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Introdução É grande o interesse que, ao longo dos anos, o tema da qualidade de vida tem vindo a despertar, 

1.2 Principais debates e fracturas em torno do conceito de qualidade de vida

1.2.1 Abordagem objectiva versus abordagem subjectiva

Uma das discussões centrais na investigação sobre qualidade de vida é travada em torno da opção  que é assumida para orientar a abordagem: objectiva ou subjectiva. 

Para  os  que  privilegiam  a  abordagem  objectiva,  as  características  de  uma  “vida  boa”  para  as  populações,  estabelecidas  de  acordo  com  ideais  normativos  genericamente  aceites,  constituem  a  preocupação  central.  Nesta  formulação,  avaliar  a  qualidade  de  vida  passa,  em  grande  parte,  por  encontrar  as  medidas  (indicadores  sociais)  que  possam  traduzir  as  circunstâncias  de  vida  objectivas das pessoas, num vasto leque de domínios, e confrontá‐las com esses ideais.  

Já para os “subjectivistas”, influenciados pelo pensamento de Bentham e de Mill15, a qualidade de  vida das pessoas está relacionada com os seus estados subjectivos e, nessa medida, aquilo que se  deve  procurar  é  que  as  sociedades  sejam  constituídas  por  indivíduos  cada  vez  mais  felizes  e  satisfeitos.  Neste  caso,  são  os  próprios  indivíduos  que  podem  dar  conta  do  seu  bem‐estar,  expressando  sentimentos,  em  função  dos  seus  próprios  padrões.  Por  esta  via,  consegue‐se  determinar o bem‐estar subjectivo das populações, o qual, tendo a ver com estados de satisfação ou  de  felicidade,  não  deve  ser  confundido  com  episódios  emocionais  breves  ou  com  períodos  de  alegria ou felicidade circunstanciais (Watson, Pichler e Wallace, 2010). 

Partindo de diferentes definições de qualidade de vida, a abordagem dos indicadores sociais e, por  outro  lado,  a  abordagem  do  bem‐estar  subjectivo  conduzem  a  resultados  distintos  que  a  investigação empírica permitiu já comprovar não estarem directamente relacionados. Um exemplo 

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Nos séculos XVIII e XIX, Jeremy Bentham e John Stuart Mill encararam o bem-estar humano numa perspectiva dita “utilitarista”, considerando que o grande objectivo da vida humana era atingir a felicidade. Mill enfatizou a ideia de que para os indivíduos se sentirem felizes, mais do que o prazer físico, contava o prazer intelectual, espiritual e cultural. Propõe assim a visão eudaimónica de felicidade em que esta surge conotada com o desempenho de actividades virtuosas, no plano ético, intelectual e político.

frequentemente  apresentado  para  ilustrar  esta  conclusão  é  o  do  elevado  crescimento  dos  rendimentos nos países desenvolvidos na segunda metade do século passado, o qual não deu lugar  a uma progressão idêntica dos níveis de satisfação e de felicidade da população (Phillips, 2006).  As  condições  objectivas  não  determinam  directamente  o  bem‐estar  subjectivo  e  as  discrepâncias  existentes  entre  ambos  foram  já  muito  estudadas  e  encontram‐se  documentadas  em  muitos  trabalhos publicados (Cummins, 2000; Diener e Suh, 1997; Hagerty e Veenhoven, 2003; Michalos,  1985; Veenhoven, 2002). 

Num  esforço  de  conceptualização  das  diferentes  combinações  possíveis  entre  as  apreciações  objectiva e subjectiva da qualidade de vida, Zapf propõe, aliás, as quatro categorias representadas  no Quadro 1.1. 

Quadro 1.1 Categorias de bem-estar individual segundo Zapf

Condições de vida objectivas Bem-estar subjectivo

Bom Mau

Boas BEM-ESTAR DISSONÂNCIA

Más ADAPTAÇÃO PRIVAÇÃO

Fonte: Zapf (1984) in Rapley (2003, p. 31)

Este autor classifica como “dissonância” a situação que ocorre quando os indivíduos, não obstante  desfrutarem  de  boas  condições  de  vida  no  plano  objectivo,  se  manifestam  insatisfeitos.  A  outra  situação  em  que  se  verifica  uma  divergência  entre  os  resultados  da  abordagem  objectiva  e  subjectiva  é  o  que  Zapf  designa  por  “adaptação”,  isto  é,  quando  os  indivíduos  se  revelam  muito  satisfeitos  com  as  suas  circunstâncias  de  vida  muito  embora,  do  ponto  de  vista  objectivo,  estas  sejam claramente desfavoráveis. Rapley (2003) chama a atenção para a importância particular desta  categoria,  que  apelida  dos  “pobres  felizes”,  em  oposição  à  anteriormente  referida,  que  designa  como a dos “ricos infelizes”, referindo que esta conjugação serve geralmente de argumento aos que  consideram  que  a  avaliação  do  bem‐estar  subjectivo  não  pode  dispensar  a  abordagem  das  condições  objectivas.  Estes  enfatizam  sobretudo  o  risco  de  a  abordagem  subjectiva  não  detectar  situações  em  que  as  circunstâncias  concretas  são  muito  adversas,  escapando  a  uma  actuação  prioritária por parte das políticas públicas. 

Nos  dois  quadrantes  restantes  surgem  as  situações  em  que  as  condições  de  vida  objectivas  dos  indivíduos  e  os  sentimentos  que  estes  expressam  são  condizentes,  quer  quando  se  verifica  uma  conjugação  positiva  (categoria  correspondente  ao  “bem‐estar”),  quer  quando  tal  conjugação  é  negativa (categoria designada como “privação”). 

além de experiência de vida objectiva, suscitam o debate em torno da utilidade de cada um destes  enfoques quando em causa está a concepção e a avaliação de políticas públicas. 

Cada uma destas abordagens tem, na verdade, os seus pontos fortes e as suas limitações, e torna‐se  fundamental perceber exactamente em que circunstâncias e face a que objectivos cada uma delas se  revela vantajosa e apropriada. 

Num  artigo  muito  citado  na  literatura,  Diener  e  Suh  (1997)  colocam  em  evidência  vários  pontos  fortes  e  fracos  de  cada  uma  destas  abordagens.  No  Quadro  1.2  procurou  sintetizar‐se  essa  avaliação. 

Quadro 1.2 Pontos fortes e fracos das abordagens objectiva e subjectiva, segundo Diener e Suh

Pontos Fortes Pontos fracos

Indicadores sociais

Objectividade Falíveis

Tradução dos ideais normativos Subjectividade das escolhas das variáveis e dos métodos de cálculo

Multidimensionais Dificuldade em estabelecer níveis óptimos e trade-offs entre valores

Indicadores de bem-estar subjectivo

Tradução dos sentimentos das pessoas Instáveis

Flexibilidade metodológica Imprevisíveis

Facilidade de comparação entre

domínios (a mesma métrica) Importância relativa

Fonte: Elaboração própria a partir de Diener e Suh (1997)

A  objectividade  constitui,  ela  própria,  um  valor  que  se  encontra  incorporado  nos  indicadores  sociais.  Não  sendo  baseados  em  percepções  individuais,  mas  em  medidas  estatísticas,  os  indicadores  sociais  são,  em  regra,  facilmente  definidos  e  quantificados,  o  que  do  ponto  de  vista  técnico facilita as análises comparativas em termos temporais e entre diferentes unidades espaciais  (designadamente as comparações internacionais)16

O  facto  de  os  indicadores  sociais  reflectirem  os  ideais  normativos  da  sociedade  e  não  exclusivamente os aspectos que contribuem para a felicidade individual torna‐os, por outro lado, 

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Há na literatura muitas chamadas de atenção para os limites desta “objectividade”, já que a própria escolha dos indicadores e a sua leitura introduzem, necessariamente, elementos de subjectividade a esta informação.

ferramentas capazes de dar conta de um leque muito mais diversificado de condições que, numa  lógica social, correspondem a valores largamente partilhados. 

E  justamente  porque  permitem  apurar  medidas  relacionadas  com  muitos  domínios  da  vida  das  populações, fornecem perspectivas da realidade que inevitavelmente escapam, quer a indicadores  de natureza subjectiva, quer às tradicionais medidas de natureza económica. 

Aos indicadores  sociais  é, contudo, igualmente reconhecida  uma  série  de  limitações.  Uma dessas  limitações resulta do facto de serem medidas falíveis, isto é, sujeitas a problemas relacionados com  o  próprio  processo  de  medição  dos  fenómenos,  que  podem  colocar  em  causa  a  sua  suposta  objectividade e utilidade. Quando, por exemplo, se recorre à taxa de criminalidade registada para  avaliar os níveis de insegurança verificados numa cidade pode, ou não, estar a usar‐se uma medida  adequada. Com efeito, em contextos socioculturais em que muitos dos incidentes criminais não são  reportados  às  autoridades  policiais,  esta  taxa  de  criminalidade  pode  traduzir  valores  que  estão  longe  de  corresponder  à  realidade  que  se  vive.  Pode  mesmo  acontecer  que  a  taxa  calculada  se  aproxime  de  valores  registados  num  outro  centro  urbano  em  que  os  níveis  de  insegurança  são  realmente  mais  baixos  mas  em  que  exista  um  comportamento  generalizado  de  denúncia  da  ocorrência de crimes. Aquilo que se verifica é, de facto, que os indicadores sociais, para poderem  ser correctamente interpretados, exigem muitas vezes informação complementar que nem sempre  se encontra disponível ou facilmente acessível. 

Também  pode  ser  considerada  uma  fragilidade  dos  indicadores  sociais  o  facto  de  a  selecção  das  variáveis  e  dos  métodos  de  cálculo  implicar  escolhas  que  são  necessariamente  subjectivas.  Recuperando  o  exemplo  da  taxa  de  criminalidade,  torna‐se  claro  que  a  objectividade  deste  indicador fica posta em causa quando ele é utilizado para comparar países que não têm o mesmo  entendimento  quanto  aos  tipos  de  crimes  que  devem  ser  considerados  para  efeitos  de  determinação desta taxa. 

Uma  outra  limitação  que  é  reconhecida  prende‐se  com  as  dificuldades  de  estabelecer,  de  uma  forma  inequívoca,  limiares  desejáveis  para  os  indicadores.  Um  exemplo  interessante  de  uma  medida muito comum é o da esperança média de vida, a qual está associada a um valor que não  oferece contestação: o prolongamento da vida humana. Pode, contudo, ser discutido qual o valor  que se considera ideal, uma vez que aumentar a longevidade poderá significar manter as pessoas  vivas,  apesar  destas  se  encontrarem  muito  incapacitadas  fisicamente  ou  gravemente  senis.  Esta  questão é, de resto, a que está subjacente ao esforço de construção de outras medidas alternativas  neste domínio, como é o caso da “esperança de vida activa” (Fahey, Nolan e Whelan, 2003). 

Quanto aos indicadores de bem‐estar subjectivos, aquele que parece ser o seu maior ponto forte é,  sem  dúvida,  o  de  traduzirem  os  sentimentos  das  pessoas  sobre  as  suas  próprias  condições  e  experiências de vida, algo que através da abordagem objectiva não pode ser captado directamente.  Para além deste, outros pontos fortes podem ser apontados. A sua capacidade de ajustamento nas  situações  em  que  se  detectam  problemas  metodológicos  na  sua  construção  é,  em  geral,  maior  do 

adoptadas  facilmente  as  reformulações  efectuadas,  uma  vez  que  são  os  próprios  investigadores  que  aplicam  as  medidas  subjectivas  e  deste  modo  podem  eles  próprios  introduzir  esses  ajustamentos.  Tal  não  acontece  quando  se  usam  indicadores  sociais,  já  que  na  maior  parte  das  situações estes são definidos e compilados por instituições produtoras de informação.  

Por outro lado, é inegável a facilidade com que indicadores subjectivos, como é o caso dos níveis  de  satisfação,  podem  ser  usados  para  realizar  comparações  entre  as  apreciações  individuais  relativas  a  diferentes  domínios  (rendimento,  vida  familiar,  ambiente,  …),  o  que  não  acontece  quando se usam indicadores objectivos expressos, geralmente, em unidades de medida distintas.   Sobre as medidas subjectivas incidem, porém, várias críticas e apreciações menos positivas. 

Em  primeiro  lugar,  trata‐se  de  medidas  instáveis,  já  que  múltiplos  factores  (entre  os  quais  a  situação concreta em que a apreciação do indivíduo é feita, variações de humor ou circunstâncias  de vida transitórias) podem ter influência no nível de satisfação ou de felicidade que é expresso em  dado  momento.  Para  obviar  a  este  problema,  sempre  que  possível,  devem  ser  usados  distintos  tipos de informação, recolhidos através de metodologias diferentes. 

Por  outro  lado,  são  medidas  imprevisíveis  na  medida  em  que  podem  verificar‐se  diferenças  nas  apreciações dos indivíduos que partilham idênticas condições e circunstâncias de vida objectivas,  por  interferência  de  diferentes  causas,  como  sejam  a  própria  genética,  o  temperamento  e  a  personalidade e os valores culturais, mas também processos de adaptação, associados a aspirações  e expectativas. 

Relativamente  ao funcionamento  destes  processos de  adaptação,  já  atrás  mencionados,  Cummins  (2003;  2000)  propõe  a  “Teoria  da  Homeostase”.  De  acordo  com  esta  teoria,  o  organismo  humano  dispõe  de  um  mecanismo  regulador  da  satisfação  pessoal  que  actua  de  forma  idêntica  ao  mecanismo que regula a pressão sanguínea, por exemplo, e que explica que o bem‐estar subjectivo  se mantenha dentro de uma dada amplitude de variação. O objectivo deste controlo homeostático é  fazer  com  que  os  seres  humanos  consigam  manter  sentimentos  positivos  sobre  eles  próprios  e  sobre  as  suas  vidas  perante  condições  e  circunstâncias  objectivas  desfavoráveis.  De  acordo  com  estudos realizados por este autor, a população ocidental apresenta níveis de satisfação globais com  a  vida  que  variam  entre  70  e  80%  (numa  escala  de  1  a  100%).  Tal  não  significa  que  as  condições  objectivas e o bem‐estar subjectivo sejam independentes. Este mecanismo pode deixar de funcionar  caso a adaptação dos indivíduos seja comprometida pela exposição crónica a condições objectivas  muito desfavoráveis. 

Veenhoven é um outro autor que confrontou medidas objectivas e subjectivas. Na leitura que faz,  releva dois tipos de diferenças. Uma primeira distinção estabelece‐se em termos mais substantivos  daquilo  que  é  efectivamente  medido:  “Objective  indicators  are  concerned  with  things,  which  exist  independent  of  subjective  awareness”  (Veenhoven,  2002,  p.  35).  A  segunda  diferença  prende‐se  com  a  própria  avaliação:  “Objective  measurement  is  based  on  implicit  criteria  and  performed  by  external  observers,  (...)  subjective  measurement  involves  self‐reports  based  on  implicit  criteria”(id.,  ibid.,  ibid.). 

Sublinha, depois, que as diferenças em termos da essência do que é medido e a forma de medição  podem não ser coincidentes. 

Na Figura 1.1 encontram‐se representadas todas as combinações possíveis. 

Figura 1.1 Configurações das diferenças objectivo-subjectivo, segundo Veenhoven

Avaliação Objectiva Subjectiva Substância Objectiva Subjectiva Fonte: Veenhoven (2002, p. 36) Este autor fornece uma série de exemplos para demonstrar as combinações representadas na figura  anterior. Nos dois quadrantes superiores inscrevem‐se aspectos extrínsecos como a condição física  ou  a  posição  social,  sendo  que  na  posição  da  esquerda  se  conjugam  aspectos  cuja  substância  é  objectiva com avaliações de natureza objectiva. Ilustra este caso a riqueza material de uma pessoa  contabilizada  através  do  valor  da  sua  conta  bancária.  No  quadrante  superior  direito  poderia  figurar a avaliação da riqueza de uma pessoa mediante a sua própria apreciação individual. 

Quanto  aos  dois  quadrantes  inferiores  dizem  respeito  a  aspectos  eminentemente  subjectivos,  tais  como  a  identidade,  a  felicidade  ou  a  confiança.  Também  neste  caso,  podem  ser  efectuadas  medições  de  natureza  objectiva  e  subjectiva.  No  rectângulo  inferior  esquerdo  verifica‐se  uma  combinação  entre  um  aspecto  subjectivo  com  uma  medida  objectiva  –  um  exemplo  seria  o  de  avaliar a felicidade através da taxa de suicídio – e, no da direita, um aspecto subjectivo com uma  avaliação subjectiva, como seria a situação em que se medisse a felicidade auto‐revelada. 

Veenhoven reforça no esquema a intensidade de cor para assinalar as situações em que as medidas  subjectivas  inspiram  maiores  dúvidas  e  reticências,  as  quais,  segundo  ele,  são  as  que  acumulam 

dois tipos de problemas. Do ponto de vista teórico, alerta‐se para que estas são medidas instáveis  ao  longo  do  tempo,  incomparáveis  entre  indivíduos  e  ininteligíveis  (o  processo  que  determina  a  apreciação  é  complexo  e  em  parte  inconsciente).  Acrescenta‐se  que  estas  têm  pouco  a  ver  com  a  realidade,  como  se  demonstra  pela  sua  débil  correlação  com  os  indicadores  sociais,  e  ainda  que  podem ser incorrectas, usando‐se, neste caso, a acusação de que podem ser reveladoras de “falsas  consciências”.  Do  ponto  de  vista  do  método,  reconhece‐se  que  a  auto‐revelação  é  uma  via  imprecisa para se obter informação, pois frequentemente as respostas dadas pelos indivíduos não  têm  a  ver  com  a  questão  que  está  sob  investigação.  Trata‐se,  ainda,  de  uma  via  vulnerável  a  distorções,  já  que  as  escalas  mentais  variam  de  pessoa  para  pessoa,  o  que  leva  a  que  um  determinado score de satisfação possa estar associado a intensidades muito diversas. 

Apesar  de  identificar  todas  estas  limitações,  Veenhoven  é  claro  na  evocação  que  faz  de  todo  um  conjunto  de  argumentos  que  o  levam  a  considerar  que  em  relação  aos  indicadores  objectivos,  os  indicadores  subjectivos  acrescentam  elementos  novos  que  são  de  grande  utilidade  ao  nível  dos  processos  de  decisão.  Um  dos  contributos  diz  respeito  ao  apoio  à  definição  dos  objectivos  das  políticas.  Os  indicadores  subjectivos  permitem  reconhecer  não  só  os  níveis  de  satisfação  das  pessoas, mas também aquilo que elas mais valorizam e a que mais aspiram em termos do seu bem‐ estar e, nessa medida, podem ajudar a que as preferências dos destinatários das políticas estejam  mais  eficazmente  reflectidas  nos  objectivos  traçados  (Martins  e  Marques,  2009).  Um  segundo  contributo  prende‐se  com  a  avaliação  do  desempenho  das  políticas.  Apesar  de  o  sucesso  na  implementação das estratégias e programas de intervenção poder ser, regra geral, medido através  de  indicadores  objectivos,  estes  nem  sempre  são  capazes  de  captar  cabalmente  os  resultados  obtidos.  No  caso  de  uma  política  de  promoção  da  saúde  pública,  indicadores  objectivos  relacionados, por exemplo, com a incidência de determinadas doenças ou com a esperança média  de vida revelam‐se muito limitados para avaliar o progresso registado, sobretudo se o horizonte da  análise não for muito dilatado. Neste caso, a avaliação poderá ser mais conclusiva caso se adoptem,  igualmente, medidas em que se auscultem directamente os cidadãos sobre o seu grau de satisfação  neste domínio. 

Para  além  dos  novos  elementos  que  aportam,  as  medidas  subjectivas,  ainda  de  acordo  com  Veenhoven  (2002),  constituem  uma  alternativa  válida  para  ultrapassar  limitações  das  medidas  objectivas,  como  seja  a  dificuldade  de  expressarem  determinados  fenómenos  (por  exemplo,  a  insegurança  urbana  tem  uma  componente  relacionada  com  a  percepção  dos  cidadãos  que  dificilmente  pode  ser  avaliada  através  de  medidas  objectivas)  e  as  dificuldades  de  agregação.  Relativamente  a  este  último  aspecto,  verifica‐se  que  a  facilidade  com  que  as  pessoas  podem  traduzir a sua apreciação global relativamente a um determinado aspecto não é, em muitos casos,  reproduzível  quando  se  recorre  a  indicadores  objectivos,  os  quais,  pela  sua  natureza,  tendem  a  fornecer uma informação mais compartimentada. A solução que neste caso tende a ser adoptada é 

a da construção de índices compósitos, os quais, por sua vez, levantam outro tipo de problemas,  designadamente em termos dos critérios de selecção das variáveis e da sua ponderação 17 

Perante todo este tipo de argumentação, tem vindo a ganhar adesão a ideia de que é a combinação  das  duas  abordagens  –  objectiva  e  subjectiva  –  que  pode  abrir  caminho  a  uma  mais  completa  avaliação  do  conceito  de  qualidade  de  vida  (Diener  e  Suh,  1997;  Fahey,  Nolan  e  Whelan,  2003;  Phillips, 2006; Veenhoven, 2002; Watson, Pichler e Wallace, 2010). Através da abordagem objectiva  podem  conhecer‐se  as  condições  de  vida  de  uma  sociedade,  mas  é  através  da  avaliação  do  bem‐ estar subjectivo que se podem captar as opiniões, apreciações, sentimentos e valores das pessoas e  o modo como estas encaram as suas próprias experiências individuais. Como se viu, a informação  global sobre níveis de satisfação ou de felicidade pode não ser muito conclusiva, isoladamente. No  entanto,  a  possibilidade  de  se  cruzar  os  níveis  de  satisfação  relativos  a  domínios  específicos  com  informação  sobre  as  condições  de  vida  objectivas  nesses  mesmos  domínios  revela‐se  uma  via  fundamental  para,  por  exemplo,  aprofundar  o  conhecimento  sobre  a  forma  como  as  pessoas  valorizam  o  seu  trabalho,  a  sua  família,  a  sua  vida  comunitária,  ou  seja,  para  se  compreender  melhor as determinantes da qualidade de vida. 

A  importância  desta  complementaridade  é  claramente  apresentada  por  Phillips  (2006,  p.  31):  “...even though subjective well‐being cannot be a sufficient criterion of quality of life, any measure of quality  of life that took no account at all whether a person was miserable or dissatisfied would surely be lacking an  important dimension”. 

Apesar  do  consenso  que  a  ideia  tem  gerado,  a  verdade  é  que  do  ponto  de  vista  prático  a  complementaridade de abordagens nem sempre é posta em prática. Os indicadores de qualidade  de  vida  objectivos,  privilegiados  sobretudo  pelos  especialistas  de  áreas  disciplinares  como  a  economia, a geografia e o planeamento, têm vindo a ser mais usados em estudos à escala do bairro,  da  cidade  e  do  país,  enquanto  os  indicadores  subjectivos,  mais  da  preferência  de  psicólogos  e  sociólogos,  têm  constituído  uma  ferramenta  para  avaliar  a  qualidade  de  vida  a  nível  individual,  isto  é,  enquanto  experiência  introspectiva  individual  (Seik,  Yuen  e  Chin,  1999).  E  as  várias  disciplinas  interessadas  no  estudo  da  qualidade  de  vida,  pouco  sensíveis  à  possibilidade  de  incorporar  desenvolvimentos  de  outros  campos  de  investigação,  têm  investido,  sobretudo,  no  aprofundamento  da  análise  e  da  inovação  metodológica  dentro  da  sua  linha  de  trabalho  “tradicional”. A este propósito, reconhece Rapley no prefácio do seu livro “Quality of Life Research”  (Rapley,  2003):  “(...)  the  various  social  scientific  literatures  conduct  their  own  quality  of  life  debates  in  isolation  from  each  other,  and  sub‐areas  within  each  field  show  little  appreciation  of  work  in  adjacent  specialisms”. 

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