O PAN-ESLAVISMO REVOLUCIONÁRIO (1843-1863)
7.7 A TEORIA POLÍTICA BAKUNINIANA ENTRE 1844 E
Nesse momento, serão apresentados alguns elementos relevantes para a compreensão da teoria política bakuniniana no período em questão. Eles introduzem a discussão teórica, que será exposta mais detalhadamente nos capítulos seguintes.
7.7.1 Período pan-eslavista revolucionário (1844-1863)
Entre os anos 1844 a 1863 – em meio aos quais estão 12 anos de prisão e exílio (1849- 1861) –, Bakunin encontra-se em seu período pan-eslavista revolucionário143, que possui continuidades e rupturas consideráveis em relação aos períodos precedentes.
Dos anos 1841-1842, Bakunin retoma concepções teórico-filosóficas e aspectos marcantes das análises mais gerais da Europa. De 1843, mantém as noções de primado da prática e de autogoverno do povo. Nesse período, ele rompe com a filosofia e redireciona sua produção teórica – sua maior intenção é que esta possa expressar e subsidiar a práxis revolucionária. Em termos temáticos, a questão nacional torna-se central, expressando-se em reflexões e ações que, incialmente, envolvem a causa russo-polonesa e que, em seguida, passam à causa eslava.
Nesses 20 anos, Bakunin, em atividade ou preso, passou por inúmeros países, dentre os quais: Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Inglaterra, Prússia, Rússia, Suécia e Suíça. Participou ativamente de levantes insurrecionais e revolucionários – Revolução de Fevereiro de 1848, Insurreição de Praga (junho de 1848), preparou a Insurreição da Boêmia (passagem de 1848 a 1849), Insurreição de Dresden (maio de 1849) –, tentou articular-se politicamente e interveio nos debates políticos europeus por meio de discursos e escritos.
Mesmo não produzindo novas reflexões filosóficas ou análises mais aprofundadas da Europa como um todo, ele retoma em seus escritos e cartas elementos de sua teoria da revolução e sua dialética negativa de 1841-1842. Em sua maioria, tais elementos, com destaque àqueles de “A Reação na Alemanha”, continuam a ser considerados acertados e, por isso mesmo, são tomados como pano de fundo e ponto de partida para as discussões concretas. (Angaut, 2009, p. 48) Pode-se dizer, assim, que, em termos filosóficos, Bakunin continua a operar no quadro do realismo voluntarista dos anos anteriores. As leituras da realidade desse período, conforme aponta Berthier (2010, vol. 2, pp. 14, 83, 105), dão
143 Recorde-se, conforme já comentado em nota, que Bakunin só reivindica o termo “pan-eslavismo” a partir de
1862, quando distingue suas proposições de outros tipos de pan-eslavismo. Recorde-se, também, que o adjetivo “revolucionário” poderia ser substituído ou complementado por outros, como “anticentralista”, “anti- imperialista”, “classista”, “democrático” ou “federalista”. Mais importante que o termo, aqui, é o conteúdo que está por trás dele, e que será aprofundado adiante.
continuidade ao método desenvolvido em “A Reação na Alemanha” e são realizadas por meio de “um pensamento estratégico extremamente elaborado e realista, levando em conta as forças presentes”. Tal realismo precisa ser compreendido como um fundamento analítico que “parte de uma análise objetiva” da realidade, em especial, “da situação dos eslavos”.
Contudo, esse realismo não significa que o projeto de emancipação dos eslavos proposto por Bakunin “era realizável” naquele momento. Sobre isso, Angaut (2009, pp. 24, 30) pontua que, entre 1844 e 1863, Bakunin tem “uma relação prática com a história: ao pessimismo teórico do entendimento [...], opõe o otimismo prático da vontade”. Isto é, a concretização de seu projeto político, em linha com o próprio contexto da Primavera dos Povos, parece apontar para uma “confusão entre o possível e o necessário”, de modo que sua vontade de transformação ultrapassa – não raro, demasiadamente – as condições estruturais e conjunturais para sua efetivação. De mais a mais, as ideias e posições políticas dos agentes continuam a ser as maiores determinantes analíticas, ainda que consideradas dentro de certos limites impostos pelas necessidades históricas e realidades sociais e nacionais em questão.
Nesse período, Bakunin empreendeu, ainda de acordo com Angaut (2009, p. 47), uma “tentativa prática de prolongar a oposição cósmica e histórica entre revolução e reação em oposição política”. Mas isso foi feito visando a dar conta da priorização que é concedida, nessas duas décadas, à questão nacional – a própria noção de autogoverno do povo, de 1843, é adaptada nessa direção. Deve-se ainda apontar que, se as influências de Hegel podem ainda ser notadas na teoria política bakuniniana, dificilmente seria possível considerar o Bakunin desses anos um hegeliano, sobretudo pelas rupturas operadas de 1843 em diante.
Em 1848, já depois do fracasso das experiências revolucionárias de fevereiro e junho, Bakunin considerava que “hoje, mais do que nunca, a Europa está dividida em dois campos”. Para ele, mesmo derrotada, “a revolução golpeou terrivelmente a velha política; um golpe do qual ela jamais se recuperará”. Parecia-lhe evidente que “a velha ordem se rompe em toda parte com um ruído assustador, em toda parte os povos despertam, em toda parte eles clamam por seus direitos há muito esquecidos e por sua liberdade”. (Bakunin, 48019[e]) Assim, era notório que a Europa aprofundava sua cisão entre um “velho mundo em ruína” e um “mundo novo”, entre dois campos contraditórios, a “contrarrevolução” e a “revolução”. Era preciso, então, escolher entre um e outro, decidindo se se contribuiria para a aproximação ou com o retardo dessa inevitável mudança, tendo em mente que dessa escolha “dependerá a realização dos destinos do mundo”.
E a mesma posição relativa aos mediadores reproduz-se: estes, com papel importante da diplomacia, estão “enganados se acreditam nessa mentira” de que é possível escapar dessa contradição “concedendo algo pequeno a cada um dos dois partidos em luta a fim de abrandá- los e de impedir assim a explosão da batalha inevitável, necessária” entre eles. (Bakunin, 48020[e], pp. 3-4) De modo similar, as reformas são vistas como remédios insuficientes, de modo que apenas a revolução, uma transformação completa, pode solucionar o dilema do conflito europeu. Dever-se-ia, assim, recusar o “partido da reforma” e abraçar o “partido de uma revolução radical”. (Bakunin, 62002[e], p. 1)
O conceito de povo, amplamente mobilizado nesse período, em especial quando se reivindica a liberdade dos povos, relaciona-se tanto com esse contexto histórico quanto com a produção filosófica hegeliana. Ele
não é somente o eixo das revoluções de 1848; ele é também um dos termos centrais na filosofia da história de Hegel, e é possível dizer que, ao empunhar o estandarte da liberdade dos povos [...], Bakunin nada mais faz que prolongar o questionamento hegeliano, que pretende que os povos sejam os principais atores da história e que seja no nível dos povos que a história desenvolva-se. Aqui, a questão é aquela das mediações pelas quais a liberdade realiza-se na história: para Hegel, a história é o lugar em que o espírito realiza sua liberdade, no sentido de que toma consciência de si e de sua autonomia. E “na história, o espírito é um indivíduo de natureza ao mesmo tempo universal e determinada: um povo; e o espírito com o qual lidamos é o espírito de um povo (Volksgeist)”. (Angaut, 2009, pp. 11-12) Mesmo reivindicando a noção de Hegel de que a liberdade realiza-se na história é possível questionar em que medida as reflexões pan-eslavistas de Bakunin ancoram-se na filosofia hegeliana.
Quando pensa a emancipação das nações eslavas, Bakunin busca recuperar esse esquema, que vê os espíritos dos povos vincularem-se a um processo “pelo qual o espírito chega à consciência livre de si”? [Hegel, “A Razão na História”] Isso significaria várias coisas. Primeiro, implicaria dizer que ele vai mais longe que seus textos do período hegeliano, nos quais Hegel é reivindicado para pensar as contradições históricas que se manifestam numa conflitualidade política (a tese defendida em “A Reação na Alemanha”, de que nada ou ninguém pode conciliar de fora essas contradições, as quais devem conduzir inelutavelmente a uma revolução). Em seguida, isso significa que ele vai além do próprio Hegel, que não atribuiu um destino particular às nações eslavas nos capítulos de sua filosofia da história consagrados aos povos europeus: eles tinham, no máximo, vocação para construir uma zona intermediária entre a Ásia e a Europa (ele pensava principalmente na Rússia). Enfim, implicaria que retornasse aos eslavos uma missão histórica particular, por exemplo, aquela de encarnar a transformação social, depois da revolução religiosa na Alemanha e da