4. O BLOCO DE CONSTITUCIONALIDADE ÍTALO-ESPANHOL
4.1 O bloco de constitucionalidade no direito estrangeiro
O conceito de “bloco de constitucionalidade” está presente em alguns países da Europa e do continente americano. Como estudado no capítulo anterior, é originário da França, mas em cada país que influenciou adquiriu contornos diferentes de acordo com a sistemática da justiça constitucional em questão.
Sobre o tema, Louis Favoreu afirma que:
La dificultad del derecho comparado consiste, principalmente, em que las palabras y las expresiones no tienen, forzosamente, el mismo sentido, ni siqueira cuando ha habido uma transposición de la misma expression de um Derecho a outro. Aparentemente es lo que ocorre com la expresión “bloque de constitucionalidad" (...).305
Neste sentido, conforme Carpio Marcos, a ampliação do parâmetro de controle adquiriu contornos distintos na Europa, apesar de todos se utilizarem da mesma expressão “bloco de constitucionalidade”:
Em el derecho comparado, esta ‘ampliación” del parámetro de control, es decir, de las normas a partir de las cuales pueda determinarse la validez/invalidez de las normas com rango de ley, se há pretendido explicar a través de la expresión “bloque de constitucionalidade”. Sin embargo, por muy loable que pueda ser ese propósito, há de advertise imediatamente que, en diversos países de América Latina y algunos de Europa, com tal expresión se designan muchas cosas, no siempre com um sentido uniforme (...)306
Assim, o direito comparado pode trazer uma melhor compreensão de determinado instituto. Essa é a lição de Biscaretti Di Ruffia “L´indagine comparata, infatti, suole spesso condurre ad una migliore interpretazione e valutazione degli instituti giuridici
dell´ordinamento nazionale”307.
Contudo, sabe-se que breves citações de diferenças e semelhanças do significado do bloco de constitucionalidade não correspondem, em verdade, a um direito comparado, logo, limita-se a analisar os contornos da teoria no sistema jurisdicional francês e brasileiro, comparando apenas com as distinções peculiares que se adquiriu na Itália e Espanha. Essa
305 FAVOREU, Louis. El bloque de constitucionalidade. Revista del Centro de Estudios Constitucionales,
Madrid,.Num.5. Jan- mar, p.45, 1990.
306 CARPIO MARCOS, Edgar. Bloque de constitucionalidade y processo de inconstitucionalidade de las leyes.
Revista Iberoamericana de Derecho Procesal Constitucional, Madrid, n. 4, p.80, 2005.
307 BISCARETTI DI RUFFIA, Paolo. Introduzione al Diritto Costituzionale Comparato. Milano: Dott.A.
Giuffré Editore, 1988, p.6. Tradução livre: O estudo comparativo, de fato, muitas vezes leva a uma melhor interpretação e avaliação do instituto jurídico do ordenamento nacional.
restrição é devida diante da distinção, infelizmente por muito ignorada, entre direito comparado e direito estrangeiro.
O direito comparado ontologicamente necessita do direito estrangeiro, pois é a partir de sistemas jurídicos distintos que esta ciência se desenvolve. A comparação não se restringe, contudo, apenas citação à legislação ou a uma análise superficial de conceitos.
Sobre a distinção, Ivo Dantas aduz que “(...) o direito estrangeiro é a conditio sine qua
non para a possibilidade de fazer-se direito comparado”308. Há mais de duas décadas o ilustre
professor chama a atenção para a equivocada utilização do termo direito comparado entre juristas do Direito, usando-o como sinônimo do direito estrangeiro. E continua: “não poucos pensam que, no simples fato de citarem o direito estrangeiro em seus estudos, tal significa que
estejam fazendo estudo comparado”309.
Caio Mário também adverte que:
(...) a invocação do direito estrangeiro, a pesquisa de jurisprudência estrangeira, a busca da lei estrangeira e o subsídio da doutrina estrangeira, todos indispensáveis para qualquer tema, não podem ter o condão de transformar o tema ou estudo em obra de Direito Comparado.310
Logo, o direito estrangeiro é pressuposto de existência do direito comparado, mas este último não se esgota naquele, em meras citações da norma alienígena, mas sim em um estudo aprofundado das instituições ou ramo do direito nos ordenamentos jurídicos escolhidos.
Ivo Dantas ainda ressalta que comparações entre legislações também não corresponde ao Direito Comparado e explica:
No tocante à expressão legislação comparada, a sua impropriedade inicia-se no instante em que se tenta identificar Direito com Legislação, mormente quando estamos lembrados que aquele tem um sentido bem mais amplo que a segunda, sendo esta (legislação), apenas, uma das formas de manifestação daquele (= Direito Positivo).311
Feitas essas considerações, o corte epistemológico promovido pela escolha do sistema constitucional espanhol e italiano, trabalhados nos tópicos seguintes, deu-se, dessa maneira, diante da forma peculiar que se formatou o bloco de constitucionalidade em tais países, razão que a comparação com os referidos ordenamentos irá enriquecer o debate no momento de análise do caso brasileiro.
308 DANTAS, Ivo. Novo direito constitucional comparado. Curitiba: Juruá, 2010, p.72. 309 DANTAS, Ivo. Op.cit. p. 72-73.
310 PEREIRA. Caio Mário da Silva. Direito comparado, ciência autônoma. Revista da Faculdade de Direito da
UFMG. Ano IV. Outubro, p.35, 1952.
Na Espanha, el bloque de constitucionalidade está mais relacionado com as normas das comunidades autônomas que, juntamente com o texto normativo da constituição, são possíveis de serem invocados no juízo de constitucionalidade.
Na Itália, o seu bloco está voltado para as normas interpostas, ou seja, normas que servem para avaliar a constitucionalidade de outras, apesar de não estarem concretizadas em nível constitucional. Também se destaca no direito italiano, a força criativa da Corte Costituzionale nas chamadas decisões manipulativas, em que há uma alteração na norma extraída de uma disposição ordinária para conformá-la com a constituição.
Ainda cabe salientar que ambos os países são do continente europeu, berço dos estudos do bloco constitucional, fazendo fronteira à França e tendo recebido desta algumas influências, motivo pelo qual selecionou-se a eles para o estudo dos contornos do seu bloco de constitucionalidade.