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“A VIDA E AS IDEIAS DE BAKUNIN MERECEM SER COMPLETAMENTE REEXAMINADAS”

1.2 O CORPUS BAKUNINIANO

A obra bakuniniana, se comparada com a de outros pensadores do mesmo porte, destaca-se por algumas peculiaridades. Sabe-se que Bakunin escreveu copiosamente; sua obra é composta por escritos (livros, brochuras, artigos, rascunhos, trechos), cartas e outras produções (trechos autobiográficos, estudos, anotações pessoais etc.). Entretanto, esse corpus é bastante complicado, sobretudo por dois motivos: aqueles relacionados à vida de Bakunin – e que abarcam seus interesses pessoais e políticos, seu tipo de militância, sua relação com a produção intelectual e suas condições para esta produção – e aqueles relacionados ao processo de compilação e difusão da obra bakuniniana.29

Apesar de ter recebido uma educação familiar sólida e de ter se formado nos grandes meios filosóficos da Rússia e da Alemanha, Bakunin nunca se considerou um intelectual. Numa carta de 7 de maio de 1872 enviada a seu companheiro Anselmo Lorenzo, ele afirma: “Eu não sou um filósofo, nem um inventor de sistema como Marx”. (Bakunin, 72013[c], p. 3) Isso explica, em alguma medida, sua relação com a própria produção intelectual que, especialmente depois de 1842-1843, no contexto de sua ruptura com a filosofia, ganha contornos mais descompromissados do ponto de vista da sistematização e mesmo do cuidado com os manuscritos originais. Além disso, pelo fato de Bakunin ter sido, indubitavelmente e em acordo com sua leitura de si mesmo, um homem de ação – com participação em insurreições e levantes armados, longos anos de prisão, atuação em lutas sociais, movimentos populares e

Se Bakunin foi contraditório, como tal influência, ao disseminar-se, produziu um movimento global significativamente coerente? (Cf. Corrêa, 2015)

29 Lehning (1979a), Péchoux (1979) e Kloosterman (1985/2004) são as melhores fontes para se conhecer a saga

dos esforços de compilação e difusão da obra de Bakunin. Lehning e Kloosterman estiveram envolvidos, no IIHS, com os Arquivos Bakunin e com a publicação das obras completas. Péchoux especializou-se academicamente na trajetória do corpus bakuniniano, tamanha sua complexidade.

Primeira página da carta de 7 de maio de 1872 a Anselmo Lorenzo

sociedades secretas –, foi necessário, durante sua vida, destruir parte importante de seus próprios textos, para fugir da perseguição repressiva ou guardar segredos irreveláveis.30

Bakunin nunca concluiu um livro que expusesse seu pensamento de maneira sistemática. Na maturidade, tentou fazer isso em quatro ocasiões, mas os manuscritos permaneceram incompletos e desestruturados: 1.) Fédéralisme, Socialisme et Antithéologisme [Federalismo, Socialismo e Antiteologismo], de 1867-186831; 2.) L’Empire Knouto- germanique et la Révolution Sociale [O Império Cnuto-Germânico e a Revolução Social], de 1870-187132; 3.) La Théologie Politique de Mazzini et la l’Internationale [A Teologia Política

de Mazzini e a Internacional], de 187133; 4.) Государственность и анархия: Борьба двух партий в Интернациональном обществе рабочих [Estatismo e Anarquia: a luta entre os dois partidos na Associação Internacional dos Trabalhadores], de 187334.

Nesses casos, assim como em toda a produção intelectual posterior a 1843, os escritos de Bakunin têm profunda relação com o contexto em que estavam inseridos. Eles nunca foram desinteressados ou voltados à posteridade – tiveram, permanentemente, a intenção de propagar ideias, persuadir pessoas, intervir nos debates. Nos quatro livros em questão, os

30 Ainda assim, conforme aprofundarei adiante, não concordo com a ideia bem difundida nos meios libertários de

que Bakunin tenha sido apenas um homem de ação e nem que sua prática política explique todos os problemas e limitações de seus escritos. Como pretendo demonstrar, considero que, além de um homem de ação, ele foi um teórico de substância e fôlego. No entanto, concordo que sua obra possui inúmeros problemas e limitações, vários dos quais (ainda que não todos) possam ser explicados pelos dois aspectos que estão sendo discutidos.

31 Segundo Nettlau (1895, pp. xxvi-xxvii; 1979a, pp. 26-27), tal escrito, redigido originalmente em francês, teve,

a princípio, o título de “Proposition Motivée des Russes, Membres du Comité Permanent de la Ligue de la Paix et de la Liberté” [Proposição Justificada dos Russos, Membros do Comitê Permanente da Liga da Paz e da Liberdade], sendo em seguida modificado para “Proposition Motivée au Comité Central de la Ligue de la Paix et de la Liberté par M. Bakounine” [Proposição justificada ao Comitê Central da Liga da Paz e da Liberdade, por M. Bakunin]; depois, adotou-se o título La Question Révolutionnaire, Fédéralisme, Socialisme et

Antithéologisme [A Questão Revolucionária, Federalismo, Socialismo e Antiteologismo], mantendo-se como

subtítulo o título anterior, “Proposição justificada..., por M. Bakunin”. Enfim, retirou-se o “A Questão Revolucionária”. O escrito foi publicado em 3000 cópias na Suíça nos fins de 1867. Em português, cf. Bakunin, 1988a[e].

32 Segundo Guillaume (1907b, p. 277-282), a primeira parte (ou “entrega”) [livraison] desse livro – redigido

originalmente em francês, a princípio intitulado La Révolution Sociale ou la Dictature Militaire [A Revolução Social ou a Ditadura Militar], e que teve seu título modificado durante o processo de edição – foi publicada em 1000 cópias, na Suíça, em 1871, apresentando uma série de problemas na edição. A segunda parte do livro permaneceu inédita durante a vida de Bakunin. Em português (quase completo), cf. Bakunin, 2014d[e], 2014e[e], 2014f[e].

33 Segundo Guillaume (1985, vol. 2, p. 253) e Lehning (1973, p. xlvi), este escrito, redigido em francês, foi

parcialmente publicado na Suíça nos fins de 1871 como parte de um livro mais amplo, que teve tiragem de 1000 cópias. O trecho publicado continha o subtítulo “Première Partie: L’Internationale et Mazzini” [Primeira Parte: A Internacional e Mazzini]; a segunda parte, composta de uma série de fragmentos, permaneceu inédita durante a vida de Bakunin. Inédito em português; em francês, cf. Bakunin, 1973b[e].

34 Segundo Nettlau (1986), este escrito, redigido em russo e acompanhado de dois apêndices, teve 1200 cópias,

na Suíça, entre o fim de 1873 e o início de 1874. Encomendado por jovens russos, o livro foi contrabandeado para a Rússia czarista (tendo várias cópias sido apreendidas no processo), onde exerceu considerável influência. Permaneceu inédito em outros idiomas até a morte de Bakunin que, tudo indica, nunca redigiu o(s) outro(s) volume(s) que previu para a finalização da obra. Em português, cf. Bakunin, 2003a[e].

interesses de Bakunin eram profundamente políticos: persuadir os membros da Liga Internacional da Paz e da Liberdade, no primeiro; analisar a Guerra Franco-Prussiana e suas consequências para o movimento operário, no segundo; responder aos ataques de Giuseppe Mazzini à Comuna de Paris, à Internacional, e criticar seu pensamento, no terceiro; formular e difundir a crítica federalista-coletivista ao Estado no contexto do conflito com Marx e os centralistas na Internacional, no quarto. (Angaut, 2005, p. 13)

Por essa intencionalidade contida nos escritos, e tomando em conta o dinamismo da conjuntura política da época e de sua própria vida, além de certas características pessoais, Bakunin terminou produzindo uma obra que, apesar de riquíssima, é fragmentada e pouco (em alguns casos, mal) estruturada ou sistematizada. (Avrich, 1970, p. 130) Durante sua vida, ele se mudou de residência inúmeras vezes, com frequência de um país para outro. Os múltiplos projetos, lutas e conflitos com os quais esteve envolvido não raro demandaram mudanças nas prioridades intelectuais. Seu jeito peculiar de ser, que tanto atraiu os historiadores liberais, soma-se a esses outros fatores para explicar as mudanças constantes de planos intelectuais – quando escritos eram interrompidos para dar lugar a outros ou simplesmente abandonados35; quando artigos eram aumentados para se tornar brochuras, e estas ampliadas para constituir livros; quando temas entravam e saíam do campo de interesse –, e o desapego de Bakunin com os bens materiais em geral, incluindo os livros.36 Ele nunca teve uma biblioteca significativa e nem produziu em locais que oferecessem condições adequadas, com o devido acesso à bibliografia.

A esses aspectos da vida de Bakunin somam-se outros, relativos à reconstituição da obra bakuniniana. Segundo Lehning (1979a), muitos de seus escritos e cartas foram perdidos.37 Além do material destruído pelo próprio Bakunin, houve outros documentos perdidos durante sua vida, como aqueles que foram queimados por seu companheiro Carlo Cafiero, em 1874, na ocasião de sua saída da Baronata, propriedade em que vivia na fronteira da Suíça com a Itália. Com a morte de Bakunin, além das circunstâncias normais que

35 Os escritos inacabados são uma constante na obra de Bakunin, como no caso dos quatro livros anteriormente

mencionados.

36 Carr (1961, p. 133) destaca, por exemplo, que, ao mudar para Paris, em 1844, Bakunin hospedou-se num

irmão de Bernstein (editor do Vorwärts), que “se surpreendeu ao descobrir que todas as posses daquele aristocrata incomum limitavam-se a uma mala, uma cama dobrável e uma pia de zinco”.

37 Para fundamentar sua constatação, ele fornece três exemplos: “Os manuscritos de Bakunin dos anos quarenta –

dentre os quais se encontra um escrito sobre Feuerbach – nunca foram encontrados e devem ser considerados perdidos. Seu carnet, uma excelente fonte, dos anos 1871-1872, nos dá uma ideia de suas vastas relações epistolares, das quais não descobrimos até hoje senão poucos traços. Dia 11 de agosto de 1870, por exemplo, ele escreveu a Nikolai Ogarev dizendo que redigiu, nos três dias anteriores, 23 longas cartas: apenas duas foram encontradas. Sua correspondência com a Espanha e a Itália foi quase inteiramente perdida”. (Lehning, 1979a, p. 18)

envolveram a perda de parte inédita de sua produção, escritos e cartas foram comprometidos em outros episódios: a morte do companheiro Alfred Andrié, que se encontrava com todos os documentos deixados por Michel Sajine (Armand Ross), e cujo filho informou depois a Guillaume que sua mãe os havia utilizado para acender o fogo da casa; o incêndio em 1893 na casa do companheiro Errico Malatesta, que comprometeu o material que ali estava; a destruição de documentos por James Guillaume, em 1898, em função da depressão gerada pela morte de sua filha; a perda do material que se encontrava na Universidade de Nápoles quando, em 1943, o prédio do arquivo foi destruído pelo exército alemão.

Em “Écrits et Correspondance de Bakounine: bilan des publications” [Escritos e Correspondência de Bakunin: balanço das publicações], Pierre Péchoux (1979) coloca que, no momento de sua morte, a obra de Bakunin era praticamente inexistente, em função da quase impossibilidade de ser encontrada. Segundo argumenta, pouco mais da metade de seus escritos foi publicada durante sua vida (65%); o restante veio a lume postumamente. Do material publicado, com exceção das publicações francesas feitas em Genebra ou Zurique, tudo se encontrava em outros países: Itália, Espanha, França, Inglaterra, Suécia, Rússia, Alemanha, Boêmia, Suíça e Bélgica. Apenas 38 textos haviam sido publicados em brochuras ou livros e, destes, apenas 16 com o nome do autor. Havia, portanto, após a morte de Bakunin, uma necessidade de se reconstituir sua obra e reunir tanto o material publicado (e raramente encontrado) quanto o material inédito.

De acordo com Jaap Kloosterman, no artigo “Les Papiers de Michel Bakounine à Amsterdam” [Os Papéis de Mikhail Bakunin em Amsterdã] (Kloosterman, 1985/2004), houve, depois de 1876, por uma demanda da militância anarquista, enormes esforços para se compilar e difundir a obra de Bakunin. Com sua morte naquele ano, seus documentos permaneceram com sua esposa Antonia K. Bakunin, divididos em dois pacotes: um de cartas íntimas, não políticas, e outro com os escritos políticos e filosóficos inéditos.38 Depois de uma negociação com Antonia, os militantes, encabeçados por Guillaume, conseguiram receber, ainda em 1876, o pacote dos textos políticos e filosóficos. Comprometeram-se em trabalhar para a publicação das obras completas de Bakunin. Guillaume, na ocasião, comentou: são “papéis que formam um verdadeiro caos e que são difíceis de classificar”. (apud Kloosterman, 1985/2004, p. 6) Antonia permaneceu com os documentos pessoais, que foram parcialmente

38 Quando Bakunin preparou ambos os pacotes, antes de partir para a Insurreição de Bolonha em 1874, na qual

acreditava que ia morrer, ele muito provavelmente se desfez de parte de documentos secretos, organizativos e/ou que poderiam ser tidos como comprometedores.

copiados por Nettlau em 1899 e 1902, e, depois, destruídos na Universidade de Nápoles em 1943.

Ou seja, se não bastasse a dificuldade de acessar o material publicado, havia ainda um enorme desafio em relação aos escritos inéditos: era necessário entender toda a desordem dos manuscritos e, literalmente, reconstruir aos poucos o complexo corpus bakuniniano. Em 1878, Guillaume encaminhou os documentos políticos ao geógrafo anarquista e companheiro Élisée Reclus, que selecionou dois trechos da segunda parte inédita de O Império Cnuto-Germânico e os publicou de maneira independente: “La Commune de Paris et la Notion de l’État” [A Comuna de Paris e a Noção de Estado], em 1878 (seleção com consideráveis mudanças no texto e no título de Reclus), e “Dieu et l’Etat” [Deus e o Estado], em 1881 (seleção e título de Reclus e Carlo Cafiero).39 Esse procedimento – de companheiros que selecionavam, modificavam e corrigiam os escritos –, que vigorava já durante a vida de Bakunin, depois de sua morte constituiu mais um fator complicador.40

Foi nesse ínterim que Max Nettlau começou a interessar-se por Bakunin e deu sequência ao trabalho de recuperação e publicação dos manuscritos; ele coordenou o primeiro volume das Œuvres, que foi publicado em 1895, em Paris, mesmo ano em que Mikhail Dragomanov publicou, na Alemanha, um conjunto de 105 cartas inéditas de Bakunin, quase todas endereçadas aos russos Aleksandr Herzen e Nikolai Ogarev.41 (Dragomanov, 1895) A biografia que Nettlau publicou entre 1896 e 1900, conforme colocado, além de abordar a trajetória de Bakunin, disponibilizou 127 cartas inéditas. (Nettlau, 1896-1900) Guillaume coordenou os próximos cinco volumes das Œuvres, dando continuidade ao trabalho de Nettlau e trazendo-os ao público, respectivamente, em 1907, 1908, 1910, 1911 e 1913. Os seis volumes das Œuvres42 disponibilizaram um conjunto de 34 escritos da maturidade. (Bakunin, 1895-1913)

Michel Sajine – que empreendera com Kropotkin iniciativas para a publicação das obras completas de Bakunin em russo, e que publicara o primeiro volume delas em 1915, em Londres – escreveu a Lênin em 1920, pedindo financiamento para terminar o projeto. Ainda

39 Em português, cf. Bakunin, 2008[e], 2011a[e].

40 Tal é o caso do mencionado Deus e o Estado, que se tornou o escrito mais traduzido e difundido de Bakunin.

A versão mais conhecida, e que se estabeleceu como a definitiva, é a de 1882, selecionada por Reclus e Cafiero. Entretanto, esse mesmo título foi utilizado em outras três ocasiões: em 1895, por Nettlau, para uma seleção distinta da parte inédita de O Império Cnuto-Germânico; depois disso, quando editores combinaram excertos das duas versões (Reclus/Cafiero e Nettlau); e em 1938-39, também por Nettlau, como título do tomo IV das Obras, que contém toda a parte inédita de O Império Cnuto-Germânico e outros escritos de 1870 e 1871. (Péchoux, 1979, p. 53)

41 Os números de cartas e escritos, assim como as ondas de publicação, encontram-se em Péchoux, 1979. 42 Os seis volumes das Œuvres de Bakunin podem ser encontrados integralmente on-line.

que o parecer tenha sido favorável, os fundos não foram liberados e o projeto não foi levado adiante. Em 1923 – depois da descoberta, em 1920, da “Confissão” –, as Edições do Estado decidiram editar as obras de Bakunin sob a responsabilidade de Steklov, as quais tiveram quatro volumes publicados entre 1934 e 1935. Com a fundação do IIHS e a incorporação dos arquivos de Nettlau, não sem imensas dificuldades em função da ascensão do nazismo43, o

IIHS deu continuidade ao reestabelecimento, à manutenção e à tradução da obra de Bakunin. Os mencionados volumes do Arquivo Bakunin organizados por Lehning entre os anos 1960 e 1980 são parte importante do resultado desse trabalho. (Lehning, 1979a)

Entre 1919 e 1935 – excetuando a publicação dos três volumes, em alemão, das Gesammelte Werke [Obras Escolhidas], organizados por Erwin Rholfs e Nettlau, que disponibilizaram 31 novas cartas –, todas as novas publicações foram realizadas na Rússia. A União dos Anarquistas Russos publicou, entre 1919 e 1921, cinco volumes das Избранные сочинения [Obras Escolhidas], com 24 novos escritos; Polonsky, entre 1923 e 1933, três volumes dos Материалы для биографии М. Бакунина [Materiais para a Biografia de M. Bakunin], com 25 novos escritos; Kornilov, em 1925, Годы странствии Михаила Бакунина [Os Anos de Peregrinação de Mikhail Bakunin], com 193 novas cartas; Steklov, em 1934- 1935, os quatro volumes das Собрание сочинений и писем [Obras Completas e Correspondência], com 30 novos escritos e 341 novas cartas. Em 1938-1939, Nettlau publicou, na Espanha, quatro volumes das Obras, com 24 novos escritos.

Nos anos 1960 a 1980, destacam-se a publicação, na Holanda, e em seguida na França, dos Arquivos Bakunin, organizados e comentados por Lehning, com 60 novos escritos. No entanto, foi a última grande onda de descoberta das cartas, ocorrida entre 1944 e 1976 – na qual se recuperou a correspondência de Bakunin com os suecos, os finlandeses e com Serguei Netchaiev – que subsidiou um novo marco nas discussões.

Em 1962, quando os arquivos de Natalie Herzen puderam ser acessados, o historiador Michael Confino encontrou uma carta que Bakunin enviou a Netchaiev em junho de 1870. Até então, considerava-se que o famoso e polêmico documento “Катехизиса Революционера” [Catecismo do Revolucionário], de 1869, havia sido escrito por Bakunin. Em linhas gerais, esse texto – cuja carta encontrada por Confino comprovou ter sido produzido por Netchaiev (ainda que seja provável que ele tenha contado com contribuições de Bakunin na redação) – defendia, além de uma concepção exclusivamente destrutiva de

43 Que incluem a fuga da Áustria, protagonizada pela primeira bibliotecária do instituto, Annie Adama van

Scheltema-Kleefstra, portando os manuscritos de Bakunin obtidos por Nettlau, na ocasião em que os nazistas ocuparam Viena. Cf. https://socialhistory.org/en/about/history-iish.

revolução, uma noção de revolucionário amoral, que deveria estar disposto a tudo para promover a revolução, incluindo matar, explorar, enganar e chantagear pessoas aliadas e potencialmente aliadas.44 A atribuição desse documento a Bakunin foi o que subsidiou boa parcela dos argumentos acerca de seu autoritarismo e sua incoerência, quando, por exemplo, as propostas do “Catecismo” de 1869 eram comparadas a seus escritos públicos do período anarquista.

A partir dos anos 1960, em função dessa nova onda de cartas em geral e da correspondência com Netchaiev em particular – a qual, dentre outros temas, aborda com certa profundidade a concepção de organização política revolucionária de Bakunin –, tornou-se necessário rever as investigações e colocar em xeque boa parte dos juízos que haviam sido feitos sobre Bakunin.45

No entanto, ainda que a reconstituição do corpus bakuniniano estivesse, naquele momento, em fase de conclusão, havia outro problema: o acesso. Durante os anos 1980 era ainda necessário, para consultar sua obra completa, recorrer a inúmeros livros em distintos idiomas. Nas duas décadas que se seguiram, o IIHS esforçou-se por terminar a compilação de tudo o que havia sido encontrado e realizar a digitalização e a tradução dos escritos. Bakunin escreveu sobretudo em quatro idiomas: francês, russo, alemão e italiano. Os escritos foram, em sua grande maioria, escritos originalmente em francês; as cartas foram escritas, em geral, em russo e francês. Foi este o motivo que subsidiou a decisão do IIHS de publicar as obras completas em francês.

Esse esforço de compilação, digitalização e tradução da obra culminou em 2000, com a publicação do CD-ROM Bakounine: Œuvres Completes [Bakunin: Obras Completas], pelo próprio Instituto Internacional de História Social.46 Mais de 120 anos depois da morte de Bakunin, sua obra completa (ao menos, aquilo que restou dela) foi, finalmente, disponibilizada ao público, contando com imagens e as transcrições de 1200 cartas e 350

44 Em português, cf. Netchaiev, 1976.

45 A carta de Bakunin e Netchaiev de junho de 1870 foi publicada pela primeira vez como parte do “Dossiê

Bakunin e Netchaiev”, de Michael Confino, nos Cahiers du Monde Russe et Soviétique [Cadernos do Mundo Russo e Soviético] entre 1966 e 1967. Em português, cf. Bakunin, 2017a[c]. O dossiê de Confino, que discute a relação entre os dois revolucionários russos, foi posteriormente ampliado e publicado em livro (Confino, 1973). O volume 4 dos Arquivos Bakunin, intitulado “Michel Bakounine e ses Relations avec Serguej Necaev” [Mikhail Bakunin e suas Relações com Serguei Netchaiev] foi publicado por Arthur Lehning em 1971. A relação entre ambos, à luz das correspondências que vieram à tona nos anos 1960, foi também discutida por Paul Avrich (1974/1987) e Philip Pomper (1976).

46 Todos os esforços anteriores que se intitulam “obras completas” ou “obras” de Bakunin não contêm a

totalidade de seus escritos e cartas. O CD-ROM do IIHS é a única publicação com as obras completas de

Bakunin. Muitos de seus documentos encontram-se digitalizados e podem ser acessados em:

escritos redigidos entre 1823 e 1876.47 Tudo o que restou do corpus bakuniniano estava, com isso, reconstituído e disponível aos estudiosos do tema.

1.3 BAKUNIN NO SÉCULO XXI

A publicação das Obras Completas em 2000 deu um novo fôlego às pesquisas sobre Bakunin, em especial no campo dos autores simpáticos ao anarquismo. Desde então, vieram a lume ótimos estudos, muitos deles inovadores, que se estabeleceram como os melhores na área em que foram produzidos.

Em 2002, Paul McLaughlin publicou Mikhail Bakunin: the philosophical basis of his anarchism [Mikhail Bakunin: os fundamentos filosóficos de seu anarquismo], aquele que constitui, hoje, o melhor estudo no campo filosófico stricto sensu, e que se dedica a expor de maneira sistemática as concepções do materialismo naturalista e da dialética negativa de Bakunin, comparando-as ao pensamento de outros filósofos. Os fundamentos da discussão são os escritos mais especificamente filosóficos de Bakunin: o célebre artigo de 1842 “Die Reaktion in Deutschland, Ein Fragment von einem Franzosen” [A Reação na Alemanha, fragmento de um francês]48, e o escrito dos fins de 1870 intitulado “Considérations

Philosophiques sur le Fantôme Divin, sur le Monde Réel et sur l’Homme” [Considerações Filosóficas sobre o Fantasma Divino, o Mundo Real e o Homem], que deveria ser um

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