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Mounier, antecipando-se já antes de 1939 ao seu futuro debate

No documento Historia e Verdade Paul Ricoeur (páginas 73-76)

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existencialismo, evoca a existência de uma "natureza hu­

mana", de uma "verdade fundamental" para a qual procura

7 Leia-se de Landsberg, em Esprit: "L'anarchiste contre Dieu", abril

de 1937; "Refléxion sur l'engagement personnel", nov. 1937; "Intro­ duction à une critique du mythe", janeiro de 1938; "Kafka et la mé!a­ morphose", set. de 1938; "Le sens de l'action", out. de 1938; "Note;s sur la philosophie du mariage", abril de 1939; "Refléxion sur _une phi­ losophie de guerre", out. de 1939.

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Prob/emes du Personnalmne, Ed. du Seuil, 1952.

ma "emergência histórica" nova (Manifeste .. . , págs.

apenas u · d ' I'nsistido na conti-

8, 13-14). Que êle tenha o mais as vezes . , . nuidade entre sua fé cristã e sua indaga�ãdo per�onalis�a, � c

sa natural do ponto de vista

es�a m�sma m agaç�o,,. mats v me . a­ da à pedagogia do que à cnten_ologi�; a peda�ogia e em. Moum:r,

por temperamento, mais sens1vel a contm"':tdade da" msptraçao que à discontinuidade das noções. Mas, todas as vezes que o problema da colaboração com u� .não-cristão ascen

?

e ao pn­ meiro plano, é tal autonomia de ehca concreta que ele Invoca.

E então, nem mesmo se diz que só ao cristão caiba função fecundadora nessa tarefa de descobrir em comum o mundo da pessoa; tem sucedido que as cristandades de f�to; �s cristan

ade� estabelecidas, bloquearam certas aberturas histoncas da fe; dai acontecer que tal heresia, tal pensamento descristianizado, se encontrem em melhor situação para libertar o setor de valor que tais cristandades omitiram ou mesmo mascararam. Eis por que, se o personalismo é uma pedagogia, o cristão não é obrigatoriamente o pedagogo do agnóstico, mas aprende sem cessar com o não-cristão o que êsse poder civilizador do homem ético ao qual a cristandade de fato tantas vêzes o "dessensi­ biliza". Da mesma forma, está o cristão muitas vêzes bastante atrasado em relação ao não-cristão, por exemplo na linha da compreensão da história, da dinâmica social e política (Révo­

lution personnaliste, págs. 103, 1 1 5, 121-131, 140-143 ) .

4 . Personalismo e marxismo

É aqui que se pode legitimamente inserir o debate de Mou­ nier com o marxismo: da mesma forma como seu personalismo, interpretado, no após-guerra sobretudo, como uma das filoso­ fias da existência, se presta a um debate com aquilo que se con­ vencionou denominar existencialismo em sentido estrito, assim também o projeto primitivo de uma civilização se presta a um confronto com o marxismo. Seu senso agudo dos determinis­ mos a serem compreendidos e orientados leva-o até os limites do "realismo socialista"; "por ter captado a confiança do mun­ do da miséria" (Manifeste, pág. 43 ) , não pode o marxismo ser abordado como os valôres negativos do mundo burguês e os pseudovalôres fascistas. Mas, sobretudo, para além de todo confronto acadêmico de noção a noção, de teoria a teoria, é

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a mentalidade total da '.'pedagogia" personalista que é mister confrontar com a mentalidade total da praxis comunista.

O que o personalismo reprova no marxismo é, precisa­ mente, ser menos que um despertar, que uma pedagogia. Na época do Manifeste au Service du personnalisme, tinha essa crí­ tica certo sabor idealista; dirigia-se particularmente contra a mentalidade "cientificista" do marxismo; sua ·enfeudação ao positivismo torna-o "a filosofia derradeira duma era histórica que viveu sob o signo das ciências físico-matemáticas, do racio­ nalismo particular e assaz estreito que daí nasceu, do sistema inumano e centralizado de indústria, que provisoriamente lhe encarna as aplicações técnicas" ( ibidem, pág. 5 2 ) . Mas atrás dêsse processo de cunho teórico, o que está em causa é o sen­ tido da açã-o revolucionária; a verdadeira questão é esta: em que se apóiam afinal os marxistas para realizarem o homem nôvo? No efeito futuro das mudanças econômicas, políticas, e não na atração que os valôres pessoais exercem desde agora

sôbre os homens revolucionários. Só uma revolução material radicada num despertar personalista teria significado e oportu­ nidade. O marxismo não é uma educação, mas um amestra­ menta (ibidem, pág. 60) : eis por que é "um otimismo do ho­ mem coletivo que mascara um pessimismo radical da pess-oa"

(ibidem) .

É justamente aqui que se situa o cerne do debate: a con­ vicção do personalismo que não se vai ao encontro da pesssoa se ela não é, originàriamente, itquilo que faz exigência, que exerce pressão através da revolta dos famintos e dos humilha­ dos. O perigo duma revolução que não erige sua própria fina­ lidade como fonte, como meio, é envilecer o homem, a pretexto de libertá-lo e renovar apenas a fisionomia de suas alienações. Esta crítica fundamental contém em germe tôdas as outras, na ordem da explicação histórica, bem como no plano da tática revolucionária, e hoje da estratégia mundial. Mas só a recon­ quistamos ao recuperar, para além de tôda "teoria" persona­ lista, sua intenção educativa. Em particular, torno a encontrar essa censura entre a pedagogia de Mounier e a praxis comu­ nista, quando êle se recusa a considerar como normativa a

única história escrita realmente pelo Partido Comunista: um<J pedagogia também se abre para as possibilidades do homem que o estreito êxito histórico exclui. O sentido duma ética con­ creta é, precisamente, transcender, por fôrça de tôda sua exi-

gência revolucionária, o fio exíguo da história efetiva, n

o con� fiando "o tesouro espiritual da Humanidade a êsse cantao par­ tidário nesse cantão da duração temporal!" (Révolution person­ naliste, pág. 140 ) .

DO EDUCADOR AO FILÓSOFO

A Frente Popular, a Guerra de Espanha, Munique, a Guer­ ra Mundial, a Resistência, a política das frentes nacionais . . . ; poderia a "filosofia" personalista atravessar incólume tal den­ sidade de acontecimentos, nenhum dos quais foi apenas um fato bruto, a sofrer e a explicar, mas foi, cada qual, também uma questão que se apresentava e a oportunidade de uma op­ ção? Outros, que não eu, dirão aqui quais foram essas opções, sua liberdade e coerência.

Vejo, em tais oportunidades, lançar-se o pensamento de · Emmanuel Mounier em três direções: de um lado, o seu perso­ nalismo, a criticar-se a si mesmo, põe-se em guarda contra suas próprias tentações, puristas, idealizantes, anarquizantes, e faz o esfôrço máximo no sentido de tornar-se dócil ao ensino do movimento da história: situam-se nessa linha Q'est-ce que le personnalisme? s e La Petite Peur du XX e siêcle. 9 Mas, ao . mesmo tempo que desaprova um "personalismo da pu­

reza", Mounier a profunda e purifica o motivo cristão de seu personalismo. Não se deve violar o antipurismo dos dois livros precedentes da purificação evangélica que se exprime em L'Af­ frontement chrétien. lO É em função dessas duas linhas de pen­ samento que se deve apreciar o esfôrço "filosófico" (em sen� tido estrito) para situar o personalismo em relação às ciências do homem, de um lado, e em relação às filosofias da existência, do outro. O grande Traité du caractêre 11 - grande no tama­ nho, na amplidão da perspectiva e na quantidade das questões abordadas - a /ntroduction aux existentialismes 12 e o Person-

8 Qu'est-ce que le persomwlisme? Ed. du Seuil, 1947 (Oeuvres, t. III).

9 La Petite Peur du XXe sii!cle. Cahiers du Rhône, La Baconniere et Ed. du Seuil, 1948 (Oeuvres, t. III).

10 L'Affrontement chrétien. Cahiers du Rhône, Ed. de La Bacon- niere, Neucbâtel, 1944 (Oeuvres, t. III).

11 Traité du caractere, Ed. du Seuil, 1946 (Oeuvres, t. Il).

12 lntroduction aux existencialismes, Denoel, 1946 ( Oeuvres, t. III).

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, 1950 vinculam-se a essa terceira linha, propriamente filosoflca , na qual o acento se desloca dos problemas de civi­ lização e revolução para os problemas sobretudo teóricos de estrutura e estatuto existencial da pessoa.

1 . uAntipurismo" e (<otimismo trágico".

Qu'est-ce que le personnalisme? é uma retomada do Ma­

nifeste de 1936, após dez anos de história. Confirma-o quanto ao fundo, mas desloca-lhe a extremidade. Com efeito, se o desprêzo do homem é o perigo específico da revolução mar­ xista, a ética personalista também possui seu perigo peculiar, digno também de uma autocrítica: "Uma certa preocupação de pureza tendia a ser o sentimento diretor de nossa atitude: pureza de valôres, pureza de meios. Nossa formação de inte­ lectuais nos inclinava a procurar tal purificação antes de mais nada em uma purificação dos conceitos, e o individualismo da época, oontra o qual nos erguíamos, não deixava de marcar-nos, desviando-nos, nessa revisão doutrinária, no sentido de um zêlo por demais exclusivo de nossos comportamentos individuais" (pág. 1 6 ) . Contra "o demônio da pureza" (pág. 20) , é neces­ sário aquilatar cada vez melhor o pêso das situações, para as

quais não contribuímos, que só em parte compreendemos e que só parcialmente dominamos, e compreender que essa sujeição não é de modo algum uma maldição: ela maltrata o Narciso que se esconde em nós. "Só somos livres na medida em que não somos inteiramente livres" (pág. 2 6 ) . Já se esboça aqui o tipo de filosofia da existência que o personalismo privilegia: sua li­ berdade não será gratuita, mas fundar-se-á na necessidade com­ preendida e na responsabilidade exercida. Esta vista de olhos sôbre "a liberdade sob condições" se transforma aqui numa crí­ tica ao espírito de utopia que desejaria elaborar o esquema de uma sociedade e as regras de uma ação a partir de princípios, sem jamais incorporar a esta pesquisa a investigação do acon­ tecimento, a exegese das fôrças históricas. Seu êrro é um equí­ voco sôbre o próprio sentido de uma ética concreta: um valor não se exibe perante uma consciência intemporal estrangeira aos combates do século, mas a um combatente que se orienta na crise, discerne para agir e age para discernir: "Um perso-

nalismo não se pode afirmar, senão no cerne de um juízo his­

No documento Historia e Verdade Paul Ricoeur (páginas 73-76)

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