2 A INADMISSIBILIDADE DAS PROVAS ILÍCITAS NO ORDENAMENTO
2.3 A PROVA ILÍCITA COMO PROVA INADMISSÍVEL NO DIREITO BRASILEIRO
2.4.2 A perspectiva unitária sob o prisma constitucional
Em meio às discussões travadas pelos defensores das duas teses referidas – uma em prol da inadmissibilidade da prova com base na teoria da unidade do ordenamento jurídico; e outra, favorável à admissibilidade ante a irrelevância processual da ilicitude material –, uma série de fatores contribui para o nascimento de uma terceira postura. A de que, em caso de violação de direitos fundamentais, a prova ilícita deveria ser excluída do processo, porque a conduta lançada para sua obtenção estaria em desacordo com o texto constitucional.
Pode-se dizer que as causas que levaram a recondução do problema para um prisma constitucional, mais do que teóricas, remetem a um contexto histórico com influências marcantes quanto à estipulação de proibições de prova na legislação e na jurisprudência dos tribunais alemães.
Mais precisamente, tais fatores remontam (1) à tendência humanista presente no constitucionalismo alemão do segundo pós-guerra; (2) à evidência de práticas aterradoras de investigação por parte da polícia, com recurso a novas técnicas e tecnologias. Ambas as causas ligadas, de uma forma ou de outra, (3) ao fim de um
70
ALEXANDRE, Isabel. Provas ilícitas em processo civil. Coimbra: Almedina, 1998. p. 190. Sobre o assunto, refere ainda Ada Pellegrini grinover que “parece realmente que a ‘inadmissibilidade’ processual do ato não pode derivar de iure da eventual caracterização da ilicitude material (ou vice- versa), nem pode uma incidir sobre a outra, porque se trata de avaliações independentes, efetuadas por normas diversas que se dirigem a finalidades distintas: finalidades estas que podem convergir, sem, contudo, jamais perder a sua respectiva autonomia” (GRINOVER, Ada Pellegrini,
Liberdades públicas e processo penal: as interceptações telefônicas. 2. ed. atual. São Paulo:
regime antidemocrático – no caso, aquele conduzido pelo Partido Nacional Socialista na primeira metade do século XX –, como será visto adiante.
Fortemente influenciada por ideais jusnaturalistas, a Lei Fundamental de Bonn, promulgada em 1949, traz em seus dois primeiros artigos a afirmação dos direitos fundamentais como fundamento do Estado de Direito, ou, mais especificamente, a afirmação de respeito à dignidade da pessoa humana e ao livre desenvolvimento da personalidade, bem como o compromisso do Estado com a proteção desses valores.71
Conforme se colhe das lições de Nicolò Trocker e de Kai Ambos, a expressão da dignidade humana como um dos fundamentos do ordenamento constitucional de pronto chamou a atenção da doutrina e dos aplicadores do direito na Alemanha, notadamente na área do direito penal, na qual o legado da persecução penal empreendida pelo Partido Nacional Socialista, aliado ao emprego de novas tecnologias na persecução dos criminosos, culminou em uma rápida reforma legislativa, restando expressamente proibida em lei a utilização de métodos de prova como a tortura, a narcoanálise e a psicométrica.72
71 Lei Fundamental da República Federal da Alemanha de 23 de maio de 1949. Artigo 1 “[Dignidade da pessoa humana – Direitos humanos – Vinculação jurídica dos direitos fundamentais](1) A dignidade da pessoa humana é intangível. Respeitá-la e protegê-la é obrigação de todo o poder público. (2) O povo alemão reconhece, por isto, os direitos invioláveis e inalienáveis da pessoa humana como fundamento de toda comunidade humana, da paz e da justiça no mundo. (3) Os direitos fundamentais, discriminados a seguir, constituem direitos diretamente aplicáveis e vinculam os poderes legislativo, executivo e judiciário. Artigo 2 [Direitos de liberdade](1) Todos têm o direito ao livre desenvolvimento da sua personalidade, desde que não violem os direitos de outros e não atentem contra a ordem constitucional ou a lei moral. (2) Todos têm o direito à vida e à integridade física. A liberdade da pessoa é inviolável. Estes direitos só podem ser restringidos em virtude de lei.”
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Aduz Trocker que “A promulgação das Constituições do Länder e do Grundgesetz federal, juntamente com o retorno de concepções jusnaturalísticas e uma sensibilidade recém-descoberta para os valores humanos, põe em primeiro plano o problema da tutela do indivíduo frente a certos fenômenos ou perigos da tecnologia até então desconhecidas ou indevidamente negligenciadas.” (TROCKER, Nicolò. Processo civile e costituzione: problemi di diritto tedesco e italiano. Milano: Giuffré, 1974. p. 573). Ainda, conforme Kai Ambos, “tendo em vista as experiências com o Direito Penal Nacional Socialista, especialmente considerando o seu desprezo em relação à autonomia da livre determinação do indivíduo, fez-se imprescindível, o mais rápido possível, a necessária regulamentação legal, com o fim de assegurar a liberdade de decisão individual e, em consequência, a proibição de determinados métodos de interrogatório. A isto se acrescentou o fato de que, com os desenvolvimentos técnicos e científicos, v.g., com a invenção do ‘detector de mentiras’ e o surgimento da ‘narcoanálise’, surgiu a necessidade de uma regulamentação legal das possíveis limitações relativas a estas novas tecnologias, para fins de se preservar a autonomia individual. Neste sentido, introduziu-se em 1950, entre outros, o §136, a, como norma central, visando a fortalecer os direitos fundamentais do investigado ou imputado, bem como do Próprio Estado de Direitos. Com isto, a tese referente à importância dos direitos constitucionais fundamentais do Estado de Direito encontram na matéria referente à temática das vedações probatórias sua plena constatação legal.” (AMBOS, Kai; LIMA, Marcelus Polastri. O processo
Entretanto, em que pese existente tal cobertura legal, conferida pelo legislador ordinário com a finalidade de dar resguardo aos direitos fundamentais consagrados pela carta constitucional, revelou-se com o tempo a existência de uma lacuna que deixava desprotegido, no campo probatório, o chamado livre desenvolvimento da personalidade, frente à utilização de gravadores e interceptações telefônicas como meios de obter provas.
E foi em meio a este contexto de afirmação e defesa dos direitos fundamentais que chegaram ao Bundesgerichtshof o caso do gravador e o primeiro caso do diário. No primeiro deles, o caso do gravador, discutiu-se se o registro em fita magnética de uma conversa mantida entre as partes, feita clandestinamente por uma delas (sem autorização da parte adversa), poderia ser utilizada como prova em um processo; no segundo, a questão referia-se a (im)possibilidade de utilização de um diário íntimo, sem autorização de seu autor, como prova em um processo.73
Conforme atesta Trocker, em ambos os casos, o Bundesgerichtshof reconheceu a necessidade de excluírem-se as provas, porquanto, cada qual a sua maneira, repercutiam em violação de direitos fundamentais. Com relação à gravação, esta seria uma prova formada por meio ilícito, sendo lesado o livre desenvolvimento da personalidade ao momento em que realizada a gravação sem consentimento ou advertência do interlocutor; no que diz respeito ao diário, esta não seria admissível como prova, mas não porque havia sido subtraído; e sim porque continha registros íntimos, de maneira que sua utilização processual conduziria inevitavelmente a uma lesão de direito fundamental.74
Esta a breve análise descritiva dos casos: em um deles o Bundesgerichtshof constatou que uma lesão a direito fundamental já havia ocorrido ao tempo da formação da prova; em outro, considerou que ela ocorreria caso a prova fosse admitida e produzida em juízo.
acusatório e a vedação probatória: perante as realidades alemã e brasileira. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2009. p. 84–85.) 73
Cfr. TROCKER, Nicolò. Processo civile e costituzione: problemi di diritto tedesco e italiano. Milano: Giuffré, 1974.
74
Tomando por premissa essas decisões, bem como aquelas que se seguiram, Nicolò Trocker sintetiza a orientação imperante na Alemanha: “A regra acerca da qual se orientam as cortes alemãs parece a seguinte: a ilicitude da ação voltada para a obter (registro magnético) ou a utilizar (diário) a prova, quando esta configura contrariedade à norma constitucionais, se traduz na inadmissibilidade ou inadmissibilidade da prova em si mesma.” (TROCKER, Nicolò. Processo
Retoma-se aqui o argumento de que os progressos do Constitucionalismo Alemão do segundo pós-guerra foram essenciais para conferir esse tratamento às provas inconstitucionais. Conforme assinala Nicolò Trocker, teve forte influência sobre a assimilação de uma medida de exclusão de provas, em caso de violação de direitos fundamentais, o abandono da concepção de direitos fundamentais como meros direitos públicos subjetivos. Essa concepção foi deixada de lado a partir da compreensão de que os direitos fundamentais inseriam na Constituição Alemã uma ordem de valores a serem realizados, não podendo ser entendidos “apenas como direitos de liberdade em face do Estado, mas mais que isso como princípios regulatórios [...] da vida social”.75
Assim, de um lado, haveria uma subjetivação das garantias individuais em face do Estado, mas isso, por si só, não impediria que tais garantias se convertessem, de uma perspectiva objetiva, em juízos de valor convertidos em princípios que se irradiam a todos os setores do ordenamento e impõem respeito aos valores consagrados na Lei Fundamental.
No plano institucional, por seu turno, isso significaria que os órgãos do poder judiciário deveriam, diante do caso concreto, interpretar a legislação ordinária sob a luz desses valores constitucionalmente assegurados e, assim, buscar a concretização (realização) desses preceitos fundamentais, conforme as lacunas e as carências do ordenamento jurídico.76
A regra de exclusão alemã, assim, seria fruto de uma atividade de integração e de criação,77 que parte da ideia de que “o juiz, na obra de ‘concretização’ dos preceitos constitucionais, seja autorizado a preencher diretamente as lacunas do sistema normativo ordinário, substituindo-se à inércia do legislador, sempre que os direitos fundamentais o exijam.”78
75
TROCKER, Nicolò. Processo civile e costituzione: problemi di diritto tedesco e italiano. Milano: Giuffré, 1974. p. 585-877. Nicolò Trocker confirma que essa postura move-se sobre o terreno de uma ideologia liberal, tendo nascida na França e sido desenvolvida na Alemanha por Georg Jellinek através da noção de direito público subjetivo, que reflete antes de mais nada a “preeminência do indivíduo no confronto com a autoridade pública,” uma pretensão do indivíduo a um não fazer do Estado.
76
Cfr. TROCKER, Nicolò. Processo civile e costituzione: problemi di diritto tedesco e italiano. Milano: Giuffré, 1974. p. 586-587.
77
Cfr. TROCKER, Nicolò. Processo civile e costituzione: problemi di diritto tedesco e italiano. Milano: Giuffré, 1974. p. 586-587.
78
GRINOVER, Ada Pellegrini, Liberdades públicas e processo penal: as interceptações telefônicas. 2. ed. atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 135.
Nesses termos, em que pese a assimilação da solução não estar fundamentada na acepção preconizada pela teoria da unidade do ordenamento jurídico, a doutrina refere que a solução do Bundesgerichtshof para o problema pode, inclusive, ser remetida à contraposição entre Rechtmässigkeit (conformidade com o direito) e Rechtswidrigkeit (contrariedade ao direito), desde que reconduzidas às noções de constitucionalidade e inconstitucionalidade da prova.79
Com base nessas colocações e conforme refere Ada Pellegrini Grinover, pode-se afirmar que, desde a perspectiva alemã, não foi concebida a ideia de uma proibição de prova propriamente em razão do reconhecimento da unidade do ordenamento jurídico, mas sim em razão de a noção de contrariedade à constituição (inconstitucionalidade) situar-se além da contraposição entre substance e procedure, em vista de os direitos fundamentais revestirem-se daquelas mesmas características do Rechtsganze enunciado pelos defensores da unidade do ordenamento jurídico.80
O aspecto diferenciador entre esta terceira postura e aquela que defende a unidade do ordenamento jurídico seria, portanto, o de que não é qualquer violação ao direito material que detém aptidão para qualificar a prova ilícita como uma prova inadmissível, mas somente a transgressão daquelas prescrições que informam tanto a legislação processual quanto os microssistemas de direito material: os direitos fundamentais, com os quais o Estado tem um compromisso de realização.
Assim, se, de um lado, a transgressão de uma norma de direito material não poderia automaticamente dar lugar à ineficácia da prova, o mesmo não poderia ser dito quando violado um direito assegurado pela Constituição, porquanto a categoria autônoma da inconstitucionalidade estaria “além da contraposição entre substance e procedure”,81 de forma que “a prova, processualmente típica e válida, pode ser constitucionalmente ineficaz”.82
Uma ressalva quanto a esse posicionamento, entretanto, pode ser obtida das lições de Isabel Alexandre, para quem é necessário ter em consideração que não é possível concluir da simples afirmação de que a constituição figura como a norma hierarquicamente superior que “o comportamento contrário à norma constitucional
79
Nesse sentido as lições de Nicolò Trocker sobre o assunto, Cfr. TROCKER, Nicolò. Processo
civile e costituzione: problemi di diritto tedesco e italiano. Milano: Giuffré, 1974. p. 595–597.
80
Cfr. GRINOVER, Ada Pellegrini, Liberdades públicas e processo penal: as interceptações telefônicas. 2. ed. atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 150.
81
GRINOVER, Ada Pellegrini, Liberdades públicas e processo penal: as interceptações telefônicas. 2. ed. atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 150-151.
82
GRINOVER, Ada Pellegrini, Liberdades públicas e processo penal: as interceptações telefônicas. 2. ed. atual. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1982. p. 151.
configure uma automática inadmissibilidade processual, nos moldes advogados pela teoria da unidade do ordenamento jurídico”.83
A crítica da autora portuguesa é bem-vinda, não só por causar estranheza que a inadmissibilidade da prova possa ser sustentada a partir da perspectiva estritamente teórica da inconstitucionalidade do ato de que se lançou mão para obtê- la, mas também porque desconsidera que a aplicação da medida de exclusão é adotada em detrimento do direito fundamental à prova.
Nesses termos, mesmo que se assimile a unidade do ordenamento jurídico desde uma perspectiva constitucional, colocando-se os direitos fundamentais como algo diferente, acima da autonomia entre direito material e direito processual, mostra-se contestável que “essa unidade imponha que da ilicitude de uma conduta se retire a inadmissibilidade processual dessa conduta, pois não é seguro que a admissibilidade da prova ilícita signifique [...] uma contradição com a valoração feita pelo direito material”.84
Ainda, deve-se ter em consideração que a exigência de interpretar a legislação infraconstitucional conforme a constituição, bem como o recurso ao preenchimento de lacunas na legislação ordinária partindo-se da dimensão objetiva dos direitos fundamentais, existe para garantir a eficácia aos direitos fundamentais.
No entanto, considerando-se que a medida de exclusão é aplicada após ter ocorrida a violação do direito fundamental, que se dá durante a formação da prova (declaração escrita obtida mediante tortura), pela forma de sua obtenção (invasão do domicílio para obtenção de um documento ou para ouvir uma conversa), ou em razão da sua própria utilização como prova em juízo (leitura do diário íntimo pelo juiz e terceiros), não é possível afirmar que a assimilação de uma prova ilícita em juízo repercutirá necessariamente em nova violação de direitos fundamentais ou que sua inadmissibilidade irá acarretar o reparo da violação já ocorrida.
Ou seja, a ofensa ao direito fundamental já se concretizou e não irá se renovar ou agravar (à exceção da prova ilícita em si mesma), pela tão só admissão do meio de prova pelo processo, não sendo a inutilização da prova capaz de promover qualquer tipo de restauração da eficácia ao direito fundamental violado pela conduta antijurídica lançada para obtenção da prova.
83
ALEXANDRE, Isabel. Provas ilícitas em processo civil. Coimbra: Almedina, 1998. p. 140. 84
A verdade é que tanto a tese da unidade do ordenamento jurídico, quanto esta postura que “centra-se na percepção de um possível contraste entre comportamentos e as normas constitucionais”85
fornecem subsídios eminentemente teóricos para sustentar a necessidade de excluírem-se as provas ilícitas.
Entretanto, não é possível identificar-se, nessas posturas, qualquer fundamento que conduza ao propósito de dar resguardo a determinados valores, o que, considerando-se a possibilidade de comprometer a justiça da decisão e a certeza do não atendimento do direito fundamental à prova, as torna vazias de um propósito que aconselhe a adoção da medida de exclusão.
Por tais motivos, ambas devem ser afastadas enquanto fundamento para o Artigo 5º, inciso LVI, da Constituição Federal.