Conscientemente bom
Vai um grande mistério, meu Deus, naquilo que teu servo Moisés escreveu sobre a “árvore do conhecimento do bem e do mal” que, a princípio, plantaste no Éden.
Por que plantaste no meio do paraíso do bem a árvore do bem e do mal?... Se querias que o homem fosse bom, por que lhe puseste antes os olhos a perene tentação do mal?...
Não, tu não querias que o homem fosse bom, e, menos ainda, que fosse mau, querias que ele fosse conscientemente bom. Seres bons existiam aos milhares, aos milhões, nos vastos domínios do teu universo. Todos os astros do cosmos são bons, porque obedientíssimos servidores da tua vontade, traçando as órbitas que lhes prescreveste e não aberrando sequer por um triz dos gigantescos roteiros que lhes marcaste. As tuas estrelas não falham, não prevaricam, não cometem pecado contra a tua soberana vontade – são seres “bons”, inconscientemente bons, porquelhes falta a “ciência do bem e do mal”. O que os astros praticam de “bom”, é bom porque é teu – e o mal não existe em ti.
Bom é também o mundo orgânico, a flora, a fauna, todos os domínios da vida vegetativa e sensitiva. Não há organismo, por mais primitivo, que transgrida o menor dos teus mandamentos. Todos eles são “bons”, inconscientemente bons. Tu mesmo o dizes. Depois de terminares a obra da creação material, referem os livros sacros, vias que “tudo era bom”.
Depois disto, porém, creaste um ser inédito e inaudito – tu, que és amigo das coisas srcinais e inéditas e não costumas repetir nenhuma das tuas obras. Creaste um ser estranho, diferente de todos os outros. Um ser que, como os astros do céu e os organismos da terra, não era apenas “bom”, mas “muito bom”, como diz o Gênesis.
Esse ser novo era efetivamente bom, e muito bom – mas era possivelmente mau, e muito mau... Esse ser estranho tinha em si a possibilidade de ser bom ou mau. E precisamente por não ser apenas efetivamente bom, como os outros seres, mas possivelmente mau, como os outros não podiam ser, esse ser novo era “muito bom”.
Melhor é a teus olhos um ser bom que tem em si a possibilidade de ser mau do que um ser simplesmente bom sem a possibilidade de ser mau. Assim és tu.
Uma creatura necessariamente boa é um ser limitado – uma creatura livremente boa é um ser ilimitado. E eu sei que tu és amigo de tudo o que é ilimitado, tu, que és a infinita ilimitação, a suprema Negação de todas as barreiras reais e imagináveis.
Fizeste o homem à “tua imagem e semelhança” – porque o fizeste ilimitado, rumo ao dia e rumo à noite, em direção às alturas e em direção ao abismo... Os outros seres que creaste são seres de “planície” – o homem é ser de “altura e profundidade”...
Os seres incapazes do conhecimento do bem e do mal são autômatos da tua vontade – o ser dotado da ciência do bem e do mal é filho teu e cumpridor livre do teu infinito querer...
Colocaste o homem no início da grande encruzilhada, no ponto de partida duma linha reta e duma linha curva – a reta da inocência e a curva da culpa... Deste ao homem a larga possibilidade de escolher um dos dois caminhos, a faculdade de ser inconscientemente bom ignorando o mal – e a faculdade de ser conscientemente bom conhecendo o mal.
Estava o homem em face dum grande dilema. Podia ser o “filho mais velho” que nunca deixou a casa paterna – e podia ser também o “filho mais novo”, o “filho pródigo”, que livremente deixou a casa do pai e livremente a ela voltou, depois de conhecer as “terras estranhas” da culpa...
Muito mais querido foi ao pai o filho regresso ao lar do que o filho nunca egresso da casa paterna. Por quê? Porque este era inconscientemente bom, e aquele era conscientemente bom.
Podia a humanidade ser como o filho mais velho – mas é como o filho mais novo... E não é o homem o filho mais novo do Pai celeste? obra novíssima da Divindade creadora? produzida pela tua Onipotência, meu Deus, depois de todas as demais maravilhas do teu poder e da tua sabedoria?...
O homem é o benjamim de Deus, e tão querido do Pai eterno que lhe foi dado o poder de ser bom ou mau...
Oh! quão grande, meu Deus, é a confiança que tens no teu benjamim! ao ponto de lhe dares a faculdade de ser bom ou mau! ... Todos os astros do céue todos os organismos da terra invejam a excelsa prerrogativa do homem ao pé de cujo berço foi plantada a “árvore do conhecimento do bem e do mal!”...
Permite, meu Deus, que eu te faça uma pergunta, talvez indiscreta: terias tu plantado no Éden essa árvore da ciência do bem e do mal se previsses que a humanidade fosse apenas filho pródigo, e não também filho controvertido?... que o homem, no meio dos porcos de seu despótico senhor e desejoso de
fartar-se com repasto imundo, não sentisse, um dia, as saudades da casa paterna e resolvesse lançar-se, contrito, aos braços de seu paternal amigo?... Se previste uma culpa sem conversão, por que creaste o homem?... Por que deste ao “filho mais novo” do teu amor a permissão tácita de deixar a casa paterna da tua vontade e ir em demanda da terra estranha do seu querer individual?... Por que não vedaste a teu benjamim o acesso à árvore do conhecimento do bem e do mal?... Por que não lhe impossibilitaste a colheita do pomo fatídico, assim como o puseste fora do alcance de todos os outros seres?...
Não, não posso crer, meu Deus, que tu sejas tão cruel e insensato que creasses um ser destinado a ser infeliz, que chamasses à existência uma humanidade fadada a perecer longe de ti, em terra estranha, faminta, no meio de animais imundos.
Creio no teu poder... Creio na tua sabedoria... Creio no teu amor...
E estes teus atributos dizem-me que creaste o gênero humano para a felicidade, que teu benjamim, ainda agora “filho pródigo”, será, um dia, o mais querido dos teus filhos, em cujos pés descalços de escravo porás o calçado dos filhos livres de tua casa, em cujo dedo brilhará a aliança da tua amizade paternal... Sentar-se-á à mesa do teu grande banquete e ouvirá músicas e coros do teu reino, esse benjamim que andava perdido e foi encontrado, que estava morto e reviveu...
Também, como poderia o homem ser “encontrado” se não se perdera?... Como poderia “reviver” se primeiro não morrera?...
E como seriam possíveis esse reencontro e essa ressurreição da humanidade se não lhe fosse dada a possibilidade do extravio e da morte?...
Se o homem escolhesse a linha reta da inocência e, qual criança ingênua e dócil, andasse sempre na luminosa estrada diurna dos teus mandamentos, sem jamais trilhar as vias noturnas do mal – daria ele, certamente, glória a ti, seu Creador, assim como o resto do cosmos. Glória muito maior, porém, te dá um ser que, depois de conhecer todas as noites do afastamento de Deus, todas as terras estranhas do pecado, todos os prazeres da liberdade pessoal, volta a teus braços, livre e espontaneamente.
O homem que, podendo ficar inconscientemente bom como era, ou conscientemente mau como podia ser ou foi, se fez conscientemente bom – é
este o mais belo poema de Deus, a mais deslumbrante apoteose do seu amor...
Por isto, meu Deus, é injusto e irrazoável que deploremos a humanidade que povoa este planeta. Tu sabias que ela seria assim – e não impediste que assim fosse. Seremos mais sábios e santos que tu? Teremos a ousadia de considerar a tua obra como um fracasso e uma falência? Daremos ganho de causa a teu inimigo? Que Deus tão pouco divino serias tu se, no fim dos tempos, o teu adversário saísse mais vitorioso que tu? se levasse consigo a maior parte da tua humanidade?
A tua humanidade está cumprindo o seu destino, percorrendo a grande parábola dos seus desvarios, saqueando, até o último pomo, da árvore do bem e do mal, vagando por terras estranhas, servindo a senhores tirânicos, suspirando por matar a fome com o sórdido repasto dos animais, erguendo as torres do seu orgulho nas Babilônias da sua miséria, enchendo de luxúria todas as ruas das suas Sodomas – tudo isto é consequência fatal da grande curva que ela preferiu à reta.
“Oh culpa feliz! oh pecado necessário!”
Dia, porém, virá em que a humanidade começará a fechar a grande curva, aproximando-se do seu verdadeiro destino. Quando as nossas torres babilônicas parecerem atingir o zênite de todos os nossos orgulhos, e a noite das nossas Sodomas baixar ao ínfimo nadir da nossa miséria carnal; quando o lúcifer do nosso super-homem for derrotado pela besta do nosso infra-homem, e este cair vítima daquele, numa tragédia macabra, universal e irremediável; quando se tocarem os extremos de todas as nossas grandezas e de todas as nossas fraquezas – então acabará o homem por se convencer de que não há nenhuma possibilidade de ego-redenção, e dirá a si mesmo, com infinita sinceridade: “Voltarei à casa de meu pai”...
E então, convencido da falácia de todos os caminhos percorridos, começará a humanidade a fechar a parábola multimilenar dos seus desvarios e voltará, conscientemente, para Deus, que conscientemente abandonou...
É possível que alguns homens, talvez muitos, nesse movimento centrífugo sejam arrebatados pela força tangencial do seu orgulhoso individualismo e venham a perder-se nos espaços noturnos onde apenas de leve atua a força centrípeta da Divindade – mas a humanidade como tal não falhará o seu destino. Não é possível que seja vítima de falência aquele que é senhor, não só sobre a linha reta da inocência, senão também sobre a linha curva da culpa, mesmo no mais longínquo afélio do ateísmo a que possa chegar um peregrino da nossa terra.
É esta a mais incompreensível das coisas incompreensíveis: que até nos domínios da liberdade humana atue o teu poder, ó Deus! Tu podes fazer, sem ofensa à liberdade, que o homem queira o que tu queres. Não o obrigas a querer porque isto seria negação da liberdade – mas fazes com que ele, espontaneamente, queira o que tu queres, que trace a sua vontade paralela à tua – é esta a mais estupenda afirmação do teu poder, e é também a mais gloriosa confirmação da nossa liberdade.
Que façamos livremente o necessário!...
Não nos compete, pois, a nós, arautos do teu reino, deplorar a excessiva curva que o gênero humano abre através da história, distanciando-se do termo final do seu destino eterno; compete-nos aumentar dentro das almas a inata força de atração que nos impele ao teu centro, para que a força de repulsão do nosso individualismo não nos arrebate para fora da órbita e nos lance aos espaços glaciais da noite eterna...
Do seio de um limitado oceano nasceu a humanidade, qual tênue nuvem de vapor que sobe do mar e se eleva às alturas. Tangida por todos os setores do universo, torna essa água ao seio do oceano, depois de atingir o seu extremo afastamento, depois de interpor entre o seu ponto de partida e seu termo de regresso Etnas e Vesúvios, Andes e Himalaias, Saaras e Sibérias, zonas polares e regiões tropicais... Volta ao mar a água que do mar partiu, volta, apesar de todos os óbices e impossíveis que procuram frustrar-lhe, fechar o grande ciclo...
Assim são as águas vivas da humanidade. Não pode a mais vasta liberdade do homem frustrar para sempre os planos que a Divindade ideou.
O felix culpa! exclama um dos grandes compreendedores dos divinos paradoxos. Ó culpa feliz do homem que deu ensejo a Deus a que revelasse, da maneira mais brilhante e cabal, o que, sem essa culpa, só poderia revelar parcial e imperfeitamente.
Tão grande és tu, meu Deus, que até das trevas sabes fazer luz!... que da árvore do mal sabes colher frutos do bem... que da imensa curva das nossas culpas sabes fazer uma reta mais reta que a reta da inocência – a linha retíssima do homem conscientemente bom...