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A simples menção da palavra "profeta" promove, indubitavelmente, uma série de sugestões, sendo ela vinculada de imediato às idades bíblicas. Co- mumente se aceita que profetas foram somente aqueles que aparecem no Velho Testamento, narrando as horripilantes e trágicas passagens de seus sonhos ou visões, as quais, mesmo sendo de um gênero incompreensível, não foram por isso menos exatas no cumprimento do que, segundo esses mesmos sonhos ou visões, devia acontecer, de acordo com a interpretação das figuras alegóricas que se movem no plano mental, onde, tal como re- zam as Escrituras, os espíritos daqueles famosos profetas faziam suas in- cursões. Segundo a acepção corrente, profeta é aquele que prediz as coisas por inspiração divina, e profecia, a predição inspirada por Deus. Disso se depreende, naturalmente, que ninguém, à exceção daqueles privilegiados por tal inspiração, poderia alcançar tão alta posição hierárquica na ordem mística em que são considerados.

A Logosofia discorda dessa crença e demonstra que todos os seres humanos podem possuir esse dom, que, por certo, não é exclusivo das excelsas regiões do espírito divino, e constitui um fato possível e expli- cável para os que sabem entender sem as obscuridades do preconceito e do fanatismo religioso.

Se admitimos que tudo foi criado pela todo-poderosa Vontade do Criador, devemos admitir também que a Criação foi plasmada no espa- ço depois de ter sido concebida na mente de Deus. Negá-lo, alegando ignorância, seria um ato de perfídia e nossa consciência não poderia permitir semelhante intenção. E, já que a Criação antes de existir teve seu princípio e se originou na mente do Criador, este fato nos eviden- cia que tudo o que foi criado tem um nome, e esse nome adquire vida num pensamento, e esse pensamento se enrama num conhecimento, o

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qual por sua vez se entronca num corpo-mãe universal que se denomi- na Sabedoria. Isso quer dizer que tudo quanto existe, desde o infinita- mente pequeno até o infinitamente grande, obedece ao pronunciamen- to de leis sabiamente codificadas pela Vontade Suprema.

Penetramos no segredo dessa Criação começando por conhecer a parte de Criação que há em nós mesmos. O ser humano tem a seu al- cance, para pronunciar-se em estudos profundos, um retalho da Natu- reza que mantém vivo o pensamento de Deus na existência criada. E está tão a seu alcance, que sente palpitar dentro dele mesmo a vida do pensamento que o anima. Ao mesmo tempo que o sente, experimenta a realidade de sua existência, uma vez que esse mesmo pensamento lhe permite pensar que ele próprio existe e que também existe a Criação.

Entre Deus e o homem medeia uma incomensurável distância, dis- tância que este deve percorrer através de todos os ciclos de sua existên- cia. O caminho, na verdade, é longo, e às vezes escabroso, porém tem a particularidade de haver sido traçado sobre extensas zonas extrema- mente férteis, nas quais foi semeada uma enorme variedade e riqueza de conhecimentos. A rota estende-se a horizontes que se ampliam até alcançar o âmbito do infinito. Assemelha-se a uma larga faixa prateada que, em suas curvas e retas, escreve a palavra Sabedoria.

Essa distância que separa o homem de seu Criador bem pode ser deno- minada "A noite dos tempos", já que cobre toda a eternidade. Tudo o que vive dentro dessa distância está velado por uma penumbra protetora que tanto mais se intensifica quanto menos luz houver para distinguir as pre- senças que ali existam. Seria, pois, uma pretensão absurda invocar a Deus para que viesse estar a seu lado, quando é seu espírito, encarnado num cor- po móvel, quem deve percorrer o caminho até acercar-se a Ele. E ao dizer móvel não nos referimos, precisamente, aos membros com os quais cami- nha, já que, dentro de seu corpo e em estreita relação com o mecanismo físico, funciona um maravilhoso sistema mental, que foi criado justamen- te para que lhe seja possível cumprir essa extraordinária viagem que tem por meta suprema a perfeição. E se já vimos que a penumbra de que falá- vamos se torna menos densa, e o trecho percorrido se enche de claridade à medida que o homem avança através das idades, isso haverá de ser mais

do que suficiente para que se intua, com bons elementos de juízo, que cada trecho que se percorra no futuro também se encherá de claridade.

Mas o fato de haver claridade nas etapas cumpridas pela humanidade não quer dizer que todos percebam o que essa mesma claridade denuncia. A miopia mental, ou seja, a cegueira do entendimento, impede toda reflexão consciente e, portanto, ainda que as coisas se manifestem ao redor do ho- mem com os mais marcados contornos da realidade, passam despercebi- das, como se não existissem, quando ele não cultivou a percepção interna. Esclarecido este ponto, que consideramos de grande importância, co- loquemo-nos dentro de cada homem cujos esforços tendam a superar suas energias e dilatar suas possibilidades, em direção a essa meta que constitui toda a sua aspiração e sua mais alta finalidade.

Se, como expressou Hermes, o que está em cima é igual ao que está em- baixo, muito claramente se entenderá que, existindo uma correlação entre todos os acontecimentos universais, entre todos os fatos que se relacionam entre si pela correspondência de causas, entre tudo o que foi formando o conjunto do progresso humano e o alicerce das civilizações e, enfim, entre tudo que existe, por ter sido criado obedecendo a leis preestabelecidas por uma suprema ideação do cosmos, bem fará o pensamento humano em se- guir esse rastro luminoso por onde passou a excelsa carruagem do Senhor, enquanto deixava o homem em seu mundo e pontilhava o caminho de si- nais para que o seguisse e, alcançando-o, ocupasse um lugar em seu rega- ço, como o filho pródigo que, compreendendo o erro de seus desvios, vol- ta a abrigar-se no lar paterno.

Tomando o princípio enunciado por Hermes, temos também o fato de que a distância a ser coberta pelos homens é igual em seus trechos. O que a diferencia não é precisamente o que pode haver a mais ou a menos em cada um dos trechos, mas o grau de capacidade e realização alcançado pelos que percorrem o caminho. Isso porque a mente de uma criança, por exemplo, não pode julgar como a de um adulto, e mesmo entre adultos haverá diferenças, de acordo, como dissemos, com a capacidade de discernir e o cultivo de suas inteligências, ainda quando percorram juntos, em igualdade de condições, determinada distân- cia. O que atrairá a atenção da criança será, justamente, aquilo que a razão

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do adulto deixar de lado, por já conhecer ou por ter passado antes por essa mesma inquietude. Fica assim demonstrado que, mesmo sendo igual o pa- norama e tudo o que existe na distância percorrida por aqueles que toma- mos para ilustrar nosso exemplo, não será igual para a percepção de am- bos. Possivelmente, a criança deverá percorrê-la em outras idades, para ter do trajeto uma impressão exata, ou pelo menos a mais completa possível, a fim de poder descrevê-lo em seus detalhes, revelando possuir o conheci- mento do que viu e apreciou.

Na segunda ou terceira vez que percorrer o trecho andado, poderá, se for acompanhada por outros que pela primeira vez transitam por ele, explicar- lhes antecipadamente ou lhes anunciar o que verão à medida que se inter- nem no caminho; em outras palavras: fará para eles uma predição daquilo que depois haverão de ver. Devemos também fazer a ressalva de que o fato de percorrer duas, três ou mais vezes uma distância qualquer não é por si suficiente para informar a mente de tudo que vê ao passar, pois se ela, su- ponhamos, se distrair a cada momento, certamente pouco verá e menos ainda vai reter do que viu.

Quem consagra a vida ao estudo – e, sendo mais explícitos, ao estu- do e experimentação das verdades que a Logosofia revela ao entendi- mento humano – poderá compreender com a máxima extensão o con- teúdo do que vimos expressando, porque, ao internar-se no conheci- mento logosófico, terá a oportunidade de confirmar estas e muitas ou- tras verdades já tratadas ou a tratar em outros estudos.

Na preparação logosófica, indica-se ao estudante não descuidar o mí- nimo sequer do processo de superação integral que se inicia com o au- xílio do saber logosófico. É recomendado que preste a maior atenção aos detalhes que lhe possam ser úteis para completar todos aqueles co- nhecimentos que ele só possui de forma fragmentada, o que lhe permi- te observar como, dia após dia, tudo se vai transformando ante seus olhos e seu juízo. Também lhe é indicado que não perca tempo com coisas supérfluas e com tudo aquilo que não tenha importância ou va- lor algum para os fins desse cultivo extra das faculdades.

O saber converte a profecia em predição consciente. E assim é dado, a quem sabe, precisar por concepções espontâneas o que

pode acontecer na sucessão dos tempos futuros a um país, a um povo, a uma família e mesmo a um ser determinado, partindo do exame das circunstâncias e dos fatos que o rodearam e que aconte- ceram, até predizer as circunstâncias e os fatos que haverão de pro- duzir-se mais tarde, obedecendo a um rigoroso encadeamento de efeitos que provêm de causas análogas.

A DÚVIDA