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CAPÍTULO 2 – O PARADOXO DA INTIMAÇÃO

2.1. Conflito: condição intrínseca do processo

Não sendo a terra habitada por apenas um ser humano, mas por uma sociedade complexa, os conflitos são inevitáveis, uma vez que os desejos e as visões de mundo de uns não podem ser exigidos em face de outros que deles discordam. Nesses termos, o direito surge como função ordenadora, evitando-se a barbárie ou que o mais forte – física, intelectual ou financeiramente – prevaleça: ubi societas ibi jus.

No Estado moderno, os conflitos, quando não solucionados de forma consensual, são "solucionados" pelo Estado-Juiz. Ou seja, as pessoas abrem mão de parcela da sua liberdade (liberdade de como agir), entregando-a ao Estado para que este, por meio dos seus órgãos, delibere acerca de qual ação ou omissão deve ser imposta à pessoa. O órgão estatal que detém legitimidade para exercício do poder para dirimir conflitos é o Judiciário, que exterioriza a sua vontade por meio dos juízes.

O processo é a forma ou método ou meio que esse Estado moderno encontrou para solução desses conflitos. Nessa perspectiva, o processo corresponde a uma multiplicidade de atos sucessivos vinculados em si e coesos para o atingimento da sua

meta final: a prestação jurisdicional.54

Muito se discutiu e se discute acerca da natureza do processo: o processo como contrato; como quase-contrato; como relação jurídica; como situação jurídica;

como procedimento informado pelo contraditório.55 Para os efeitos deste trabalho,

contudo, defende-se que o processo tem natureza jurídica de relação processual estabelecida entre as partes e o Estado-Juiz. Há liames jurídicos e posições jurídicas entre o autor, réu e Estado-Juiz, dos quais surgem direitos, poderes, faculdades obrigações,

sujeições e ônus recíprocos.56

54 THEODORO JÚNIOR, Humberto. Curso de direito processual civil. Teoria geral do direito processual

civil. Processo de conhecimento e procedimento comum. Volume I. 57ª edição revista, atualizada e

ampliada. Rio de Janeiro: Forense, 2016, p. 130.

55 ARAÚJO CINTRA, Antônio Carlos de; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel.

Teoria geral do processo. 31ª edição revista e ampliada. São Paulo: Malheiros Editores, 2015, p. 319.

56 ARAÚJO CINTRA, Antônio Carlos de; GRINOVER, Ada Pellegrini; DINAMARCO, Cândido Rangel.

Observe que esse processo, a rigor, não pertence às partes ou ao Estado- Juiz, mas é instituído para as partes e funciona como uma garantia contra as arbitrariedades: de uma parte contra a outra e do próprio Estado-Juiz. Nesse sentido, com razão, José Eduardo da Costa, afirma:

De todo modo, a par da sua índole institucional, a Constituição também traz consigo uma índole

metainstitucional, porquanto garante e regula instituições.

Ou seja, é uma macro-instituição, que protege a si [função autorreferente] e a outras micro-instituições [função heterorreferente]. Uma dessas micro-instituições é o

processo. Mais: uma exploração provisória do texto

constitucional já identifica a institucionalidade garantística como o “ser” do processo: processo é instituição de garantia, não de poder estatal; “instituição garantística a serviço dos jurisdicionados”, não “instrumento a serviço do Poder jurisdicional”; afinal, é tratado no título sobre

direitos e garantias fundamentais [CF, Título II], não nos

títulos sobre a organização do Estado [CF, Títulos III et

seqs.].57

Essa relação jurídica que se estabelece entre as partes e o Estado-Juiz não se confunde com a relação jurídica de direito material, isto é, com o direito, em tese, violado e objeto de análise perante o Estado-Juiz. Daí porque a relação processual possui autonomia plena e ampla, podendo, inclusive, aquele que não tem razão provocar o Estado-Juiz e, por consequência, ter a sua pretensão negada.

O processo também não se confunde com o procedimento. Este é apenas o aspecto formal e exterior do processo, o estabelecimento dos atos e de como eles se desenvolvem no interior do processo. Assim, a lei determina que o processo tenha início

por iniciativa da parte, consoante o disposto no artigo 2o do Código de Processo Civil.

Trata-se de regra de processo consagrada no brocardo latino: nemo iudex sine actore. Portanto, regra de garantia para que, por exemplo, o Estado-Juiz não decida acerca do

57 COSTA, Eduardo José da Fonseca. O processo como instituição de garantia. Disponível em:

<https://www.conjur.com.br/2016-nov-16/eduardo-jose-costa-processo-instituicao-garantia>. Consultado em 13.02.2018.

objeto litigioso sem provocação formal do seu titular. A petição inicial, ao seu tempo, é a

forma para provocar o Estado-Juiz a dizer sobre o direito em litígio.58

O procedimento judicial comporta, em essência, quatro fases: a postulatória; a saneadora; a instrutória; e a decisória. Ao postular, a parte autora descreve ao Estado-Juiz o objeto da sua pretensão, deduzindo o pedido e as razões fáticas e jurídicas pelas quais o seu pleito deve ser atendido. O réu, por sua vez, ao se defender, deduz os fatos impeditivos, modificativos ou extintivos da pretensão autoral. Pode o réu, ainda, reconhecer a procedência do pedido formulado. Em quaisquer das hipóteses, autor e réu assumem ônus da causalidade das suas condutas.

Após a postulação, o Estado-Juiz adota providências preliminares. Em síntese, realiza o saneamento do processo e verifica se já é possível julgar a causa sem maiores alongamentos. Isso ocorre quando, por exemplo, todos os fatos alegados já estão devidamente provados nos autos, de maneira que qualquer outra atividade probatória será inútil ou meramente protelatória.

Pode ocorrer de todo o conjunto probatório ter sido juntado com a petição inicial e com a contestação. Isso, porém, não significa afirmar a não ocorrência da fase probatória. Não houve supressão da fase instrutória. Apenas ocorreu uma concomitância dessas duas fases: a postulação e a instrução. Tanto isso é verdade que, sem prova, o juiz não terá condições para decidir, pois não saberá se os fatos ocorreram como alegados. Confirma essa assertiva a produção de prova na revelia. O autor, apenas pela revelia, não terá a sua pretensão acolhida, caso ela esteja em desconformidade com o acervo probatório. No mesmo sentido, o réu revel que, embora recebendo o processo no estado no qual ele se encontra, poderá produzir provas.

Realizadas a postulação, o saneamento e a instrução adequada, o Estado- Juiz prolatará a decisão para, em conformidade com o direito, julgar a pretensão deduzida procedente, parcialmente procedente ou improcedente.

58 COSTA, Eduardo José da Fonseca. Ciência processual, ciência procedimental e ciência jurisdicional.

Disponível em: <http://emporiododireito.com.br/leitura/abdpro-8-ciencia-processual-ciencia- procedimental-e-ciencia-jurisdicional-por-eduardo-jose-da-fonseca-costa>. Consultado em 13.12.2018.

Acrescente-se que também poderá haver produção de prova após a fase decisória, isto é, após a prolação de sentença pelo juízo de primeira instância. Com efeito,

nos termos do artigo 938, § 3o, do Código de Processo Civil, reconhecida a necessidade

de produção de prova, o relator converterá o julgamento em diligência, que se realizará no tribunal ou em primeiro grau de jurisdição, decidindo-se o recurso após a conclusão da instrução.

Dessa descrição do procedimento, infere-se que o processo, em se tratando de jurisdição contenciosa, tem como ponto nodal o conflito. Sem conflito, não há razão para a existência de um processo. Observe ainda: quem motivou o conflito deverá arcar com as consequências da sua conduta ativa ou passiva. Trata-se da incidência do princípio da causalidade, segundo o qual aquele que deu causa ao processo deverá com ônus das despesas dele decorrentes.