• Nenhum resultado encontrado

2 SISTEMA JURÍDICO ISLÂMICO: A SHARI’AH, SUA ESTRUTURA E SEUS

3.5 A “ÉTICA FINANCEIRA” DO ISLÃ: A CONSTRUÇÃO TEÓRICA DAS FINANÇAS

3.5.3 Princípios fundamentais das finanças islâmicas

3.5.3.1 Proibição da vantagem excessiva (riba)

A proibição da riba é o primeiro e mais importante princípio norteador preconizado pela

Shari’ah para as práticas negociais. Conquanto seja usualmente traduzido e referenciado como a

proibição da usura ou da cobrança de juros, o princípio, na verdade, tem alcance bem mais amplo. Em sentido comum, a palavra árabe riba, a depender do contexto, pode ser traduzida como ganho, excesso, aumento ou expansão (ISRA, 2012). Todavia, em sentido mais técnico, tal como adotado no âmbito jurídico-financeiro, a riba é definida como um acréscimo ilegítimo que beneficia uma das partes em determinado negócio. Para Saleh (1986, p. 16), a riba consiste em

ganho ilícito decorrente da desigualdade quantitativa dos contravalores envolvidos em qualquer transação que tenham como efeito a troca de duas ou mais espécies (anwa) que pertençam ao mesmo gênero (jins) e que sejam norteadas pela mesma causa (illah).

De forma mais clara e didática, porém um pouco mais restrita, Iqbal e Molyneux (2005, p. 9) a definem como

qualquer coisa (grande ou pequena), pecuniária ou não pecuniária, em excesso ao principal de um mútuo que deve ser pago pelo mutuário ao mutuante juntamente com o principal, como condição para o mútuo ou para a extensão de sua maturidade.

Em outras palavras, a riba é uma espécie de ganho ou de mais-valia cobrada por uma das partes envolvidas em determinado negócio no qual se tenha a troca de bens da mesma espécie. No contexto da Shari’ah, é considerada como uma causa de nulidade do negócio jurídico (BALALA, 2011).

A despeito de definições mais estritas adotadas por alguns autores, o que se observa é que, em geral, a teoria islâmica segue um conceito bastante amplo de riba, que abarca não apenas os excessos cobrados nas operações de empréstimo como também aqueles cobrados nas trocas comerciais. Além disso, abrange tanto a riba cobrada em razão das trocas de produtos da mesma espécie (mas de qualidades distintas), quanto aquela cobrada em razão do diferimento do pagamento das obrigações. De maneira sistemática, é possível então classificar as diferentes espécies de riba da seguinte forma:

(i) Riba al-jahiliyya (ou riba pré-islâmica),246 que corresponde ao valor adicional, pecuniário ou não-pecuniário, cobrado em operações de empréstimo em geral, seja a título ordinário – isto é, pelo fato de o empréstimo ser pago em momento posterior ao que foi tomado, como compensação ao credor pela demora –, seja a título de penalidade, em razão de o empréstimo não ter sido pago na data do vencimento pactuada.247

(ii) Riba al-buyu, que corresponde ao valor adicional cobrado em operações de troca de bens ou produtos. Segundo sua origem, se subdivide em:

a. Riba al-nasi’ah (ou “riba por postergação”), cuja cobrança se dá exclusivamente em razão do diferimento do pagamento ou da troca no tempo, como forma de compensar o credor pela demora no recebimento da coisa devida; e

b. Riba al-fadl (ou “riba de aumento”), cuja cobrança, embora se opere na troca de bens ou produtos de mesma espécie, se justifica em razão de diferenças na qualidade desses produtos (ex: 100 kg de trigo de qualidade inferior são trocados por 10 kg de trigo de qualidade superior).

Todas essas formas de riba são vedadas pela Shari’ah, embora sob fundamentos distintos. Enquanto a riba al-jahiliyya ou pré-islâmica é expressamente proibida pelo Corão248 em várias passagens,249 as duas espécies de riba al-buyu são condenadas ou proibidas em várias falas do Profeta,250 reproduzidas em diferentes compilaçõesda Suna. 251

246 Essa denominação decorre do fato, registrado por muitos autores, de que essa era uma prática relativamente comum na Península Arábica antes do tempo de Muhammad e da revelação do Corão. Há diversos registros no sentido de que, nessa fase, referida como “período da ignorância”, era comum a oferta de empréstimo mediante o pagamento de juros altíssimos, sobretudo os de mora (SALEH, 1986; VOGEL E HAYES, 1998).

247 Nesse contexto é que está prevista a cobrança de cobrados pelo empréstimo de dinheiro, de bens ou de mercadorias. Ao rigor terminológico, portanto, é somente nesse âmbito que a palavra riba pode ser tomada como sinônimo de usura. 248 Em razão disso, a riba al-jahiliyya é comumente chamada também de riba al-Quran.

249 Há pelo menos seis passagens expressas do Livro Sagrado que tratam da proibição da usura. Dentre elas destaca-se a seguinte do Corão (3:130): “Ó crentes, não exerçais a usura, dobrando e multiplicando (o emprestado) e temei a Allah para que prospereis”.

250 Em razão disso, a riba al-buyu é também conhecida de riba al-Sunnah.

251 Uma das citações mais comuns é extraída da Sahih Muslim, a compilação da Suna feita pelo Imã Muslim ibn al- Hajjaj al-Naysaburi, que, no livro 22, hadith 107, relatou a seguinte fala de Muhammad: “O ouro é para ser pago em ouro com mesmo peso, de igual para igual, e prata é para ser paga em prata com o mesmo peso, de igual para igual. Aquele que fez um acréscimo a isso ou exigiu um acréscimo negociou com riba”.

Na medida em que importa em cobrança de um valor adicional ou mais-valia, uma importante questão que se coloca é a diferença que o Islã estabelece entre a riba – que é vedada pelos preceitos da religião – e o lucro decorrente das operações de compra e venda – que não apenas é permitido como fortemente encorajado. Além de tomar por base expressa passagem do Corão,252 essa importante diferença de tratamento está diretamente relacionada à importância que o sistema doutrinal islâmico confere ao trabalho e à conexão da geração de riqueza com ativos reais, que devem aqui ser conjugados com o desprezo e o repúdio que a religião confere às fontes de riqueza que não estão associadas a ele, como a usura. Nesse sentido, o lucro é aceito porque é fruto do comércio de bens e produtos, ou seja, ativos da economia real, e decorre do emprego de um importante fator de produção, qual seja, o trabalho humano. Por outro lado, os juros não são aceitos porque são devidos e recebidos independentemente de qualquer esforço ou trabalho, e porque partem da premissa – rejeitada no Islã – de que a moeda pode, ela própria, ser usada como mercadoria.

Não obstante, há diversas contribuições que buscam explicar a racionalidade que há por trás dessa proibição da riba em geral, e da usura em particular. Uma das mais abrangentes é apresentada por Vogel e Hayes (1998, p. 80-85), que sustentam que a racionalidade dessa vedação poderia ser explicada a partir de quatro possíveis fundamentos, a saber:

(i) A equivalência matemática – desenvolvida especialmente pelos adeptos da Escola Malequita, a proibição teria o propósito de buscar a equidade das trocas ao determinar que elas sejam feitas em uma mesma base de medida, de volume ou de valor; (ii) A prevenção da exploração – segundo esse fundamento, a proibição teria por fim

evitar abusos,253 sobretudo por parte dos mais fortes contra os mais fracos, que, premidos pela necessidade, invariavelmente se veem obrigados a se submeter a condições negociais iníquas;

252 Assim prescreve o Corão (2:275): “Os que praticam a usura serão ressuscitados como aquele que foi perturbado por Satanás; isso, porque disseram que a usura é o mesmo que o comércio; no entanto, Allah consente o comércio e veda a usura”.

253 No caso específico da riba aplicável aos empréstimos, é digno de nota que a associação da usura à exploração e ao abuso é largamente enfatizada no pensamento islâmico, não apenas no âmbito da teoria filosófica, como também na teoria econômica e na teoria jurídica. Nesse sentido, por exemplo, é a posição de Behishti e Bahonar (1990, p. 446), para quem “usura é um tipo de expropriação da pessoa e de roubo do produto do seu trabalho [...]. Ela faz o rico mais rico e o pobre mais pobre”.

(iii) O desestímulo ao comércio de dinheiro e ao uso dos gêneros alimentícios como moeda – nesse âmbito, a proibição se explicaria em decorrência da própria visão islâmica acerca da moeda. A ideia, portanto, é evitar o ganho de valor puramente monetário, não associado a trabalho ou a esforço humano; e

(iv) A necessária relação entre risco e retorno – sob esse prisma, a proibição se apoia no princípio geral adotado nas teorias jurídica e econômica islâmicas, no sentido de que toda e qualquer perspectiva de retorno ou ganho comercial deve estar associado à responsabilidade ou ao risco de perdas. Qualquer ganho previamente determinado, independentemente de risco, é considerado ilegítimo, injusto e moralmente reprovável.254

Especificamente no que se refere às operações financeiras, a vedação à riba traz consequências importantes para a estruturação ou concepção dos modos ou arranjos de financiamento, que estabelecem diferenças importantes na dinâmica da intermediação financeira. A primeira e mais óbvia delas é também a mais notoriamente conhecida: não se admite a concessão de empréstimos ou financiamentos baseados na cobrança de juros.

Dessa primeira decorre uma segunda diferença: a vedação à cobrança de juros impõe para as instituições financeiras que queiram atuar em conformidade com os preceitos da Shari’ah um modelo de negócios substancialmente distinto daquele que prevalece nos mercados tradicionais. Em lugar de atuar como meras rentistas, auferindo retorno apenas com base em um percentual fixo de juros previamente determinado, tais instituições devem buscar esses retornos de outras formas, a exemplo de lucros obtidos em negócios com seus clientes e do aluguel de bens a esses mesmos clientes.

254 A restrição aqui toma por base a visão islâmica de que o dono do capital acabaria recebendo sua compensação ou seu retorno mesmo que o negócio por ele financiado não gere qualquer resultado. Ou seja, ao contrário do empreendedor, que corre todos os riscos próprios do negócio, o financiador já teria, de antemão, excluída toda possibilidade de risco a ele pertinente, o que é considerado ilegítimo. A racionalidade desse ponto de vista, em parte já explicada, é bem desenvolvida por Abu Saud (1980, p. 76): “Todo muçulmano está sob a obrigação de trabalhar para viver e ninguém tem o direito de auferir qualquer ganho ou recompensa sem exercer um esforço produtivo e arcar com o consequente risco. Em outras palavras, qualquer ganho auferido por uma pessoa sem trabalho é ilegítimo. Toda atividade ou empreendimento que assegure a seu proprietário um ganho sem risco ou que exclua qualquer possibilidade de perda é igualmente ilegítima”.

Outline

Documentos relacionados