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“UM HOLOCAUSTO VAI OCORRER”

No documento Superprevisoes - Dan Gardner.pdf (páginas 43-46)

No início da década de 1980, m uita gente ponderada via nuvens de cogum elo no futuro da hum anidade. “Se form os honestos com nós m esm os, tem os de adm itir

que, a m enos que nos livrem os de nossos arsenais nucleares, um holocausto não apenas pode com o vai ocorrer”, escreveu Jonathan Schell em seu influente livro The Fate of the Earth [O destino da Terra], “se não hoj e, então am anhã; se não este ano, então no próxim o.”7 A oposição à corrida arm am entista levou m ilhões às ruas de cidades por todo o m undo ocidental. Em j unho de 1982, estim a-se que 700 m il pessoas tenham m archado em Nova York num a das m aiores m anifestações da história am ericana.

Em 1984, com bolsas das fundações Carnegie e MacArthur, o Conselho Nacional de Pesquisa — braço de pesquisa da Academ ia Nacional de Ciências dos Estados Unidos — reuniu um painel de figuras em inentes encarregado de nada m ais, nada m enos que “im pedir a guerra nuclear”. Entre os participantes estavam três prem iados com o Nobel — o físico Charles Townes, o econom ista Kenneth Arrow e o inclassificável Herbert Sim on —, bem com o um a série de outros lum inares, incluindo o psicólogo m atem ático Am os Tversky. Eu era de longe o m em bro m enos im pressionante do painel, um psicólogo político de trinta anos recém -prom ovido a professor associado da Universidade da Califórnia em Berkeley. Devia m eu lugar à m esa não a um a gloriosa carreira de realizações, m as antes a um peculiar program a de pesquisa, que aconteceu de ser pertinente à m issão da m esa-redonda.

O grupo procedeu aos trabalhos. Um a série de especialistas — analistas de serviços de inteligência, oficiais m ilitares, funcionários do governo, especialistas em controle de arm as e grandes conhecedores do regim e soviético — foram convidados para debater as questões. Tam bém estes eram um a turm a im pressionante. Profundam ente inform ados, inteligentes, articulados. E m uito confiantes de saberem o que estava acontecendo e para onde estávam os indo.

Sobre os fatos básicos, ao m enos, eles estavam de acordo. Leonid Brej nev, o antigo líder soviético, m orrera em 1982 e fora substituído por um velho frágil que logo faleceu, para ser substituído por outro, Konstantin Chernenko, que tam bém não deveria viver por m uito tem po. Muito se discutia sobre quem viria em seguida. Tanto liberais com o conservadores im aginavam com certa dose de certeza que o próxim o líder soviético seria outra vez um austero m em bro do Partido Com unista. Mas havia um a discordância quanto ao m otivo para as coisas funcionarem dessa form a. Os analistas de tendência liberal tinham certeza de que a linha dura do presidente Ronald Reagan estava fortalecendo os adeptos da linha dura no Krem lin, o que provocaria um retrocesso neoestalinista e deterioraria as relações entre as superpotências. Os analistas de inclinação conservadora achavam que o sistem a soviético aperfeiçoara a arte da autorreplicação totalitária; logo, o novo chefe poderia ser a m esm a coisa que o anterior e a União Soviética continuaria a am eaçar a paz m undial, apoiando revoltas e invadindo os países vizinhos. Am bos os lados estavam igualm ente confiantes em seu ponto de vista.

Os analistas tinham razão sobre Chernenko. Ele m orreu em m arço de 1985. Mas então o trem da história fez um a curva e, com o Karl Marx gracej ou certa vez, quando isso acontece, os intelectuais caem pela j anela.

Horas depois da m orte de Chernenko, o Politburo nom eou Mikhail Gorbatchóv, um hom em enérgico e carism ático de 54 anos, o próxim o secretário-geral do Partido Com unista da União Soviética. A guinada prom ovida por Gorbatchóv foi rápida e abrupta. Suas políticas da glasnost (abertura) e perestroika (reform a) trouxeram um a liberalização à União Soviética. Gorbatchóv tam bém procurou norm alizar as relações com os Estados Unidos e reverter a corrida arm am entista. Ronald Reagan reagiu com cautela no início, depois com entusiasm o, e em poucos anos o m undo passou da perspectiva de guerra nuclear para um a nova era em que m uitas pessoas — incluindo os líderes soviéticos e am ericanos — enxergaram um a chance de ouro para erradicar as arm as nucleares por com pleto.

Poucos especialistas perceberam o que estava por vir. E contudo não dem orou m uito para que a m aior parte dos que deixaram de perceber ficasse cada vez m ais convencida de saber exatam ente o que acontecera e o que viria em seguida. Para os liberais, tudo fazia perfeito sentido. A econom ia soviética estava desm oronando e um novo grupo de líderes soviéticos m ostrava apreensão quanto ao em bate dispendioso com os Estados Unidos. “Não podem os continuar a viver desse j eito”, disse Gorbatchóv a sua esposa, Raíssa, um dia antes de subir ao poder.8 Estava fadado a acontecer. Assim , não foi tão surpreendente, se olham os sob a luz retrospectiva correta. E não, Reagan não m ereceu crédito. Quando m uito, sua retórica de “im pério do m al” servira apenas para reforçar a velha guarda do Krem lin e adiar o inevitável. Tam bém para os conservadores a explicação era óbvia: Reagan pagara para ver o blefe soviético aum entando a pilha de fichas na aposta da corrida arm am entista, e então Gorbatchóv fugira da raia. Era tudo previsível, olhando sob a luz retrospectiva correta.

Meu cínico interior com eçou a desconfiar que, independentem ente do que acontecera, os especialistas teriam se m ostrado igualm ente hábeis em m inim izar o fracasso de seus prognósticos e esboçar um arco da história que fizesse parecer com que tivessem percebido o tem po todo o que estava por vir. Afinal, o m undo acabara de testem unhar um a im ensa surpresa envolvendo um a das questões m ais im portantes im agináveis. Se isso não provocasse um calafrio de dúvida, o que iria? Eu não estava questionando a inteligência ou integridade desses especialistas, m uitos dos quais haviam recebido grandes prêm ios científicos ou ocupado altos cargos no governo quando eu ainda estava na escola. Mas inteligência e integridade não bastam . As elites responsáveis pela segurança nacional se parecem um bocado com os renom ados m édicos da era pré- científica. Tam bém eles tinham inteligência e integridade de sobra. Mas ilusões ponta-do-seu-nariz podem tapear qualquer um , até m esm o a nata intelectual da

sociedade — talvez, sobretudo a nata intelectual da sociedade.

No documento Superprevisoes - Dan Gardner.pdf (páginas 43-46)