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1.2. Pessoa humana e dignidade

3.1.2. A cidade antiga

A cidade antiga e seus locais sagrados tinham, dentre algumas de suas finalidades, concentrar os peregrinos que lá se reuniam em várias buscas: religião, cooperação, comunicação, transformando os centros urbanos em locais de encontro.

Para Lewis Mumford, “começando como uma concentração de força de trabalho sob uma chefia firme, unificada e autoconfiante, a cidade ancestral foi, antes de tudo, um instrumento para a arregimentação de homens e para domínio da natureza, diri- gindo a própria comunidade para o serviço dos deuses”. Todavia, grande foi o caminho até que a cidade plenamente dimensionada surgisse.121 Outra função desenvolvida pela cidade antiga e que não existia nas fratrias ou nas tribos, foi o congraçamento entre pessoas e grupos, propiciando a troca, o encontro e o afastamento da solidão.

“O próprio homem se transformou com a construção e a transformação das cidades; a partir delas, disseminaram-se a dança, a música, o teatro e as artes plásticas. Da mesma forma, o direito, a política e a educação formal se desenvolveram no núcleo da polis (...)”.122

Depreende-se que na cidade antiga, existia uma preocupação com uma vida com qualidade, no que diz respeito às artes em geral, à política, ao direito e à educação, requisitos da qualidade de vida, direito fundamental desenvolvido neste estudo.

As cidades, além do cunho religioso, passaram a ser o ponto das pes- soas cultas, e passou a abrigar as residências das classes de elite, em especial as cidades grandes, que eram belas, ricas e bem povoadas.

120 Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga, p. 109: “Diversas famílias formaram a fratria, diversas fratrias as tri-

bos, diversas tribos a cidade. Família, fratria, tribo, cidade, são, por conseguinte sociedades exatamente análo- gas entre si e nascidas uma das outras através de uma série de federações”.

Os gregos foram os primeiros a se preocuparem em ligar a felicidade e o bem-estar dos indivíduos com as ações governamentais. E mais, passaram a destacar a política “como uma atividade coletiva que dependia da participação dos cida- dãos”.123 Nas comunidades antigas, o trabalho era uma atividade de tempo parcial,

“impossível de segregar completamente das outras funções da vida, como a religião, o jogo, o intercurso comunal, a própria sexualidade”. Quando o trabalho especializado passou a ser uma ocupação diária, o cidadão “perdeu, porém, o alcance da vida como um todo. Esse sacrifício foi um dos descaminhos crônicos da civilização: tão universal que se tornou uma ‘segunda natureza’ do homem urbano”.124 O homem comum começa a se distanci- ar da qualidade de vida, que passa a ser privilégio das classes dominantes. O tra- balho especializado passa a ganhar espaço, segundo Lewis Munford:

“Desde Adam Smith, toda gente tem plena consciência dos ganhos em produtividade que o trabalho especializado assegurava, muito antes da invenção de máquinas complexas. O fato de que a cultura urbana desenvolveu tal especialização não foi a menor razão para o acúmulo de capital e a elevação de renda que acompanharam o crescimento da cidade, antes que houvesse quaisquer avanços comparáveis na in- venção mecânica. Ao passo que muitos dos habitantes das antigas cidades trabalha- vam nos campos dos templos ou tinham fazendas contíguas, uma crescente propor- ção da população praticava outros ofícios e profissões, primeiro como criados do templo, depois como artífices de tempo parcial ou integral, trabalhando diretamente sob encomenda ou para o mercado”.125

Com o crescimento das populações urbanas, aumentam as riquezas, fruto do trabalho organizado e das trocas comerciais, nascendo assim, a divisão en- tre ricos e pobres, e também a propriedade no sentido moderno e civilizado da pala- vra.126

122 Elianne M. Meira Rosa, A cidade antiga e a nova cidade, In A Cidade e seu Estatuto, p. 2. 123 Elianne M. Meira Rosa, A cidade antiga e a nova cidade, In A Cidade e seu Estatuto, p. 4. 124 Lewis Mumford, A Cidade na História, p. 119.

125 Lewis Mumford, A Cidade na História, p. 119.

Dentro da cidade “os direitos de propriedade adquirem uma santidade espe- cial; e, quando as diferenciações de classe aumentaram, tornaram-se correspondentemente mais importantes – aliás mais sagrados que a própria vida humana”.127

Com a queda do Império Romano do ocidente e a preocupação com as invasões germânicas no século V, “quase todas as cidades romanas declinaram com rapidez, e no século IX, virtualmente, haviam desaparecido”. Entretanto, ao sul da Itália, por força da influência árabe, algumas cidades sobreviveram (v.g. Nápoles, Salerno, Bari, Siracusa e Palermo, dentre outras). “Com raras exceções, como é o caso da própria cidade de Roma, conforme descreve Berman, não houve uma continuidade política entre as antigas cidades romanas e as modernas cidades européias que foram se desenvolvendo a partir dos séculos XI e XII”.128

As comunas urbanas do século XII eram governadas por um número ínfimo de patrícios. Eram comunidades subordinadas ou comunidades de comunida- des. “O indivíduo não possuía existência legal, e sua liberdade individual dependia da sua capacidade de passar de uma subcomunidade a outra, ou de recorrer a uma delas para de- fender-se de outra”.129

A cidade murada do período medieval europeu possuía como caracte- rística, para o meio rural, tão somente um local de comercialização do produto do campo e de trocas com produtos que vinham de fora. Tinha assim essa cidade um caráter excludente.130

No século XIII, com o advento da peste, houve um êxodo da cidade para o campo, em busca de uma vida mais limpa e mais sadia.

Todavia, entre os séculos XV e XVIII, a vida urbana assumiu uma nova forma, um novo padrão, que advinha de uma economia mercantilista e de novas

127 Lewis Mumford, A Cidade na História, p. 124.

128 Elianne M. Meira Rosa, A cidade antiga e a nova cidade, In A Cidade e seu Estatuto, p. 4, apud Harold J.

Berman, La formación de la tradición jurídica de Occidente, p. 374.

129 Elianne M. Meira Rosa, A cidade antiga e a nova cidade, In A Cidade e seu Estatuto, p. 4, apud Harold J.

Berman, La formación de la tradición jurídica de Occidente, p. 374.

130 Elianne M. Meira Rosa, A cidade antiga e a nova cidade, In A Cidade e seu Estatuto, p. 4, apud Harold J.

idéias e concepções políticas personificadas no Estado nacional. Como característi- ca, a cidade pós-medieval caminhou no sentido da liberdade e principalmente na conquista dos direitos individuais, e foi edificada com a finalidade de dar espaço ao triunfo intelectual. Para complementar, as cidades da renascença, modificando o estilo medieval, tornaram-se mais amplas e mais claras. Foi a mudança da renas- cença para o barroco que, embora em um primeiro momento refletisse uma mudan- ça estética, na verdade demonstrava profundas transformações políticas e econômi- cas. O crescimento da população urbana, a riqueza oriunda do comércio, o surgi- mento das classes ricas e pobres, o nascimento da propriedade, tudo é fruto de um sistema que sempre dependeu de dois braços: o exército e a burocracia. Tal situa- ção se estendeu até o reinado de Luiz XIV da França.131

O capitalismo dita uma nova forma de vida na cidade, em face dos re- flexos causados pela revolução industrial, como a burocracia contábil e o aumento do consumo.

As funções urbanas buscam se adaptar a essa nova ordem, que ne- cessita de escritórios localizados em grandes prédios, meios de transporte e infra- estrutura urbana, transformando assim a cidade.

O aumento da massa urbana propiciada pelos sistemas de transportes invade as cidades, deixando-as sem limites, criando assim, as grandes áreas metro- politanas.

É a nova forma de vida que surge rompendo com a vida da cidade an- tiga.

Para forçar uma reflexão, é interessante que os atuais gestores das cidades voltem seu olhar para como a vida era desenvolvida nas cidades antigas, no sentido de, aproveitando aquilo que for aproveitável, propiciar melhorias nas cidades de médio porte e nas metrópoles, posto que nas cidades antigas, denotava-se uma preocupação significativa com os seus habitantes, inclusive demonstrando zelo para

com a qualidade de vida, estimulando o bem viver, a cultura, a espiritualidade, a jus- tiça social, o belo, a aplicação do direito e a participação popular nas decisões refe- rentes à cidade.

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