O mês de junho de 2013 pode ser considerado um mar- co na história política, social, cultural e comunicacional no Brasil. A onda de manifestações por melhores serviços públicos que to-
mou as ruas do país, mobilizando milhões de pessoas2, deixou
atônitos os políticos brasileiros, acostumados com a passividade da maior parte da população. Até mesmo os conglomerados mi- diáticos, que formam a chamada “mídia corporativa” e dominam o mercado da informação, foram surpreendidos pelas críticas dos manifestantes ao seu modo de noticiar os acontecimentos e versar sobre a realidade social do país. A novidade desta grande mobilização esteve relacionada à forma de organização (a partir do uso e apropriações das TIC para formação de redes de resis- tência simbólica na internet) e à performance dos atores sociais nas ruas (sem a presença de lideranças reconhecidas e com forte discurso de rejeição ao protagonismo de partidos políticos, sin- dicatos ou associações institucionalizadas).
Sem entrar no mérito da legitimidade do movimento ou na polêmica sobre os conflitos violentos entre manifestantes e policiais (enunciados pela imprensa), tarefa à qual sociólogos e antropólogos têm se dedicado com afinco, nosso foco aqui re- cai sobre as formas de organização política dos cidadãos através
2 Quase 2 milhões de brasileiros participaram de manifestações em 438 cida- des (AGÊNCIA BRASIL. Correio Brasiliense, 21 de junho de 2013). Disponível em: <http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-06-21/quase-2-milhoes-d e-brasileiros-participaram-de-manifestacoes-em-438-cidades>. Acesso em: 12 fev. 2017.
Redes digitais: um mundo par a os amador es. No vas r elações entr e mediador
es, mediações e midiatizações
191
das TIC. No escopo de nossa proposta de trabalho, questiona- mo-nos: como o imaginário tecnocultural organiza o discurso que permite uma ação política de cidadão através da expansão da comunicação mediada por computador (peer-to-peer), poten- cializando novas formas, tentativas, de resistência contra-hege- mônicas? Uma resposta a esta pergunta nos possibilitaria com- preender as potencialidades de uma apropriação mais crítica das mídias em prol de uma cidadania efetiva e emancipadora.
Para tal empreendimento, analisamos a circulação de materiais relativos aos protestos encontrados na internet, pro- curando fragmentos que nos mostrem a flagrante dicotomia tanto da interação entre os manifestantes e seus simpatizantes (encontrada principalmente nas redes de relacionamento, pla- taformas de compartilhamento, blogs e websites mantidos por amadores) quanto da visão institucional de governos, academia e mídia corporativa (vistas em portais de jornalismo tradicio- nal), procurando entender a complexidade das disputas simbó- licas e da construção dos sentidos que têm como pano de fundo o imaginário tecnocultural contemporâneo. Neste sentido, po- deríamos dizer que a resistência nos protestos do Brasil se orga- nizou em duas frentes principais que se inter-relacionam: uma socioantropológica, operacionalizada pelos milhares de pessoas que saíram às ruas, e uma sociotécnica, que consistiu na mobili- zação através da web. De um lado, os atores sociais protestaram com seus corpos ocupando o espaço urbano, portando cartazes com múltiplas reivindicações, gritando palavras de ordem, orga- nizando-se em blocos e resistindo à repressão policial. De outro, milhões de usuários da internet interagiram nas redes de rela- cionamento, trocaram informações sobre os motivos do protes- to, produziram materiais de divulgação das ideias em suas pági- nas pessoais e plataformas de compartilhamento, criando uma teia midiática alternativa para noticiar os acontecimentos, e gru- pos de hackers atuavam na invasão de sistemas governamentais e de grandes grupos de comunicação, postando mensagens em convergência com os protestos das ruas e divulgando informa- ções sigilosas que fomentaram ainda mais o movimento.
No que tange à dimensão sociotécnica dos protestos, há indícios das “três formas do agir político nas mídias digitais” (nos termos de PROULX, 2012) ocorrendo simultaneamente. A
192
Redes digitais: um mundo par
a os amador
es. No
vas r
elações entr
e mediador
es, mediações e midiatizações
primeira forma pode ser evidenciada nos usos e apropriações das redes sociais para produção e disseminação de informações relativas às manifestações e, de modo mais abrangente, na dis- cussão sobre a possibilidade de um “poder cidadão” construído através do acesso e do domínio das tecnologias.
Duas das frases mais utilizadas nos cartazes dos mani- festantes “vem pra rua” e “o gigante acordou”, parodoxalmente, foram inspiradas em slogans de marcas conhecidas que circu- lavam em comerciais da TV aberta. “Vem pra rua”, era a estrofe de um jingle do comercial da marca multinacional automotiva
Fiat3 que, em sua narrativa, convocava os cidadãos para vir às
ruas torcer pela Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo que se realizaria em 2014. No entanto, a frase foi ressignificada com ironia na voz de milhares de jovens, que entoavam “vem pra rua, vem, contra o aumento!”, referindo-se ao reajuste de 20 cen- tavos na tarifa da passagem de ônibus da cidade de São Paulo, mote considerado o estopim das manifestações. A partir daí, #VemPraRua tornou-se título de muitas páginas do Facebook e de perfis no Twitter, culminando na criação de websites para di- vulgação de informações sobre as mobilizações.
Da mesma forma, ganhou notoriedade a expressão “o gigante acordou”, inspirada na linguagem publicitária emprega-
da em um comercial de TV da marca Johnnie Walker4, no qual
o Pão de Açúcar, um dos símbolos da cidade do Rio de Janeiro e também do Brasil, transforma-se em um imenso gigante de pedra que desperta de seu sono milenar. Internautas apropria- ram-se desta narrativa do gigante que simbolicamente repre- senta o povo que acordou de sua hibernação e caminha pelas cidades para exigir o fim da corrupção na política e melhores serviços públicos com um emprego mais ético do dinheiro pago através de altíssimos impostos. A #OGiganteAcordou foi apro- priada por páginas criadas no Facebook e em perfis no Twitter, mobilizando milhões de pessoas em torno da temática dos pro- testos. Também se tornou tema de websites comunitários que funcionaram como repositório de conteúdo das diversas redes
3 Vídeo publicitário “Vem pra rua”. Disponível em: <https://www.youtube.com/ watch?v=SxMIwZZPlcM>. Acesso em: 11 ago. 2013.
4 Vídeo publicitário “O gigante acordou”. Disponível em: <http://www.youtube. com/watch?v=MLU95q0BgQA>. Acesso em: 11 ago. 2013.
Redes digitais: um mundo par a os amador es. No vas r elações entr e mediador
es, mediações e midiatizações
193
que se filiaram à causa, como #acordabrasil, #NãoaCorrupção, #Changebrazil, etc.
Uma segunda forma do agir político pode ser evidencia-
da no surgimento do coletivo Mídia Ninja5, um grupo de jornalis-
tas/ativistas que fez uma cobertura dos protestos, transmitindo vídeos das manifestações em tempo real, usando equipamentos amadores como smartphones e unidades de transmissão precá- rias montadas em carrinhos de supermercado. Ninja é a sigla para Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação, e seus inte- grantes defenderam a ideia de uma cobertura alternativa às mí- dias corporativas, principalmente às imagens das grandes redes de televisão do Brasil. A vantagem de seu serviço, segundo seus idealizadores, é que os acontecimentos são mostrados ao vivo, sem cortes e do ângulo de visão de um manifestante comum que está vivenciando a experiência no local. Não houve edições téc- nicas do material e tudo foi transmitido pela web, na plataforma
de compartilhamento de vídeos ao vivo TwitCasting6, enquanto
os ativistas, ligados ao transmissor do Mídia Ninja, operavam de dentro das manifestações.
O indício mais evidente de que o Mídia Ninja ganhou importância no cenário da comunicação social no Brasil naquele momento foi que este novo modo de cobertura, denominado pe- los próprios integrantes do grupo de “midiativismo”, obteve uma severa reação dos setores da indústria do jornalismo. Em pouco tempo, proliferaram textos com o objetivo de questionar as prá-
ticas do Mídia Ninja. Os jornais Folha de S. Paulo7 e Estadão8, dois
dos maiores do Brasil, mobilizaram alguns de seus mais renoma- dos colunistas para publicar críticas ao tipo de cobertura feita
5 Ver mais no perfil do Mídia Ninja no Twitter. Disponível em: <https://twitter. com/MidiaNINJA>. Acesso em: 10 ago. 2016.
6 Canal do Mídia Ninja na plataforma de compartilhamento de vídeo Twitcasting. Disponível em: <http://www.twitcasting.tv/midianinja>. Acesso em: 12 ago. 2016.
7 Artigo criticando o Mídia Ninja na Folha Online, publicado no dia 10/08/2013. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/08/1324584- grupo-midia-ninja-e-chamado-de-seita-por-ex-integrante.shtml>. Acesso em: 20 ago. 2016.
8 Artigo sobre o Mídia Ninja no Estadão, publicado dia 16/08/2013. Disponível em: <http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,midia-ninja-e-o-futuro-des focado-imp-,1064592>. Acesso em: 12 ago. 2016.
194
Redes digitais: um mundo par
a os amador
es. No
vas r
elações entr
e mediador
es, mediações e midiatizações
pelos Ninjas (como se autodenominam os membros do coletivo). Até mesmo uma improvável congruência entre duas revistas com
posições antagônicas, Veja9 e Carta Capital10, foi possível na ela-
boração de críticas com o objetivo de atacar a qualidade técnica do trabalho, a parcialidade política (pois é um tipo de jornalismo ativista) e levantar dúvidas sobre sua forma de financiamento.
E, finalmente, a terceira forma de agir político viabilizada pelas TIC foi colocada em prática pela ação de grupos de hackers, principalmente do Anonymous Brasil, que participou ativamente dos protestos, através de seu website e das diversas páginas nas redes sociais e plataformas de compartilhamento destinadas ao público brasileiro. O Anonymous, na prática, constitui-se de um conjunto de especialistas que se organizam clandestinamente em forma de comunidades virtuais para atuar no universo online. Seus argumentos são fundamentados na “ética hacker” e se descrevem como uma ideia ou um conceito, não uma organização. O grupo divulgou informações sobre os diversos motivos dos protestos e da falta de transparência dos governos e das empresas concessio- nárias para justificar o aumento das tarifas de transporte urbano, o que motivou o início das manifestações.
Ciberataques a websites do governo e de organizações foram realizados durante todo o período em que aconteciam as passeatas nas ruas. O primeiro foi a invasão da página da Secretaria de Educação de São Paulo no dia 13 de junho. A pá- gina oficial da Copa do Mundo na Cidade de Cuiabá foi invadida no dia 17 de junho para publicação de diversos vídeos que re- gistravam atos de violência policial contra os manifestantes. No dia 18 junho, o Anonymous invadiu o website oficial do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) para postar fotos dos protestos.
A conta da Veja no Twitter11 foi invadida no dia 19 de
junho, depois que a revista publicou matérias que criticavam
9 Crítica da revista Veja ao produtor cultural Pablo Capillé, ligado ao Mídia Ninja. Disponível em: <http://veja.abril.com.br/brasil/conheca-pablo-capile-o-lider- -por-tras-da-midia-ninja/>. Acesso em: 05 set. 2016.
10 Crítica da revista Carta Capital ao Mídia Ninja. Disponível em: <http://www.car- tacapital.com.br/sociedade/fora-do-eixo-6321.html>. Acesso em: 20 ago. 2016. 11 Artigo da Folha Online sobre a invasão da conta da Veja no Twitter. Disponível
em: <http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1296409-conta-da-veja- -no-twitter-e-hackeada.shtml>. Acesso em: 12 ago. 2013.
Redes digitais: um mundo par a os amador es. No vas r elações entr e mediador
es, mediações e midiatizações
195
os protestos. Na conta da Veja, o Anonymous publicou quatro tweets: 1. Jornalismo fascista nós não precisamos de vocês. A
#LUTA CONTINUA #Brasil #OGiganteAcordou #Brasil #rEvo- lução; 2. Aos mais velhos: Desliguem suas TVs, deixem o telejor- nal fascista de lado e venham para as ruas hoje, Vamos #LUTAR JUNTOS! @AnonManifest; 3. Nem a polícia e nem a Mídia irão nos calar! #BRASIL e 4. A TODOS os estados do #Brasil, vamos dar um xou hoje! #OGiganteAcordou e vai ser impossível parar VAI PRA CIMA BRASIL. Neste mesmo dia, a conta da presidente Dilma Rousseff no Instagram12 foi hackeada e a seguinte mensa-
gem foi publicada: Senhora presidenta da República ou a senho- ra faz alguma coisa ou o Brasil vai parar. Nós não vamos tolerar mais. O Gigante acordou, com as hashtags #AnonymousBrasil,
#VemPraRua, #OGiganteAcordou e #Brasil.