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O TERCEIRO AJUSTE

No documento Superprevisoes - Dan Gardner.pdf (páginas 113-115)

0% Impossível

O TERCEIRO AJUSTE

Um a cena sem elhante se desenrola em um livro escrito pelo j ornalista Mark Bowden. Só que dessa vez o hom em à cabeceira da m esa não é o Leon Panetta ficcional. É o Barack Obam a real.

Dentro da lendária Sala de Situação da Casa Branca, Obam a ouvia um grupo de agentes da CIA expressar suas opiniões sobre a identidade do hom em no m isterioso com plexo paquistanês. O líder de equipe da CIA afirm ou para o presidente que tinha certeza quase absoluta de que era Bin Laden. “Ele determ inou seu nível de confiança em 95%”, escreveu Mark Bowden em A caçada, o relato sobre as decisões por trás de um a das m ais fam osas incursões de com andos na história. Um segundo agente da CIA concordou com o prim eiro. Mas outros estavam m enos confiantes. “Quatro agentes de alto escalão no diretório da Inteligência Nacional haviam revisado o caso e registrado suas próprias conclusões”, contou Bowden. “A m aioria parecia m anter o nível de confiança em cerca de 80%. Uns baixaram para 40% ou até 30%.” Outro agente disse que estava 60% confiante da presença de Bin Laden no com plexo.

“Tudo bem , é um a probabilidade”, foi a reação do presidente, segundo o relato de Bowden.

Bowden com enta: “Desde que a agência com etera o erro de afirm ar, um a década antes, que Saddam Hussein escondia arm as de destruição em m assa, veredicto que desencadeara um a guerra longa e m uito custosa, a CIA instituíra um processo quase com icam ente elaborado para ponderar a certeza [...]. Foi com o se tentassem inventar um a fórm ula m atem ática para em itir bons pareceres”. Bowden claram ente não ficou im pressionado com o uso de núm eros e probabilidades feito pela CIA. Tam pouco Barack Obam a, de acordo com Bowden. “No fim , com o o presidente estava achando, e com o ele m ais tarde explicaria para m im , o que restava não era m aior grau de certeza, m as de confusão.”

Bowden relatou que Obam a lhe disse, num a entrevista posterior: “Nessa situação, o que você com eçava a ter eram probabilidades que disfarçavam a incerteza, em vez de inform ações efetivam ente úteis”. Bowden então escreveu que “Obam a não teve problem a em adm iti-lo para si m esm o. Se agisse com base naquilo, seria um a aposta arriscada, pura e sim plesm ente. Um a aposta m uito arriscada”.

Depois de ouvir a vasta gam a de opiniões, Obam a se dirigiu aos presentes. “‘Então é cinquenta-cinquenta’, afirm ou. Isso calou todo m undo. ‘Olha, pessoal, isso é decidir na m oeda. Não posso basear essa decisão na ideia de que tem os um a certeza m aior do que essa.’”4

Bowden claram ente adm ira a conclusão de Obam a. Deveria? A inform ação fornecida por Bowden é incom pleta, m as parece que a estim ativa m édia dos agentes da CIA — a “sabedoria da m ultidão” — ficou em torno de 70%. E contudo Obam a declara a realidade com o sendo de “cinquenta- cinquenta”. O que ele quis dizer com isso? Tem os de tom ar cuidado aqui, porque na verdade existem várias possibilidades.

opiniões e se decidiu por 50% com o a probabilidade m ais próxim a da m arca. Nesse caso, está equivocado. O parecer coletivo é m ais alto do que isso, e, segundo o relato de Bowden, ele não tem nenhum a base razoável para achar que 50% é m ais preciso. É um núm ero tirado da cartola.

Mas com o pesquisadores j á m ostraram , pessoas que usam “50%” ou “cinquenta-cinquenta” m uitas vezes não querem dizer isso literalm ente. Elas querem dizer “Não tenho certeza” ou “É duvidoso” — ou, m ais sim plesm ente, “talvez”.5 Dado o contexto, suspeito que era isso que Obam a tinha em m ente.

Nesse caso, isso deve ter sido razoável. Obam a era um executivo tom ando um a decisão crítica. É bem possível que ele tenha sentido que ordenaria o ataque se houvesse alguma possibilidade significativa de que Bin Laden estivesse no com plexo. Não im portava se a probabilidade era de 90%, 70% ou talvez até 30%. Assim , em vez de perder tem po tentando achar um núm ero exato, ele cortou a discussão e foi em frente.6

Claro que não sei se foi assim que Obam a pensou. E há outra explicação possível — um a bem m enos defensável.

Com o o Leon Panetta ficcional, Obam a talvez tenha ficado incom odado com a am pla variedade de estim ativas. O desacordo o teria levado a achar que não eram confiáveis. Assim , ele recuou para o que os teóricos da probabilidade cham am de ignorância a priori, o estado de conhecim ento em que você está antes de saber se a m oeda vai dar cara ou coroa ou, nesse caso, se Osam a vai estar no quarto principal quando os Seal chegarem batendo na porta. E isso foi um erro, porque significou que Obam a não se valeu de toda a inform ação disponível à m esa.7 Mas ao contrário do Leon Panetta ficcional, o aj uste m ental de Obam a não se resum ia a duas posições. Havia um a terceira: talvez. E foi nessa que o ponteiro parou.

O relato de Bowden lem brou-m e de um com entário casual que Am os Tversky fez cerca de trinta anos atrás, quando participam os daquele com itê do Conselho Nacional de Pesquisa encarregado de im pedir a guerra nuclear. Ao lidar com probabilidades, disse ele, a m aioria das pessoas tem apenas três aj ustes: “vai acontecer”, “não vai acontecer” e “talvez”. Am os tinha um senso de hum or afiado. Tam bém estava ciente do absurdo de um com itê acadêm ico num a m issão para salvar o m undo. Então tenho 98% de certeza de que estava brincando. E 99% de certeza de que sua piada capta um a verdade básica do j uízo hum ano.

No documento Superprevisoes - Dan Gardner.pdf (páginas 113-115)