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Escola de Ulm: do Gute Form à “unidade na unidade”

2. PRIMEIRA PARTE: ENQUADRAMENTO TEÓRICO

2.2. O D ESIGN I NDUSTRIAL E A SUA H ISTÓRIA

2.2.2. D OS ANOS 50 AO FIM DO SÉCULO XX:

2.2.2.1. Escola de Ulm: do Gute Form à “unidade na unidade”

O designer suíço Max Bill, antigo aluno da Bauhaus do tempo de Gropius e Meyer, revelara-se, já nessa altura, mais fortemente influenciado por uma orientação estético- formal do que pela produtivista-funcionalista, defendida por Meyer [Maldonado, 1999, 72-73].

Por oposição ao Styling norte-americano, que se continuava a difundir internacionalmente como uma filosofia maioritariamente comercial, em 1949, Max Bill

129 Tomás Maldonado, 1999, 71.

defende publicamente na Alemanha o conceito de Gute Form130. O que Bill

defenderia até à década de cinquenta era que as boas formas não podiam ser determinadas por meros padrões competitivos, deveriam, sim, ser desenvolvidas tendo em consideração, numa relação honesta, a qualidade e a função dos objectos131.

Em 1947, Max Bill, Aicher-Scholl e Otl Aicher (1922-1991) fundariam a Hochschule für Gestaltung de Ulm (Escola Superior de Projecto), posteriormente mais conhecida por Escola de Ulm. Em 1951, Max Bill assume a direcção da escola. O curso de design, cujos princípios remontavam às raízes estético-formais da Bauhaus, seria inaugurado em 1953 e nele leccionariam Josef Albers (1888-1976), Johannes Itten e Mies van der Rohe como professores convidados. No ano precisamente a seguir, a escola estabelece um protocolo de parceria com a empresa alemã Braun [Julier, 2004, 203]. Iniciava-se, assim, uma nova corrente didáctica em que, pela primeira vez, Escola e Indústria trabalhariam em estreita colaboração ao longo do processo de desenvolvimento de novos produtos (Figura 11); nesse âmbito, destaca-se o trabalho

desenvolvido pelo docente/designer Hans Gugelot (1920-1965).

Os pressupostos do design aplicados a essa experiência seriam os da Gute Form de Max Bill. Caracterizados pela atenção ao detalhe e à simplicidade geométrica, os produtos Braun assumiriam uma unidade estilística que viria a ser internacionalmente denominada por estilo Braun e, noutros casos, por estilo Ulm.132 Esse conceito de

unidade estilística dos produtos, designado como “unidade na unidade”, prevaleceria, nos anos seguintes, como filosofia identidária assumida pela empresa. Em 1955, a escola é oficialmente inaugurada num novo edifício desenhado por Max Bill. Coincidentes com essa mudança acentuar-se-iam algumas divergências entre Bill e outros professores mais jovens – Otl Aicher, Hans Gugelot, Tomás Maldonado (n. 1922) e Zeischegg. No ano seguinte, Max Bill vê-se forçado a abandonar o seu cargo de direcção. Na base do desentendimento entre Max Bill e os colegas estava a questão de qual a orientação a dar à Hochschule für Gestaltung. Bill desejava “desenvolver,

130 Conceito defendido no texto “Die gute Form”, editado no catálogo da exposição Werkbund svizzero, realizada em Zurique

no ano de 1949. Esse conceito seria rapidamente difundido em outros países da Europa e sedimentado nos EUA sob a designação de good design.

131 “Desde o início associamos ao conceito de forma uma qualidade. […] Quando falamos de formas da natureza, pensamos

naquelas formas particularmente bem conseguidas. Quando falamos das formas da técnica, não nos referimos a quaisquer formas, mas às que são particularmente válidas”, ou seja, aquelas a que “não existem por acaso. […] Em confronto com os bens de produção, os bens de consumo estão hoje muito mais sujeitos à moda do que antigamente. É um campo que se alargou até abarcar os móveis e os automóveis. O consumo é mais rápido. E assim, automaticamente, abusa-se da forma, fazendo dela um factor de incremento das vendas. Este perigoso crescimento verifica-se claramente no estilo streamlining, que hoje ocupa o lugar outrora ocupado pelo ornamento. E se hoje, por motivos estéticos, reclamamos novamente belas formas, gostaríamos de não ser mal entendidos: trata-se sempre de formas vinculadas à qualidade e à função do objecto. Trata-se de formas honestas, não de invenções no intuito de incrementar a venda de produtos de conformação instável, sujeita à moda.” (Max Bill, 1952, 7- 46).

132 Em 1955, o designer alemão Dieter Rams (n. 1932) inicia o seu trabalho na Braun. Entre 1960 e 1980, assume a direcção do

com todos os enriquecimentos possíveis, a orientação estético-formal da Bauhaus”133.

O grupo dos seus opositores, tal como recordaria Maldonado, aceitavam “em princípio, a tese da continuação” mas recusavam-se a “entendê-la em termos de mera restauração. Ou seja, de acordo sobre a Bauhaus, mas só depois de uma rígida verificação da actualidade dos seus pressupostos didácticos, culturais e organizativos”134. Tomás Maldonado sucede a Max Bill e, nos anos seguintes, são

implementados alguns ajustamentos e complementos didácticas e organizativos: “Muda substancialmente o plano de estudos, que reflecte a importância atribuída, no novo conceito, às disciplinas científicas e técnicas. Muda a orientação didáctica do curso fundamental (Grundlehre), que procura reduzir ao mínimo a presença dos elementos de activismo, intuicionismo, e formalismo herdados da didáctica propedêutica da Bauhaus. Muda, finalmente, o programa da secção de design industrial, que se orienta para o estudo e o aprofundamento da metodologia da criatividade”135.

Figura 11 – Braun 300 De Luxe136 (1953), Gerd A. Müller e Hans Gugelot.

Entre 1955 e 1965, Gugelot manter-se-ia como director do curso de design industrial da escola. Ao longo desse período trabalharia com a Braun – cujo departamento de design se encontrava já sob a liderança de Dieter Rams, seu antigo assistente – e com a Kodak. Assumidos por Gugelot, os produtos desenvolvidos para as empresas revelavam um elevado rigor formal e cromático (cinzas, preto, ângulos rectos e nenhuma ornamentação) que seria considerado, por alguns, como austero, frio e

133 Max Bill, 1952, 7- 46.

134 Tomás Maldonado, 1999, 74-75. 135 Tomás Maldonado, 1999, 75.

demasiado funcionalista; marca que estaria também associada, por sua influência, ao trabalho projectual de Ulm [Byars, 1994, 234].

A revolução de Maio de 1968 – à qual estava associado o movimento de contra- cultura que recusava a sociedade de consumo e o papel do designer como pactuador com a filosofia industrial de vendas – levaria ao encerramento dos contratos de parceria com as empresas e ao corte de financiamento por parte do governo local. Nesse mesmo ano, a Escola de Ulm é encerrada. Mas entretanto, já a influência da reforma educativa enunciada por Maldonado – “conceito Ulm” – determinaria uma nova era do ensino do Design Industrial, o qual, a partir de então, passaria a constituir uma área do conhecimento direccionada para conteúdos de especialização cada vez mais diversificados e sistematizados – inclusão de cadeiras de semiótica, estudos de contexto e psicologia – para a promoção de parcerias de desenvolvimento de novos produtos entre escolas de design e a indústria137.

Mas é, precisamente, nos anos sessenta, que em paralelo com o Gute Form e a noção de “unidade na unidade” começam a surgir, na Europa, novas correntes de design aplicadas a diferentes conceitos estratégico-organizacionais assumidos pela indústria. Para a delimitação do contexto em que este fenómeno se manifesta de forma mais declarada, é necessário recuar-se à Itália do pós II Grande Guerra.

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