Meu grande centro dinâmicodinâmico
Quando meu espírito juvenil abriu os olhos e olhou em derredor – não me encontrei...
Não, não me encontrei. O meu Eu não existia como ser autônomo. Tinha sido roubado. O que ele devera ser, um Eu individual, fazia parte integrante dum Tu cósmico – e esse Tu tinha o teu nome, meu Deus...
Por mais absurdo e paradoxal que esta frase pareça, ela é o reflexo fiel do que senti naquele tempo, quando abri os olhos da razão e robusteci as energias do espírito, quando cheguei à plena consciência da minha individualidade não me encontrei.
Eu não era eu. O meu Eu fora absorvido por um não-Eu, por um Tu alheio, antes que chegasse a se tornar um Eu pleniconsciente.
Nesse tempo, a minha força egocêntrica era igual a zero – e a tua força teocêntrica era, como é sempre, de potência infinita. Que admira, pois, que o Eu sucumbisse ao Tu? que a microscópica gotinha do meu ser fosse tragada pela intérmina vastidão do teu oceano, ó Ser Infinito?...
Dentro de mim, porém, dormia a centelha da autonomia individual.
Olhei em derredor. Olhei para cima. Olhei para baixo. Olhei para dentro – e não me concentrei em parte alguma. Tinha sido raptado por ti, enquanto dormia o sono da inconsciência ou semiconsciência...
Quando dei fé do que acontecera, quando percebi a alienação do meu Eu por um Tu estranho, veemente revolta se apoderou de mim.
Resolvi reconquistar o meu Eu roubado.
Resolvi proclamar a minha independência individual.
Jurei a mim mesmo erguer dentro do Eu o trono da minha absoluta e irrestrita autonomia.
Sacudi o jugo que me fora imposto à minha revelia...
Arranquei-me do centro que me prendia com poderosos vínculos de atração e, qual fantástico meteoro, arremessei-me pelos espaços noturnos do egoísmo.
Intensifiquei a minha força centrífuga para que me levasse à extrema periferia do teu centro, ó Deus, lá onde eu pudesse ser integral e exclusivamente eu mesmo...
Percebi com satisfação que, quanto mais me afastava de ti, tanto mais diminuía em mim a força antiga que me prendera, e tanto mais aumentava a força nova que me lançava em vertiginosa carreira pelas vias inexploradas do cosmos. Imensa, indescritível foi a alegria que senti ao saber-me, como entendia, fora do alcance da tua força de atração, meu despótico astro central. Oh! Como era bom ser um Eu integral e exclusivo e, 100%, não mais fazer parte integrante dum Tu... Livre, obedecia tão somente à força intrínseca da própria personalidade... Parecia-me quase uma divindade autônoma e onipotente... Zonas incomensuráveis do universo foram varridas pela cauda gigantesca do meu meteoro vagabundo... De um a outro horizonte estendi a esteira fosforescente da minha gloriosa trajetória, incutindo pavor a quantos me contemplavam – e não compreendiam...
Na minha descontrolada carreira, esbarrei com outros meteoros, até com uns planetóides que incautamente ousaram cruzar o meu espaço vital... Mas como eles eram pequenos e eu era grande, foram reduzidos a fragmentos e cinzas, e eu prosseguia, infrene, na minha vasta órbita, rumo ao vácuo absoluto rumo à noite eterna...
Eu me sentia um ego autônomo, independente. * * *
Eis então, precisamente no extremo afélio da minha jubilosa liberdade, quando eu julgava extinto o derradeiro resquício da tua atração, ó Astro central – sinto querer fechar-se a imensa parábola da minha trajetória... Verifico, com espanto e terror, que minha tangente se converte em elipse, numa linha que regressa para donde veio...
Periclitava a minha esplêndida liberdade!... Meu ego corria o risco de se converter novamente na escravidão dum Tu...
Lutei, relutei... Joguei ao cenário todas as potências da minha humana natureza, para evitar o iminente naufrágio da minha autonomia tão penosamente conquistada...
Entretanto – naufraguei...
Naufraguei no alto-mar da minha jubilosa liberdade e independência...
Desconjuntaram-se ao embate das tuas vagas bravias, ó Deus, as pranchas da minha nau...
Partiu-se o leme...
Estilhaçaram-se mastros e vergas... Farrapos de velas rotas encheram os ares.
E eu, no meio dos destroços, fui lançado à praia...
Arribei, semivivo, aos teus litorais, ó amigo crudelíssimo... Das minhas glórias antigas nada salvei, nada, nada...
... Quando voltei a mim da universal catástrofe, encontrei-me numa zona estranha e ignota, equidistante dos dois extremos que eu conhecia. Não estava no centro nem na periferia. Não sentia em mim nem a força centrípeta de absoluta autoridade, nem a força centrífuga de desenfreada autonomia.
Do equilíbrio das duas forças antagônicas nascera algo de novo e maravilhoso que nenhuma pena pode descrever – a harmonia da liberdade e da autoridade. É esta a mais maravilhosa de todas as tuas maravilhas, meu Deus: fazeres com que um ser queira livremente o que tu queres...
Não me admira que milhões de astros tracem, com absoluta precisão, as suas gigantescas trajetórias... Não me admira que a fauna e a flora e todos os seres da Natureza irracional obedeçam à risca a tua vontade – porque nenhum deles pode desobedecer.
Nem estranho que o ser livre desobedeça à tua vontade, uma vez que é livre. O que me espanta é que tu concedas a uma creatura a mais ampla liberdade de ser meteoro rebelde – e essa creatura livre se torne, consciente e espontaneamente, planeta dócil e obediente à tua vontade.
Como é possível que a um ser que não és Tu mesmo lhe dês tanta confiança, quando esse ser se pode tornar um antiTu?... quando ele tem a possibilidade de se evadir das tuas mãos e fugir pela linha tangencial da liberdade abusada para a noite eterna do afastamento e da rebeldia?...
Como é possível que desligues de ti um ser pelo livre-arbítrio – e esse ser se ligue a ti pelo mesmo livre-arbítrio?
Que força estranha possuis tu, meu Deus, que possas abrir-nos todos os caminhos do ateísmo e do antiteísmo – sem que estes caminhos nos levem para fora do teu teísmo?...
Como é possível que de tão vivos contrastes, como é a liberdade e a autoridade, nasça esse ritmo harmonioso que é a creatura humana livremente obediente?
Como podes, sem lesar a liberdade, fazer com que um ser faça hoje por vontade própria o que ontem não fazia nem por vontade alheia?