I.2. Orientações da Sociologia do Quotidiano para uma investigação no terreno para práticas
I.2.3. A inspiração do modelo dramatúrgico de Goffman
Goffman toma como unidade fundamental de análise os encontros no tempo e no espaço, a interacção social, “que pode ser grosseiramente definida como a influência recíproca dos indivíduos sobre as acções uns dos outros numa situação de presença física imediata” (1993:26), e apresenta “uma perspectiva sociológica a partir da qual seja possível estudar a
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vida social, sobretudo esse género de vida social que encontramos organizado no quadro físico de um prédio ou de uma fábrica.” (Prefácio de Goffman in A apresentação do eu na
vida de todos os dias, datado de 1959. As citações são referidas à edição portuguesa de 1993).
Utiliza a abordagem do modelo dramatúrgico na sua análise das interacções sociais, em que a vida pública é vista como uma grande peça teatral, com a representação de múltiplas cenas. Existem actores em interacção em palco, que desempenham uma diversidade de papeis. Existe a audiência/plateia que desempenha também seu papel de espectador perante o desempenho dos actores no palco. Considera-se ainda o quadro/cenário onde a cena se desenrola, bem como os bastidores onde os actores descansam do papel do palco ou se transmutam para passar a desempenhar outro papel noutro ou no mesmo cenário, onde armazenam e têm à sua disposição adereços e objectos que usam consoante o papel e o quadro. Por vezes, também se evidencia a presença da figura do encenador...
O conceito de “desempenho” é central na análise, definido como “toda a actividade de um determinado participante num dado momento, que tem como efeito influenciar, seja de que maneira for algum dos outros participantes.” (1993:27). O conceito de desempenho é de facto muito interessante pela sua articulação com a performance das práticas, que irei mais à frente referir no contexto da apresentação da Teoria das Práticas, indo de encontro às formas como se produz e deposita o lixo no dia-a-dia.
Os actores, expostos ao olhar dos outros, expressam-se usando muitas formas de gestão das impressões (que gostariam de causar nos outros), de modo a assegurar que os outros reajam da forma desejada e esperada. A este propósito, no âmbito da temática da tese, refira-se a reflexão de Goffman acerca de um estudo sobre o negócio do ferro-velho e as impressões que os profissionais do sector julgam “oportuno” transmitir: “...o vendedor de ferro-velho está vitalmente interessando em manter reservada a informação relativa ao valor financeiro efectivo do ferro-velho aos olhos da generalidade do público. Gosta de perpetuar o mito segundo o qual o ferro-velho não vale nada e os indivíduos que o vendem são uns “falidos” dignos de dó.” (J.B. Ralph, “The Junk Business and the Junk Peddler”, University of Chigago, 1950 in Goffman, 1993:55).
Apesar de poder ser feito de forma premeditada, como neste caso, habitualmente esta gestão é feita de forma mais incorporada e inconspícua nas interacções entre actores. Há toda uma arte aprendida e apreendida sobre a administração das impressões num desempenho, que evita gestos involuntários e incontrolados, susceptíveis de criar embaraço ao projectar algo que contradiz a imagem que se idealiza projectar, criando dissonância.
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ilustrar os valores oficialmente reconhecidos pela sociedade, mais até do que o faz o seu comportamento global.” (Goffman, 1993:50). É por isso que se verifica uma tendência para desprezar e ocultar actividades, factos ou motivos incompatíveis com uma visão idealizada de si próprio ou dos seus produtos.
O lixo é um bom exemplo destes aspectos ocultos da fachada, remetido para os confins das traseiras, passível de dissimulação - nem que seja ‘varrido para debaixo do tapete’. Na manutenção do controle individual, o lixo é uma forma de expressão involuntária com capacidade de revelação. O lixo pode esconder e revelar “segredos”, no sentido em que por vezes o que se deita fora é precisamente o que é incompatível com a imagem que se pretende sustentar perante a audiência, por isso se remete para as traseiras, não fica no meio da sala de estar... É um clássico dos policiais a investigação sobre o conteúdo do caixote do lixo do suspeito, e este, sabendo disso, também pode forjar indícios que desorientem os detectives... Mas a tendência para dissimular a presença do lixo, em termos societais, tem sobretudo a ver com ocultar a imagem de sujidade e impureza (no sentido de Douglas, 1966). Neste sentido, Goffman, e ainda que paralelamente ao lixo, reflecte sobre o facto de “Na sociedade em que vivemos, a defecção comete o individuo com uma actividade que é definida como inconsistente com os critérios de pureza e asseio que muitos dos nossos desempenhos expressam.” (Goffman, 1993:146).
Voltando ao conceito de “desempenho”, Goffman distingue entre as expressões que os indivíduos oferecem, transmitem (com intenção de provocar determinadas impressões) e aquelas que revelam, emitem (através de sinais ou indícios). Por exemplo, na situação das entrevistas realizadas no âmbito da tese, o caixote do lixo do entrevistado emite um conjunto de informações para além das transmitidas na conversa que decorre ao longo da entrevista. Numa interacção procura-se sempre criar e manter um consenso operacional, definindo a situação, o que viabiliza a própria interacção. No início do encontro há um conjunto de elementos que definem a situação e qualquer facto que coloque em causa a definição da situação inicial, cria alguma confusão na interacção. A este propósito Goffman chama a atenção para dificuldade de mudar a meio da interacção a definição da situação. “Ao sublinharmos o facto da definição inicial da situação projectada por um indivíduo tender a assegurar um plano para a actividade cooperativa subsequente, não devemos descurar o facto decisivo de qualquer definição da situação projectada possuir também um carácter moral peculiar.” (Goffman, 1993:24), no sentido em que foram criadas expectativas mútuas.
A importância da criação de expectativas mútuas se articular à confiança mútua entre actores em interacção, no caso do lixo, reveste-se de um carácter específico. Digamos que existe um
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consenso operacional entre população e autoridades municipais, segundo o qual o lixo terá de ter um destino e que existem contentores colectivos acessíveis, para que as pessoas lá possam quotidianamente despejar o lixo produzido na esfera doméstica, que os serviços vão recolhendo regularmente, mantendo a higiene e saúde públicas. Quando há um distúrbio na recolha, por exemplo, uma greve, observa-se uma perturbação na interacção, dado que um dos actores não desempenhou o seu papel, como era legítimo esperar, a partir da definição da situação inicial. Outro tipo de mudança nesta relação de interacção é quando se multiplica o número de contentores para a separação de lixo. Isto também implica alterações à situação inicial, ainda que o consenso operacional mais amplo do lixo seguir para um destino se mantenha. Este ponto será analisado mais à frente.