0% Impossível
TESE, ANTÍTESE, SÍNTESE
Então você tem um a visão de fora e um a visão de dentro. Agora elas devem ser fundidas, assim com o seu cérebro funde as diferentes perspectivas de seus dois globos oculares num a visão única.
David Rogg, um superprevisor e engenheiro de software sem iaposentado residente na Virgínia, fez isso quando lidou com um a pergunta sobre terrorism o na Europa. Era o início de 2015, pouco depois do atentado ao j ornal Charlie Hebdo, em Paris, que m atou onze pessoas. A IARPA perguntou: “Haverá um ataque perpetrado por m ilitantes islâm icos na França, no Reino Unido, na Alem anha, na Holanda, na Dinam arca, na Espanha, em Portugal ou na Itália entre 21 de j aneiro e 31 de m arço de 2015?”.
Em um m om ento em que a m ídia estava repleta de inform ações sobre o terrorism o islâm ico e as com unidades m uçulm anas na Europa, era tentador abraçar im ediatam ente a visão de dentro. David não caiu nessa. Prim eiro,
localizou um a lista de atentados terroristas islâm icos na Wikipédia. Depois, contou o núm ero de ataques nos países especificados ao longo dos cinco anos precedentes. Havia seis. “Então calculei a taxa-base com o sendo de 1,2/ano”, escreveu ele no fórum do GJP.
Tendo estabelecido a visão de fora, David passou à visão de dentro. Nos vários anos precedentes, o Estado Islâm ico ganhara proem inência. Centenas de m uçulm anos europeus haviam sido recrutados. E o EI repetidam ente am eaçara a Europa com ataques terroristas. David decidiu que isso m udava a situação de m aneira tão significativa que os dados de 2010 e de anos anteriores não eram m ais relevantes. Então, elim inou-os de seu cálculo. Isso elevou a taxa-base para 1,5, “que eu suspeito continuar baixa”, dado o nível de recrutam ento e am eaças do EI. Mas David notou tam bém que as m edidas de segurança haviam aum entado abruptam ente após o ataque ao Charlie Hebdo, o que dim inuiria a probabilidade de um ataque. Pesando esses dois fatores, David decidiu: “Vou aum entar só de, digam os, 1/5 para 1,8 [ataques por ano]”.
Restavam 69 dias no período de previsão. Assim David dividiu 69 por 365. Depois m ultiplicou por 1,8. Resultado: 0,34. Então ele concluiu que há um a chance de 34% de a resposta à pergunta da IARPA ser sim .12
Foi um a fusão clássica das visões de fora e de dentro. Mas David não estava dizendo “34%, resposta final”, com o um concorrente no Who Wants to Be a Millionaire?. Lem bre-se de que ele com partilhou sua análise em um fórum do GJP. Por quê? Porque queria saber o que seus colegas de equipe estavam pensando. Em outras palavras, estava à procura de m ais perspectivas.
Chegar a um a visão de fora, um a visão de dentro e um a síntese de am bas não é o final. É um bom com eço. Os superprevisores estão constantem ente em busca de outros pontos de vista que possam incluir em sua síntese.
Há inúm eras m aneiras diferentes de obter novas perspectivas. O que outros previsores acham ? A que visões de fora e de dentro eles chegaram ? O que os especialistas estão dizendo? Você pode até m esm o se treinar para produzir diferentes perspectivas.
Quando Bill Flack em ite um parecer, em geral explica o que está pensando para seus colegas de equipe, com o fez David Rogg, e lhes pede que façam suas críticas. Em parte, ele faz isso porque espera que os dem ais observem falhas e ofereçam seus próprios pontos de vista. Mas escrever o parecer tam bém é um a form a de se distanciar, de m aneira a recuar para exam iná-lo: “Tem a ver com autofeedback”, afirm a ele. “Eu concordo com isso? Tem algum furo nesse negócio? Será que eu devia procurar m ais algum a coisa para com pletar isso aqui? Isso seria suficiente para m e convencer se eu fosse outro?”
Essa é um a atitude m uito inteligente. Pesquisadores descobriram que só de pedir à pessoa para im aginar que seu j uízo inicial estej a errado, considerar
seriam ente por que isso pode ter acontecido e depois em itir outro j uízo produz um a segunda estim ativa que, com binada à prim eira, m elhora a precisão quase tanto quanto obter um a segunda estim ativa de outra pessoa.13 O m esm o efeito foi conseguido sim plesm ente deixando passar várias sem anas antes de pedir à pessoa para fazer um a segunda estim ativa. Essa abordagem , construída sobre o conceito da “sabedoria da m ultidão”, tem sido cham ada de “a m ultidão interna”. O financista bilionário George Soros exem plifica isso. Um a parte crucial de seu sucesso, disse ele com frequência, é seu hábito m ental de se afastar de si m esm o de m odo a j ulgar o próprio raciocínio e oferecer um a perspectiva diferente — para si m esm o.14
Há um m odo ainda m ais sim ples de obter outra perspectiva sobre um a questão: aj ustar sutilm ente a form ulação dela. Im agine um a pergunta com o “O governo da África do Sul vai conceder um visto ao dalai-lam a em seis m eses?”. O previsor ingênuo sairá procurando evidência de que o dalai-lam a receberá seu visto, ao m esm o tem po negligenciando procurar por evidência que sugira o contrário. O previsor m ais sofisticado está ciente do viés de confirm ação e irá à procura de evidência tanto de sim com o de não. Mas se você insistir em pensar que a questão é “Ele vai receber seu visto?”, seu cam po de j ogo m ental ficará inclinado num a direção e você involuntariam ente enveredará pelo viés de confirm ação: “Aqui é a África do Sul! Funcionários públicos negros sofreram sob o apartheid. Claro que vão dar um visto para o Nelson Mandela do Tibete”. A fim de checar essa tendenciosidade, exam ine a questão por outro lado em sua cabeça e pergunte: “O governo da África do Sul vai dizer não ao dalai-lam a por seis m eses?”. Essa m inúscula m udança o encoraj a a se inclinar na direção oposta e procurar m otivos para o país negar o visto — o desej o de não enfurecer seu principal parceiro com ercial sendo um deles, e dos grandes.