CAPÍTULO 3 – A TUTELA COLETIVA NO BRASIL
3.3. Da legitimidade
3.3.2. A legitimidade no processo individual
O conceito de parte, contudo, não é em si mesmo suficiente para explicar os aspectos subjetivos da lide. Além dele, é necessário verificar a ocorrência da
denominada legitimidade.136
134 DINAMARCO, Cândido Rangel. Litisconsórcio. 6ª edição revista e atualizada. São Paulo: Malheiros
Editores, 2001, p. 22.
135 BUENO, Cassio Scarpinella. Partes e terceiros no processo civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2003,
p. 23/24.
136 Ressalte-se, no ponto, que legitimidade e parte não se confundem, conforme Enrico Tullio Liebman,
Manual de direito processual civil. Volume I. Tradução e notas: Cândido Rangel Dinamarco. 3ª edição.
São Paulo: Malheiros Editores, 2005, p. 125: “A determinação do conceito de parte não tem relação alguma com o problema de legitimação para agir. Esse problema consiste na identificação das justas partes ou legítimos contraditores com referência a determinado objeto, enquanto que se considerem partes no processo aqueles que, de fato, são seus sujeitos; e essa qualidade, com todas as consequências que dela
Afirma Donaldo Armelin137, com apoio em Max Weber, que a legitimidade não é um conceito exclusivamente jurídico, mas é também encontrado no plano sociológico como forma de justificação do fenômeno da dominação, já que esta pressupõe a obediência. Max Weber classificou essa legitimidade em três tipos puros:
legitimidade de caráter racional, de caráter tradicional e de caráter carismático.138
Esse fenômeno sociológico é refletido no campo jurídico, uma vez que a legitimidade jurídica é, antes, uma legitimidade legal ou racional, porquanto obtida do
ordenamento jurídico vigente.139 Nesse sentido e porque em consonância com a lei,
explica-se a sujeição das partes ao provimento jurisdicional.
No mesmo sentido, ou seja, em virtude do enquadramento no ordenamento jurídico, uma parte aceita racionalmente que a outra possa demandá-la. O caminho inverso também é verdadeiro. O autor da demanda propõe ação em face de outrem porque entende, nos termos do ordenamento, que este é o responsável para responder pelo seu pedido. Portanto, aqui, ainda que não haja subordinação, há uma relação de dominação, justificada pelo ordenamento que define as pertinências subjetivas no processo. Tudo sem
derivam, independe da circunstância de eles serem ou não, em relação à ação proposta, também as partes legítimas”.
137 ARMELIN, Donaldo. Legitimidade para agir no direito processual civil brasileiro. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 1979, p. 5/6.
138“Existen tres tipos puros de dominación legítima. El fundamento primario de su legitimidad puede ser:
1. De carácter racional: que descansa en la creencia en la legalidad de ordenaciones estatuidas y de los derechos de mando de los llamados por esas ordenaciones a ejercer la autoridad (autoridad legal). 2. De carácter tradicional: que descansa en la creencia cotidiana en la santidad de las tradiciones que rigieron desde lejanos tiempos y en legitimidad de los señalados por esta tradición para ejercer la autoridad (autoridad tradicional). 3. De carácter carismático: que descansa en la entrega extracotidiana a la santidad, heroísmo o ejemplaridad de una persona y a las ordenaciones por ella creadas o reveladas (llamada) (autoridad carismática)”. Tradução livre: Existem três tipos puros de dominação legítima. O fundamento principal da legitimidade pode ser: 1. Racional: que se baseia na crença na legalidade das ordenações estatutárias e nos direitos de comando daqueles chamados por essas ordenações para exercer autoridade (autoridade legal). 2. De caráter tradicional: que repousa sobre a crença cotidiana na santidade das tradições que governaram de tempos distantes e na legitimidade daqueles indicados por essa tradição para exercer autoridade (autoridade tradicional). 3. Caráter carismático: repousa na rendição extracotidiana à santidade, heroísmo ou exemplaridade de uma pessoa e às ordenações criadas ou reveladas por ela (autoridade carismática). WEBER, Max. Economia y sociedad. Esbozo de sociologia comprensiva. Tradução: José Medina Echavarría, Juan Roula Parella, Eduardo García Máynez, Eugenio Ímaz e José Ferrater Mora. Volume I. 2ª edição em espanhol da 4ª em alemão. 1ª reimpressão. México: Fondo de Cultura Económica, 1969, p. 172.
139 ARMELIN, Donaldo. Legitimidade para agir no direito processual civil brasileiro. São Paulo: Editora
prejuízo de arguição de uma eventual ilegitimidade, porque ocorrendo esta não terá havido sujeição.
Firme nisso e com apoio em Donaldo Armelin, conclui-se que a legitimidade é uma qualidade da pessoa, ou de um ente despersonalizado, em função do
ato jurídico, realizado ou a ser praticado, e outorgado pelo próprio sistema jurídico.140
Deve-se registrar que a legitimidade não se confunde com a capacidade. Como visto, a capacidade é inerente a todas as pessoas, conforme o artigo 1º do Código
Civil.141 A legitimidade, por seu turno, exige, além da capacidade, coincidência142 entre
a pessoa do autor e a pessoa a quem lei atribui a titularidade da pretensão deduzida em juízo e a coincidência entre a pessoa do réu e a pessoa contra quem pode ser oposta tal
pretensão.143
Ressalte-se que a capacidade é um fenômeno exclusivamente relativo ao sujeito e, por sua vez, a legitimidade se refere ao sujeito e à relação jurídica concreta que
lhe diz respeito.144
No mais – e confirmando a ausência de confusão entre os institutos –, anote-se que a incapacidade acarreta a invalidade do ato praticado e a legitimidade tornará o ato ineficaz, inclusive esta ineficácia pode ser gerada por ausência de pressuposto de
validade do ato jurídico, por exemplo, a capacidade.145
Portanto, a legitimatio ad causam é uma qualidade outorgada pelo
ordenamento jurídico ao sujeito e consiste, consoante José Carlos Barbosa Moreira146, na:
140 ARMELIN, Donaldo. Legitimidade para agir no direito processual civil brasileiro. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 1979, p. 6/7.
141 Apesar disso, a lei garante que outros entes, embora despersonalizados, possam ter capacidade para estar
em juízo, como exemplo, cite-se o espólio.
142 Essa coincidência deve ser recebida com reservas, haja vista o fenômeno dos direitos transindividuais,
conforme será mais adiante exposto.
143 CARNEIRO, Athos Gusmão. Intervenção de terceiros. 14ª edição revista e atualizada. São Paulo:
Saraiva, 2003, p. 29.
144 BUENO, Cassio Scarpinella. Partes e terceiros no processo civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2003,
p. 31/32.
145 ARMELIN, Donaldo. Legitimidade para agir no direito processual civil brasileiro. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 1979, p. 13.
146 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Apontamentos para um estudo sistemático da legitimação
[...] coincidência entre a situação jurídica de uma pessoa, tal como resulta da postulação formulada perante o órgão judicial, e a situação legitimante prevista na lei para a posição processual que essa pessoa se atribui, ou que ela mesma pretende assumir.
A legitimidade é, pois, também, no ordenamento vigente, uma condição para que seja proferida uma sentença de mérito. Vale dizer: sendo verificada a ilegitimidade, a sentença a ser proferida será apenas terminativa e com isso será declarada
a carência de ação. 147
A legitimidade apresenta facetas e fenômenos multifários que comportam classificações em diversos critérios. Para o presente trabalho, contudo, observar-se-á apenas a divisão entre ordinária e extraordinária.
A legitimidade ordinária se constitui na regra do sistema e se caracteriza pela coincidência da “figura das partes com os pólos (sic) da relação jurídica, material ou
processual, real ou apenas afirmada, retratada no pedido inicial”.148 No ponto, a síntese
de Humberto Theodoro Júnior:
Sua característica básica é a coincidência da titularidade processual com a titularidade hipotética dos direitos e das
obrigações em disputa no plano do direito material. 149
Nessa perspectiva, observa-se que para essa classificação, irrelevante o
número de autores ou réus, como, por exemplo, na hipótese de litisconsórcio.150
147 Com o advento do novo Código de Processo Civil, inaugurou-se discussão acerca da existência da
categoria condições da ação. Não obstante o debate e o fato de o Código não falar expressamente em condições da ação, isso não significa que esta categoria tenha sido extinta. No ponto, a lição de Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery: “Não há nenhum problema em continuar a fazer referência à expressão condições da ação, porque o sistema da lei não é incompatível com essa categoria doutrinária. [...]. As condições da ação, no CPC, são duas: legitimidade das partes (legitimatio ad causam) e interesse processual”. In Comentários ao Código de Processo Civil. Novo CPC. Lei 13.105/2015. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015, p. 1111/1112.
148 ARMELIN, Donaldo. Legitimidade para agir no direito processual civil brasileiro. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 1979, p. 117.
149 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. Teoria geral do direito processual
civil. Processo de conhecimento e procedimento comum. Volume I. 57ª edição revista, atualizada e
ampliada. Rio de Janeiro: Forense, 2016. p. 166.
150 ARMELIN , Donaldo. Legitimidade para agir no direito processual civil brasileiro. São Paulo: Editora
Já a legitimidade extraordinária ocorre em situações excepcionais e se verifica quando há no processo postulação de direito, mas não diretamente pelo titular desse direito. Nesses termos, a lição de Cassio Scarpinella Bueno:
O instituto da legitimidade extraordinária refere-se, assim, à dissociação entre a titularidade do direito material alegado e aquele que pretende tutelar este mesmo direito em juízo.151
Nesse sentido, ela comporta duas espécies: a substituição processual e a representação. Nesta, o representante defende em juízo direito alheio em nome alheio, daquele que é representado; na substituição, a defesa do direito alheio se dá em nome próprio.152
A legitimidade extraordinária é, pois, uma exceção à regra e, em razão disso, dependerá sempre de anterior previsão legal para sua ocorrência, consoante inclusive determinado no artigo 18 do Código de Processo Civil: Ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo quando autorizado pelo ordenamento jurídico.
O legitimado extraordinário será considerado parte no processo e, em razão disso, estará sujeito aos ônus da sucumbência e à coisa julgada material. A propósito, quanto a este aspecto – coisa julgada material – o substituído também será por ela atingido, salvo as hipóteses excepcionalmente reguladas, especialmente aquelas que
dizem respeito aos direitos transindividuais.153
151 BUENO, Cassio Scarpinella. Partes e terceiros no processo civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2003,
p. 42.
152 BUENO, Cassio Scarpinella. Partes e terceiros no processo civil brasileiro. São Paulo: Saraiva, 2003,
p. 42.
153 Nelson Nery Junior e Rosa Maria de Andrade Nery lecionam: “A sentença de mérito produz efeitos de
coisa julgada material atingido o substituído que não foi parte no processo e também, indiretamente, o substituto processual [...]. No caso de legitimação autônoma para a condução do processo – direitos difusos e coletivos –, bem como na hipótese de substituição processual do titular do direito individual homogêneo (CDC 81, par. ún. III), o regime da coisa julgada é diferente”. In Comentários ao Código de Processo Civil.