CAPÍTULO 4 | QUANDO A PALAVRA É IMAGEM
4.3. A ESCRITA CHINESA
4.3.1. PERMANÊNCIA DO IDEOGRAMA
Se existe, apesar de tudo, uma escrita que pela sua própria forma exerce um poder de fascínio comparável ao hieróglifo, é a escrita chinesa.
Roland Barthes112
A escrita chinesa, tal como a suméria e a do Egipto faraónico, é considerada, como já referimos, uma escrita logográfica/ideográfica.
Com efeito, esta escrita, segundo Léon Vandermeersch, representa:
(…) não unidades fonéticas que encadeadas articulam a palavra ao nível da emissão física da voz, mas unidades semânticas pelo encadeamento das quais se articula, ao nível da produção do sentido, o discurso significativo que veicula a palavra vocal. Foi a assimilação sumária das unidades semânticas às ideias que conduziu outrora, para caracterizar este modo de escrita, ao termo ‘ideografia’, sem dúvida pouco adequado, mas desde então consagrado.113
Sendo, portanto, uma escrita que se realiza ao nível da primeira articulação, é a única sobrevivente das escritas da primeira geração.114
A escrita chinesa começa por ser uma escrita com uma continuidade milenar que serviu várias dinastias imperiais, permaneceu viva sob domínio estrangeiro e sobreviveu às alterações políticas do séc. XX.
Tentando compreender a razão desta permanência, bem como a resistência à adopção de um sistema fonético de escrita, vários especialistas da História da Escrita defendem a eficácia a que este sistema chegou, fruto de uma racionalização sistemática levada a cabo por gerações de escribas. Estes, simultaneamente especialistas na escrita e nas ciências divinatórias, teriam vindo a proceder a uma estruturação metódica, durante o seu período de maturação, iniciada no séc. XIV a.C. e que estaria estabelecida por volta do séc. III a. C., sob a dinastia Zhou (1050-256 a.C.).
Barthes reforça essa ideia, valorizando o seu aspecto de economia e perfeita adaptação às necessidades dos seus utilizadores.115
112 BARTHES, Roland – ‘Oral/Escrito’. in ROMANO, R. (direc.) - Oral/Escrito, Argumentação. Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987. Nº11. p. 149.
113 (…) non pas les unités phonétiques par l’enchaînement desquelles la parole vocale s’articule au
niveau de l’émission physique de la voix, mais les unités sémantiques par l’enchaînement desquelles s’articule, au niveau de la production du sens, le discours significatif que véhicule la parole vocale. C’est l’assimilation sommaire des unités sémantiques à des idées qui a conduit autrefois, pour caractériser ce mode d’écrire, à forger le terme d’idéographie, sans doute peu adéquat, mais désormais consacré. VANDERMEERSCH, Léon - ‘Les Écritures de l’Egypte Ancienne’. in CHRISTIN,
Anne-Marie (direc.) - Histoire de l’écriture - de l’idéogramme au multimédia. p. 67. 114 VANDERMEERSCH, Léon - ‘Les Écritures de l’Egypte Ancienne’. Ibid. p.68.
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China: o ideograma a palavra é imagemTodo o processo parece, no entanto, estranho ao pensamento ocidental, adaptado às regras da escrita fonética, aqui fortemente enraizadas.116
Com efeito os princípios que regem a escrita e a leitura dos sinogramas117 distancia-se completamente de qualquer dos sistemas fonéticos existentes.
Um sinograma é, basicamente, um conjunto de traços simples, distintos, associados segundo uma ordem rigorosa, dentro de um espaço, virtual, quadrado. Os traços, não são, no entanto, a unidade mínima da percepção, mas é a sua organização em blocos gráficos que se constituiu como a base perceptiva das formas.
A percepção do sinograma implica dois tipos de mecanismos psico-cognitivos diferentes, o reconhecimento da forma enquanto grafia e o reconhecimento do simbolismo do todo e das partes que o constituem, segundo perspectivas específicas do mundo físico e do imaginário cultural.
Talvez seja essa a razão pela qual os caracteres chineses servem, simultaneamente, os numerosos dialectos regionais que coexistem na China, constituindo-se como um elemento comunicativo fundamental para a união cultural e política do país.
115 BARTHES, Roland – Escrita. in ROMANO, R. (direc.) - Oral/Escrito, Argumentação. Enciclopédia
Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1987. Nº11. p. 149.
116 […] il y a bien des idées toutes faites sur l’écriture, des idées qui procèdent de la convergence de
deux tendances:
- Celle du sens commun tout d’abord, incapable de séparer l’écriture de la langue et pour cela incapable de penser le problème de l’origine de l’écriture autrement qu’en termes de succession et de subordination
- Celle du discours linguistique qui, au contraire de la tendance précédente, sépare bien l’écriture de la langue pour mieux marquer les limites de son objet d’étude (le langage parlé) mais jette sur l’écriture un regard phonologique qui le pousse à des classifications binaires superficielles (opposition par exemple des écritures phonologiques aux autres) et le résultat de cette vision (l’écriture subordonnée à la langue) est que, si l’on s’est souvent interrogé sur l’origine du langage, si l’on se demande quand, comment, pourquoi l’homme a commencé à parler, on ne se pose pas ces questions pour l’écriture. CALVET, Louis-Jean - Histoire de l’Ecriture. Plon: Paris, 1996. ISBN 2-259-02726-
1.218. p.15.
117 Adoptamos o termo criado por Delphine Weulersse et Nicolas Lyssenko, de l’Université de Paris VII, usado também por LAM, Sun – (tese de doutoramento) Escrita chinesa: (abordagem psico-cognitiva e
didáctica com uma aplicação multimédia. Braga: UM/Instituto de Letras e Ciências Humanas, 2005.,
na tentativa de simplificar o seu uso, atendendo a que os caracteres chineses são complexos, dividindo-se, normalmente em seis categorias: - les déictogrammes ou symboles indicatifs, - les
idéogrammes associant plusieurs caractères simples en un caractère nouveau dont on peut déduire le
sens d’après la combinaison, - les idéophonogrammes (90% des caractères) composés d’un élément sémantique et d’un élément phonétique, - les caractères dérivés construits par symétrie ou transfert de sens à partir de caractères existants, - les emprunts qui sont des caractères dont on a utilisé la valeur phonétique pour représenter un homophone de sens différent. GEOTOURISME – Le site de la
Géographie touristique en France et dans le Monde. Dictionnaire, Lexiques, etc. França: KEROURIO, act. 2006. [consult. Abr. 06] Disponível na Internet <URL http://geotourweb.com.>.
a palavra é imagem China: o ideograma
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85Esta capacidade é fundada no facto de o grafismo não transcrever, explicitamente, um só som (apesar de corresponder sempre a uma sílaba tónica — perfeitamente adaptada à língua monossilábica chinesa)118 mas antes, palavras e conceitos, reconhecidos nos países da sua área de influência (Vietname, Japão, Coreia).119
De modo algo simplificador, poderemos dizer que os caracteres chineses funcionam como uma imagem na cultura ocidental: da mesma forma que, perante o desenho de um peixe, qualquer pessoa com realidades culturais semelhantes, identifica, na sua língua, o animal (peixe, poisson, fish, etc.), em cada sinograma, um cantão, um mandarim, ou mesmo um japonês, identificará o seu significado, embora o pronuncie de forma diferente. A este propósito, Saussure sublinha que:
Para o chinês, o ideograma e a palavra falada são igualmente signos da ideia ; para ele a escrita é uma segunda língua, e na conversação quando duas palavras têm o mesmo som, pode acontecer-lhe ter que recorrer à palavra escrita para explicar o seu pensamento. Mas, esta substituição, pelo facto de poder ser absoluta, não tem as mesmas consequências nefastas que tem na nossa escrita; as palavras chinesas de dialectos diferentes que correspondem a uma mesma ideia assumem com eficácia semelhante o mesmo signo gráfico.120
É o que acontece, por exemplo com o símbolo 鱼: quer seja lido como yú ou
sakana, é entendido por um leitor chinês ou japonês, precisamente, como peixe.
Claro que nos exemplos apresentados há uma diferença substancial: enquanto o desenho do peixe é figurativo (poderia ser um logograma egípcio), o signo chinês apresenta um grau de abstracção significativo.
De facto, a sua origem pictográfica evoluiu para a ideográfica/logográfica, começando por usar imagens próximas do real, mas afastando-se deste à medida que foi evoluindo.121
Árvore/mù Cereal/hé Homem/rén Masculino/nán Boi/níu Carneiro/yáng Grafia primitiva
Grafia actual 木 禾 人 男 牛 羊
118 BELLASSEN, Joël - Les idéogrammes chinois ou l’Empire du sens. Paris: Éditions You Feng, 1995. ISBN-978-2906658578.
119 LAM, Sun – (tese de doutoramento) Escrita chinesa: abordagem psico-cognitiva e didáctica com uma
aplicação multimédia.. p. 22.
120 Pour le Chinois, l’idéogramme et le mot parlé sont au même titre des signes de l’idée ; pour lui l’écriture est une seconde langue, et dans la conversation quand deux mots parlés ont le même son, il lui arrive de recourir au mot écrit pour expliquer sa pensée. Mais cette substitution, par le fait qu’elle peut être absolue, n’a pas les mêmes conséquences fâcheuses que dans notre écriture ; les mots chinois des différents dialectes qui correspondent à une même idée s’incorporent également bien au même signe graphique. SAUSSURE, Ferdinand de - Cours de Linguistique Générale.
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China: o ideograma a palavra é imagemEsta comparação dá-nos dois tipos de informação relevante para a compreensão da construção e da lógica interna dos sinogramas: para além de se constituírem como informação semântica, eles revelam um fundo metacognitivo, presente na sua origem pictográfica. Revelam também uma forma própria de ver e de pensar o mundo e, por consequência, de o representar e escrever.
É interessante observar, nos casos apresentados, as diferentes estratégias de codificar e descodificar os sinogramas. Identificam-se, pelo menos três:
a) abstracção, por estilização, do objecto designado
b) apresentação da parte pelo todo (sinédoque ou metonímia)
c) conceptualização indirecta ou mediatizada, por referência a aspectos sociais, culturais, ideológicos.
No primeiro caso consideram-se a árvore, o cereal e o homem (no sentido de
humano). Parte-se do registo simplificado das características morfológicas mais
marcantes, evidentes nos registos mais antigos — raízes, caule e folhas; raízes, caule, folhas e espiga; perfil de humano inclinado.
No segundo apresenta-se o animal pelo que melhor o caracteriza, neste caso, as hastes.
Finalmente representa-se a actividade social da responsabilidade do homem para representar a masculinidade: um campo dividido e o ancinho significam o trabalho agrícola do homem, por oposição ao da mulher que deveria fazer os trabalhos da casa.
Nos três casos, os sinogramas tornam-se mais simples mas, também, mais codificados e mais abstractos, ainda que, como comprova o exemplo, continuem a ser caracteres motivados.
É ainda no plano da mediatização do conceito que se organizam os sinogramas compostos ou de significação combinada122 (que permitem, segundo L. Vandermeersch, desenvolver as grafias derivadas): juntando dois ideogramas obtém--se um significado derivado da associação do sentido, codificado
122 L. Vandermeersch define a existência de três princípios distintos para a racionalização da ideografia chinesa: o da derivação gráfica sistemática; o do empréstimo; o da associação de grafias entre elas. Segundo este autor, tais estratégias teriam sido fundamentais para a manutenção desta escrita, pois sistematizaram-na, evitando, ainda, a criação de um número infinito de signos. cf. VANDERMEERSCH, Léon - ‘Les Écritures de l’Egypte Ancienne’. in CHRISTIN, Anne-Marie (direc.) -
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87socialmente, dos dois primeiros. É o caso do sinograma de ‘paz’ ou ‘tranquilidade’, 安 an, que é formado por ‘tecto’, 宀, e por mulher, 女. Tranquilidade será, pois, a imagem de uma mulher protegida pelo tecto da sua casa.
Rozwadowski, linguísta polaco, considera que os sinogramas se apresentam segundo três facetas distintas:
— uma face gráfica: forma independente (…); invariável, esta forma será centrada num espaço quadrado.
— uma face semântica: um sinograma, não sendo necessariamente uma palavra, encerra um ou mais significados (…); trata-se frequentemente de um feixe de significações difundidas a partir de uma mesma fonte.
— uma face fonética: um signo chinês não regista, não analisa o som da língua falada; no entanto, pronunciado, corresponde a uma sílaba com tom.123
O que significaria que os sinogramas, sobretudo os deictogramas124 seriam portadores de sentido e não de som. Com efeito, 8,6% dos caracteres chineses têm duas formas distintas de enunciação e o número de homófonas é inaceitável para os sistemas fonéticos.125
Sun Lam126 dá o exemplo dos ideogramas que se pronunciam como lin, para os quais destaca, entre muitos outros os seguintes exemplos:
琳
lín, jade (玉 yù) puro霖
lín, uma chuva (雨yu) benfazeja淋
lín, molhar (pela água 氵)邻
lín, vizinho (o que mora na proximidade espacial)磷
lín, fósforo, un mineral (pedra 石shí )
123 - une face graphique: c’est une forme indépendante (...); invariable, cette forme sera centrée en un
espace carré.
- une face sémantique: un sinogramme n’étant pas nécessairement un mot, il renferme une ou plusieurs significations (...) ; il s’agit souvent d’un faisceau de significations diffusant à partir d’une même source.
- une face phonétique: un signe chinois ne note pas, n’analyse pas les sons de la langue parlée; prononcé, il correspond cependant à une syllabe tonalisée. BELLASSEN, Joël - Les ideogrammes chinois ou l’Empire du sens. p.10.
124 No sentido do francês déictogrammes (signos que conferem uma forma visual ao que não é distintamente representável), ao contrário dos pictogramas tidos como signos imediatamente identificáveis. LE COLLÈGE LIONEL-GROULX - Accueil. Portail Pédagogique. Québec: Collège Lionel-Groulx – ADD Stratégies, act. 2006. [consult. Jan. 2007] disponível na Internet <URL http://www.clg.qc.ca/for/reg/dep/700/actint/2003/ evolution/ communication.htm.>
125 BELLASSEN, Joël - Les idéogrammes chinois ou l’Empire du sens.
126 LAM, Sun – (tese de doutoramento) Escrita chinesa: abordagem psico-cognitiva e didáctica com uma
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China: o ideograma a palavra é imagemOs radicais, apresentados entre parêntesis, são os elementos visuais que indicam o sentido. Permitem a escolha correcta do sinograma, conhecido o contexto em que ele se vai inserir ou ajudando na sua definição. O conhecimento semântico e a visualização mental dos componentes semiográficos têm, pois de coordenar-se.
A escrita chinesa, enquanto sistema semiótico gráfico adaptado a uma estrutura linguística, surge-nos, portanto, ao contrário das escritas alfabéticas, como uma ”visualidade”, ou seja, portadora de uma semântica “visualizada”.127
Esta escrita não é, assim, analisável pela notação da palavra. Ao nível lexical os caracteres são compostos semanticamente como mostra o exemplo:
木mù,林lín,森sen. O Segundo carácter duplica o primeiro e o terceiro triplica-o, no
entanto eles não se assemelham foneticamente (poder-se-ia pensar que se o primeiro se lê mu, os outros seriam mumu, mumumu), mas semanticamente, mù, lín, sen, significam, respectivamente, árvore, bosque e floresta.
Poder-se-á, pois, dizer que a percepção dos sinogramas se faz através de uma densificação visual e semântica.
Sun Lam, no trabalho que temos vindo a acompanhar, afirma, a este propósito, que:
Não é por acaso que o verbo LER em chinês é 看书 kànshu (olhar um livro). Com efeito, o sinograma permite, em grande medida, uma leitura/percepção directa sem a transformação em som.128
Será esta característica que, sobretudo, o século XX ocidental irá tentar recuperar para a estetização da escrita fonética. Dessa recuperação se tratará mais adiante, a propósito da arte do século XX.
127 Barthes afirma: A escrita ideográfica chinesa é a notação do sentido dos signos e não do seu som;
apela, portanto, a um reconhecimento visual e não auditivo(…). BARTHES, Roland – Escrita. in
ROMANO, R. (direc.) - Oral/Escrito, Argumentação. Enciclopédia Einaudi. Nº11. p. 149.
48 Ce n’est pas un hasard que le verbe LIRE en chinois est 看书 kànshu (regarder un livre). En effet, le
sinogramme permet, en grande mesure, une lecture/perception directe sans la transformation en son.
LAM, Sun – (tese de doutoramento) Escrita chinesa: abordagem psico-cognitiva e didáctica com uma
a palavra é imagem iconicidade do sinograma