CAPÍTULO 4 – ESTRUTURAÇÃO DO MODELO DE OBSERVATÓRIO
4.4 Análise de observatórios pesquisados na internet
A pesquisa na Internet foi realizada com o objetivo de identificar exemplos de observatórios existentes, complementar a revisão de literatura e aprofundar o conhecimento sobre aspectos relevantes da estrutura e funcionamento de observatórios, para que pudessem ser incorporados ao modelo proposto nesta pesquisa. Cerca de 70 observatórios foram identificados e as variáveis pesquisadas foram as seguintes: nome, local, objetivo (o que se propõe a fazer), redes de
relacionamento (com quem se relacionam), produtos/serviços (quais produto/serviços são oferecidos), sustentabilidade/financiamento (quem contribui financeiramente para o seu funcionamento e a sua sustentabilidade) e endereço do site. Pelo fato de alguns observatórios não fornecerem todas as informações referentes às variáveis que se pretendia explorar, o número de observatórios pesquisados foi reduzido para 50. A lista completa dos observatórios e o detalhamento das variáveis pesquisadas se encontram no Apêndice A.
Cabe salientar que os 70 observatórios identificados não correspondem à totalidade existente e poderiam ter sido escolhidos muito mais. Porém, para o objetivo desta pesquisa, não interessava uma representatividade estatística dos observatórios existentes, e sim o significado que podia ser dado à diversidade das características dos observatórios identificados e os aspectos relacionados às aprendizagens que podiam impactar no desenvolvimento da proposta da presente pesquisa.
Quanto às áreas pesquisadas, deu-se maior ênfase para ciência, tecnologia e inovação, por apresentarem relação com o setor para o qual foi desenvolvida esta pesquisa. Em relação aos observatórios das outras áreas, o objetivo foi verificar se os modelos de organização e funcionamento dos mesmos possuíam semelhanças com outras áreas e identificar subsídios que pudessem auxiliar na elaboração da proposta de modelo de observatório, foco da presente pesquisa.
Em relação aos dados pesquisados, constatou-se que há predominância de observatórios relacionados à área de ciência, tecnologia e inovação, seguidos das áreas prospecção, tecnologia da informação, sociedade da informação, educação e
software, como pode ser observado na Tabela 2.
Tabela 2 – Área, número e local dos observatórios pesquisados
Área Quantidade Local
Ciência, Tecnologia e Inovação
16 França, Canadá, Espanha (5), Holanda, Colômbia (2), Venezuela, Brasil (2), Inglaterra, Chile, Cuba, México
Prospecção 4 Espanha, Brasil (2), Portugal Tecnologia da informação 3 Alemanha, Brasil (2)
Sociedade da informação 2 Portugal, Espanha Educação 2 Portugal, Espanha
As demais áreas dos observatórios são: indicadores de sustentabilidade; astronomia; qualidade; desenvolvimento industrial; políticas públicas ambientais; ciência, política e sociedade; relações industriais; comércio; nanotecnologia; gestão local; mudanças culturais; trabalho; setores agroalimentar, energia elétrica, metal, plástico, têxtil, turismo, artes e cultura e saúde. Não constam na Tabela 2 por ter sido identificado apenas um observatório sobre cada área.
Quanto à presença de um número maior de observatórios na área de ciência, tecnologia e inovação, constatou-se que este fato pode ser reflexo das políticas públicas voltadas a essa área, que incentivam o desenvolvimento de novos projetos e novas parcerias, com a finalidade de acelerar o desenvolvimento da inovação na sociedade.
Outra variável pesquisada nestes observatórios, diz respeito ao objetivo dos mesmos. Foi possível verificar que a principal finalidade dos observatórios identificados é o fornecimento de informações estratégicas para auxiliar na tomada de decisão. Este fato é corroborado pelas ideias que os autores defendem na literatura, ou seja, os observatórios devem fornecer informações que propiciem o desenvolvimento de estratégias voltadas à busca de novas oportunidades, à geração e difusão de novos conhecimentos, à identificação de tendências, bem como ao fortalecimento de ações voltadas à inovação e ao desenvolvimento do setor em questão.
No que diz respeito aos produtos/serviços oferecidos pelos observatórios analisados, os principais encontrados são:
• alertas informativos, boletins, newsletter, releases;
• análises e estudos: situação atual, ambiente da empresa, comparativos, setoriais, temáticos, tendências, prospectiva tecnológica, oportunidades; • indicadores: de C&T, políticos, sociais, de evolução tecnológica, de
mercado;
• desenvolvimento de projetos; • glossários;
• divulgação de informações sobre: eventos, notícias, livros, capítulos de livros, artigos, teses, feiras, dissertações, dossiês temáticos, estado da arte, legislação, normas, novas tecnologias, demanda tecnológica;
• organização e coordenação de: eventos, capacitação empresarial, seminários, oficinas, cursos, treinamentos, workshops, debates;
• publicações: livros, artigos, tutoriais, manuais, monografias, resenhas, relatórios, resultados de projetos, revisões anuais, papers, guias de pesquisa, revistas;
• serviços de vigilância tecnológica;
• bancos de dados: de eventos políticos, de ideias e parceiros, de dados referenciais;
• assessoria e consultoria: técnica, científica, jurídica.
A geração de indicadores é o tipo de produtos/serviços mais difundido pelos observatórios. Esta ideia é defendida também por autores como Gusmão (2005), De La Veja (2002) e Vessuri (2002), dentre outros. Para estes autores, a geração de indicadores auxilia na proposição de ações e políticas públicas locais, nacionais e internacionais, visando o aumento da competitividade do setor de atuação do observatório.
Destacam-se ainda, os boletins informativos, presentes em quase todos os observatórios pesquisados. Geralmente estes boletins contêm informações sucintas sobre o setor, tais como, lançamento de novas linhas de pesquisa, novas linhas de financiamento, novos produtos, workshops, palestras, dentre outras, servindo como uma espécie de alerta aos usuários do observatório.
Além disso, os observatórios disponibilizam em suas páginas iniciais, informações pontuais, relacionadas ao setor, tais como surgimento de uma nova norma, lançamento de livros, agenda de eventos e feiras etc.
No tocante às redes de relacionamento, as relações se dão com universidades, institutos de pesquisa e de desenvolvimento científico-tecnológico, estudantes, pesquisadores, governo, entidades representativas dos setores produtivos, empresas, agências de financiamento, pessoas físicas ou jurídicas, organizações públicas e privadas. Além disso, as relações também acontecem com especialistas nas áreas de atuação do observatório, podendo ser do governo, da academia ou do setor produtivo. Alguns observatórios se relacionam também com outros observatórios.
A concepção dessas redes é ressaltada por Gusmão (2005). Segundo esta autora, uma das funções do observatório é a montagem de uma infra-estrutura de apoio ao desenvolvimento de redes de experts em áreas específicas, reunindo representantes de várias entidades, tais como universidades, governo, empresas, associações, sindicatos, agências de fomento, institutos de pesquisa, dentre outras. Essas redes contribuem para a criação e compartilhamento de conhecimento novo.
Em boa parte dos observatórios pesquisados, a presença das universidades nessas redes, é uma constante. Os institutos de pesquisa também se destacam. E do outro lado, aparece o setor produtivo, que se beneficia com as informações fornecidas. A presença do governo, representado pelos ministérios, secretarias, universidades e, em alguns casos, por meio de institutos de pesquisa também é muito forte em boa parte dos observatórios pesquisados.
Isso mostra a importância da interação universidade-empresa, promovida por estes observatórios e reforça a ideia de que essa interação é fundamental para que haja transferência de conhecimento. Conhecimento este, que gera novos negócios, aumenta a competitividade, promove a inovação e, conseqüentemente, contribui para o desenvolvimento do país.
Quanto ao plano de sustentabilidade financeira dos observatórios, observou- se que os mesmos se sustentam por meio de convênios, contratos ou quaisquer outros ajustes firmados com instituições públicas ou privadas, regionais, nacionais ou internacionais (empresas, governo, institutos de pesquisa, universidades, agências financiadoras de projetos). Alguns observatórios cobram taxas pelo fornecimento de produtos/serviços de informação, mas na maioria deles, estes são gratuitos.
Em relação ao funcionamento dos observatórios identificados, verificou-se que muitos se enquadram na tipologia de observatórios apresentada por Gusmão (2005), no item 2.1.3 (página 38).
O Observatoire des Sciences et des Techniques (OST) da França e o Observatorio Colombiano de Ciencia y Tecnologia (OCyT), da Colômbia, se encaixam no modelo tipo consórcio. Estes observatórios possuem estruturas relativamente autônomas, de caráter fundamentalmente público, reunindo agências, instituições de pesquisa, ministérios, e/ou representantes do setor produtivo.
O Observatório das Ciências e do Ensino Superior (OCES) de Portugal, o Observatorio Nacional de Ciencia, Tecnología e Innovación (OCTI) da Venezuela e o
Observatório Nacional de las Telecomunicaciones y de la SI (ONTSI) da Espanha se enquadram no modelo sob tutela do Ministério de C&T, apresentando estruturas de caráter governamental, ligados diretamente às decisões políticas e formulação de estratégias para o setor, possuindo menor grau de autonomia operacional e financeira.
No modelo de natureza acadêmica, se encaixam o Observatoire des Sciences et des Technologies (OST), do Canadá e o Netherlands Observatory on Science and Technology (NOWT) da Holanda. São observatórios criados no interior de universidades, a partir de trabalhos de cunho teórico-metodológico, desenvolvidos em parcerias com grupos de pesquisa das universidades.
Já no modelo redes ou estruturas de cooperação multilateral, que reúne agências, conselhos de C&T e/ou institutos de estatísticas de diversos países, visando conceber e definir indicadores regionais de C&T, se enquadra o European Science and Technology Observatory (ESTO) da União Européia.
Foi possível constatar que os observatórios possuem missões específicas, que implicam em atividades variadas, com articulação entre si. Independente do modelo de operação e formato institucional que adotam, cada observatório executa suas atividades com diferentes graus de intensidade, visando sempre, atender ao objetivo para o qual foram desenvolvidos.
Observou-se ainda, que não existe um modelo único de observatório. Muitos surgiram com base em outros observatórios existentes, mas se diferenciam em relação à missão, objetivos, produtos, serviços, estrutura organizacional, operacional e financeira.
No próximo capítulo, apresenta-se a aplicação do modelo de observatório gerado para APLs ao APLTIC-SC e o seu detalhamento.
CAPÍTULO 5 – MODELO PROPOSTO DE OBSERVATÓRIO PARA ARRANJOS