CAPÍTULO 4 | QUANDO A PALAVRA É IMAGEM
4.3. A ESCRITA CHINESA
4.3.2. E STÉTICA E ICONICIDADE DO SINOGRAMA
No Oriente […] a escrita esteve desde a sua origem ligada ao desenho […]: é um mesmo gesto, o do artista e o do calígrafo. A escrita oriental é portanto logicamente caligráfica; ela era uma arte nobre (a par do arco, da música, da ciência divinatória dos números, da condução de carros) até mesmo mágica, implicando um domínio psicossomático; no Ocidente, tratava-se de domar o corpo (e consequentemente de o emancipar); no Oriente de o dominar (e consequentemente de refinar o seu gozo). O desenvolvimento da escrita oriental é, portanto, a pintura na sua imensidade.
Barthes129 a) estilos de escrita
A evolução do sinograma dependeu da capacidade de sistematização e de simplificação progressivas, levadas a cabo por calígrafos devotados respondendo a imperativos práticos de intenção ideológica e política (ligados às necessidades da administração e à forte vontade de unificação da China). Tratava-se de assegurar que a transmissão da informação se fizesse de um modo eficaz, concretizando as relações sociais e as opções culturais específicas.130
Dependeu, igualmente, das mudanças dos materiais de suporte da escrita, os quais implicavam diferentes instrumentos e formas de gravação, tendo o uso do pincel, bem como a invenção do papel,131 desempenhado uma função determinante nos seus desenvolvimentos formais.132
129 En Orient, (...) l’écriture a été dès son origine liée au dessin (...): c’est un même geste que celui de
l’artiste et celui du scripteur. L’écriture orientale est donc logiquement calligraphique; c’était un art noble (au côté de tir à l’arc, de la musique, de la science divinatoire des nombres, de la conduite des chars), voire magique, impliquant une maîtrise psychosomatique; en Occident, il s’agissait de dompter le corps (et par suite de l’émanciper); en Orient, de le maîtriser (et par suite, d’affiner sa jouissance). Le développement de l’écriture orientale, c’est donc la peinture dans son immensité.
BARTHES, Roland - Le Plaisir du texte. Précédé de Variations sur l’écriture. Paris: Éditions du Seuil, 2000. p. 65.
130 (…) communication involves signs and codes. Signs are artifacts or acts that refer to something other
than themselves; that is, they are signifying constructs. Codes are the systems into which signs are organized and determine how signs may be related to each other. (…) these signs and codes are transmitted or made available to others: and that transmitting or receiving signs/code communication is the practice of social relationships (…) Communication is central to the life of our culture: without it culture of any kind must die. Consequently the study of communication involves the study of the culture with which it is integrated. Underline these assumptions is a general definition of communication as “social interaction through messages”. FISKE, John - Introduction to Communication Studies. London: Routledge, 1990. p.1/ 2.
131 L’archéologie permet de dater l’invention du papier vers le IIIème siècle avant notre ère. Elle est
attribuée à Cai Lun en 105 av. J.- C. La méthode de fabrication est simple, on fait ramollir la matière première (déchets de soie, bambou, chanvre ou mûrier) dans de l’eau, puis on la fait bouillir et on la broie. On tamise le mélange pour obtenir une fine couche que l’on presse et fait sécher. On peut alors décoller la feuille de papier. In Service éducatif du musée Cernuschi.
132 Le pinceau permit le pas, le papier facilita le passage. MICHAUX, Henri - Un Barbare en Asie. Paris: Gallimard, 1986. ISBN 2070706222. p.160.
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iconicidade do sinograma a palavra é imagemA escrita ideográfica surgiu por volta do segundo milénio a.C. Considera-se, no entanto, que a caligrafia só surgirá mais tarde, na dinastia dos Hàn (206 a.C.-8 d.C.). Até então classificam-se os diferentes estilos de escrita como proto-caligráficos. Ou seja, anteriores a preocupações estéticas específicas que a transportarão para o estatuto de arte maior, juntamente com a pintura e a poesia, a que, de resto, se encontrará sempre ligada.
Os signos chineses têm na sua origem, já o dissemos, actividades divinatórias e religiosas e têm como suportes privilegiados as carapaças de tartarugas, os ossos de animais e pedras. A escrita assumiu, desde logo, um valor de comunicação entre os homens e os deuses, entre os homens e os seus antepassados.
A especialização inicial da escrita em ritos mágicos e religiosos tornou-a, naturalmente, prestigiada junto duma sociedade que deles dependia,133 influenciando, reflexivamente, as suas acções e a sua forma de pensar.
O tempo, de vários séculos, faria com que o seu uso se generalizasse em aplicações profanas: como elemento de domínio e de poder político, como forma plástica decorativa, como instituição social de eruditos e calígrafos que nela fixaram e desenvolveram composições literárias e também, definitivamente, como expressão artística plástica.
Assim, Sun Lam,134 descreve cinco estilos,135 desde a origem desta escrita, usando como critério a variação dos seus suportes.
甲 骨 文 jiaguwén é o estilo de inscrições que se encontra nas carapaças das tartarugas e nos ossos, sobretudo espáduas de grandes cervídeos e em pedra (talismãs) mais próxima da pictografia e da função oracular.
133 Du fait des vertus qualifiantes de l’écriture, son usage fut conçu en Chine comme un moyen de gouvernement – l’activité politique étant un mélange, étonnant à nos yeux, d’actes rituels, religieux et positifs. GERNET, Jacques - La Chine. Aspects et fonctions psychologiques de l’écriture. in L’Ècriture
et la psychologie des peuples. (XXIIème semaine de synthèse - Centre International de Synthèse).
Paris : Librairie Armand Colin, 1963. p.38.
134 LAM, Sun – (tese de doutoramento) Escrita chinesa: abordagem psico-cognitiva e didáctica com uma
aplicação multimédia.
Esta proposta de sistematização é cruzada, frequentemente, com outras, nomeadamente com a de VANDERMEERSCH, Léon - ‘Les Écritures de l’Egypte Ancienne’, in CHRISTIN, Anne-Marie (direc.) -
Histoire de l’écriture: de l’Idéogramme au Multimédia.
a palavra é imagem iconicidade do sinograma
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91136.
金 文 jinwén aparece nas inscrições sobre objectos de bronze.
Os textos destinavam-se a doações rituais, investiduras, processos judiciais e eram inscritos sobre placas, que em seguida os encomendadores reproduziam em vasos destinados ao culto.
É considerada, ainda, proto-caligráfica, apesar de desempenhar, já, um importante papel na administração burocrática do estado.
Embora denote o cuidado e elegância de traçado dos escribas, não denuncia o cuidado e intenção, próprios da caligrafia — a pesquisa e a experimentação estética do próprio traço gráfico.137 Foi simplificada138 (por acção de Li Sseu, também chamado Li Ssu ou Li Si)139 e a sua normalização imposta em todo o território chinês sob o domínio do
primeiro imperador Qin.
136 Carapaces de tortues ou omoplates de cervidés et/ou de bovidés à la surface desquels on appliquait
des pointes chauffées au feu. Il en résultait l’apparition de craquelures qui pouvaient être lues par les devins . Ceux-ci consignaient les résultats de leurs interprétations sur les carapaces ou les ossements. Les recherches archéologiques ont livré un grand nombre de ces os et de ces écailles inscrits qui constituent une source d’informations précieuse sur la dynastie des Shang et celle des ZhouImagem.
SHODO IMMAGINI – Storia. Daegu: Confederazione Europea di Calligrafia, act. 2006. [consult. Abr. 2006] Disponível na Internet <URL www.shodo.it/foto/storia/ slides/jiaguwen-b.html>
137 Li Sseu declarou: Dans l'écriture d'un caractère ce n'est pas seulement la composition qui importe,
c'est aussi la force du coup de pinceau. Faites que votre trait danse comme le nuage dans le ciel, parfois lourd, parfois léger. C'est seulement alors que vous imprégnerez votre esprit de ce que vous faites et que vous arriverez à la vérité.
138 (…) Cette simplification a facilité des tâches de secrétariat déjà considérables dans les administrations
— Sima Qian (2ª moitié du IIº siècle av. J.C.) rapporte que le fondeur de l’empire, Qin Shi huangdi, dépouillait chaque jour une masse de documents d’un poids d’une soixantaine de livres chinoises de l’époque (environ trente kilos : il s’agit évidemment de documents sur planchettes de bois ou lamelles de bambou telles qu’en utilisaient les scribes avant l’invention du papier). VANDERMEERSCH, Léon - ‘Les Écritures de l’Egypte Ancienne’. In CHRISTIN, Anne-Marie (direc.) - Histoire de l’écriture: de l’Idéogramme au Multimédia. p. 74.
139 Primeiro ministro do imperador Qin: was the influential Prime Minister (or Chancellor) of the feudal
state and later of the dynasty of Qin, between 246 BC and 208 BC. A famous Legalist, he was also a notable calligrapher. Li Si served under two rulers: Qin Shi Huang, king of Qin and later First Emperor of China -- and his son, Qin Er Shi. A powerful minister, he was central to the state's policies, including those on military conquest, draconian centralization of state control, standardization of weights, measures and the written script, and persecution of Confucianism. MICHAEL, Franz - China through the Ages: History of a Civilization. Taipei: Westview Press, SMC Publishing, Inc., 1986. ISBN
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iconicidade do sinograma a palavra é imagem caracteres vermelhossinograma 1: Selos de caracters vermelhosHsueh, Chin-Yang, Selos de caracteres vermelhos. 140
篆书 zhuànshu é o estilo usado nos sinetes (carimbos) até aos nossos dias, como marca de autoria. Este estilo desenvolve-se, de forma condensada e hermética, o que levou os sinólogos ocidentais a denominá-lo como estilo sigillaire.141
Estas inscrições contêm, normalmente o nome do artista, a data de execução da obra, podendo ainda fornecer informação sobre o seu objectivo e sobre quem a encomendou. Pode ainda referir o tema e o estilo da composição e, frequentemente inclui citações literárias, em prosa ou em verso.
Os carimbos são, normalmente, gravados em pedra macia (com frequência pedra sabão) e os escribas/pintores usam vermelho escarlate para as suas impressões. Esta tinta é composta de óxido de mercúrio, seda moída e óleo.
Quando se usa um selo vermelho numa pintura monocromática, costuma dizer-- se, na tradição chinesa, que “se está a acrescentar o olho do dragão”.
隶 书 lìshu (também chamado estilo de chancelaria142, ou dos sacerdotes) foi, na origem, um estilo que proliferou nos textos médicos, na reprodução dos clássicos (coleccionados pela aristocracia], tendo sido utilizado também nos objectos funerários. É uma escrita que se foi simplificando, facilitando o trabalho de secretariado, crescente, de administrações políticas complexas.
Escritos em bambu com tinta da china, ou sobre seda, tornaram-se a escrita oficial na dinastia Hàn (206 a.C. – 8 d.C.), com uma produção, posterior, mais rápida e abundante, graças à invenção do papel e à generalização do uso do pincel:
140 Imagens: [consult Abr. 2006] Disponível na Internet <URL http://www.allensantiques.com/ reign_marks.htm> e AIKIDEAI – Livros e cinema. Diaikai. [s.l.]:Associação de Aikido do Sul, act. 2006. [consult Abr. 2006] Disponível na Internet <URL http://aikideai.com/article>.
141 VANDERMEERSCH, Léon - ‘Les Écritures de l’Egypte Ancienne’. in CHRISTIN, Anne-Marie (direc.) -
Histoire de l’écriture - de l’Idéogramme au Multimédia. p. 73.
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93sinograma 2: Livro de tiras de bambú, Dinastia de Qing Zeng Fu Livro de tiras de bambú. Dinastia de Qing Zeng Fu 143 sinograma 3: Poema de Wan Xi Sha Poema de Wan Xi Sha. Museu de Shanghai 144.
楷 书 kaishu, também chamado estilo regular, foi criado no decurso do século IIIº da nossa era, durante a dinastia Hàn, e tornou-se um estilo muito popular na dinastia Tang (618 a 907 d. C.). A riqueza destes sinogramas reflecte o desenvolvimento da poesia e da prosa dessa época.
Constitui-se como uma racionalização da escrita de chancelaria, revelando a fixação da estrutura e da técnica do traçado gráfico dos sinogramas. Mais regular, estandardizada e simples, torna-se de leitura muito mais acessível, tendo sido ainda mais simplificada em 1958, pela reformas introduzidas na sequência da instauração da República Popular da China.
Tal facto levou a que fosse adoptado como modelo da filologia do chinês clássico até aos dias de hoje.
Estilisticamente caracteriza-se por respeitar totalmente o quadrado virtual em que se inserem os caracteres (por isso é, por vezes, intitulado quadrada], pelo abandono das curvas directas e dos ângulos agudos (da escrita dos escribas), tornando-se mais suave. O seu método de execução normalizou o traçado dos caracteres, apesar deste estilo permitir o desenvolvimento de sub estilos, baseados nas obras de grandes calígrafos.
Estas continuam a ser estudadas e copiadas por todos os iniciados na caligrafia. Muitos teóricos evocam a analogia entre os traços dos caracteres kaishu e os elementos da natureza, o que se mantém conforme com a noção, generalizada entre os calígrafos e filósofos, de que o sinograma é uma espécie de microcosmos.
143 Escrita clerical sobre tiras de madeira presas em livrinho, séc. I. As grandes obras do Oriente que se pensa serem da era de Confúcio (cerca de 551-479 aC) foram transcritas em suportes de madeira. cf.Instituto de História e Filologia, Taipei Imagem de http://www. selene.uab.es/.../comuns/ writing/escriptura.htm, em 20 ABR. 06.
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iconicidade do sinograma a palavra é imagemVejamos uma dessas comparações explicativas:
• o traço horizontal « héng » como uma formação de nuvens ao longo de mil quilómetros, indistinto
e contudo não informe ;
• o traço-ponto « dian » como um rochedo que resvala de um cume, num ruído ensurdecedor
prestes a rebentar;
• o traço oblíquo [sobre a esquerda] « pie » como um corno de rinoceronte ou presa de elefante,
partido em dois e fixado na terra;
• o traço oblíquo enganchado « gou » como se disparado por uma arma de arremesso de 3000
libras;
• o traço vertical « shù » é como uma liana tensa e com dez mil anos; • o traço oblíquo apoiado « nà » como vagas ruidosas e ribombar de trovão;
• o traço oblíquo vertical enganchado « héngzhégou » poderoso como a corda de nervo de boi,
sólido graças às suas juntas de bambu…145
Para além da dimensão poética e dos pressupostos filosóficos/existenciais subjacentes a este tipo de explicações, o traçado do sinograma apoia-se em regras fixas de execução, as quais se podem sintetizar nos esquemas:
É neste estilo que, ainda hoje, se aprende e pratica a caligrafia. É também nele que se inspira a forma dos caracteres impressos.
145 • le trait horizontal « héng » comme une formation de nuages sur mille kilomètres, indistincte et
pourtant non sans forme ;
• le trait-point « dian » comme un rocher qui dévale d’un haut sommet, dans un bruit assourdissant prêt à éclater ;
• le trait oblique [sur la gauche] « pie » comme une corne de rhinocéros ou d’une défense d’éléphant, cassée en deux et fichée en terre ;
• le trait oblique crocheté « gou » comme décroché par un arbalète à 3000 livres; • le trait vertical « shù » est comme une liane raide et sèche vieille de dix mille ans ; • le trait oblique appuyé « nà » comme vagues fracassantes et roulements du tonnerre ;
• le trait oblique vertical crocheté « héngzhégou » puissant comme la corde en nerf de boeuf, solide grâce à ses jointures en bamboo…
YANG, Liang - Les processus créatifs dans la calligraphie chinoise. Traduction, analyse et
a palavra é imagem iconicidade do sinograma
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95A escrita chinesa tem, actualmente, aproximadamente 70 000 caracteres. No entanto, só raros eruditos deles terão conhecimento.
Para ler correntemente um jornal bastará reconhecer à volta de 4000 sinogramas.146
Cânone Budista do Pagode de Yan Chu Suiliang, Dinastia Tang Prefácio ao Cânone Budista do Pagode Yan, Chu Suiliang, dinastia Tang. 147 Texto anónimo, dinastia
Sui
Anónimo, dinastia Sui. (581-618 d.C.)
148
b) escritas cursivas e caligrafia
Apesar da caligrafia não ser, de forma alguma, exclusiva da cultura chinesa, aqui ela atinge um nível de qualidade e um estatuto especiais. Com efeito é tão prestigiada quanto a pintura ou a poesia e nunca considerada uma arte menor, como acontece frequentemente no ocidente. Mas o que a torna particular é a projecção nos sinogramas da globalidade da cultura oriental.
Os estilos que, brevemente, acabámos de abordar caracterizam-se por serem rigorosamente regulamentados, observando regras rígidas na composição e na organização dos caracteres.149 Estas eram definidas pelo poder político, como forma de afirmar ideologias próprias e de exercer e perpetuar esse mesmo poder, tentando garantir a supremacia dos respectivos domínios dinásticos.
146 Informação recolhida junto do Service éducatif du musée Cernuschi.
147 Imagens in BOUDONNAT, Luise; KUSHIZAKI, Harumi - Traces of the brush: The art of Japanese
Calligraphy. Paris: Éditions du Seuil, 2003. ISBN 2-02-059342-4. p. 28.
148 Imagens in SHODO IMMAGINI – Storia. Daegu: Confederazione Europea di Calligrafia. act. 2008, [consult. abr. 2006] Disponível na Internet <URL www.shodo.it/ forme-kaisho.html>.
149 La calligraphie, shufa, signifie règles ou méthode pour écrire, et non "belle écriture". On peut manier
le pinceau avec plus ou moins de dextérité mais on doit obligatoirement adopter un style qui requiert un apprentissage particulier. Si les combinaisons graphiques sont essentiellement restées stables, grâce notamment à d’importants efforts pour réguler les variantes, les modifications stylistiques ont été nombreuses. MONNET, Nathalie, conservateur en chef au département des Manuscrits orientaux de
la BNF (N.M.) in
CHINE, L’EMPIRE DU TRAIT -Jeux calligraphiques et caractères talismaniques : un sens au-delà des mots. Arrêt sur la calligraphie. Paris: Guillaume Ertaud, BNF, Éditions multimédias, act. 2006. [consult. Mai. 06] Disponível na Internet <URL http://expositions.bnf. fr/chine/arret/1/index5.htm.>.
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iconicidade do sinograma a palavra é imagemElaborados ao longo de séculos, como vimos, adaptam-se a cada época e não são permutáveis.
Devido à sua “visibilidade”, para além do conteúdo, o aspecto formal contribui para a significação, pois o estilo usado acrescenta sentido às palavras e permite interpretações.
As variações gráficas são muitas e frequentes, mas apoiam-se sempre num determinado estilo e revelam o domínio social de que provêm, ou servem — quer seja o mundo das letras ou o das artes, quer o político ou a esfera religiosa (Budismo, Taoismo ou Confucionismo, assumem características gráficas particulares).
Estas variações não são insignificantes, pois, têm implicações profundas, como vimos, no mundo das letras e das artes, das crenças e da política.150
No entanto, um dos elementos fundamentais da escrita chinesa, senão a principal, é a capacidade de respeitar as regras de estrutura e de relação equilibrada dos traços.
Para além dos estilos anteriormente descritos, será de primordial importância, para este trabalho, referir as escritas cursivas, derivadas, ou, pelo menos, dependentes, sobretudo, do desenvolvimento da escrita regular (kaishu).
A escrita cursiva, será, como o nome indica, uma escrita manuscrita, mais rápida e mais dependente da personalidade do indivíduo que a regista.
Normalmente consideram-se dois tipos de cursivo:
O xingshu, usualmente chamada como escrita corrente e o caoshu, também conhecido como estilo erva (stile d’herbe) ou cursive folle.
A primeira, considerada semi-cursiva, parte da simplificação do kaishu, tendo também a sua origem na dinastia Hàn Oriental (25-220). É uma escrita rápida que ainda hoje é usada no quotidiano chinês.
Traçada a pincel ela mantém-se absolutamente legível. Estando a sua aprendizagem ligada à da regular, não necessita, portanto, de uma iniciação específica.
150
d’interprétation, comme on parle du jeu d’un musicien exécutant sa partition. Loin d’être anodins ou gratuits, ces jeux peuvent avoir des implications profondes dans le monde des lettres, des croyances et de la politique. Nathalie Monnet, conservateur en chef au département des Manuscrits orientaux de la
BNF (N.M.)
L’EMPIRE DU TRAIT - Jeux calligraphiques et caractères talismaniques : un sens au-delà des mots.
Arrêt sur la calligraphie. BNF, Paris: Guillaume Ertaud, Éditions multimédias, act. 2006. [consult. Mai.
a palavra é imagem iconicidade do sinograma
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97 Exemplo de um texto de Xú Yǎwén, (344- 348) 151|152風
萬
里
Trata-se de uma estilização devida ao processo de escrever sem levantar o pincel para cada novo traço. Deste modo se verifica uma continuidade do traçado, sem recuos, provocando, assim, um efeito de leveza, fluidez e espontaneidade.
Com efeito a escrita de uso corrente e a escrita artística constituem-se como dois domínios distintos.
Objecto de um longo e difícil percurso de aprendizagem, a arte da caligrafia é considerada na tradição chinesa como uma arte espiritual, um método de aperfeiçoamento do sujeito: para lá do gesto, o movimento global do calígrafo pretende atingir o equilíbrio de espírito, tornar-se elemento de harmonia com o universo.
A maioria dos chineses sabem escrever e fazem-no, como referimos, em escrita
corrente.
A caligrafia, pelo contrário, é da responsabilidade de calígrafos, normalmente muito eruditos, que expressam a sua individualidade usando a arte de escrever como ponto de confluência da filosofia, da religião, da pintura, etc.. A este propósito