Das 18 testemunhas arroladas pela defesa, 12 depuseram. Das três solicitadas pelo Ministério Público, apresentaram-se duas. Do total de 14 depoimentos, oito foram dados por militares, quatro de pessoas da comunidade local e, dois barbudos – eram os únicos que estavam presentes no local quando ocorreu o duplo assassinato. Vários depoimentos foram colhidos através de cartas precatórias. Os oito militares que foram ouvidos adotaram posturas diferenciadas.
1) Antônio Nunes Pontes500, capitão da Brigada Militar, 47 anos, casado, residente em
Porto Alegre, foi arrolado pelo defensor Henrique Lima Filho. Era 1o tenente quando
comandou a força do 1o regimento de cavalaria, de Santa Maria, com 40 participantes, em
missão em Sobradinho onde permaneceu até julho de 1938. No entanto, sobre o fato narrado na denúncia, “nada sabe” e também não conhece os denunciados.
2) Januário Dutra501, capitão da Brigada Militar, 39 anos, casado, residente em Pelotas,
fez manifestação idêntica à do capitão Pontes: “nada sabe”. No entanto, Januário Dutra era tenente e delegado de polícia de Soledade quando foi arrolado como testemunha de defesa do soldado Lucas Galvão. Foi responsável por dois relatórios enviados ao comando geral da Brigada Militar e ao interventor federal no Governo do Estado sobre a “exótica seita” dos
monges barbudos. O primeiro, em 30 de março, com o resultado da diligência comandada
pelo 2o tenente Arlindo Rosa, o segundo, em 15 de maio, após os confrontos com mortes
ocorridos na Bela Vista e no Jacuizinho. Segundo o boletim da Brigada Militar502, o tenente
Dutra relatou “a existência de um grupo de fanáticos organizado naquele município e sobre o qual recai suspeita de professar ideias extremistas”. Ademais, acompanhou as investigações do capitão José Rodrigues realizadas de abril a julho de 1938 no território em conflito.
Esses dois oficiais seguiram na corporação, tornaram-se capitães. No entanto, estranhamente, permaneceram calados. Podiam não conhecer os militares acusados, que eram
500 RIO GRANDE DO SUL. Justiça Pública, Comarca de Candelária, Termo de Sobradinho. Processo crime sumário. Réus: cabo Antonio Porto, praça Lucas Campos Galvão, Pedro Simon, José Henrique Simon, Benedito Paulo do Nascimento, Aparicio Miranda e João Elberto Oliveira. Vítimas: André Ferreira França e Antônio Mariano dos Santos. Sobradinho, Escrivania do Juri, 1938-1942. Assentada. Testemunha Antônio Nunes Pontes. Porto Alegre, 03 de novembro de 1941. V. 2, p. 185v-186 (APERS)
501 Ibidem, v. 2, p. 185-185v. Assentada. Testemunha Januário Dutra. Porto Alegre, 03 de novembro de 1941.
502 RIO GRANDE DO SUL. Brigada Militar. Estado Maior, III Secção. Minutas, ofícios, informações, cartas e portarias. Março e abril de 1938.
de Passo Fundo, mas, com certeza, tinham informações relevantes sobre os monges barbudos adquiridas nas operações policiais e militares desenvolvidas na região.
3) Arlindo Rosa503, 34 anos, 2o tenente e comandante do destacamento da Brigada
Militar de Santa Rosa, era comandante do destacamento em Soledade, do qual faziam parte o cabo Porto e o soldado Galvão. Afirmou que, na época, o comando era do sargento Luiz Getúlio Piegas Goulart, através do qual teria tomado conhecimento dos fatos. Acrescentou que recebera ordem do chefe de Polícia para “prender os componentes ou chefes da referida seita, tendo dado várias batidas, não conseguindo prendê-los”. Ele foi denunciado por excessos pelos dez monges que foram presos durante diligência por ele comandada, composta por 20 praças, em março de 1938, no interior do distrito do Lagoão no município de Soledade, conforme narrado no capítulo anterior.
4) Luis Getúlio Piegas Goulart504, 28 anos, casado, 2o sargento do 3o regimento de
cavalaria da Brigada Militar de Passo Fundo, comandava o destacamento deslocado para atuar em Soledade na época do crime. O militar afirmou que os denunciados e mais 15 praças compunham a escolta por ele comandada, que atuou no sexto distrito de Soledade, sob orientação do major José Rodrigues da Silva. Tinha ordem de “operar” em Soledade, Sobradinho e Santa Cruz com o objetivo de “atenderem os ‘barbudinhos’, membros de uma seita religiosa” e “prender André Ferreira França”, caso ele reunisse seus seguidores. Estava afastado desde o dia 10 de agosto de 1938, por “haver doença em sua família”. Por isso, o comando da escolta estava com Antônio Porto, com ordem explícita do major Rodrigues de prender Deca “quando [realizasse] reuniões dos ‘barbudinho’.” Quando retornou à sede do sexto distrito, dia 18 de agosto, Antônio Porto lhe deu ciência dos acontecimentos, ampliando o número de barbudos presentes na casa de José Crespim da Rosa de 11 para 20. Relatou que, ao receber a voz de prisão, Deca teria resistido, “com arma branca, investiu contra o cabo Antônio Porto e o soldado Lucas Campos Galvão, tendo outros componentes da seita feito uso de armas de fogo; que em vista disso, os denunciados Porto e Galvão fizeram uso de seus revólveres”. O depoente informou o ocorrido ao chefe de polícia, ao tenente Januário Dutra, delegado de polícia de Soledade, e às demais autoridades da Brigada Militar.
Várias perguntas foram formuladas ao sargento Goulart. Entre elas, respondeu que: “por umas três vezes conseguiu sitiar a casa onde Deca reunia os membros de sua seita e, todas essas vezes, Deca armado de faca, resistindo à voz de prisão, conseguiu escapar”. Informou, por fim, que o cabo já havia estado envolvido em outro episódio: “o cerco da casa
503 RIO GRANDE DO SUL. Justiça Pública, Comarca de Candelária, Termo de Sobradinho. Processo crime sumário. Réus: cabo Antonio Porto, praça Lucas Campos Galvão, Pedro Simon, José Henrique Simon, Benedito Paulo do Nascimento, Aparicio Miranda e João Elberto Oliveira. Vítimas: André Ferreira França e Antônio Mariano dos Santos. Sobradinho, Escrivania do Juri, 1938-1942. Termo de Assentada. Santo Ângelo, 15 de setembro de 1941. V. 1, p. 105. (APERS) 504 Ibidem, v. 1, p. 138-138v. Termo de Assentada. Testemunha Luis Getúlio Piegas Goulart. Soledade, 07 de outubro de
não estava completo quando componentes da seita dos ‘barbudinho’ fizeram fogo na escolta, de uma cozinha, quando ele, Antônio Porto, e o soldado Galvão, por sua vez fizeram fogo contra os que resistiram à prisão e os agrediram”. Esclareceu que o contingente comandado por Antônio Porto estava dividido em “duas escoltas”, uma, estava “destacada em casa de Chico Camargo”, a outra, “na sede das Tunas”, comandada pelo cabo Porto. Os depoimentos desses militares iam dando a dimensão do que foi a repressão aos barbudos e a perseguição a Deca França: casas sitiadas, violências e fugas constantes.
5) Wandenkok Freitas Marques505, tenente da Brigada Militar, um dos oficiais da
operação, retornou em julho para Santa Maria. No entanto, o tenente aproveitou para revelar a sua opinião e participação na repressão aos monges. Afirmou que “esteve na missão de capturar André Ferreira França, vulgo ‘Deca’ e seus adeptos, recebendo mesmo ordem de fazer fogo, caso os membros desta seita resistissem”. Para ele, “o referido indivíduo era muito esperto” e seus seguidores “não acreditavam em bala”, mencionando as batidas feitas na casa de Deca França, que “era no meio do mato”. Prosseguiu o oficial destacando os “atos imorais e crimes”, além de supostos criminosos infiltrados506.
6) Sady Corrêa Bastos507, então tenente e subdelegado do distrito do Arroio do Tigre,
apresentou-se como “criador”. Afirmou que esteve no local atendendo ordem do delegado de Sobradinho para fazer o auto de corpo de delito nos dois mortos. Ao chegar ao local, apresentaram-se o cabo Porto e um soldado. Os dois teriam dito que: “tendo ido fazer a prisão dos monges, que na noite precedente constava que iriam se reunir, foram agredidos por estes de faca, sendo obrigados a matá-los”. Embora tivesse instruído o inquérito policial, limitou-se a responder de forma breve e afirmativa as perguntas sobre a determinação direta do interventor do Estado na “repressão aos barbudos”.
7) José Rodrigues da Silva508, 42 anos, casado, major da Brigada Militar, residente em
Passo Fundo, dirigiu as duas forças da Brigada Militar deslocadas de Santa Maria para Sobradinho e de Passo Fundo para Soledade e presidiu um inquérito a respeito dos monges, conforme visto no capítulo anterior. O oficial, na época capitão, bastante citado no decorrer do processo, afirmou que, com relação à denúncia, encontrava-se na Capital do Estado, quando ocorreram os fatos, não sabendo como “decorreu o mesmo”, mas fora informado pelo sargento Luiz Goulart pelo fato de ter “comandado a força que reprimiu a ação dos chamados
505 RIO GRANDE DO SUL. Justiça Pública, Comarca de Candelária, Termo de Sobradinho. Processo crime sumário. Réus: cabo Antonio Porto, praça Lucas Campos Galvão, Pedro Simon, José Henrique Simon, Benedito Paulo do Nascimento, Aparicio Miranda e João Elberto Oliveira. Vítimas: André Ferreira França e Antônio Mariano dos Santos. Sobradinho, Escrivania do Juri, 1938-1942. Termo de Assentada. Testemunha. São Jerônimo, 15 de setembro de 1941. V. 1, p. 110. 506 O oficial deu entrevista ao jornal Paladino Serrano de Sobradinho, em 02 de novembro de 1977, no mesmo sentido
dessas acusações, conforme PEREIRA, André Luiz S. e WAGNER, Carlos Alberto. Os monges barbudos & o massacre
do fundão. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981, p. 39-40, 87.
507 RIO GRANDE DO SUL. Justiça Pública, Comarca de Candelária, Termo de Sobradinho. Processo crime sumário. Op. cit, p. 142v. Termo de Audiência. 2a Testemunha, Sady Corrêa Bastos. Sobradinho, 29 de outubro de 1941.
‘monges barbudos’.” Registrou a intensa busca policial feita ao “chefe daquela seita” e a negativa de Deca em apresentar-se às autoridades “a despeito de inúmeros chamados e formais promessas de todas as garantias.” Dos acusados, só conhecia os militares há quatro anos, assegurando que “os antecedentes dos mesmos são bons”.
8) Riograndino da Costa e Silva509 37 anos, casado, capitão do exército, residia no Rio
de Janeiro, onde foi inquirido. Na ocasião em que esteve em Soledade e Sobradinho era delegado auxiliar da Repartição Central de Polícia. Distante das disputas locais, seu depoimento foi objetivo. Garantiu que esteve no local a serviço do interventor federal, coronel Cordeiro de Farias, observou os fatos e formulou apurada análise, contrapondo-se ao discurso da defesa. O defensor formulou itens para serem respondidos, dando voz aos boatos locais, perguntou pelos “crimes, hábitos e ideias” dos monges, fazendo menção ao “perigo à população e às famílias”, acusando-os de usarem cultos religiosos para desviar “donzelas” e praticar “roubos e extorsões”.
Riograndino da Costa e Silva fez declarações esclarecedoras. Ele esteve no local para “proceder a uma sindicância por ordem do Governo do Estado”. Foi apurar as circunstâncias das mortes na Páscoa de 1938 e a prisão de 104 participantes do movimento no Jacuizinho, realizada pelo delegado de polícia de Sobradinho. Alguns desses “presos já tinham também sido remetidos para a Capital do Estado, tanto que o depoente os encontrou em sua passagem por Cachoeira.” Com relação aos itens formulados pela defesa, Riograndino ignorou as acusações de “desvio de donzelas” e práticas criminosas, adiantando que, para o Estado, a ação dos barbudos devia-se à “crassa ignorância reinante entre todos eles”. Sobre Deca França, “soube que efetivamente o referido elemento vinha realizando reuniões e práticas baseadas em princípios de fundo supersticioso, parecem constituir perigo, pelo menos no local, (...) à ordem social”.
Cabe registrar que o comando da Brigada Militar louvou os oficiais e as praças “pela disciplina e abnegação demonstradas (...), sob o comando do major José Rodrigues da Silva, na grave situação ali criada por um aglomerado de habitantes fanatizados e hostis às leis e às autoridades.”510 Verifica-se que era uma operação determinada, coordenada e dirigida pelo
governo estadual sob intervenção federal do Estado Novo e no comando do coronel Cordeiro de Farias.
Dos quatro civis, moradores locais que depuseram, dois já haviam registrado depoimento na fase policial. Os outros dois eram curiosos que não presenciaram os fatos. José
509 RIO GRANDE DO SUL. Justiça Pública, Comarca de Candelária, Termo de Sobradinho. Processo crime sumário. Réus: cabo Antonio Porto, praça Lucas Campos Galvão, Pedro Simon, José Henrique Simon, Benedito Paulo do Nascimento, Aparicio Miranda e João Elberto Oliveira. Vítimas: André Ferreira França e Antônio Mariano dos Santos. Sobradinho, Escrivania do Juri, 1938-1942, v. 1, p. 86v.
Crespim e Pantaleão da Silva mudaram radicalmente o depoimento dado na delegacia: revelaram que os monges estavam cansados de fugir.
1) Evaristo Rodrigues da Silva511, 46 anos, analfabeto, casado, agricultor, residente em
Sobradinho, foi um dos primeiros a depor no inquérito policial, declarou em juízo que o cabo Porto teria convidado os civis para se dirigirem com ele a casa de Crespim, “afim de dissolver essa reunião”, porque não havia “mais praça a disposição” em Tunas. Com relação à conduta dos civis denunciados, Evaristo afirmou “ser boa por se tratar de homens trabalhadores e que jamais andaram envolvidos em briga”. O assistente judiciário, Olmiro Campos, solicitou que a testemunha respondesse “se Deca França costumava fazer reuniões que punham em sobressalto a população do distrito onde o mesmo residia?” Respondeu que sim, “que todos os moradores dessa região tinham medo das reuniões de Deca França por ignorarem quais as intenções dele e de seus adeptos, temor esse que também era compartilhado pelo depoente como morador desse lugar”.
2) Rodolfo Carlos Textor512, Rudi, 32 anos, casado, mecânico, natural de Soledade,
residente na vila Arroio do Tigre, em Sobradinho, afirmou que “viu os mortos, de nome Deca e outro barbudo”, mas “não sabendo como se deu o fato”. Ele assinou os autos de necropsia no cargo de perito notificado, mas não mencionou esse fato no depoimento.
3) Antônio Pereira Vaz, 64 anos, agricultor, natural de Cruz Alta, residente na Costa do Lagoão, no 3o distrito de Arroio do Tigre, em Sobradinho, não presenciou os fatos, mas
esteve no local. Lá chegando, perguntou ao cabo Porto “que serviço era aquele”. Ele teria respondido efusivamente: “fui eu” e “batia no peito, ‘vim prender esses barbudos e eles resistiram à prisão’.” Quanto à participação dos civis, “soube que os outros réus tinham ido de vaqueanos”.
4) Theodoro Schaeffer513 32 anos, casado, agricultor, natural de Santa Cruz, residente
na Serrinha, em Sobradinho, também não presenciou os fatos. Foi ao local acompanhando o subprefeito e subdelegado do Arroio do Tigre, Sady Bastos. Na chegada, “apresentaram-se um cabo e um soldado e, respondendo eles a interpelação do subprefeito, disseram que tinham ido ali para prender os monges, mas eles reagiram e assim foram obrigados a matar os dois”.
Com o depoimento das testemunhas locais, moradores de Sobradinho e do distrito do Arroio do Tigre, constatam-se os temores dos vizinhos antagonistas aos monges. Eles tinham medo. Não chegou a ficar claro nos depoimentos a razão das desconfianças, mas as reuniões
511 RIO GRANDE DO SUL. Justiça Pública, Comarca de Candelária, Termo de Sobradinho. Processo crime sumário. Réus: cabo Antonio Porto, praça Lucas Campos Galvão, Pedro Simon, José Henrique Simon, Benedito Paulo do Nascimento, Aparicio Miranda e João Elberto Oliveira. Vítimas: André Ferreira França e Antônio Mariano dos Santos. Sobradinho, Escrivania do Juri, 1938-1942. Termo de Assentada. Testemunha Evaristo Rodrigues da Silva. Soledade, 29 de setembro de 1941. V. 2, p. 156. (APERS)
512 Ibidem, v. 1, p. 143-143v. Termo de Audiência. 4a Testemunha, Rodolpho Carlos Textor. Sobradinho, 29 de outubro de 1941.
dos barbudos eram vistas com susto pelos contrários a eles. Assim, a captura e a morte do curandeiro Deca França mobilizou a atenção dos curiosos que foram ao local confirmar.
5) José Crespim da Rosa514 alterou substancialmente o depoimento dado na Delegacia
de Polícia de Sobradinho. Afirmou que, na noite de 14 para 15 de agosto, por volta de 20h, chegaram a sua casa André França e Antônio dos Santos pedindo para passar a noite. Disseram que: “vinham cansados de se encontrarem escondidos e que pretendiam se apresentar às autoridades no dia seguinte”. Por volta de três horas, ainda de madrugada, Crespim acordou com “o barulho da porta de sua casa que foi arrombada à coronha de arma.” Levantou, acendeu a luz e foi até a porta “onde encontrou um soldado com uma arma em punho (...). Apontou para o depoente dizendo que voltasse que senão morria, que então o depoente voltou e ficou escorado na mesa”. Garantiu Crespim que, “no momento em que foi arrombada a porta as vítimas saltaram por uma outra porta a fim de fugirem”. No entanto, “ao saírem (...) começou o tiroteio”. Antônio Mariano “caiu logo ao sair da porta” e Deca França foi ferido “mais abaixo da casa ao procurar passar um [arame]”. Depois de ferido, foi carregado até a frente da casa, “onde faleceu em seguida”.
Crespim confirmou a versão de que somente um praça chegou pela frente da casa, arrombando a porta, enquanto Deca e Antônio tentavam fugir pelos fundos, sendo baleados. José Crespim e o jovem Pantaleão da Silva quando presos foram “conduzidos para a sede de Tunas, daí para Soledade e depois para Sobradinho”. Crespim reconheceu todos os civis e militares que formavam a escolta que cercaram a sua casa. Com a inquirição sobre a “religião”, Crespim recordou a morte do outro líder, Anastácio Fiúza. Embora tenha negado a participação na “seita dos monges do sexto distrito”, confirmou que “somente tomou parte na [guarda] de Tácio Fiuza, morto em consequência de ferimentos recebidos (...) na Igreja de S. Catarina, por ocasião de uma reunião que os Monges aí realizavam”. Crespim declarou-se católico e que costumava rezar na Igreja de Santa Catarina onde já encontrara “uma reunião de membros dessa seita”. Com isso, pode-se questionar a respeito das condições em que foi obtida a primeira declaração de Crespim, em agosto de 1938, feita ao delegado Antônio Pontes, na Delegacia de Polícia de Sobradinho.
6) Pantaleão Moura da Silva515 modificou a essência do depoimento prestado na
Delegacia de Polícia de Sobradinho, assim como Crespim. O jovem Pantaleão declarou que acordou de madrugada “com o barulho do arrombamento da porta da casa e ficou sentado na
514 RIO GRANDE DO SUL. Justiça Pública, Comarca de Candelária, Termo de Sobradinho. Processo crime sumário. Réus: cabo Antonio Porto, praça Lucas Campos Galvão, Pedro Simon, José Henrique Simon, Benedito Paulo do Nascimento, Aparicio Miranda e João Elberto Oliveira. Vítimas: André Ferreira França e Antônio Mariano dos Santos. Sobradinho, Escrivania do Juri, 1938-1942, v. 2, p. 162-4. Termo de Assentada. Testemunha José Crespim da Rosa. Soledade, 20 de outubro de 1941.
515 Ibidem, Termo de Assentada. Testemunha Pantaleão Moura da Silva. Soledade, 20 de outubro de 1941. V. 2, p. 166v- 167v.
cama, onde foi preso pela escolta vendo nessa ocasião o soldado Lucas”. Afirmou que “ao mesmo tempo em que foi arrombada a porta, foi dado uns quantos tiros”, viu os dois monges mortos na frente da casa quando foi retirado da casa preso. Negou a participação na “seita dos barbudos”. Provocado a falar sobre as “perturbações da ordem” que a “seita praticava”, refletiu que “algumas pessoas tinham receio das reuniões”.