PARTE I – R EFERENCIAL TEÓRICO
3.1 Uma concepção acerca do conflito
Tradicionalmente há duas grandes concepções acerca do conflito.
A primeira considera o conflito uma ruptura do consenso e da harmonia intrínsecos à sociedade (JARES, 2002. BUSH e FOLGER, 2005). Pasquino (1995) informa que se parte do pressuposto de que a natureza humana e a sociedade são harmônicas e que o progresso e o desenvolvimento advêm de relações consensuais. Assim, diante do conflito, há a tentativa de sua eliminação, o que pode significar a busca a qualquer custo de um acordo ou
uma solução heteronômica, isto é, dada por um terceiro (PASQUINO, 1995; BUSH e FOLGER, 2005; SIX, 2001; COSTA, 2003).
A segunda concepção compreende que a sociedade não é naturalmente harmônica e que o conflito é intrínseco a ela e ao próprio ser humano. Nesse sentido, ele é motor de desenvolvimento, seja individual, relacionado ao conflito intrapessoal, psíquico, seja social, no que se refere ao conflito interpessoal ou coletivo. Assim, a eliminação do conflito, além de indesejada, é também impossível, porque advém das contradições humanas e da vida em comunidade (PASQUINO, 1995. JARES, 2002 e 2007. BUSH e FOLGER, 2005).
Dentro dessa perspectiva, o foco não é a solução dos conflitos, mas sua regulação. Ou seja, a busca de formas de se lidar com as situações conflituosas em detrimento da busca de soluções a qualquer custo. Para Six (2001) e Warat (2004) ocorre, então, um maior enfoque no processo de gestão e na busca por formas autônomas de enfrentamento.
Assim, nessa segunda perspectiva, adotada no presente trabalho, o conflito é integrante da vida e intrínseco à pluralidade e à convivência humanas. É, assim, ele próprio motor de mudança social. Aliás, nessa concepção, a existência do conflito é que denota a harmonia social. Tal concepção não é uma inovação. Na verdade, pode-se encontrá-la, por exemplo, em Lao Tzu (entre os séculos XIV e IV a.C) ou Heráclito (D a.C).
No Tao-te King (LAO-TZU, 1995) todos os fenômenos são percebidos como integrantes de seu próprio antagonismo. A harmonia da vida é conseguida quando os elementos antagônicos podem conviver, numa espécie de dialética:
Se todos na Terra reconhecerem a beleza como bela, desta forma já se pressupõe a feiura.
Se todos na Terra reconhecerem o bem como o bem, deste modo já se pressupõe o mal.
Porque Ser e Não-ser geram-se mutuamente. O fácil e o difícil se complementam. O longo e o curto se definem um ao outro. O som e o silêncio casam-se um com o outro.
O antes e o depois se seguem mutuamente (LAO-TZU, 1995, p. 38).
Para Wilhelm (LAO-TZU, 1995), nos comentários à obra, o mundo está em constante transformação e movimento em razão de seus próprios antagonismos. Para ilustrar esse pensamento no Ocidente, o autor remete-se a Tolstói e a sua teoria da não violência. De fato, ao narrar sua forma de lidar com as brigas de estudantes e as desordens em sala de aula de sua escola, Tolstói (s.d) fala justamente da necessidade de deixar a ordem se estabelecer por si mesma, de forma que a relação com os conflitos é assim entendida:
[...] quão arbitrários e injustos são todos os métodos educativos em comparação com este. "São ambos culpados, de joelhos" - diz o educador. Aqui, ele não tem razão
fizeste isto e serás castigado - diz o educador, e o castigado passa a odiar mais o seu inimigo porque do lado dele está o poder despótico, cuja legitimidade ele não reconhece. Ou: "Desculpa-o, assim ordena deus, sê melhor do que ele" diz o educador. Vós dizeis-lhe: sê melhor do que ele, mas ele apenas quer ser mais forte e não compreende nem pode compreender que haja algo melhor. Ou: "São ambos culpados, peçam desculpa um ao outro e abracem-se, meninos" Isto é ainda pior porque o abraço não é sincero e porque o mau sentimento volta a surgir com mais força. Deixai-os sozinhos, [...]; deixai-os sós e vejam como tudo se resolve simples e naturalmente e, ao mesmo tempo, de forma complicada e variada, tal como todas as relações inconscientes na vida.
Ou seja, o conflito deve encontrar sua expressão, não devendo ser sufocado. Qualquer tentativa nesse sentido só gerará mais conflito e sofrimento, mesmo na escola.
Em concordância com as ideias de Lao-Tzu encontra-se também, entre os filósofos pré-socráticos, Heráclito (SOUSA, 1999), cuja concepção é que o mundo é movimento e todas as coisas possuem dentro de si seu próprio oposto.
Como exemplo desse pensamento, pode-se citar o fragmento nº 8 de Heráclito que diz “o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia” (SOUZA, 1999, p. 88), e o fragmento nº 51: “não compreendem como o divergente consigo mesmo concorda; harmonia de tensões contrárias, como de arco e lira” (SOUZA, 1999, p. 93). Ou seja, a harmonia musical vem justamente das tensões e das diferenças dos acordes e dissonantes, de forma que a beleza tem origem na oposição entre unidade e diversidade.
Em outras palavras, a harmonia, mesmo a social, dá-se na convivência dos diferentes por meio da contestação e do conflito, de forma que todas as coisas nascem dessa discórdia e das necessidades. Ou melhor, a necessidade de cada um faz a discórdia, o combate e, com isso, gera a justiça, conforme o fragmento 80 de Heráclito: “é preciso saber que o combate é o que-é-com [comum], e justiça é discórdia, e que todas as coisas vem a ser segundo discórdia e necessidade” (SOUZA, 1999, p. 96).
A partir dessas lutas e desses conflitos estabelecem-se relações de autoridade (deuses, homens e escravos) ou de pluralidade (homens livres), tal como expresso no fragmento nº 53: “o combate é todas as coisas pai, de todas rei, e uns ele revelou deuses, outros homens; de uns fez escravos, de outros livres” (SOUZA, 1999, p. 93). Mas a questão central é que isso não significa a perpetuação de um modelo: assim como tudo flui, é dinâmico, também essa situação será mudada pelo conflito, pela luta.
Há, assim, em Heráclito, uma ideia da necessidade do conflito para o desenvolvimento e para a justiça, também encontrada, quase dois mil anos depois, em Maquiavel (1994) que considera a “república perfeita” aquela fundada no conflito. Para ele, a partir da análise da república romana, a causa da grandeza romana seria a desunião entre
plebeus e patrícios. O motivo para tanto é que o conflito existente entre esses grupos teria originado os tribunos, magistrados atuantes junto ao Senado com o objetivo de defender os interesses plebeus, dando origem a leis de liberdade:
[...] em todos os governos duas fontes de oposição: os interesses do povo e os da classe aristocrática. Todas as leis para proteger a liberdade nascem da sua desunião (MAQUIAVEL, 1994, p. 31).
Assim, é o conflito que dá origem à liberdade, principalmente quando encontra espaço para se manifestar. Ou seja, quando as partes em conflito possuem voz, quando não há leis e normas a impedir o tumulto. Para o autor, se não houvesse essa liberdade, os romanos “deixariam de ter todos os meios para desenvolver-se” (MAQUIAVEL, 1994, p. 38), pois:
[...] é útil e necessário que as leis da república concedam à massa um meio legítimo de manifestar a cólera que lhes possa inspirar um cidadão; quando este meio regular é inexistente, ela recorre a meios extraordinários: e não há dúvida de que estes últimos produzem males maiores do que os que se poderia imputar aos primeiros (MAQUIAVEL, 1994, p. 41).
Assim, o conflito não pode ser sufocado sob pena de seu reaparecimento de forma mais acirrada. Além disso, a luta pela liberdade “raramente prejudica a liberdade, porque nasce da opressão ou do temor de ser oprimido” (MAQUIAVEL, 1994, p. 32).
É nesse sentido que Deutsch (2004) considera que reconhecer o conflito tem a função de integrar e estabilizar relacionamentos e grupos sociais, pois ele constitui-se em raiz de mudança social e de formação de identidades, coletiva ou individual. Com isso, uma sociedade pode se beneficiar do conflito, pois:
Na medida em que a explosão de um conflito indica a rejeição de uma acomodação anterior entre as partes, uma vez que o respectivo poder dos contendores tenha sido averiguado no conflito, um novo equilíbrio pode ser estabelecido e o relacionamento pode prosseguir sobre essa nova base (DEUTSCH, 2004, p. 54).
Ao se compreender o conflito como um mecanismo estabilizante e institucionalizá-lo, um grupo social, comunidade ou sociedade pode assegurar sua própria continuidade sob condições adversas, o que não é possível num sistema rígido e autoritário. Conforme Deutsch (2004) tentativas de abafamento ou supressão do conflito deixam de perceber avisos úteis de crise ou de necessidade de reajustamentos, aumentando o risco de colapso do sistema.
Esse processo se dá pelo fenômeno da escalada (ENTELMAN, 2002. DEUTSCH, 2004. GALTUNG, 2003).
Escalada é o fenômeno de aumento da magnitude da conduta conflituosa que, por sua vez, cria um ciclo vicioso crescente entre as partes conflitantes (ENTELMAN, 2002). Ela ocorre porque a dinâmica de um conflito decorre da interação de todos os seus elementos,
vistos a seguir, o que significa que sua transformação está sujeita às mudanças de atitudes, tomadas de decisões, às estratégias utilizadas ou não e às relações de poder estabelecidas.
Assim, um ato agressivo de um grupo A, por exemplo, pode fomentar a solidariedade e aumentar o compromisso dos participantes de um grupo B, submetido ao ato. O grupo B, então, passa a ter maior predisposição para absorver os custos envolvidos no uso da violência, produzindo a escalada. Nesse sentido, são aqui considerados atos agressivos as tentativas de abafar o conflito ou de impedir sua manifestação.
Mas há também a possibilidade de que a escalada ocorra em razão da “profecia auto-realizável”: uma ação hostil é iniciada apenas porque há o temor de que o outro inicie uma ação semelhante (DEUTSCH, 2004).
Em qualquer caso, barrar a escalada torna-se cada vez mais difícil porque, uma vez iniciada, ações tendentes à desescalada (desescalamiento ou desplazamiento), isto é, à diminuição do nível de animosidade podem ser compreendidas como fragilidade ou fraqueza, como causadoras de perdas ou de prejuízo (ENTELMAN, 2002). De qualquer forma, autores como Deutsch (2004), Entelman (2002) e Moore (1998), da área de teoria dos conflitos e de mediação, bem como Galtung (2003) e Jares (2002 e 2007), na área dos estudos para a paz, ou ainda autores relacionados ao político, como Arendt (2005), Rancière (1996) e Lefort (1991) trazem a importância de se desenvolver ações voltadas à compreensão dos elementos e da dinâmica do conflito, a sua aceitação e regulação bem como à construção de lógicas flexíveis à conflituosidade. Sendo assim, serão apresentados primeiramente os elementos e a dinâmica do conflito.