitem identificar o território, a capacidade, o público e os tipos de atendimento ofertados. A medida socioeducativa de semiliberdade é executada em dezesseis Centros de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente (CRIAAD), que estão distribuídos pelo estado do Rio de Janeiro:
Tabela 1 - Unidades de Semiliberdade por cidade, sexo e capacidade.
Cidade Unidade Sexo Vagas
Cabo Frio CRIAAD Cabo Frio Masculino 32
Macaé CRIAAD Macaé Masculino 32
Campos CRIAAD Campos Masculino 32
Nova Friburgo CRIAAD Nova Friburgo Feminino/ Masculino 32
Teresópolis CRIAAD Teresópolis Masculino 32
Barra Mansa CRIAAD Barra Mansa Feminino/ Masculino 32 Volta Redonda CRIAAD Volta Redonda Masculino 32
Rio de Janeiro
CRIAAD Penha Masculino 32
CRIAAD Bangu Masculino 32
CRIAAD Ilha do Governador Masculino 38
CRIAAD Santa Cruz Masculino 32
Nova Iguaçu CRIAAD Nova Iguaçu Masculino 32
Nilópolis CRIAAD Nilópolis Feminino 32
São Gonçalo CRIAAD São Gonçalo Masculino 32
Niterói CRIAAD Niterói Masculino 32
Duque de Caxias CRIAAD Caxias Masculino 32
Capacidade total: 518
Fonte: DEGASE, 2016.
Durante a restrição de liberdade, configurada pela medida socioeducativa de semiliberdade, os jovens-adolescentes permanecem na instituição durante a semana e vão para
suas residências aos fins de semana. Essa medida é cumprida nos Centro de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente, com acompanhamento de equipe multidisciplinar e realização de atividades de escolarização e formação complementar fora da unidade. As escolas frequentadas são as escolas da rede de ensino e não instituições específicas que atendam somente socioeducandos, como no caso da privação de liberdade.
Os CRIAAD‟s possuem uma capacidade menor do que as unidades de internação e maior abertura em relação à comunidade em que estão circunscritos, duas especificidades positivas. Atender um menor número de jovens-adolescentes parece proporcionar um trabalho com mais qualidade. Entretanto, a proximidade com a comunidade nem sempre é interessante, pois algumas unidades estão situadas em territórios ocupados por redes criminosas e isso tem causado relacionamentos conturbados entre a unidade socioeducativa e a comunidade que a rodeia. Uma situação expressiva dessa relação foi a extinção da unidade de semiliberdade feminina situada em Ricardo de Albuquerque, apelidado de “CRIAAD Menina”, fechada em outubro de 2015, em decorrência de conflitos territoriais. Em vista dessa situação, a unidade de semiliberdade feminina de referência passou a ser o CRIAAD Nilópolis, que atendia o público masculino até então, mudou seu perfil.
As relações conflituosas entre unidades de semiliberdade e a comunidade do entorno também são vivenciadas na Vila da Penha e em Santa Cruz, ambas na cidade do Rio de Janeiro.
Tabela 2 - Unidades de privação de liberdade do DEGASE por município, tipo de atendimento e capacidade.
Cidade Unidade Tipo de Internação Vagas
Rio de Janeiro
Centro de Socioeducação (CENSE) Gelso de Carvalho Amaral
Porta de entrada (recepção)
64 Professor Antônio Carlos Gomes da
Costa (CENSE PACGC) - sexo
feminino
Internação e internação provisória
44
CENSE Dom Bosco Internação provisória 216
Escola João Luiz Alves (EJLA) Internação 133 Educandário Santo Expedito (ESE) Internação 210 Belford Roxo Centro de Atendimento Intensivo Belford
Roxo (CAI-BR)
Internação e
Internação Provisória
143
Volta Redonda CENSE Irmã Asunción de La GándaraUstara Internação e Internação Provisória 80 Campos dos Goytacazes
CENSE Professora Marlene Henrique Alves
Internação e
Internação Provisória
Capacidade Total: 1.008
Fonte: DEGASE, 2016.
De acordo com o ECA, a privação de liberdade deve seguir os “princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar da pessoa em desenvolvimento” (BRASIL, 1990, Art. 121) não apresentando tempo pré-determinado de duração, a não ser no caso de descumprimento de medida, em que o jovem fica acautelado por ter evadido ou descumprido alguma medida imposta pelo judiciário, por um tempo máximo de três meses.
A privação de liberdade no DEGASE pode se configurar em três diferentes situações: a internação, em que os jovens-adolescentes estão cumprindo a medida socioeducativa; a internação provisória, na qual os jovens-adolescentes permanecem até quarenta e cinco dias a espera de sua audiência e da então decisão judicial. Nessas duas situações, os socioeducandos recebem escolarização dentro da própria unidade e realizam atividades complementares ou de profissionalização na unidade ou em dependências do próprio DEGASE. A saída da unidade é esporádica e se faz mediante acompanhamento de profissionais. Uma terceira situação de privação de liberdade é a recepção, em que os jovens-adolescentes passam em média cinco dias até que sejam encaminhados para uma unidade de internação provisória ou retornem a sua residência, acompanhados de um responsável.
Na Tabela 2 elencamos as unidades de privação de liberdade e podemos ter uma visão geral da quantidade de jovens-adolescentes atendidos por município, apesar de a capacidade nem sempre corresponder à quantidade de jovens-adolescentes atendidos. Podemos observar a existência de seis unidades de internação que atendem a todo o estado; uma unidade de recepção e uma unidade que funciona apenas como internação provisória. É indiscutível que a cidade do Rio de Janeiro comporta a maior estrutura, podendo atender um total de 705 jovens- adolescentes em unidades de privação de liberdade.
A existência de unidades diferenciadas para cada tipo de privação de liberdade diz respeito somente ao universo masculino dentro do sistema. O universo feminino vivencia essas três diferenciadas situações em uma mesma e única unidade socioeducativa – o Centro de Socioeducação Professor Antônio Carlos Gomes da Costa (CENSE PACGC) –, ou seja, são recepcionadas, ficam internadas provisoriamente e cumprem a medida socioeducativa de internação na mesma instituição. E, por conseguinte, só existe uma unidade feminina de privação de liberdade em todo o DEGASE, situada na cidade do Rio de Janeiro. Não importa
em qual comarca11 morem ou tenham cometido infração, elas serão encaminhadas para o
CENSE PACGC. Não obstante, o direito ao cumprimento de medida socioeducativa de internação, no caso do público feminino, encontra barreiras ainda mais importantes no universo feminino.
Durante a privação de liberdade o judiciário reavalia a medida com base em relatórios produzidos pela equipe técnica multidisciplinar que acompanha a execução da medida, composta por profissionais dos campos da psicologia, pedagogia e serviço social da unidade socioeducativa. O relatório responde a um procedimento burocrático que não deveria prescindir de um estudo de caso multidisciplinar em que equipe técnica do DEGASE e judiciário pudessem discutir coletivamente o caso, o que raras vezes acontece.