0% Impossível
A DE FORA PRIMEIRO
Assim , qual era o passo seguinte? A m aioria das pessoas que não com eteria o erro de extrair um a conclusão baseada em seus pressentim entos sobre a culpabilidade de Israel pensaria que agora era hora de arregaçar as m angas e m ergulhar na com plexa política envolvendo Arafat por ocasião de sua m orte.
Mas é cedo dem ais para isso. Para ilustrar por quê, vou fazer um a pergunta sobre a fam ília Renzetti.
Os Renzetti m oram em um a casinha m odesta no núm ero 84 da avenida Chestnut. Frank Renzetti tem 44 anos e trabalha de guarda-livros para um a em presa de m udança. Mary Renzetti está com 35 e trabalha em m eio período num a creche. Eles têm um filho, Tom m y, que está com cinco anos. A m ãe viúva de Frank, Cam ila, tam bém m ora com a fam ília.
Minha pergunta: Qual a probabilidade de que os Renzetti tenham um bicho de estim ação?
Para responder, a m aioria das pessoas se concentraria nos detalhes da fam ília. “Renzetti é um nom e italiano”, alguém poderia pensar. “Assim com o ‘Frank’ e ‘Cam ila’. Isso pode significar que Frank cresceu com bandos de irm ãos e irm ãs, m as ele tem um filho único. Provavelm ente, quer ter um a fam ília grande, m as lhe faltam condições de sustentar um a. Então faria sentido que com pensasse isso em parte arrum ando um bicho de estim ação.” Algum outro talvez dissesse: “As pessoas dão bichos de estim ação para as crianças e os Renzetti têm só um filho, e Tom m y não tem idade suficiente para cuidar de um anim al de estim ação. Então parece im provável”. Esse tipo de narrativa pode ser bem convincente, em particular quando os detalhes disponíveis são m uito m ais ricos do que os fornecidos aqui.
Mas superprevisores não perderiam tem po com nada disso, ao m enos não inicialm ente. A prim eira coisa que fariam é descobrir qual porcentagem de fam ílias am ericanas têm um bicho de estim ação.
Os estatísticos cham am isso de taxa-base — até que ponto é com um algo estar dentro de um a classe m ais am pla. Daniel Kahnem an tem um term o m uito m ais evocativo. Ele cham a isso de “visão de fora” — ao contrário da “visão de dentro”, que é a especificidade do caso particular. Alguns m inutos no Google m e inform am que cerca de 62% dos lares am ericanos têm bichos de estim ação. Essa é a visão de fora. Com eçar pela visão de fora significa que vou com eçar estim ando haver um a chance de 62% de os Renzetti terem um anim al de estim ação. Em seguida, vou apelar à visão de dentro — todos aqueles detalhes sobre os Renzetti — e usá-la para aj ustar esses 62% iniciais para m ais ou para m enos.
É natural recorrer à visão de dentro. Ela em geral é concreta e cheia de detalhes envolventes que podem os usar para elaborar um a história sobre o que
está acontecendo. A visão de fora é tipicam ente abstrata, básica e não se presta tão facilm ente à construção de um a narrativa. Assim , m esm o pessoas inteligentes e talentosas rotineiram ente deixam de considerar a visão de fora. Peggy Noonan, colunista do Wall Street Journal e ex-redatora de discursos do presidente Reagan, certa vez predisse problem as para os dem ocratas porque as pesquisas haviam m ostrado que a taxa de aprovação de George W. Bush, que batera no fundo do poço ao final de seu m andato, voltara a subir para 47% quatro anos após sua saída do poder, igualando a do presidente Obam a. Noonan achou isso espantoso — e m uito significativo.9 Mas se tivesse considerado a visão de fora, teria descoberto que a aprovação presidencial sempre sobe depois que um presidente deixa o cargo. Até m esm o os núm eros de Richard Nixon subiram . De m odo que a posição m elhorada de Bush nada tinha de surpreendente — o que sugere fortem ente que o significado por ela extraído do fato foi ilusório.
Superprevisores não com etem esse equívoco. Caso perguntassem a Bill Flack se, nos doze m eses seguintes, haveria um confronto arm ado entre a China e o Vietnã devido a algum a disputa de fronteira, ele não investigaria im ediatam ente as particularidades dessa disputa de fronteira e o atual estado das relações China- Vietnã. Em vez disso, atentaria para a frequência de conflitos arm ados no passado. “Digam os que haj a um a conduta hostil entre a China e o Vietnã a cada cinco anos”, diz Bill Flack. “Vou usar um m odelo de recorrência de cinco anos para prever o futuro.” Em qualquer ano dado, então, a visão de fora sugeriria para Bill que há 20% de chance de um conflito. Tendo estabelecido isso, Bill olharia para a situação hoj e e aj ustaria esse núm ero para m ais ou para m enos.
Com frequência é possível encontrar diferentes visões de fora. No problem a dos Renzetti, a taxa de fam ílias am ericanas com anim ais de estim ação é um a visão de fora. Mas ela pode ser refinada. Casas de classe m édia com o o núm ero 84 da avenida Chestnut são um am biente m ais propício a anim ais de estim ação do que apartam entos de m odo geral. Assim , poderíam os estreitar o foco e usar a taxa de bichos de estim ação nas casas de classe m édia am ericanas — digam os que sej a de 73% — com o nossa visão de fora. Essa segunda visão de fora fica m ais próxim a do caso particular em que estam os interessados, assim , 73% provavelm ente seria um a aposta m elhor para nosso ponto de partida.
Claro que facilitei m inha vida oferecendo exem plos onde a visão de fora é óbvia. Mas qual é a visão de fora na questão de Arafat e o polônio? Essa é difícil. Não acontece de líderes do Oriente Médio m ortos serem rotineiram ente exum ados para investigação de suspeitas de envenenam ento — assim , de m odo algum serem os capazes de fazer um a rápida busca no Google e descobrir que o veneno é detectado em 73% dos casos com o esse. Mas isso não significa que devem os pular a visão de fora e ir direto para a de dentro.
Vam os pensar no problem a ao estilo de Ferm i. Tem os um a pessoa fam osa que está m orta. Im portantes grupos de investigação acham que há m otivo
suficiente para suspeita e por isso o corpo está sendo exum ado. Sob tais circunstâncias, com que frequência a investigação revelaria evidência de envenenam ento? Não sei e não há m aneira de descobrir. Mas sei que ao m enos há um caso de prima facie capaz de convencer tribunais e investigações m édicas de que vale a pena dar um a olhada aqui. A probabilidade deve ser consideravelm ente acim a de zero. Então vam os dizer que sej a de pelo m enos 20%. Mas a probabilidade não pode ser 100%, porque se fosse tão clara e certa a evidência teria vindo a público antes do enterro. Então vam os dizer que a probabilidade não pode ser m ais elevada do que 80%. Essa é um a grande variação. O ponto m édio é 50%. Assim , essa visão de fora pode servir com o nosso ponto de partida.
Você pode estar se perguntando por que a visão de fora deve vir prim eiro. Afinal de contas, poderia m ergulhar na visão de dentro e extrair conclusões, depois se voltar à visão de fora. Isso tam bém funcionaria? Infelizm ente, não, provavelm ente não funcionaria. O m otivo é um conceito psicológico básico cham ado ancoragem .
Quando fazem os estim ativas, tendem os a com eçar por algum núm ero e fazer aj ustes. O núm ero com o qual com eçam os é cham ado de âncora. Ele é im portante porque norm alm ente subaj ustam os, ou sej a, um a âncora ruim pode facilm ente produzir um a estim ativa ruim . E é espantosam ente fácil se decidir por um a âncora ruim . Em experim entos clássicos, Daniel Kahnem an e Am os Tversky m ostraram que é possível influenciar o j uízo das pessoas m eram ente expondo-as a um núm ero — qualquer núm ero, m esm o que sej a obviam ente sem sentido, com o um núm ero selecionado ao acaso pelo giro de um a roleta.10 Assim um previsor que com eça entrando de cabeça na visão de dentro corre o risco de ser influenciado por um núm ero que pode ter pouco ou nenhum significado. Mas se ele parte da visão de fora, sua análise com eçará por um a âncora significativa. E um a âncora m elhor é um a nítida vantagem .