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Religião: um fato privado?

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A entrada na modernidade implicou em mudanças significativas tanto na ordem social quanto simbólica. Na perspectiva de WEBER (2000), a Reforma protestante, com os seus princípios doutrinários da justificação pela fé, autoridade normativa da bíblia e sacerdócio universal dos crentes retirou das mãos da Igreja e do clero o poder normatizador sobre os indivíduos e a vida social, instaurando assim o processo que denominou de secularização. O sentido original da palavra era a da passagem de um indivíduo ou bem do domínio da igreja para o domínio secular (ISAMBERT, 1976:573). A secularização corresponderia, portanto, ao processo pelo qual a influência religiosa se enfraqueceu ou desapareceu em alguns setores da atividade humana e pela qual o espírito científico teria encontrado meios de se desenvolver. De acordo com ISAMBERT “a história da constituição do espìrito científico é aquela da secularização do conhecimento do mundo, ou das formas de pensamento aptas a apreendê-lo” (1976:575). Ocorre assim um processo de diferenciação pelo qual as esferas de ação e pensamento social tais como o ensino, a medicina, o direito ou a administração, outrora sob controle da instituição religiosa, vão progressivamente se constituindo como “esferas distintas e autônomas sob controle de seus próprios experts profissionais” (MARTIN, 1996:27). Tal processo levaria a uma concentração da religião ao campo que lhe é próprio, o das últimas coisas (ISAMBERT, 1976), à sua privatização.

Assim, as sociedades ocidentais modernas constituíram-se, em grande parte, sob essa égide da separação entre religião e ciência, entre razão e fé, entre poder religioso e político e entre

esfera privada e pública. A autonomia, a responsabilidade e a razão são pressupostas como características essenciais do indivíduo que acede à esfera pública, enquanto a esfera privada, esvaziada da atividade de produção econômica, “se reduz cada vez mais à intimidade e à famìlia” (Diane LAMOUREUX, 2009:210). É a essa esfera ìntima que passa a ser associada também a religião: o processo de secularização tendo implicado na “constituição de setores da atividade humana que escapam às instâncias religiosas, sejam estas religiões constituìdas ou as formas religiosas do pensamento” (ISAMBERT, 1976:575) teria implicado, ao menos no campo das representações, num certo confinamento da religião ao espaço privado.

De fato alguns resultados da nossa pesquisa de campo no Brasil9 remetem aparentemente a esse imaginário de uma religião confinada ao espaço privado. Na questão quanto ao lugar da religião (questão de número sete), por exemplo, verificou-se um grande número de respostas indicando que ela é um assunto para a família (16,2%), pessoal/privado (17,0%) e/ou das igrejas/instituições religiosas (5,1%). A estas somam-se aquelas indicando que a religião não deve influenciar a vida pública (5,5%) ou de que não deve orientar as ações do Estado (5,1%), de modo que as respostas que, de alguma maneira, afirmam aí o espaço privado como esfera de ação da religião totalizam cerca de 48,9%. Além do mais a percepção quanto às motivações para a participação religiosa também se situam sobretudo no campo pessoal. Assim, a busca de sentido para a vida (44,1%), a busca espiritual autêntica (23,5%) aparecem como motivações mais importantes do que a tentativa de manter as tradições (9,8%) ou a moral social (8,3%). Deve-se destacar que 3,4% indicaram que ela se deve à falta de conhecimento, e 3,4% e 2,0% respectivamente, que ela não passa de tentativa de imposição de dogmas e de controlar/reprimir a vida das pessoas. Da mesma maneira, no que se refere aos que seriam os benefícios/resultados que poderiam ser esperados da participação religiosa, a maior parte das respostas indicam fatores de ordem pessoal e/ou familiar – alívio para os sofrimentos (17,6%), alívio para as tensões do dia-a- dia (15,5%), proporciona educação para as crianças (9,3%), ajuda a manter a moral familiar (9,1%). Algumas repostas apontam para benefícios que, mesmo podendo ter um aspecto pessoal, têm também um conteúdo social, como: oferece espaço de convívio social

(10,3%), pode favorecer uma conduta ética (9,8%), ajuda a manter a integridade cultural de um povo (8,6%), é fonte de poder para líderes religiosos (4,4%) ou para quem a pratica (2,9%), oferece soluções para problemas sociais (3,9%) e é fonte de tensões e conflitos (3,9%).

Ademais, “a noção de secularização se acha associada àquela de modernização de modo que o seu emprego coloca, implicitamente, o processo ainda mais global de racionalização” (ISAMBERT, 1976:574) e desenvolvimento técnico científico e econômico e de autonomização que caracteriza a modernidade e que, aparentemente, torna-a incompatível com as religiões. De fato, “a afirmação da autonomia do homem e de sua razão foi associada, a partir do Iluminismo, com a emancipação da religião” (Danièle HERVIEU- LÉGER, 1996:16). Na perspectiva marxista, por exemplo, a religião é tida como ideologia que esconde as contradições reais, anestesia a dor da angústia e amortece o protesto frente à ilusão de redenção que a falsa consciência oferece : é o ópio do povo, “ obstáculo à superação da alienação real” (ALVES, 1984:35). Para Marx, a religião é ilusão, falsa consciência, ideologia, alienação, expressão e protesto da angústia real e as questões metafísicas são mistificações que não têm validade na realidade concreta, sendo que apenas a objetividade da razão, da ciência e do materialismo histórico poderia libertar o ser humano dessa condição ilusória, desmascará-la de modo que lhe seja possível estabelecer relações transparentes e racionais entre si e com a natureza.

Pode-se dizer que essas duas tendências – tanto o iluminismo quanto o marxismo através do jacobinismo - influenciaram fortemente a entrada da França na modernidade e a constituição da República francesa a qual envolveu profundos conflitos e requereu “uma mobilização militante para criar um espaço secular” (MARTIN, 1996:26). Assim, a emancipação da religião no ocidente foi vivida, em alguns casos, através da privatização da religião, que passa a ser tida como assunto pessoal, “formalmente separada das disputas10 da vida pública” (Danièle HERVIEU-LÉGER, 1996:16) ou, como no caso da França, “compreendida como um processo de eliminação da religião, associada ao obscurantismo e

10 O termo utilizado pela autora é enjeux, que poderia ser traduzido também por desafios. Contudo o termo tem origem na idéia de algo que está em jogo, em disputa, e que nos parece que permite vislumbrar melhor o que de fato “está em jogo” neste caso.

à rejeição da democracia polìtica” (Danièle HERVIEU-LÉGER, 1996:16). Na França, essa segunda perspectiva constituiu-se como um projeto político republicano e contou com o engajamento ativo do Estado e do laicismo militante, do qual é tributário também boa parte do movimento feminista francês (Florence ROCHEFORT, 2004). De caráter sistemático e duradouro ele foi levado a cabo principalmente por meio da ampla rede de ensino público, que se encarregou da “tradução cultural” (Frédéric MOLE, 2007:100) e da transmissão do ideal laico, de modo que hoje a laicidade na França estaria “inscrita nas consciências, inclusive nas próprias consciências religiosas” (WILLAIME, 2004:298). Um outro aspecto importante da laicidade francesa é a “forte reticência à expressão pública das pertenças religiosas, [de modo que] a privatização do religioso é mais acentuada na França do que em outros lugares da Europa” (WILLAIME, 2004:282). Assim, não obstante o catolicismo marque ainda a cultura e a religiosidade francesa, a laicidade, tal qual a própria forma de concebê-la e de mobilizá-la, são hoje partes constitutivas da cultura e do modo de vida francês (WILLAIME, 2004).

Tais perspectivas são aparentemente confirmadas por boa parte dos entrevistados da Textile na França, que apontam o desinteresse pelo tema religião como razão para não se falar nesse assunto. Na percepção de Marcel, responsável pela área de produção do site de Valence da Textile, verifica-se uma redução do interesse pela religião e da observação de ritos e sacramentos católicos pelos franceses, sendo que não se poderia dizer o mesmo em relação à religião muçulmana:

« ... mais on voit qu‟il y a eu... l‟intérêt pour la religion, en tout cas, à ce qu‟elle pouvait apporter, est en décroissance. Par contre la religion musulmane est assez stable, on voit que ça se maintient. Ça se maintient, il n‟y a pas de... Il y a quand même beaucoup... Je pense qu‟il y a plus de pratiquants musulmans qui croient vraiment à leur religion que de catholiques français qui croient véritablement à la religion. Et en France on pratique très très peu, on pratique très très peu les rites que ce soit la messe, que ce soit le respect à un certain nombre de règles, à travers le Carême, à travers le Vendredi, etc. C‟est assez peu, c‟est très très peu pratiqué. » (Marcel, Textile França)

Por outro lado o caráter de “segredo” e mistério ou de preconceito que cerca o assunto religião - particularmente a muçulmana - é identificado pelos expatriados brasileiros e parecem indicar que, para os franceses, esse é obrigatoriamente um assunto restrito à esfera

pessoal/privada. Destacamos aqui a percepção da expatriada Flávia, responsável por projetos de logística:

“...Se fala é pra uma colega muito mais ìntima que daì, por exemplo, nos, nos casos que eu tenho, que eu soube qual é a religião de algumas pessoas, é se tem um bebê por exemplo, aì fala “ah, eu vou batizar. Não vou batizar”. Então daì você já tem uma noção... se a pessoa é católica, não é católica. Mas a religião não se fala na França. Não se fala.É um tabu. É... eu acho que inclusive em relação à organização não tem muita influência. Porque não se fala, é um assunto que não se fala. Você não sabe qual é a religião das pessoas, não se discute, não se fala. Tabu em que as pessoas não gostam de falar. Não gostam de falar. Não gostam de discutir. Se você entra no assunto as pessoas ficam desconfortáveis em relação a esse assunto. E realmente assim, vai... não diria tabu mas as pessoas não gostam de falar. É uma coisa que é muito pessoal então eles não entram muito... no assunto. Não gostam de falar, então... É um assunto que não se discute realmente. Não se fala. Não sei dizer porque. Eu acredito que é porque seja uma coisa muito pessoal, de crença, de princípios de cada pessoa, então, este tipo de coisa não, realmente não se discute.” (Flávia, Textile França)

E, mais adiante, sobre como ficou sabendo que um colega africano é muçulmano:

“...Ninguém fala diretamente com ele mas...Eu soube porque eu tenho uma amiga minha muito ìntima que é amiga dele. Então ela me fala: “Olha, ele é muçulmano, não sei o que” , então ela faz alguns comentários então eu sei que ele é. Eu já, eu já conversei, eu sou brasileira (risos), então, eu já fui conversar diretamente com ele. Pra entender. Eu tinha curiosidade. Queria saber, né, como que ele faz um Ramadan, como é que funciona, não sei o que. Então é. E ele, muito simpático, nenhum problema em me responder todas as perguntas que eu tinha. Mas era um aspecto meu. De curiosidade. Mas eu nunca vi ninguém perguntar. Eu fui, perguntei, discretamente...” (Flávia, Textile França)

Enfim, essas percepções encontradas na Textile francesa parecem confirmar a religião como um fato sobretudo da cultura e em retração – ao menos no que concerne às religiões cristãs na França-, restrito à esfera privada e inadmissível ou inapropriado à esfera pública. Na loja francesa do Hypermarché no entanto as coisas se passam de maneira diferente - de acordo com os/as entrevistados, o tema é abordado com relativa freqüência como modo de trocar informações e conhecer hábitos das diversas culturas nacionais e religiosas ali representadas tanto por funcionários/as quanto por clientes. Assim a abordagem do tema no Hypermarché na França, embora exija sempre cuidado, não teria um caráter tão restrito como aquele identificado nas percepções dos/as entrevistados/as da Textile. Contudo a sua dimensão subjetiva é manifesta exatamente pela percepção do caráter plural e particular pelo qual a religião se apresenta nesse contexto. No Brasil embora seja possível identificar uma maior liberdade e informalidade no tratamento do tema, a percepção da maioria dos/as

entrevistados/as quanto a pessoas/lugares/ocasiões ideais para falar de religião – com amigos/as, em particular, no horário de almoço na empresa, etc- também remetem a um imaginário da religião como fato privado, pessoal, subjetivo.

Enfim nas sociedades modernas contemporâneas, pluralistas e secularizadas, a religião já não seria mais “uma dimensão objetiva da sociedade , mas uma dimensão subjetiva da individualidade” (WILLAIME, 2004:20). Nesse contexto de relativização do poder religioso, este já não consegue manter sob seu controle e de forma articulada as diferentes dimensões da experiência religiosa individual e coletiva, a saber: a identitária, relativa ao universo dos símbolos, práticas e ritos; a cultural, “que corresponde aos saberes, mitos, doutrinas, imagens etc. que estruturam ou impregnam uma visão particular de mundo e nutrem a memória (legendária ou histórica) daqueles que a tomam por referência” (Danièle HERVIEU-LÉGER,1996:21); a ética, dos valores; e a emocional, das experiências afetivas partilhadas, do sentido de comunidade. Constituiriam exemplos dessa tendência à desestruturação institucional do campo religioso a proliferação de „crenças sem pertença‟ e, no sentido oposto, de formas de afirmação identitária vinculada a símbolos religiosos que já não encontram suporte em nenhuma experiência religiosa vivida, o aumento dos “particularismos comunitários e localismos religiosos, e a tendência à homogeneização ética das grandes tradições religiosas no interior de uma „convicção humanista‟ amplamente partilhada no seio das sociedades democráticas” (Danièle HERVIEU- LÉGER,1996:22).

Assim, por exemplo, no caso da França, particularmente no caso da Textile, onde a percepção do caráter secularizado e cultural da religião – particularmente das cristãs – é aparentemente mais evidente, muitos dos entrevistados destacam que o que é importante não é tanto a religião, mas o respeito ao outro. Esse é o caso, por exemplo, de Philippe, que não crê em Deus e é filho de pastor protestante, que afirma ter dúvidas sobre se seu pai crê em Deus, mas que tem certeza de que ele crê nos homens e que o que o seu pai lhe ensinou foi sobretudo o respeito pelas pessoas. Tal é, a seu ver, o papel mais importante da religião, embora ele destaque que ele pode ser cumprido também pela educação:

« Dieu est une invention de l‟homme. C‟est l‟homme qui a inventé Dieu. Ce n‟est pas Dieu qui a crée l‟homme, mais c‟est l‟homme qui a eu besoin de Dieu. Mais par

contre je crois en l‟homme, parce que pour moi le message principal de la religion et quelque soit la religion (catholique, protestante, musulmane), c‟est le respect de l‟homme qui est en face de nous. C‟est ça qui est important, enfin pour moi c‟est la seule chose que... le seul message important c‟est celui-là. Alors après, d‟aller aux cultes le dimanche ou de ne pas y aller, c‟est aux besoins de chacun. Si on a besoin d‟aller aux cultes pour... c‟est un besoin personnel, c‟est pour ça, pour foi. Mais on n‟y va pas... on ne va pas aux cultes pour les autres. Comme je n‟ai pas besoin d‟aller, pour moi je n‟ai pas besoin d‟aller aux cultes et je pense respecter suffisamment les autres, enfin, j‟essaie de le faire. Pour moi c‟est quelque chose de très important le respect des autres. Et ça je remercie tous les jours mon père pour ça...” (Philippe, Textile França)

Embora com uma perspectiva não tão secularizada quanto a encontrada entre os franceses, a percepção da religião como promotora de relações mais humanas transparece na fala de muitos/as dos entrevistados também no Brasil, tanto na Textile quanto no Hypermarché, em muitos casos percebida como tendência a uma atitude menos competitiva no ambiente de trabalho. Tal visão é afirmada até mesmo por alguns entrevistados/as que declaram não possuir uma prática religiosa regular. Esse é o caso de Sandro, por exemplo, coordenador de RH, no Hypermarché Brasil:« ...você ouve, né?... eu já participei, mas muito pouco, né mas... você ouve bastante as instituições religiosas seja elas que conceito forem, católicas, evangélicas, enfim, elas se reúnem em algum momento pra ajudar o próximo, né?...”. E, mais adiante: “...Não vejo nenhuma religião pregar „Olha, passe por cima de tudo para alcançar seus objetivos...‟. Muito pelo contrário”. E é também o caso, por exemplo, de Evandro, bombeiro na Textile Brasil: “...quem tem uma religião...quem tem Deus no coração, tem honestidade, tem vontade de fazer...não pensa no mal, é...é maltratar pessoas ou querer driblar alguma situação...”.

Enfim, a secularização não implica necessariamente num “mundo tout court desideologizado e dessacralizado: pode até comportar um retorno dos „antigos deuses‟” (MARRAMAO, 1995:33,34). Ademais, no mundo globalizado e midiatizado, as religiões também sofrem uma considerável exposição midiática. Se de certa forma tal exposição constitui evidencia de que as instituições religiosas não perderam “todo poder real sobre a vida individual e coletiva dos europeus” (Danièle HERVIEU-LÉGER,1996:20), mas também dos brasileiros, até em virtude da forte presença de denominações evangélicas ou mesmo católicas carismáticas na mídia, por outro lado ela contribui para moldar representações sociais da religião e das religiões.

Modernidade e religião, portanto, não são necessariamente excludentes. O grande paradoxo das sociedades modernas, na perspectiva de Danièle HERVIEU-LÉGER, consiste no fato de que “foi em parte do próprio campo religioso que estas extraìram as representações do mundo do homem e da história e os princípios de ação que lhes permitiram tornar-se o que são” (1996:14). Nesse sentido, a secularização é um processo cultural complexo uma vez que, ao mesmo tempo em que implica na perda de poder dos grandes sistemas religiosos sobre uma sociedade que reivindica sua capacidade de autodeterminação, observa-se “a recomposição (sob novas formas) de representações religiosas que permitiram a essa sociedade pensar-se a si própria como capaz de autonomia” (Danièle HERVIEU- LÉGER,1996:16). Assim, as religiões contribuem para forjar valores e práticas, para moldar a cultura de uma sociedade.

De fato, para Tillich a religião “será sempre aquilo que tece e estrutura a cultura” (CARVALHAES, 2005) de modo que as representações religiosas não permanecem confinadas ao grupo religioso mas, na medida em que constituem um sistema de símbolos ordenados em torno de uma ética conformam as demais esferas da vida, ao mesmo tempo em que também são conformadas por estas. GEERTZ também aborda a religião como sistema cultural, na medida em que se constitui num sistema de símbolos sagrados que possuem abrangência cósmica e que sintetizam

“o ethos de um povo [...] o tom, o caráter, a qualidade de sua vida, seu estilo moral e estético e sua disposição, [...] a atitude subjacente em relação a ele mesmo e ao seu mundo que a vida reflete [e] sua visão de mundo – o quadro que elabora das coisas como são na sua simples realidade, seu conceito da natureza, de si mesmo, da sociedade [...] suas idéias mais abrangentes sobre ordem” (1989:143,144).

A eficácia da religião reside nesse poder de abrangência dos símbolos sagrados, no sentimento de conhecimento genuíno e verdadeiro, e no tipo de fusão que opera entre o normativo e o existencial: a congruência entre ethos e visão de mundo, cada um deles sustentando-se com autoridade emprestada do outro. O sentimento de conhecimento genuíno e verdadeiro permite enfrentar e aceitar as ambigüidades e paradoxos da experiência humana e ao mesmo tempo negar que sejam características universais. Essa negação é tornada possìvel pela “aceitação prévia da autoridade que transforma a

experiência” (GEERTZ, 1989:125), autoridade essa que pode ser representada pela bìblia nas igrejas reformadas ou pela autoridade papal nas igrejas católicas. Assim GEERTZ estabelece uma relação entre religião e valores, de modo que “a religião nunca é apenas metafísica [...] Em todo lugar, o sagrado contém em si mesmo um sentido de obrigação intrínseca: ele não apenas encoraja a devoção como a exige, não apenas induz a aceitação intelectual como reforça o compromisso emocional” (1989:143).

Enfim, a religião integra o sistema cultural de uma sociedade ao mesmo tempo em que, dada a sua abrangência, o conforma. Mesmo que, diante do processo crescente de secularização ou racionalização a que se acham submetidas as sociedades modernas, esse sentido de compromisso em relação aos referenciais éticos da religião se diluam ou mesmo desapareçam, os valores do universo religioso dominante penetram e conformam a cultura, embora ganhem um sentido mais secular e instrumental.

Assim, não obstante as respostas dos/as questionados/as reafirmem, no caso do Brasil, a percepção da religião como fato pertinente ao âmbito privado, ela é reconhecida, implícita ou explicitamente, também como tendo um lugar e um papel na esfera pública. De fato, das respostas à questão quanto ao lugar da religião (questão de número sete), 35,3% indicaram que ela é importante para a cultura de um país/de um povo ou para a sociedade e 11,5% que

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