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autoridade do rei como soberano e sacerdote, manifesta na Carta.Vide, «O Destino Etíope do Preste João,

Condicionantes Culturais da Literatura de Viagens...,p.250; por outro lado Adriano Prosperi afirma acerca das

estratégias de conversão:«Nessa época, o princípio segundo o qual os príncipes deviam ser conquistados com todas as artes possíveis era algo de óbvio, e a arte que então dominava era a da direcção das consciências. Dominar a

consciência dos príncipes equivalia a governar através deles, e, como o fim era bom(...) [a salvação das almas], também os meios deviam ser considerados bons.», op. cit.,p.165

614 Ibd.,p. 9

615 Ibd.,p. 154 e ainda « As fabulas e mentiras de João Balthazar ( se todas são suas ) q moverão a frei Luiz de Urreta a escrever sobre esta materia hu cap.º mui comprido [ a suposta livraria de Guixêm Ambâ , existentes nas Igrejas ] , me obrigarão a mim a fazer este, (...), nem fora necessaria muita escritura, se se ouvera de contar singelamente a verdade do q passa; porq diz muitas coisas tão fora della , q não he bem q fiquem sem se declarar (...)»;« Se foi comprido frei Luiz de Urreta em fallar da livraria de Guixêm Ambâ, muito mais o he em tratar dos thesouros, (...) porq faz dous Cap.os, 10 e 11, sobre esta materia tão compridos, q não he pequena penitencia serlhe forçado ler os aquem tem outras cousas q fazer, principalmente se sabe quam fabulosas sejam todas quantas nelles diz (...)», Ibd.,p. 80 e 85

man.ra, senão q se confundio com os papeis de João Balthasar,(...) e acreçentou

m.to mais assi como a outras cousas q lhe disse João Balthasar(...)»617.

Se os conhecimentos jesuítas desautorizam a versão de Urreta, é necessário repor a verdade, com â experiência adquirida no terreno. Para além de pequenos textos críticos, como o de Fernão Guerreiro, Nicolau Godinho (que, de resto não estiveram na Etiópia) e Manuel Barradas ou a polémica desaparecida de Diogo de

Couto, referida por Manuel Severim de Faria618, a refutação mais sistemática e

pormenorizada da obra do frade domnicano pertence ao P.e Pêro Pais619.

A origem do pedido ou ordem para a redacção da obra de Pais é difícil de apurar: segundo Hervé Pennec, não se encontra na correspondência do Geral da

Companhia, Claudio Aquaviva620. Mas no Prólogo da obra, Pais refere que se

dedicou à sua execução, «(...)por me encarregar o Padre Provincial da India [o P.e Francisco Vieira] q o fizesse(...)»621.

Também dificilmente se estabelece uma data precisa para a sua redacção. Alberto Feio considera que Pais teria começado a recolher notas e a escrever desde 1607 (embora evidentemente sem ligação a Urreta que ainda não havia publicado a sua obra) com base numa referência de uma carta do P. Luís de Azevedo e numa relação enviada ao Provincial por Pais, Relaçam da entrada dos P.es da Compoª de

Jesu em Aethyopia, e de alguas cousas que nella fiçeram (1608-1609)622. No entanto, mais recentemente, Hervé Pennec infere a data do início da sua redacção a partir da provável chegada à Etiópia da obra de Urreta, c. de 1613 (assim como a compilação de Fernão Guerreiro, que faria parte do mesmo lote de livros) e de referências ao trabalho a levar a cabo em duas cartas, uma dirigida ao provincial de Goa e outra ao

seu mestre, Tomás de Ituren, de 1615 623.

Depois de estudar com cuidado os obras de Urreta e de enviar um relatório ao Provincial, Pais terá sido encarregue da redacção da obra624, tarefa que se estendeu até 1622, tendo coincidido praticamente com a data da sua morte (a mais

617 Ibd.,p. 285

618 Cfr., Cap. I, pp.28-30

619 Rui Manuel Loureiro Levanta a hipótese de uma relação intertextual entre as duas obras ( a de Couto e a de Pais), dado o carácter polémico que preside à construção da obra. Vide, Rui Manuel Loureiro, op cit.,p. 72

620 Hervé Penn, op. cit. p.247 621 Pais, op.cit.,p.3

622 Alberto Feio, op. cit., p.XXX

623 Vide, Hervé Pennec, op cit, pp.249-250 624 Cf., ibd.p. 251

provável é 20 de Maio do mesmo ano625 ) . A dedicatória ao geral da Companhia, Mutio Vitelleschi do manuscrito existente nos arquivos da Companhia de Jesus em Roma, tem precisamente esta data embora alguns autores situem o dia da sua morte no início do mês. De qualquer forma essa página manuscrita apresenta algumas linhas truncadas e as cinco últimas são escritas por uma mão diferente, assim como a

data e a assinatura. Possivelmente devem-se ao superior da missão P.e António

Fernandes que assistiu Pais nos seus últimos momentos, e cuja letra apresenta grande similitude com a caligrafia dessa linhas626.

A questão da sua finalização pode ser discutível uma vez que a obra permanece na Etiópia até 1624, ou bloqueada pelo superior, ou dependendo da finalização da redacção do Livro II, a partir de notas que Pais havia ditado ou mais provavelmente deixado apontado, uma vez que o estilo e a estrutura permanecem idênticos ao resto da obra, diferindo apenas a letra do manuscrito. O final do segundo Livro pode ter sido redigido pelo P. Manuel d’ Almeida, que chega à Etiópia nesse ano. Conhecedor da obra, Almeida propõe mesmo a sua impressão e até tradução para latim, para permitir uma mais fácil divulgação do obra, sublinhando o facto de a crítica a Urreta ser feita por outro espanhol, o que afastaria qualquer ideia de preconceito por parte dos membros portugueses da Companhia, como afirma numa

das suas cartas627, juntamente com a qual terá remetido o manuscrito de Pais para a

Índia (Maio de 1624).

Uma vez na Índia é possível que ficasse na posse do novo patriarca da Etiópia, D. Afonso Mendes, na residência de Baçaim, onde terá sido consultado. Mas o manuscrito não seguiu para a Europa; pelo contrário, terá retornado com o patriarca à Etiópia cerca de 1625. Com efeito, segundo Hervé Pennec « (...)à la difference du rapport favoráble de d’Almeida pour une édition et large diffusion en Europe, il jugea l’oeuvre inadaptée à une publication. Il y aurait eu un second blocage dés 1624, un processus de censure dans les millieux jésuites de l’ Inde `l’

égard de l’ Historia de Ethiopia de Pero Paes.»628 Existe pois, na opinião deste autor

, uma censura implícita e comprovada pelo posterior pedido de reescrita da obra a Manuel d’ Almeida. Este, mudando de opinião acerca das qualidades do manuscrito,

625 Ibd.,p.252

626 Cf., Ibd., pp.

627 Ap.,Hervé Pennec, op.cit., ., pp. 256-257 628 Ibd., p.259

refere na sua correspondência, a não publicação da Hitoria de Pais por ter ficado

inacabada ou estar mal estruturada ou apresentar incorrecções no seu português629.

Joaquim Romero de Magalhães, sugere que a sua não publicação se deve à falta de interesse na questão da Etiópia, especialmente após a expulsão dos Jesuítas630.

Hervé Pennec propõe outra explicação para as causas do seu arquivo e esquecimento a que foi votada:«(…) le principal étant l’incompatibilité entre la

refutatio et l’histoire.(…) C’était une réfutation qu’on lui avait commandée et pas une refutation-histoire. Or Paes proposait une formule tout à fait nouvelle: une histoire au ressort polémique.»631. Esta postura não seria, segundo Hervé Pennec, comportável para a mentalidade jesuíta da época. Uma coisa era o exercicío da polémica, outra a escrita da história, utilizando o estilo correcto; «(...) elle doit être écrite dans une langue subtile, plus recherchée et correcte, agrémentée de nombreuses références aux Anciens, aux Écritures et être cohérente et ordonée

(...)»632. Assim a obra de Pais, não satisfazendo os objectivo dos seus superiores no

Oriente, é vetada pela assembleia reunida em Gorgora no Natal de 1625 a propósito

da prática anual dos Exercícios Espirituais633. Sublinha-se a actuação neste processo

do P. António Fernandes, também ele a braços com uma obra de refutação dos erros religiosos dos etíopes, que ao contrário da de Pais, será publicada634.

Desta forma a não publicação da História de Etiópia prende-se, para Pennec, com a inadequação do seu modelo, que conciliava a polémica com a escrita da história. De facto, Manuel d’Almeida na sua reescrita, abandona a polémica, que remeterá para um apêndice, mas manterá as restantes informações, especialmente os dados sobre a terra.

Por outro lado talvez o seu conteúdo não fosse o exactamente desejado pela Companhia e autoridades portuguesas: para contrariar Urreta, há um certo tom contraditório entre os supostos êxitos da missionação católica e a referência à dificuldade encontrada no seio de uma cultura antiga para implantar uma nova

629 ap., Ibd.,pp. 264 e 268

630 « Que a História da Etiópia (…) tivesse ficado em manuscrito e sem divulgação (…) diz bem do pouco interesse que a partir do século XVII havia em Portugal pela terra do Preste João. (…) A Abissínia ficava longe, sem proveito para as necessidades imediatas do império português. (…) representava afinal um saber supérfluo.», J. Romero de Magalhães , « As Incursões no Espaço Africano- A Abissínia » in História da Expansão Portuguesa, vol II, p.78

631 Hervé Pennec, op cit, p. 264 632 Ibd., p. 265

633 Cf. ibid., p.265 634 Vide, Cap. I, p. 47

concepção religiosa que afectava costumes arreigados. Como nos diz o próprio Pais

no final da sua obra, a despeito da vontade e esforços do Imperador635.

Ou talvez a Historia fosse, simplesmente demasiado extensa e o seu conteúdo demasiado confuso e heterogéneo, para o “mercado” editorial da época. A tese da incompletude, imperfeição, e pobreza de estilo da obra de Pais foi aceite durante um largo período. Sabia-se da existência dessa obra, que teria estado na base da de Almeida, por sua vez depurada por Telles, sendo esta última unânimente

aceite636.A utilidade do manuscrito de Pais era a de ter servido de fonte de

informação para os escritos posteriores, embora certos autores denotassem que a

passagem publicada por Kircher637, retirada de Pais não coincidisse com a de

Almeida638.

A obra que tantos anos de vida e pesquisa haviam custado ao P. Pais é remetida aos arquivos da Companhia em Roma ( ARSI, Goa 42 ). Mas existe um segundo manuscrito. Trata-se de uma cópia que pode ter sido feita depois do envio para a Índia do manuscrito original, pois uma nota que Afonso Mendes ali teria redigido é igualmente copiada neste segundo manuscrito. Outra possibilidade

proposta por Pennec é a de este poder ter sido também redigido na Etiópia639. Esta

hipótese tem por base a semelhança entre a caligrafia do segundo manuscrito e a do

final do Livro II, transcrito na Etiópia após a morte de Pais 640. Nessa letra aparecem

notas e correcções à margem do manuscrito original, que são transcritas também no segundo, sendo para aquele autor, da autoria de um membro da missão. Após a expulsão da missão católica, o manuscrito deverá ter sido depositado no Colégio de

Rachol641. Trata-se do manuscrito do Arquivo Distrital de Braga ( ADB, Ms 778)

642.

635 «(...)cõ tudo isso não pode effeituar o q pretende, porq, ainda q desta maneira tenha acquirido a si m.tos, os mais dos frades, e clerigos estão muy pertinazes, e continuamente andão amotinando o povo ignorante, e ainda a m.tos dos grandes metem em cabeça q nossa fee he falsa, e q há excomunhão cõtra os q ouvem nossa doutrina, e q o Emperador, e Erâz Cela Christôs, seu irmão te trocado sua antiga fee, e pretendem q todos a troquem, co q cada dia fazem alevantar cõtra o Emperador novas e perigosas embrulhadas.», Pais,op.cit.,Vol.III, p.247

636 Vide, Cap. I, pp,46 e 48 637 Vide, ,Cap. II, p. 61

638 Cf., M. W. Desborough Cooley, «Notice sur le Pére Pedro Paez», Bulletin de la Sociéte´de Geographie, 1872, pp.533/545; Inocêncio Francisco da Silva e Brito Aranha, Dicionário BibliográficoPortuguês e Audrey Bell, A

Literatura Portuguesa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1931,pp.268/269

639 Hervé Pennec, op.cit.,nota 58,p.258

640 Idêntica hipótese é subscrita por Alberto Feio, op cit.,p.XXVII

641 Vide, Alberto Feio, «Introdução» in, Pêro Pais, Historia de Etiópia, Vol. I, p.XXIX

642 Importa sublinhar o importante espólio relativo à missão jesuíta deste arquivo : além da obra em questão, possuí uma colecção de cartas ânuas ( ADB 779 ), de 1607 a 1653 , em grande parte inéditas, salvo a selecção publicada por Aurélio de Oliveira em 1999. A colecção incluí uma carta assinada por Pais de 1608, que comprova a autenticidade do manuscrito de Roma. Parece ter advindo da Royal Society ( para onde poderão ter sido levadas por qualquer curioso inglês que os poderia ter adquirido de passagem na Índia portuguesa, após a expulsão jesuíta no século

Apenas no século XX foram publicados ambos os manuscritos. O de Roma, foi redescoberto pelo erudito jesuíta Camilo Beccari e incluido na colectânea Rerum

Aethiopicarum scriptores occidentales inediti, Tomos II e III, Roma, publicado a

partir de 1904-1905643. Pais é, desta forma, revelado à comunidade científica, como

assinala F.M. Esteves Pereira num artigo coevo644. Quanto à cópia da Índia, o

chamado códice do Conde da Barca, pois integrou o seu espólio, sendo adquirido pelo Arquivo Distrital de Braga, foi publicado entre 1945 e 1946, em três volumes, no Porto645 A existência de prováveis erros (por exemplo quanto ao género) ou a ausência de um critério quanto à grafia de palavras, que tanto aparecem abreviadas como por extenso ou à utilização indiscriminada de maiúsculas e minúsculas, parecem atestar uma cópia paleográfica do manuscrito. Esta edição não incluí aparato crítico. Alberto Feio refere as consideráveis diferenças em relação à edição de Beccari, não tendo sido efectuado, no entanto, um confronto entre as duas. Não se conhecendo nova publicação até à data, embora pareça estar no prelo uma nova

edição crítica646, valemo-nos desta edição, a única disponível.

Vejamos agora com maior pormenor a obra redigida por Pais e algumas características da sua escrita. Como vimos esta faz parte integrante das funções do missionário jesuíta. A sistematização da informação escrita, é uma componente determinante nos procedimentos da Sociedade de Jesus, cujos membros estão fortemente ligados à cultura escrita. Se o pretexto da obra de Pais é a resposta ao livro de Urreta, o missionário, supera este propósito escrevendo uma Historia, mais complexa, que excede largamente o objectivo inicial. Se, por um lado, existe uma concepção de História influenciada pelos modelos clássicos para descrever os feitos