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ANALISE E AJUSTE

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ANALISE E AJUSTE

“A equipe chegou a um consenso de que a m eia-vida do polônio tornaria a detecção praticam ente im possível. Não fizem os nem perto do suficiente a fim de questionar essa suposição — por exem plo, considerando se os produtos do decaim ento seriam um m odo de detectar o polônio ou perguntando para alguém com conhecim ento na área.” Esse é um recado que Devy n Duffy postou para os colegas depois que ele e sua equipe levaram um a surra na questão de saber se os restos m ortais de Yasser Arafat testariam positivo para polônio. A lição que ele tirou: “Sej am cuidadosos ao fazer suposições de perícia, perguntem a um perito se puderem encontrar um , exam inem novam ente suas suposições de tem pos em tem pos”.

Sem pre que um a questão é encerrada, fica óbvio que os superprevisores — em nítido contraste com os participantes no experim ento da atitude m ental fixa de Carol Dweck — estão tão ansiosos em saber com o podem m elhorar quanto em saber com o se saíram .

Às vezes, eles partilham longas autópsias com os colegas de equipe. Essas discussões on-line podem se estender por páginas. E há m uito m ais introspecção quando os superprevisores têm m om entos de tranquilidade consigo m esm os. “Isso acontece quando estou no chuveiro ou indo para a faculdade ou o trabalho”, conta Jean-Pierre Beugom s, “ou em m om entos aleatórios ao longo do dia, quando estou entediado ou distraído”. Nas duas prim eiras tem poradas do torneio, Jean-Pierre m uitas vezes olhava para suas antigas previsões e ficava frustrado de seus com entários serem tão dispersos que “eu m uitas vezes não conseguia im aginar por que fizera determ inada previsão” e desse m odo era incapaz de reconstruir seu processo m ental.12 Assim , ele com eçou a deixar m ais

com entários, e m ais longos, sabendo que isso o aj udaria a exam inar criticam ente seu pensam ento. Com efeito, Beugom s se prepara para a autópsia no m om ento em que a questão do torneio é anunciada.

Muitas vezes, as autópsias são tão cuidadosas e autocríticas quanto o pensam ento que entra na previsão inicial. Ao com entar um a questão sobre eleições na Guiné — questão na qual sua equipe se sobressaiu —, Devy n frisou que não poderia ficar com todo o crédito. “Acho que, no caso da Guiné, estávam os m ais inclinados a acreditar que os protestos não im pediriam as eleições de ocorrer. Mas, daí, quase im pediram ! Então, acho que a gente tam bém teve sorte.” Isso foi m uito perceptivo. As pessoas com frequência presum em que, quando um a decisão é seguida de um bom resultado, ela então foi boa, o que nem sem pre é verdade, e pode ser perigoso se nos cega para nossas falhas de raciocínio.13

Os bem -sucedidos em geral não estão m uito abertos à ideia de que não fizeram por m erecer com pletam ente seu sucesso. Em m inha pesquisa para o EPJ no fim da década de 1980, tive a previsão dos especialistas quanto a se o Partido Com unista continuaria no poder na União Soviética, se haveria um a violenta derrubada do apartheid na África do Sul e se o Québec se separaria do Canadá. Após se esgotar o prazo para as três previsões, e as três respostas ficarem claras — não, não e não —, pedi aos especialistas para considerar a plausibilidade de cenários contrafactuais, em que pequenos aj ustes sutis de efeito borboleta fizessem a história se desenrolar de form a diferente. Quando a qualidade de “e se” sugeria que sua previsão fracassada teria se revelado correta — por exem plo, se o golpe contra Gorbachóv em 1991 tivesse sido m ais bem planej ado e os conspiradores não estivessem tão bêbados e fossem m ais organizados, o Partido Com unista ainda estaria no poder —, os especialistas tenderam a acolher a narrativa “e se” com o se fosse um velho am igo. Mas quando os cenários sugeriam que a previsão correta deles poderia facilm ente ter se revelado errada, eram descartados com o especulativos. De m odo que os especialistas estavam abertos a cenários “eu quase acertei”, m as rej eitavam alternativas “eu quase errei”.

Devy n, não. Triunfante, ele não teve problem a em dizer: “Dem os sorte”.14

DETERMINAÇÃO

A analogia entre fazer previsões e andar de bicicleta é m uito boa, m as, com o é o caso com qualquer analogia, tem suas lim itações. Com a bicicleta, o ciclo “tentar, fracassar, analisar, aj ustar e tentar outra vez” costum a levar alguns

segundos. Com a previsão, pode levar m eses ou anos. Além disso, na previsão, há um papel m aior do acaso. Ciclistas que seguem m elhores práticas de ciclism o em geral podem esperar resultados excelentes, m as os previsores devem ser m ais cautelosos. Seguir m elhores práticas aum enta suas chances de ganhar, m as de form a m enos confiável do que em j ogos onde o acaso desem penha papéis m enores.15 Mesm o com um a atitude m ental de crescim ento, o previsor que espera m elhorar precisa ter um bocado do que m inha colega Angela Duckworth cham ou de “determ inação”.

Elizabeth Sloane tem determ inação de sobra. Diagnosticada com câncer cerebral, passou por quim ioterapia, um transplante de células-tronco fracassado, recorrência e m ais dois anos de quim ioterapia. Mas nunca entregou os pontos. Elizabeth se voluntariou para o Good Judgm ent Proj ect a fim de “recultivar suas sinapses”. Tam bém encontrou um artigo de um oncologista im portante que descrevia sua situação perfeitam ente, levando a um prom issor novo transplante de células-tronco. “E aqui estou, prestes a ficar curada”, escreveu ela num e- m ail ao gerente do GJP, Terry Murray. “É incrível ter um a segunda chance.”

Determ inação é a perseverança apaixonada em obj etivos de longo prazo, m esm o diante da frustração e do fracasso. Com binada a um a atitude m ental de crescim ento, é um a força poderosa para o progresso pessoal.

Quando Anne Kilkenny ouviu falar sobre o GJP, percebeu que daria um a voluntária incom um . “Quer um a dona de casa que nunca se envolveu ativam ente em nada geopolítico? Quatro décadas afastada de um desafio intelectual de verdade?”, lem brou-se ela de pensar. “Vou fazer um a tentativa.”

Anne vive num a pequena cidade do Alasca. Quando se form ou na Universidade da Califórnia, em Berkeley, na época hippie, queria ser professora do ensino m édio, de m odo que tentou entrar em um program a de ensino, m as não foi aceita. Ela trabalhou com o auxiliar adm inistrativa, guarda-livros e professora substituta, fez dança de salão, cantou em corais, casou-se com um carpinteiro do Alasca, criou um filho e entrou para a igrej a. Anne encerra todos os seus e-m ails com um lem a pessoal: “Viva com sim plicidade. Am e com generosidade. Mostre profundo interesse pelos outros. Use palavras bondosas. Deixe o resto para Deus”.

Anne teve seu breve contato com a fam a em 2008, quando o candidato presidencial republicano John McCain anunciou que sua vice na corrida eleitoral seria a governadora do Alasca, Sarah Palin. Foi um a escolha surpreendente. Poucos fora do estado haviam ouvido falar da ex-prefeita da cidadezinha de Wasilla. Mas Anne Kilkenny, sim . Wasilla é sua cidade natal e Anne é um a dessas raras cidadãs com espírito público que com parece às reuniões do conselho m unicipal. Assim , ela escreveu um e-m ail resum indo o que Palin fizera com o prefeita e o enviou para fam iliares e am igos fora do estado. Eles quiseram saber m ais, então ela acrescentou m ais detalhes e voltou a enviar. A coisa viralizou.

Não tardou para Anne ter um repórter do New York Times ligando para ela, depois da Newsweek, Associated Press, Boston Globe, St. Petersburg Times e tantos outros. Foi um a loucura.

Anne é dem ocrata e seu e-m ail fazia duras críticas a Palin, de m odo que grande parte da torrente de e-m ails que ela recebeu tinha elevado teor partidário. “Eu sabia!”, alguém escreveu. “Eu sabia que Palin era com pletam ente ignorante de geopolítica assim que vi a cara dela!” E havia pencas de elogios para Anne; ela era coraj osa, brilhante, fantástica em todos os sentidos.

Mas Anne m anteve a cabeça no lugar. Em vez de se deleitar com toda a adulação, ergueu um a sobrancelha cética. “Com o alguém poderia saber dessas coisas só de olhar para a pessoa?”, ela m e escreveu. “Não podiam , e não sabiam . Já tinham a cabeça feita sobre isso [Palin] desde o início, por causa da afiliação partidária, porque ela era m ulher etc., e descobrir os fatos sobre ela só serviu de desculpa para seus preconceitos. Sentim entos m ascarados com o conhecim ento, com o raciocínio.” Esse tipo de observação crítica, psicologicam ente astuta, aj uda a tornar um previsor em superprevisor. Assim com o a pesquisa criteriosa e precisa. E o fam oso e-m ail de Anne aguentou firm e quando foi subm etido ao escrutínio de organizações nacionais checando seus dados — o que é particularm ente im pressionante, considerando que Anne acreditava estar m eram ente esboçando um recado breve para am igos e fam iliares.16

A tenacidade de Anne intim ida. Quando o torneio fez um a pergunta sobre o núm ero de refugiados na República Centro-Africana, ela entrou no site das Nações Unidas e viu que os dados eram de um a sem ana antes. Em vez de presum ir que fossem os núm eros m ais recentes disponíveis, m andou um e-m ail para a agência e perguntou com que frequência os dados eram atualizados e quando deveria ocorrer a atualização seguinte. Ela notou tam bém que os dados deles m ostravam grandes flutuações. Mais um a vez, questionou a agência. Recebeu um a resposta, m as em francês: “Merci”, respondeu, “mais je ne parle pas français plus bien. S’il vous plaît, en anglais?”. De volta veio um a longa resposta, em inglês, explicando os m étodos analíticos da agência, que foi m uito reveladora e aj udou bastante a fazer a previsão.

Anne não é um a superprevisora, pelo m enos ainda não, m as seus resultados continuam im pressionantes. Ela fez previsões para todas as 150 questões no ano 3 e estava em um a equipe bastante inerte, o que significa que tinha de fazer quase todo o trabalho sozinha. Por que fez isso? Pelo m esm o m otivo que um estudante universitário talvez faça todos os cursos m ais difíceis com os professores m ais rígidos: ela estava m ais interessada em aprender do que em receber notas altas. “Estou sem pre tentando crescer, aprender, m udar”, escreveu-m e.17 Podíam os perceber essa atitude em seu com portam ento à m edida que os resultados com eçaram a chegar. Ela pensava cuidadosam ente acerca deles e no que sugeriam sobre com o tom ar decisões, e m uitas vezes

com partilhava e-m ails ponderados, introspectivos, com nosso gerente de proj eto. Ela m anteve a pegada enquanto seu índice de Brier m elhorava e parecia que iria chegar aos escalões superiores. E continuou dando duro quando algum as de suas previsões m uito confiantes deram com os burros n’água e sua m édia de acerto desabou. Questão após questão, m ês após m ês, seguiu trabalhando pesado. Isso é fibra. É tam bém por esse m otivo que eu não ficaria nem um pouco surpreso de vê-la se tornar um a superprevisora, no fim .

Claro que isso não seria o fim do crescim ento de Anne, com o os superprevisores m ostraram , apenas o fim do com eço. Sem pre se pode tentar m ais, fracassar m ais, analisar m ais, aj ustar m ais e tentar outra vez. Os program adores têm um term o fantástico para um program a que não se destina a ser liberado num a versão final, m as será utilizado, analisado e aperfeiçoado infinitam ente. É “beta perpétuo”.

Superprevisores são betas perpétuos.

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