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3 A TRAJETÓRIA DOS IRMÃOS CAMPANA

5.4. A NOMENCLATURA BASEADA NA TERMINOLOGIA DA TECNOLOGIA

5.4.1. O no tech

O no tech é mais complexo, pois consiste em um movimento que surgiu na década de 1990, e, no início da carreira dos Campana, era um termo usado para se referir ao trabalho dos designers. O conceito teve origem em um workshop ministrado pelos designers no MUBE (Museu Brasileiro da Escultura), no ano de 1999, em São Paulo, intitulado “A construção do objeto”. O workshop reuniu vários participantes, muitos dos quais não possuíam uma formação específica na área de design, em torno de uma nova visão sobre o desenvolvimento de produtos. Os irmãos Campana atuaram mais como “interlocutores e atiçadores de idéias” (ART-BONOBO, 2003), estimulando o grupo a praticar um olhar diferenciado sobre os objetos cotidianos e comuns. Assim configurava-se um tipo de comportamento que partia do trabalho dos Campana, e que foi adotado por outros designers. Neste contexto, o no tech era tratado sob o significado de tendência, que, de certo modo, era visto como um estilo passageiro.

O no tech, segundo Estrada (2001, p.26) nasceu

com um curso que teve início de forma despretensiosa, aulas quase sempre ao ar livre, nas escadarias do MUBE, em São Paulo, com dois “mestres”, que se queriam mais interlocutores, ou atiçadores de idéias – Fernando e Humberto Campana -, e um grupo de jovens dispostos a fazer design com as mãos.

Nesse curso, Fernando e Humberto Campana trabalhavam com a criatividade, a partir das mãos, usando materiais encontrados no local, como galhos de árvores, por exemplo. Esse movimento tentava resgatar a memória que remete à tradição do fazer manual; era uma atitude de exploração e de experimentação que requeria o envolvimento corporal. Este envolvimento possuía

uma relação com o conhecimento dos materiais; que não era um saber acadêmico ou um estudo teórico, mas um conhecimento acumulado por meio da observação, experimentação e manipulação da matéria-prima. A opção por fazer com as mãos é uma forma importante para desenvolver esse conhecimento.

Outra característica do no tech é o uso de materiais ou produtos industriais para criar objetos artesanais e semi-industriais. (ESTRADA, nov. /dez., 2001). A escolha dos materiais prontos para o uso demonstra a importância da observação e manipulação da matéria-prima. Demonstra a descontextualização típica dos Campana, na qual eles retiram o material de uso ou função determinado para aplicá-lo em outro distinto daquele original. Segundo Estrada (ARC DESIGN, 2001) essa prática está inserida no contexto de um saber intuitivo, que se revela na forma de reaproveitar materiais e observar aquelas coisas e objetos do cotidiano e perceber as possibilidades de empregá-los de outra forma, em outra função.

A noção de saber intuitivo desconsidera o conhecimento desenvolvido pelo olhar e pela experiência, que não são baseados em intuição, mas em experiências práticas, que resultam da manipulação dos materiais e do envolvimento corporal. Este conhecimento é atravessado por elementos da cultura, por lembranças de experiências, pelo coletivo, pela idéia de artesanato e de gesto associados à cultura popular brasileira. E não pode ser visto como dissociado de uma atividade ligada ao saber e à razão.

O conceito no tech ganhou força como uma idéia ligada ao universo dos irmãos Campana, ao reaproveitamento e ao reuso. Foram realizados workshops com o mesmo tema em várias regiões brasileiras, como Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, entre os anos de 1999 e 2000. Em 2001, foi realizada no MUBE uma exposição com os objetos e produtos desenvolvidos pelos participantes do workshop.

Figura 51. Vistas da exposição no tech, realizada no MUBE em São Paulo, em 2001. Fonte: CAMPANAS, 2003.

Figura 52. Objetos apresentados na exposição no tech, criados durante a realização dos workshops: cadeira Craft (2000) em ferro e papel craft, de Carla Tenembaum; luminária Nebulosa (2000) feita de cordas e saco de laranja, de Mariana Dupas e Rosa Berger; vaso Goma (2000), feito com câmara de pneu de bicicleta, de Tetê Knecht. Fonte: http: //www. vemprabrotas.com.br/.../foto51.jpg

O no tech, associado ao design dos Campana, expressava a idéia de precariedade, do improviso que nasce de uma impossibilidade. Causava a impressão de que os irmãos praticavam o reuso não como opção ou postura no design, mas como a falta de escolhas. O no tech era o resultado de um saber intuitivo, que por esta classificação expressa a idéia de precariedade e falta de

conhecimento. O termo, em inglês, expressa a idéia de que falta algo, que é justamente aquilo que motiva o design “feito com as mãos”; pode ser o saber racional e consciente, a metodologia, os processos de fabricação talvez. O improviso é visto pelo viés da intuição, e não de pela visão de um desenvolvimento consciente, racional ou planejado. Estrada (2001, p. 27) definiu a prática e a estética brasileira do no tech:

Os irmãos Campana trouxeram da memória caipira esse fazer com as mãos, pegando qualquer sobra ou galho que houvesse por perto, um olhar que atravessa a matéria e redefine seu destino. Uma atitude própria do ir fazendo, experimentando, entrando na alma de cada material para entender o que este quer dizer. Foi esse saber intuitivo que contaminou seus alunos e permitiu que, dessas aulas, surgisse uma coleção de objetos com linguagem própria, coerentes entre si, expressando uma idêntica intenção. Uma estética brasileira? Talvez. Não se inventou nada. A transposição de uso dos materiais é usada por diversos designers – em outros países. O novo é o olhar brasileiro – livre, leve, solto, colorido, delicado e bem-humorado.

O uso da tecnologia não se restringe aos equipamentos utilizados; mas esta é a visão que o discurso da mídia expressa. O termo no tech, da forma que é adotado pela mídia, expressa a visão de que a tecnologia no trabalho dos Campana resume-se ao processo de fabricação não-industrial. Argumentar que não há tecnologia, como a tradução literal do termo sugere, é depositar a concepção de tecnologia em alguns poucos instrumentos, deslocando o saber e o conhecimento do entendimento tecnológico.