2 SISTEMA JURÍDICO ISLÂMICO: A SHARI’AH, SUA ESTRUTURA E SEUS
2.5 AS ESCOLAS JURÍDICAS (MADHHAB)
2.5.3 Principais escolas
Uma vez compreendidas as origens e a natureza das divergências, passa-se então à apresentação das linhas gerais das principais escolas jurídicas atualmente conhecidas. Não integra o escopo dessa tese esgotar o estudo da matéria, descendo às minúcias das formulações teóricas de cada uma das escolas. O que se busca é, tão-somente, traçar um panorama de seus principais caracteres, permitindo, assim, que se tenha uma visão minimamente consistente acerca de cada uma delas e do que efetivamente as distingue.
Inicialmente, é preciso destacar que a divisão ou segmentação das diferentes escolas jurídicas deve, necessariamente, levar em conta a divisão, já abordada algumas vezes nessa tese, entre sunitas e xiitas. Uma das mais marcantes diferenças entre essas escolas é que, para os xiitas, além de o Corão estar em um grau de hierarquia bem superior, mesmo em relação à Suna do Profeta, as tradições e lições dos imãs também são consideradas como fontes primárias.
A despeito da existência de outras escolas menos influentes e menos expressivas, os muçulmanos consideram que há, atualmente, cinco grandes escolas jurídicas consolidadas, tidas como os principais expoentes da produção e do pensamento jurídico islâmico. Dessas, quatro são
de orientação sunita (hanafita; malequita; chafeíta; e hambalita) e uma de orientação xiita (a jafarita), as quais terão suas linhas gerais apresentadas nas subseções seguintes.
2.5.3.1 Escola hanafita
A escola hanafita toma por base as lições do imã Abu Hanifa ibn Thabit (falecido em 767). Originária da cidade Kufa, no Iraque, rapidamente expandiu-se para o leste, alcançando o Irã, a Ásia Central e a região da Índia, e foi a escola oficialmente adotada pelo Império Otomano.
Essa escola se caracteriza pelo prestígio aos chamados métodos racionalistas, dando grande importância à analogia (qyias) e ao consenso (ijma) (JOMIER, 1993; KAMALI, 2008), além de admitir o emprego da equidade (istishan). A aceitação e o uso dessas fontes ou métodos racionalistas se justifica pela visão esposada pelos seguidores dessa escola, no sentido de que a interpretação da Shari’ah não pode se manter presa no tempo e precisa ser conduzida de modo a encontrar soluções capazes de fazer frente a situações novas. Uma marca do raciocínio hanafita é a sua abstração, por meio do recurso a casos hipotéticos para se aferir as possibilidades de interpretação dos textos sagrados, e, com isso, alcançar a melhor solução possível.
Preconiza-se, no entanto, que a interpretação se dê exclusivamente sobre os textos do Corão e da Suna, evitando-se, assim, remissões a opiniões ou supostas práticas relatadas por outros autores, sobretudo porque, para os hanafitas, uma interpretação dada no passado pode não ser mais aplicável ao tempo presente. Em outros termos, embora reconheça autoridade no uso do raciocínio humano para interpretação das fontes primárias da Shari’ah, prega-se que isso seja fruto da elaboração do próprio mujtahid, evitando-se assim meras imitações.
Sobretudo em razão das origens de seu líder, que era comerciante, em termos substantivos a escola hanafita é muito reconhecida por contribuições no campo do fiqh al-muamalat, especificamente no que se refere ao que hoje se reconhece como direito comercial islâmico. Sua abordagem na interpretação de contratos, contudo, é considerada predominantemente formal, atentando mais para a manifestação exterior dos atos do que para sua intenção. No campo civil, é considerada por muitos como a escola mais humanitária, por se dedicar a formulações sobre os direitos dos não-muçulmanos e dos prisioneiros de guerra, por exemplo, e por sua interpretação mais liberal ou branda dos preceitos penais da Shari’ah (KAMALI, 2008).
Atualmente, é considerada como a mais difundida entre as escolas. Além do Iraque, é a que predomina na Síria, na Jordânia, na Palestina, no Líbano, na Turquia e na região da Ásia Central, bem como na península índica, com destaque para Bangladesh, Paquistão e Índia (HALLAQ, 2009).
2.5.3.2 Escola malequita
A escola malequita segue as ideias do imã Malik ibn Anas al-Asbahi (morto em 795). Originária de Medina, na região do Hejaz, difundiu-se em seguida para o Egito, para a região da Andaluzia e, posteriormente, para o Norte de África (HALLAQ, 2009).
A principal característica dessa escola é o tradicionalismo. Para seus adeptos, a interpretação do Corão deve ser pautada pelo princípio da utilidade geral (que, entre nós, equivaleria à busca do bem comum), seguindo a “tradição viva” (RAHMAN, 1979, p. 82). Nesse sentido, a Suna exerce uma função central na atividade de interpretação e aplicação do Corão. Um aspecto marcante nessa escola, contudo, é que, além dos hadith do Profeta, a teoria do usul al-fiqh proposta por Malik considera como fonte da Shari’ah também as práticas dos companheiros de Muhammad (KAMALI, 2008).159
A despeito da centralidade que confere às tradições do Profeta, essa escola é considerada a mais aberta e plural em termos de fontes a serem consideradas na interpretação da Shari’ah. Os malequitas são tidos como os precursores na consideração das razões de interesse público (istislah) e da prevenção ou repressão aos fins ou resultados ilícitos (sadd al-dhara’i). Por sua grande contribuição nessa seara, tais fontes ou métodos são conhecidos como “doutrinas malequitas” (KAMALI, 2008).
Outro aspecto importante na doutrina malequita é a ênfase que confere à intenção dos agentes, sobretudo em matéria de contratos. Ao contrário dos hanafitas, por exemplo, que adotam uma abordagem mais formal das obrigações, os malequitas adotam uma abordagem fortemente
159 Malik é considerado um dos mais importantes líderes dessa linha tradicionalista, que prestigia os hadith do Profeta. Cidadão de Medina, produziu uma grande obra da Suna, denominada Al-Muwatta, que é considerada uma das primeiras compilações das tradições. Contudo, inclui não apenas as práticas dos Profetas, mas também as práticas de seus companheiros e as formulações do próprio Malik sobre diversos aspectos do fiqh.
impregnada de conteúdo moral, a ponto de considerar a intenção na análise da validade e das obrigações pactuadas pelas partes.
Atualmente, a escola malequita é a que predomina no Norte da África, aí compreendidos Marrocos, Argélia, Tunísia, Sudão e norte do Egito, além do Bahrein e do Kuwait (HALLAQ, 2009).
2.5.3.3 Escola chafeíta
A terceira escola é assim denominada por adotar as lições do imã Muhammad ibn Idris al- Shafi’i (morto em 819). Discípulo de Maliki, com quem estudou em Medina, al-Shafi’i radicou-se posteriormente no Egito e é considerado um dos mais importantes e proeminentes estudiosos do saber jurídico islâmico.
Os escritos de al-Shafi’i são considerados de singular importância porque a ele se atribui a elaboração mais consistente, sistematizada e clara do usul al-fiqh, concebendo as bases para a construção do que hoje se entende como jurisprudência islâmica. Em suas formulações, o autor desenvolveu, com pioneirismo, uma espécie de hierarquia de fontes da Shari’ah, a qual foi aceita pela grande maioria dos juristas das outras escolas. Embora muitos juristas não reconheçam a autoridade de algumas dessas fontes, a concepção dos diferentes níveis de autoridade, tal como esquadrinhada por al-Shafi’i, acabou se consolidando entre os pensadores islâmicos.
Segundo os chafeítas, há apenas uma única lei islâmica, que provém da revelação divina e não comporta variações segundo os costumes locais. Para essa escola, o direito no Islã teria quatro raízes: o Corão, a fonte primordial; a Suna; o consenso dos sábios (ijma); e o raciocínio analógico (qyias) (RAHMAN, 1979). Não há, em princípio, outras fontes a serem consideradas no processo de derivação da Shari’ah,160 embora formulações dos seguidores de al-Shafi’i tenham sido mais permissivos a algumas delas.
Nesse rol de fontes, as duas primeiras têm força praticamente equivalente (exceto no que se refere aos assuntos religiosos). Além disso, têm absoluta primazia sobre as demais, de modo que
160 Apesar de discípulo de Maliki, al-Shafi’i criticava as fontes tipicamente malequitas, como a istislah, por considera- las como não autorizadas pelo Corão ou pela Suna.
não podem ter seus preceitos afastados ou mitigados pelas tradições ou costumes locais.161 A teoria chafeíta preconiza ainda que, somente se não houver previsão expressa nas demais fontes é que se recorre à analogia. Por isso, alguns autores sustentam que a doutrina de al-Shafi’i e seus seguidores é um meio-termo na dicotomia que prevalecia na época, entre os “partidários da opinião” e os “partidários das tradições” (KAMALI, 2008).
Uma contribuição importante da escola chafeíta para o campo dos negócios e do comércio diz respeito à forma de interpretação dos contratos. Assim como os hanafitas, os chafeítas consideram que os contratos devem ser interpretados mais por sua forma e por seu conteúdo do que pela intenção das partes. Para eles, considerações sobre as intenções são, na verdade, meras conjecturas, fruto de grande subjetividade. Desse modo, os contratos devem ser interpretados de maneira mais objetiva, segundo um juízo de conformidade de sua forma e de seu conteúdo ao que prescreve a Shari’ah.
Atualmente, a escola chafeíta é a que predomina no Baixo Egito, no leste da África, bem como em Brunei, nas Filipinas, na Malásia, na Indonésia e, ainda, em boa parte das ex-repúblicas soviéticas do Oeste (HALLAQ, 2009).
2.5.3.4 Escola hambalita
Essa escola toma por base os escritos do imã Ahmad ibn Hanbal (falecido em 855), célebre jurista conhecido por seu conservadorismo. Tem origem em Bagdá, e exerceu grande influência sobre o pensamento islâmico até o século XIV.
A característica central da linha hambalita é a ortodoxia ou o tradicionalismo estrito. Em sua formulação, Ibn Hanbal prega uma interpretação mais estrita da Shari’ah, adotando uma postura bastante crítica em relação às teorias ou métodos racionalistas, por considerarem que elas induzem à arbitrariedade. Para ele, o Corão é claro e não contém partes nebulosas, de modo que sua literalidade deve ser respeitada, não se admitindo flexibilizações de seu texto ou de seus comandos pela via do raciocínio humano (HALLAQ, 2009).
161 Tal concepção era especialmente relevante para o prestígio à Suna porque muitos juristas da época entendiam ser possível dar prevalência a determinado costume ou prática local em detrimento de certos hadith do Profeta (KAMALI, 2008).
Segundo a teoria proposta por Ibn Hanbal, além do Corão, as principais fontes de elementos para a compreensão da lei islâmica são as práticas e dizeres do Profeta. A Suna, portanto, tem uma importância fundamental nesse processo hermenêutico. Embora reconheçam a analogia (qyias) como uma fonte válida da Shari’ah, os hambalitas consideram que sua aplicação deve ser medida de exceção, tendo menos força até mesmo do que os chamados “hadith fracos”. Por outro lado, em que pese sua visão restrita sobre as fontes, essa escola confere grande importância à consideração de razões de interesse público (istislah) – desde que, por certo, não implique em flexibilização das prescrições do Corão (KAMALI, 2008).
Embora tenha experimentado um progressivo declínio de seus seguidores ao longo do tempo, as ideias hambalitas tiveram um grande resgate e prestígio no século XVIII, por ocasião do movimento pré-reformista islâmico (RAHMAN, 1979). De modo específico, suas formulações serviram de base para o wahabismo – o qual, como já explicou na seção 1.2.4, pregava a necessidade de um retorno do Islã às suas verdadeiras origens e tradições.
Das quatro escolas sunitas, a hambalita é tida como a que tem o menor número de seguidores. Atualmente, predomina apenas na Arábia Saudita, embora conte com adeptos, em frações minoritárias, em países como Omã, Qatar, Bahrein e Kuwait (KAMALI, 2008).
2.5.3.5 Escola jafarita
A escola jafarita é a única de orientação xiita dentre as que são reconhecidas como principais do pensamento jurídico islâmico. Embora não seja a única, é a escola mais difundida e seguida entre os xiitas, sendo perfilhada pela corrente absolutamente majoritária deles, a dos xiitas duodécimos ou imamitas – a qual, como já se expôs, representa cerca de 80% dos adeptos desse segmento dos muçulmanos.
Sua denominação é uma derivação do nome de seu líder, o imã Já’far ibn Muhammad al- Sadiq, muito conhecido por seu cognome Al-Sadiq (traduzido como “o verdadeiro” ou “o verídico”). Nascido em Medina no ano de 703, e falecido entre 765 e 768 na mesma cidade, é considerado pelos xiitas duodécimos como o sexto dos doze imãs oficialmente reconhecidos (AL- TABATABAÍ, 1997). Ele é considerado um importante divisor no pensamento xiita porque, antes de suas formulações, a divergência com os sunitas praticamente se restringia ao plano político, isto
é, tratava da sucessão de Muhammad. Para muitos, foi especialmente a partir de Al-Sadiq e de seu pai, o imã al-Baqir, que o xiismo teve desenvolvida de forma mais substantiva suas formulações propriamente jurídicas (KAMALI, 2008).
De modo geral, os jafaritas reconhecem as principais fontes reconhecidas pelos sunitas, embora as articulem de forma diferente. O Corão é considerado um texto perfeito e infalível e sua condição de fonte primária o coloca em uma primazia ainda mais forte do que ocorre nas mais ortodoxas escolas sunitas. Além do livro sagrado, são também reconhecidas como fontes a Suna, o consenso (ijma) e, ainda, a razão humana (akl), mas com algumas diferenças importantes.
No que se refere à Suna, a principal marca da escola jafarita é que, além dos hadith do Profeta, são consideradas também as tradições dos imãs. Essa autoridade conferida pelos jafaritas aos atos e opiniões dos imãs decorre da crença, perfilhada pela grande maioria dos xiitas, de que a condição dos imãs é legitimada por Deus.162 Em consequência, eles são tidos como pessoas iluminadas e, como tais, são infalíveis e incapazes de pecar (KAMALI, 2008). Por isso, suas práticas e suas opiniões devem ser também seguidas pelos muçulmanos – até porque, segundo eles acreditam, os imãs, cada qual em sua era, agiram da mesma forma que o Profeta agiria se estivesse vivo.163
Uma importante consequência ou reflexo dessa visão é que os xiitas não adotam os mesmos livros da Suna que os demais muçulmanos. Eles rejeitam os “seis livros” (os sahih, ou “autênticos”, já referidos na subseção 2.3.1.2) adotados pelos sunitas, por entenderem que ignoram muitas das práticas de Ali e considerarem que o processo de validação ou de reconhecimento dos hadith deveriam passar necessariamente pelos imãs, e não se basear apenas em relatos de pessoas comuns (KAMALI, 2008). Em seu lugar, os xiitas utilizam outras compilações, chamadas de al-Kutub al-
arbʿah (ou “os quatro livros”), escritas por três autores xiitas, usualmente referenciados como “os
três Muhammads”.164
162 De acordo com a doutrina xiita, o caráter divino dos imãs teria sido prescrito por Deus, o que estaria retratado na seguinte passagem do Corão (2: 124): “E quando o seu Senhor pôs à prova Abraão, com certos mandamentos, que ele observou, disse-lhe: Designar-te-ei Imam dos homens. (Abraão) perguntou: E também o serão os meus descendentes? Respondeu-lhe: Minha promessa não alcançará os injustos”.
163 Esse dogma da infalibilidade, que constitui uma importante marca da escola jafarita, não é uma unanimidade nem mesmo entre os xiitas. Outras escolas, como a zaidista, não aceitam essa especial condição dos imãs.
164 São elas: (i) Usul al-Kafi, escrita por Muhammad al-Kulayni; (ii) Man La Yahduruhu al-Faqih, escrita por Abu Ja’far Muhammad ibn Babawaih, mais conhecido como al-Saduq; (iii) Tahdhib al-Ahkam, escrita por Abu Ja’far Muhammad ibn Hassan Tusi; e (iv) Al-Istibsar, também escrita por Muhammad al-Tusi.
No que tange ao consenso (ijma), os jafaritas também possuem uma posição bastante específica. Além de essa fonte não gozar da mesma autoridade que tem no pensamento sunita, a escola jafarita considera que não basta o consenso da comunidade ou dos sábios da localidade para que se forme o consenso em torno de um tema controvertido: é imperativo que a suposta regra ou solução extraída do Corão conte com a opinião favorável de um imã para que ela seja considerada válida e, assim, seja dotada de autoridade.
No que tange ao uso da razão humana (akl), os xiitas, de modo geral, e os jafaritas, em especial, acreditam que as “portas do ijtihad” não se fecharam no século X. Para eles, os textos sagrados continuam abertos à interpretação, sendo então necessário o emprego do raciocínio humano para derivar os princípios gerais do Corão e da Suna. Contudo, a legitimidade para essa tarefa se restringe aos doze imãs e, depois do último deles, aos líderes religiosos ou seus representantes (AL-TABATABAÍ, 1997).
Atualmente, a escola jafarita contam com adeptos no Irã, no Iraque, no Líbano, no Bahrein e em algumas comunidades xiitas do sul da Ásia.
2.6 ENTRE O PERMITIDO (HALAL) E O PROIBIDO (HARAM): A ADMINISTRAÇÃO DA