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3. Estrutura da tese

2.1. Estado, cidadania e “Poder local”

2.1.2. Os municípios e o Poder local

Do que referimos no ponto anterior fica claro que a cidadania necessita da criação de mecanismos que de facto garantam os princípios da justiça social e da igualdade, assegurando a protecção dos direitos civis, políticos e sociais. Cabe ao Estado democrático, e em particular ao Estado local, suscitar a participação de novos actores nas políticas públicas, no sentido em que fortalecendo a cidadania se fortalece a democracia e a inclusão social. As autarquias não são meras organizações de prestação de serviços, são antes de tudo instituições de governos dos municípios caracterizados pela sua capacidade de criar normas e de fazer a sua liderança social.

O associativismo local constitui um importante meio de intervenção social e política a nível municipal. Ele está na origem da participação organizada dos interesses sociais na gestão local e constitui um dos mais importantes meios de diálogo e concertação das câmaras municipais com os cidadãos. No actual contexto da vida democrática, marcado pelo debate e confronto político quotidiano, pela multipolaridade dos centros de decisão administrativa e pela emergência de novos poderes no espaço local, é ilusório pensar que o sufrágio popular é suficiente para conferir e, sobretudo, manter ao longo do mandato a legitimidade política dos eleitos locais. Esta legitimidade sofre desde o primeiro dia do mandato um processo de erosão tanto mais forte quanto mais intenso for o processo político local. É imprescindível que a legitimidade política dos eleitos locais seja permanentemente renovada com vista à credibilização da gestão municipal e ao reforço da confiança dos cidadãos nos líderes locais. É nesta medida que a relação da organização municipal com as associações é uma componente fundamental do processo político

local, uma vez que elas asseguram a contínua ligação dos políticos ao tecido social e económico da autarquia e, por essa via, promovem a renovação da sua legitimidade.

A polémica em torno do poder local tem sido profundamente ideológica e não tem sido consensual. Se há uma aceitação de que a origem do poder local resulta da própria crise do Estado e da debilidade das organizações políticas, já existem divergências no que se refere às bases em que assenta o poder político, a função e a natureza do poder local.

Para alguns, o poder local é mais um órgão de dispersão das contradições, recriando uma nova forma de divisão do trabalho político gerada pela complexidade crescente das funções do aparelho de Estado central do que um poder real, efectivo. Seria assim um mero eixo transmissor, dependente em tudo – do conteúdo de competências até à sobrevivência financeira - do Estado central. Para outros, ele é um instrumento importante para problematizar o pensamento político, ensaiando novas experiências de desenvolvimento e novas responsabilidades de democratização. No entanto, há um consenso em considerar o campo político local com valor estratégico de intervenção (Guerra, 1987). O poder local pode ser identificado como o espaço abstracto onde se desenvolvem as mais diversas relações sociais, sejam elas de cooperação, competição ou conflito (Moás, 2002).

O poder local, estando preso a um sistema complexo de poderes, só conquistará a posição de sujeito se construir a sua própria coerência que o autonomize como poder activo por meio da sua actuação política. A conquista de uma identidade sociopolítica que tente encontrar a sua força assenta em dois fundamentos básicos: a especificidade territorial das necessidades, aspirações e identidades e a organização de uma base de apoio das “classes sociais locais”.

“As especificidades territoriais locais, sobretudo num país como Portugal marcado por profundas assimetrias, encontra rapidamente um eco simbólico e/ou real nas reivindicações quotidianamente conhecidas através dos mass media. Ultrapassado a coloração político-partidária, todo o município se sente defraudado nas suas expectativas locais, face a um Estado uniformizado, homogéneo, com respostas estereotipadas e com uma distribuição hierárquica de investimentos, pensada em termos de uma lógica e estratégia global, nunca coincidente com a forma como os interesses locais são expressos ou hierarquizados” (Guerra, 1987:61).

Poderão as novas formas de participação serem lidas no âmbito desta procura de nova legitimidade? Na recriação das “classes do poder” ao nível local? Será essa

procura de legitimidade e reforço da base local uma estratégia de manipulação ou de alargamento da base representativa? Como definem as formas jurídicas que prevêem a participação dos cidadãos, expressa na constituição e na legislação, nas suas formas de predomínio individual e social?

Nos últimos anos, tem-se acentuado o debate sobre o papel dos municípios como promotores do desenvolvimento local (Larrea, 1988), da participação dos cidadãos e da democratização dos poderes locais. Alguns sistemas nacionais de governos locais tiveram ocasião de testemunhar as tentativas de socialismo municipal o que incentivou a procurar no local a emergência de alternativa ao centralismo do Estado nacional (Ruivo, 2000).

A questão do poder local emerge para se tornar uma das questões fundamentais da nossa organização como sociedade. O poder local está no centro do conjunto de transformações que envolvem a descentralização, a desburocratização e a participação.

A ideia que se desenvolve é a seguinte: quando as decisões se tomam muito longe do cidadão correspondem pouco às suas necessidades. Assim, a centralização do poder político e económico que caracteriza a nossa forma de organização como sociedade pode levar a um divórcio profundo entre as necessidades da maioria da população e o conteúdo das decisões sobre o desenvolvimento económico e social.

Reconhece-se que a revitalização do poder local e a descentralização política e administrativa em muito contribuíram para aumentar o compromisso dos governantes com a questão social (Moás, 2002), diminuindo a distância em relação ao poder político.