3. O SURGIMENTO DO BLOCO DE CONSTITUCIONALIDADE
3.4. Componentes do Bloco de Constitucionalidade na França
A decisão de 16 de julho de 1971 do Conselho Constitucional francês foi considerada como o primeiro caso no qual foi invocado como parâmetro de controle norma não constante no corpo constitucional. Também neste julgado, como visto, reconheceu-se de modo evidente o valor jurídico do preâmbulo.
Posteriormente a este leading case, o Conselho continuou a proferir outras decisões no quais consagraram direitos e princípios contidos em normas fora do corpo normativo da constituição de 1958, mas pertencentes ao bloco de constitucionalidade.
Foi o caso da decisão de 27-12-1973 que, por provocação do presidente do senado, o Conselho constitucional francês, impediu a promulgação de lei que feria o princípio de
igualdade dos cidadãos perante a lei, consagrada na declaração de 1789263.
Outras decisões do Conselho constitucional francês concretizaram direitos materialmente constitucionais pertencentes ao bloco francês, a exemplo da liberdade de ensino e de consciência, como ressalta Alexandre de Moraes:
O conselho constitucional também reconheceu valor constitucional aos diretos de defesa, em decisões de 2-12-1976 e 20-7-1977 e à liberdade de ensino e de consciência dos docentes que prestam serviços em estabelecimentos privados vinculados ao Estado mediante contrato, em decisão de 23-11-1977.264
Alexandre de Moraes, ainda, informa sobre a importante alteração feita pela “lei constitucional nº29/79, que ampliou a legitimidade para impugnações perante o conselho constitucional, possibilitando o acesso de 60 deputados ou 60 senadores, o controle de
constitucionalidade e a proteção aos direitos fundamentais tornaram-se mais efetivos”265.
Desta forma, o Conselho prosseguiu promovendo a ampliação dos direitos e utilizando-se da sua competência não apenas de forma estática, mas sim de constitucionalização de preceitos e princípios de direitos e liberdades, inclusive econômicos e sociais.
261 FAVOREU, Louis. Los tribunales constitucionales.Op.cit.p.107. 262 Op.cit.p.198.
263 MORAES, Alexandre de. Jurisdição Constitucional e Tribunais Constitucionais: garantia suprema da
constituição. São Paulo: Atlas, 2003, p.147-148.
264 Op.cit.p.147-148. 265 Op.cit.p.148.
Todavia, a tendência atual na França, trazida à tona por Favoreu, é retratação das normas de referência a partir de 1980, reduzindo-as apenas ao texto constitucional em vigor, à Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão, o preâmbulo e às leis da república. Tal situação ocorreu devido à mudança das políticas do conselho que se posicionou contra um
suposto “governo dos juízes”, ou seja, da postura mais ativista do poder judiciário266.
O texto da constituição de 1958, obviamente, é o principal elemento do bloco. Como visto, o constitucionalismo moderno impulsionou a existência de constituições escritas, não havendo dúvidas de que são parâmetros de conformidade da legislação inferior. Assim, a constituição francesa, que é dividida em 15 (quinze) títulos, é componente central do bloco de constitucionalidade.
O preâmbulo da constituição vigente, a de 1958, passou a também ser considerado norma de referência, dotado de eficácia vinculante, após a comentada decisão. Sua principal função é declarar o respeito aos direitos humanos e os princípios da soberania nacional pelo povo francês. Apesar de não elencar direitos e garantias, faz remissão a diplomas que possuem extenso rol dos mesmos, como a Declaração de 1789, o preâmbulo da constituição anterior e a Carta Ambiental de 2004:
Le peuple français proclame solennellement son attachement aux Droits de l'homme et aux principes de la souveraineté nationale tels qu'ils ont été définis par la Déclaration de 1789, confirmée et complétée par le préambule de la Constitution de 1946, ainsi qu'aux droits et devoirs définis dans la Charte de l'environnement de 2004. En vertu de ces principes et de celui de la libre détermination des peuples, la République offre aux territoires d'outre-mer qui manifestent la volonté d'y adhérer des institutions nouvelles fondées suar l'idéal commun de liberté, d'égalité et de fraternité et conçues en vue de leur évolution démocratique.267
Como o preâmbulo da constituição francesa atual faz referência à Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, como visto no enxerto acima, o Conselho entendeu que o mesmo também fazia parte da constituição. Todavia, é de observar, como faz
próprio Favoreu268, que em decisão proferida em 27 de dezembro de 1973 o conselho invocou
pela primeira vez a Declaração, abandonando a posição anterior que seria apenas uma fonte de inspiração que permitia extrair os princípios gerais do direito.
266 Op.cit.p.47-49.
267 O povo francês proclama solenemente a sua adesão aos direitos humanos e os princípios da soberania
nacional como foram definidos pela Declaração de 1789, confirmada e complementada pelo Preâmbulo da Constituição de 1946 e pelos direitos e deveres definidos na Carta Ambiental em 2004. De acordo com estes princípios e o da livre determinação dos povos, a República oferece aos territórios ultramarinos que manifestem a vontade de aderir a eles novas instituições fundadas no ideal comum de liberdade, igualdade e fraternidade e concebidas para favorecer a sua evolução democrática. (tradução livre).
A referida declaração foi fruto da revolução do século XVIII e consagra inúmeros
direitos da primeira geração269. Tal declaração supre a exigência de positivação dos direitos
fundamentais na Constituição e, por isso, quase por necessidade social, o conselho acabou invocando o seu valor constitucional. Isso porque, diferentemente de muitas constituições do pós-guerra, como a brasileira, a constituição atual da França não elenca um rol expresso de direitos do homem. Em realidade, existem poucos direitos contidos no texto sintético da constituição francesa, o que explica a necessidade surgida de que as garantias individuais estivessem englobadas no conceito de constituição. Por essa razão, o Conselho reiteradamente
reforça a paradigmática decisão de 1971, considerando a Declaração parâmetro de controle270.
Neste contexto, pelo fato do preâmbulo da Constituição francesa também fazer remissão ao preâmbulo da constituição de 1946, o mesmo também foi considerado como integrante ao bloco de constitucionalidade, pois o seu conteúdo consagra direitos econômicos e sociais, como constante abaixo:
Au lendemain de la victoire remportée par les peuples libres sur les régimes qui ont tenté d'asservir et de dégrader la personne humaine, le peuple français proclame à nouveau que tout être humain, sans distinction de race, de religion ni de croyance, possède des droits inaliénables et sacrés. Il réaffirme solennellement les droits et libertés de l'homme et du citoyen consacrés par la Déclaration des droits de 1789 et les principes fondamentaux reconnus par les lois de la République.271
Observa-se que também há referência à Declaração e, em seguida, nos parágrafos posteriores, inicia-se uma extensa declaração contendo direitos políticos, econômicos e sociais, que completam os direitos individuais já trazidos na Declaração.
E, por fim, os princípios fundamentais reconhecidos pelas leis da república completariam o bloco de constitucionalidade francês. O conceito deste último elemento é dotado de certa vagueza de conteúdo. Manili explica que durante a assembleia da constituição de 1946 argumentou-se que estes princípios se refeririam a certas conquistas, em especial no campo social, tais como a liberdade de associação, da cooperação, da progressividade dos
impostos, dentre outras272. Carpio Marcos acentua que estes princípios, ao contrário da
Declaração e do Preâmbulo de 1946, não são previsto expressamente.
Segundo o autor, houve, na realidade um reconhecimento de duplo grau. Ou, conforme entende-se, ocorreu um reconhecimento por via reflexa, uma vez que tais princípios foram
269 Os direitos de primeira geração são considerados pela doutrina como sendo aqueles decorrentes do princípio
da liberdade. São os direitos individuais, oponíveis ao Estado, limitando o seu poder sobre os particulares. MELO, Carolina de Campos. O bloco da constitucionalidade e o contexto brasileiro. Revista Direito, Estado e
Sociedade. Rio de Janeiro, nº14, p.169 a 179, jan/jul 1999.
270 MANILI, Pablo.Op.cit.p.289.
271 Após a vitória dos povos livres sobre os regimes que tentaram escravizar e degradar a pessoa humana, o povo
francês proclama novamente que cada ser humano, sem distinção de raça, religião ou crença, possui direitos inalienáveis e sagrados. Ele reafirma solenemente os direitos e liberdades do homem e do cidadão consagrados no Bill of Rights de 1789 e os princípios fundamentais reconhecidos pelas leis da República.
referidos no preâmbulo da constituição de 1946 que, por sua vez, teve seu valor constitucional
reconhecido273. Favoreu entende que os princípios fundamentais reconhecidos pelas leis da
república são elementos marginais do bloco de constitucionalidade tendo em vista que representariam uma fatia pequena das normas constitucionais. Alerta também que o seu conteúdo não é assimilado de modo tão aberto pelo Conselho, uma vez que critérios restritivos veem sendo progressivamente estabelecidos, tais como: a) deve-se tratar de uma legislação republicana; b) não pode se tratar de tradição republicana, pois esta não pode ser invocada; e c) a legislação deve ter sido aprovada antes da entrada em vigor do preâmbulo de
1946274. Já foi admitido em algumas decisões o princípio da segurança jurídica275, da
liberdade de consciência276, liberdade acadêmica [autonomia]277, independência dos
professores pesquisadores278, princípio da necessidade da pena279, da competência exclusisa
dos tribunais administrativos para anulação de atos de autoridade pública280.
3.5 Considerações sobre o bloco de constitucionalidade francês como incentivador de uma