CAPÍTULO 3 | VER O TEXTO LER A IMAGEM
3.2. A PROPOSTA DE Á RON K IBÉDI V ARGA
Por seu lado, Áron Kibédi Varga,80 caracteriza a relação entre palavra e imagem, quando estas se tornam inseparáveis, segundo três situações paradigmáticas, que passamos a sintetizar.
3.2.1. COINCIDÊNCIA PARCIAL
Kibédi Varga refere a coincidência parcial quando uma parte do texto se pode destacar do resto da imagem, na medida em que ele se constitui também como imagem. Esta imagem, normalmente, propõe uma segunda leitura que acrescenta ao texto uma informação nova, ou reforça o sentido retórico, numa espécie de pleonasmo.81
A iconização de uma parte do texto faz reter a atenção por mais tempo: ela passa do olhar rápido inicial à leitura, depois os desenhos obrigam a uma segunda leitura.
A coincidência parcial não se pratica no sentido inverso:
Pode-se iconizar um texto seguindo diferentes estratégias (destacar tipograficamente algumas letras, traçar contornos, noutras, introduzir num texto uma imagem, etc.), no entanto, processos semelhantes não se usam para transformar uma parte de uma representação mimética em texto, de forma a convidar o espectador a abandonar o ver pelo ler.
Tomando o exemplo da inserção da tipografia nos quadros de Braque e Picasso (Cubismo), verifica-se que as palavras não se sobrepõem à imagem, fazem parte dela, olhamo-las.
Por outro lado, a pintura do séc. XX, de Kandinsky a Twombly, bem como a poesia concreta mostram-nos inúmeros exemplos de ilusões textuais. O espectador começa por pensar que deve ler as palavras dos textos que se lhe apresentam para vir a descobrir que não se tratam nem de ideogramas nem de alfabetos, mas da sua simulação — um conjunto de figuras icónicas que se lhe assemelham.
A coincidência parcial consiste na iconização de letras, isoladas ou em grupos não oferecendo uma verdadeira imagem mimética.
80 VARGA, Áron Kibédi - Entre le texte et l’image: une pragmatique des limites, in Text and Visuality –
Word & Image, nº3. Amsterdam-Atlanta : GA, Editions Rocopi B.V., 1999. ISBN :90-420-0736-2.
1999, pp 77-92.
verbal/visual ver texto/ler imagem
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613.2.2. COINCIDÊNCIA TOTAL
No caso da coincidência total a imagem e o texto mostram-se completamente inseparáveis. (Pode fazer-se com letras iconizadas (alfabetos pedagógicos, caligrafia islâmica, etc.)
A coincidência total, ao nível do texto pode assumir três formas: poema figurativo;
poema visual; pintura textual.
O poema figurativo é, normalmente da autoria de escritores e poetas. A pintura textual é realizada por pintores. Ambos (escritores e pintores) disputam o território da poesia visual.
a) poema figurativo/caligrama
O poema figurativo, ou caligrama, representa o que se diz, figura o que se vai ler, embora o faça de uma forma algo redutora — toma a forma de, por exemplo, uma rosa, mas o texto não diz exclusivamente essa rosa. Normalmente o texto apresenta variações subtis que a imagem ignora. A imagem assume um papel denotativo enquanto o texto se apoia no desenvolvimento da conotação.
Podemos considerar três tipos de caligramas: o que explicita metaforicamente a imagem; o que faz a passagem do sentido próprio ao figurado; o que faz a passagem do geral ao particular.
Normalmente a imagem generaliza enquanto o texto particulariza (como demonstra o facto de, por exemplo os retratos precisarem de um título: o que na pintura é um homem concretiza-se, pelo texto, numa personagem concreta.)
b) poesia visual
É a segunda categoria de coincidência total.
O arranjo espacial dos poemas não obedece a regras miméticas. As palavras e as frases têm uma configuração ou uma tipologia variável que privilegia o espaço branco da página.
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ver texto/ler imagem verbal/visualO espectador/leitor é duplamente confundido, 1º pela incapacidade de iniciar a leitura, 2º porque nada lhe indica por onde começar e que caminho seguir — o princípio e o fim do texto são dependentes da sua própria escolha.
A leitura pode fazer-se seguindo diferentes critérios: respeitando os espaços, de cima para baixo, de baixo para cima, por associação de semelhanças tipográficas, etc. (ver poemas de Mallarmé).
c) pintura textual
A terceira categoria de coincidência total é a presença de textos num quadro. Neste caso o aspecto icónico é limitado, o seu objecto só nos apresenta, frequentemente traços.
Pode-se considerar a pintura textual como última e lógica consequência do
paragone.
No século XVIII, a rivalidade entre poesia e pintura fez com que os pintores pintassem quadros históricos e que os poetas descrevessem o mais exactamente possível o real de modo a que os poemas se assemelhassem a quadros.
É um paralelismo paradoxal — pintura narrativa versus poesia descritiva — que parece reaparecer, de outra forma, no século XX: alguns poetas fazem poemas figurativos e um cada vez mais crescente número de pintores “escrevem” quadros, inscrevem textos nas telas.
Essas palavras apresentam-se sob uma forma tipograficamente convencional: pouco icónicas — legíveis.
Frequentemente a imagem é só sugerida, ela é só uma presença metonímica. O quadro substitui a quebra das páginas dum livro. Os textos aparecem sobre um quadro, ou sobre vários que se juntam (justapõem) no museu ou na galeria.
As frases podem possuir uma força de sugestão poética, uma vontade aforística, uma vontade de transmitir mensagem, verdades que a imagem é incapaz de exprimir: a pintura textual encontra-se no limite extremo do que chamamos coincidência do texto com a imagem.
Duma maneira geral, quando confrontados com um poema visual somos solicitados enquanto observadores e só depois como leitores: o olhar precede a leitura.
verbal/visual ver texto/ler imagem
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63Pelo contrário, na pintura textual, só o espaço escolhido faz pensar num quadro, na realidade é o leitor que se activa, saltando-se a fase do olhar; a pintura textual anuncia, já, uma forma de coincidência escondida.
3.2.3. COINCIDÊNCIA ESCONDIDA
É a relação que se estabelece entre pintura e texto quando ambos são concebidos numa relação de dependência mútua: alguns textos são concebidos a partir de imagens — EKPHRASIS (no sentido clássico, a que se refere Philostrates, aquela que descreve unicamente cenas mitológicas, ou seja, narrações) e, também quando alguns quadros necessitam de um enquadramento verbal (sobretudo os de temas históricos).
Nestes casos, a dependência é maior por parte da pintura do que do texto, já que ao ler se imagina o enquadramento. Quanto menos historiado (narrativo) for o tema menor se torna essa dependência, à medida que o logocentrismo perde domínio (ver impressionistas) a imagem emancipa-se criando autonomia face ao texto.