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Conforme apresentado anteriormente, os primeiros estudos sobre fãs na Intercom surgem dentro do extinto NP TICs, em 2002, através de dois estudos sobre fanzines e fan- fiction. Durante seis anos, entre 2003 e 2008, não há nenhuma produção dentro deste NP e da DT Multimídia. Entretanto, em 2009, o tema é retomado com um estudo sobre fan films (filmes não oficiais produzidos por fãs) e outro que aborda os fãs da cultura pop japonesa. Desde 2010, em todos os anos observa- dos, há pelo menos um estudo que envolve fãs, sendo 2014 o ano de maior volume de produção sobre o tema: seis trabalhos. Ao todo são 19 trabalhos encontrados (Gráfico 3), de graduandos a doutores, apresentados em 14 anos do Congresso. Destes, sete correspondem a produções do Intercom Júnior.

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Quanto ao grau de titulação, a maioria dos autores apre- sentava-se como, respectivamente, mestrandos (sete), graduan- dos (seis), doutores (cinco), mestres (três), doutorandos (um) e graduado (um). Em um trabalho não foi possível identificar com exatidão a informação, pois apenas é dito se tratar de aluno de Pós-Graduação. No caso dos trabalhos feitos no Intercom Júnior, foi desconsiderada a titulação dos orientadores, já que esses orientadores não são doutores, como a própria designação expli- cita. Os únicos autores com mais de um trabalho apresentado na Intercom à DT Multimídia são Andrea Ferraz Fernandez, Maurício Falchetti e Camila Monteiro. Os dois primeiros aparecem juntos em dois artigos sobre fan films em 2010 e 2011, tendo Fernandez a titulação de doutora e Falchetti de mestre. Já os trabalhos de Monteiro aparecem primeiro em 2010, enquanto graduanda, so- bre o cyberfandom de Justin Bieber, e em 2014 como mestranda, em coautoria de um texto sobre ativismo de fãs.

Quanto à localização das instituições às quais estes au- tores estavam ligados, a região brasileira onde mais se origina- ram os trabalhos foi a Sudeste, com seis pesquisas; em segundo lugar, empataram as regiões Sul e Nordeste, cada qual com cinco trabalhos; em terceiro, aparece a região Centro-Oeste, com dois; e, por último, a região Norte, com apenas um trabalho. A institui- ção mais recorrente foi a Universidade do Ceará (UFC), com três trabalhos, e em seguida aparecem três instituições empatadas, cada uma com dois trabalhos: Universidade Federal Fluminense (UFF), Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Universi- dade Estácio de Sá (UES).

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É interessante observar que até 2008 não há um gran- de volume de produção científica brasileira sobre fãs, porém nos últimos anos mais desses estudos estão sendo realizados. Uma das causas possíveis disso é a publicação no Brasil, em 2008, do livro Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, considerado o

principal teórico sobre fãs ao redor do mundo (BIELBY; HAR-

RINGTON, 2007). A obra, embora não seja focada especifica- mente em fãs, reflete sobre o atual contexto midiático, no qual se percebem audiências ativas e consumidores participativos, envolvidos em discussões sobre mídias digitais e convergên- cia das mídias. De qualquer forma, ao descrever o papel dos fãs nesse panorama, a obra contribuiu para que se pudessem perceber os fãs por um viés acadêmico no país.

É inegável que a publicação do livro de Henry Jenkins no Brasil – publicado originalmente em inglês em 2006 – pro- piciou uma retomada das discussões sobre a temática, uma vez que a obra foi intensamente utilizada em cursos de graduação e pós-graduação brasileiros, sendo incorporada à bibliografia básica de muitos cursos. A noção de que a pesquisa de fãs faz parte do campo da comunicação ganha uma legitimidade por parte de muitos autores que desconheciam a área. Um outro indicativo importante sobre o tema é demonstrar a carência de publicações em português – as especificidades e comparações dos estudos sobre os fãs brasileiros e suas relações com a mídia também carecem de maior aprofundamento. O primeiro livro de Jenkins, Textual Poachers, de 1992, só foi lançado no Brasil em 2015 sob o título de Invasores de Texto. A obra conta com um prefácio escrito pela pesquisadora Raquel Recuero, que atualiza a importância histórica da obra e fala sobre os estudos de fãs no contexto brasileiro.

De forma geral, a “cultura participativa” é uma das pala- vras que mais aparecem nos títulos, resumos e palavras-chave dos 19 trabalhos aqui analisados, juntamente com ideias correlatas, como: participação, engajamento/mobilização, interação, proces- sos colaborativos/colaboração/colaboratividade e convergência. Só como palavra-chave, há cinco trabalhos que a apresentam, e um traz “cultura participatória”, totalizando seis. Em seu trabalho, Lucio Luiz (2009, p. 1) explica o porquê da distinção:

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A opção pela tradução “participatória” ao invés de “participativa” para o termo original “participa- tory” foi feita porque, embora similares, o sufixo “ório” possui a conotação de “local onde ocorre algo”, enquanto o substantivo “ivo” possui a cono- tação de “o que ocorre”, assemelhando-se ao que se dá a entender ao se dizer, por exemplo, que “o processo digestivo ocorre no sistema digestório”. Ainda assim, as duas traduções se assemelham, sendo que a opção por uma tradução em detri- mento da outra foi para se aproximar da intenção original do criador do conceito [Jenkins].

Outra palavra-chave ligada ao tema que mais se repe- te é “convergência”, citada três vezes. É bastante perceptível a predominância de estudos que tentam de alguma forma refletir sobre a participação do público/consumidor/receptor em rela- ção a alguma mídia; por isso, aparecem de forma recorrente nos resumos palavras como: compartilhar, interatividade/interação, apropriação, prosumer, participação, engajamento, colaboração e ativismo/mobilização. Outras palavras-chave bastante utiliza- das são participação, engajamento e interação.

Portanto, acreditamos que um primeiro eixo temático de estudos sobre fãs no contexto da cibercultura é sobre a rela- ção com as mídias, ou seja, como o fã se engaja, participa e inte- rage com ou através da mídia. Esta relação pode nascer de uma iniciativa empresarial, por exemplo, através da interação de um fã de uma celebridade em redes sociais a partir do proposto pela estrela e seus assessores; ou então, surgir de forma espontânea do próprio fã, como no caso de criação de um perfil não oficial ou página em rede social para expressar seu amor por uma celebri- dade e mesmo para divulgar seu gosto, compartilhá-lo e trazer mais pessoas para o seu fandom.

Embora, geralmente, o fã se apresente num contexto de entretenimento, tanto na comunidade acadêmica como na so- ciedade em geral, há um caráter político, quando percebemos mobilizações e mesmo ativismos por questões que englobam mais do que a ficção e diversão, que também deve ser observado neste eixo temático. Duas pesquisas encontradas em 2014 que ilustram esta ideia são a de Marcelo dos Santos e a de Amaral,

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Souza e Monteiro. Na primeira, “o estudo está centrado na for- mação de grupos em redes sociais como reivindicação do espaço discursivo de contraposição após 12 anos de virada à esquerda no governo brasileiro e da constituição da blogosfera progressi- va” (SANTOS, 2014, p. 01). É importante destacar que no resumo o autor remete à ideia de fã ligada ao ódio, sem, porém, trazer o conceito de antifã que parece se aplicar melhor aqui. Já na se- gunda pesquisa, Amaral, Souza e Monteiro (2014) fazem todo um apanhado de formas de mobilizações e ativismos, exempli- ficando-as, entre várias, com as manifestações que aconteceram no Brasil em 2013, nas quais foi visível a presença de fãs se uti- lizando de seu fandom para expor suas opiniões num contexto mais geral, através de cartazes com dizeres de um texto midiáti- co específico ou até mesmo vestindo-se como um personagem.

É importante destacar que o ativismo de fãs é um conceito em construção no campo dos estudos de fãs e que tenta superar uma falsa dicotomia entre as questões de cidadania e do entretenimento. Ele pode ser observado como uma maneira de engaja- mento e mobilização social muitas vezes articulado com as relações entre fãs e celebridades em suas ações sociais (Bennet, 2012) ou como participa- ção política e cívica (Brough e Shresthova, 2012). (AMARAL et al., 2014, p. 8-9).

Ainda neste primeiro eixo temático que chamamos “as

mídias e os fãs”, podemos encontrar estudos centrados nos

conjuntos de práticas ou produções de fãs. Na Intercom, encon- tramos contempladas quatro práticas realizadas por fãs em seis trabalhos: fanzine, fan fiction, fan film e fansubbing. A primeira consiste em uma revista de fã, como a origem do nome em in- glês sugere (fan + magazine). Esta obra pode apresentar textos, imagens, histórias em quadrinhos e uma gama de possibilidades estéticas e de conteúdos. Fan fiction, ou fanfic, traduzida como “ficção de fã”, é uma história escrita por fãs. Já os fan films são filmes realizados por fãs. E, por último, fansubbing é a prática de legendar livremente audiovisuais. Todas elas podem ser abor- dadas de, pelo menos, duas formas: a) a da prática em si, ob- servando os aspectos para sua realização, como condições téc-

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nicas necessárias e organização do indivíduo ou grupo e espe- cificidades; e b) a da produção em si, resultante de uma prática de fã, observando aspectos que dizem respeito àquele produto midiático. Resumindo, ao estudar um fan film, podemos a) nos concentrar em como um grupo se organiza para realizá-lo, como junta recursos (de aparelhos, de cenário, de acervo) ou b) refle- tir sobre o filme em si de diversas formas, como, por exemplo, analisar seu conteúdo.

Num segundo eixo temático de pesquisas sobre fãs, in- titulado “a cultura e o fandom”, percebemos um aspecto cultu- ral forte e focado no próprio fandom, entendido como o agru- pamento de fãs. Estes estudos buscam refletir sobre questões como a própria comunidade e identidade, como no caso de Sou- za (2012, p. 1), cujo estudo afirma a importância de “compre- ender o fã imerso aos outros fãs, não unicamente em virtude do objeto de sua afeição [...] atentando para a forma como conse- guem constituir uma cultura caracterizada por vários níveis de participação e gerar novas identidades em suas comunidades, os fandoms”.

É preciso salientar que é muito fácil encontrar nesse eixo similaridades em estudos sobre subculturas, tribos urba- nas, culturas juvenis e afins. E mesmo pesquisas sobre fãs se uti- lizam de alguns de seus autores e teorias. Dentre os trabalhos em que nos focamos se destacaram: as comunidades virtuais; os fandoms de cultura pop japonesa e celebridades musicais; as questões de gênero, de emoção e de ódio, e da identidade e au- tenticidade dentro do fandom, como no caso do artigo de Freire Filho (2013):

Quais são os argumentos morais e os recursos ex- pressivos adotados para expressar amor e ódio pelas estrelas do pop internacional? Que conexões significativas se pode estabelecer entre a comuni- cação passional das fãs e a prevalência de certos ideais de autenticidade e de feminilidade?

Dentre as palavras-chave encontradas destacam-se: identidade, cultura, cultura digital, cultura dos fãs, cultura pop japonesa/pop japonês, cultura pop, cibercultura e comunidade.

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Tabela 3 – Eixos temáticos das pesquisas sobre fãs no contexto da cibercultura Eixos temáticos Subtemas As mídias e os fãs

- iniciativas individuais ou grupais dos fãs, ou empresariais relacionadas ao fandom, num sentido de participação/in- teração e engajamento

- ativismo/mobilização de fãs num sentido político - práticas de fãs: subdivididas em a) conjuntos de práticas

em si; b) produções de fãs

A cultura e o fandom

- o fandom como comunidade - identidade dentro do fandom - questões de gênero

- emoção e gosto

Os dois eixos temáticos construídos a partir do que encontramos nos trabalhos na DT Multimídia da Intercom (Ta- bela 3) são uma primeira tentativa de entender o panorama da produção acadêmica comunicacional sobre fãs no Brasil. É im- portante salientar que ambos podem ser relacionados de forma mais igualitária ou sobrepondo-se, de modo que talvez um se destaque mais que o outro. O mesmo pode acontecer com os subtemas: uma prática de fã pode ser estudada com a atenção voltada para as questões de gênero, por exemplo. De forma algu- ma os temas aqui tratados podem ser vistos como esgotados; no entanto, essa primeira classificação permite um ponto de parti- da para refletir sobre as pesquisas já realizadas e futuras.