AS HISTÓRIAS DO NOVO TESTAMENTO
HISTÓRIAS EXTRAÍDAS DO ANT IGO TESTAMENTO *1*
determinação de fazer a mesma coisa. Paulo conclui que “assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram” (Rm 5.12). A descendência é como os pais, quanto ao pecado.
Um dos lances mais criativos de Paulo, ao contar a história da pecaminosidade do homem, encontra-se em Romanos 7.7-13.4 Ele narra a história no meio de um comentário sobre a lei. Paulo aparentemente considerava o pecado original uma violação do décimo mandamento, aquele contra a cobiça. Em Romanos 7.7-13, Paulo trata do seguinte paradoxo: embora os mandamentos de Deus sejam certamente todos bons, os seres humanos não saberíam o que é transgressão se não houvesse mandamento. “Eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás.” Transgressão é a violação propositada de uma lei ou mandamento conhecido.
Com finalidade retórica, Paulo escolheu recontar a história de Adão em primeira pessoa e personificar o pecado na serpente. Assim, podemos ler Romanos 7.8-11 desta forma: “Mas o pecado [serpente], aproveitando-se da ocasião dada pelo mandamento, provocou em mim todo o tipo de cobiça; porque, onde não há lei, o pecado está morto. Antes eu [Adão] vivia sem a lei; mas quando veio o man damento, o pecado reviveu, e eu morri; e descobri que o mandamento que era para vida, tornou-se morte para mim. Porque o pecado [a serpente], aproveitando-se do mandamento, enganou-me, e por meio dele me matou”. Eis a familiar história primitiva da vida sem pecado, então vem o mandamento, o engano, a desobediência e a morte resultante.
Há fortes razões para ler Romanos 7.7-13 desta maneira: (1) nos versículos 7 e 8 há uma referência a um mandamento específico, chamado o mandamento no versículo 8, e a Adão só foi dado um mandamento. (2) O versículo 9 diz “Antes eu vivia sem a lei”, mas certamente as únicas pessoas que Paulo acreditava terem vivido antes ou fora de qualquer lei são Adão e Eva. (3) No versículo 11, o pecado está certamente personificado como um ser vivo que aproveitou uma oportunidade e enganou um ser humano. É certamente a história de Eva, Adão e a serpente. (4) O mesmo verbo empregado para falar de engano, aqui, é usado em 2Coríntios
11.3 para falar diretamente que Eva foi enganada no jardim. (5) No versículo 7, Paulo diz que o pecado não foi conhecido, senão por intermédio do mandamento, mas todo indivíduo desde Adão teve conhecimento pessoal ou experimental do pecado. A interpretação que dá melhor sentido a todas as nuanças de Romanos 7.7-13 afirma que Paulo está refletindo sobre a história primeva de Adão e como o pecado e a pecaminosidade humana começaram.
4 V. a discussão detalhada que faço desse texto crucial em The Epistle to the Romans (Grand Rapids: Eerdmans, 2003), p. 179-200.
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Se Romanos 7.7-13, em que os verbos estão no passado, se refere a Adão, então sobre quem é a história contada em Romanos 7.14-25, em que os verbos estão no presente? Eu diria que é uma apresentação dramática do atual estado decaído de toda a humanidade, que seguiu os passos de Adão, sendo que, provavelmente, a história foi contada, inicialmente, do ponto de vista de um judeu sem Cristo. Paulo preparou o caminho para essa discussão numa passagem anterior, em Romanos 5.12, na qual explicou não só que o pecado entrou no mundo por meio de Adão, mas também que toda a sua descendência seguiu o mesmo caminho, tanto judeus quanto gentios. De fato, como diz Romanos 2.9, o juízo do pecado começará com a casa de Deus. Romanos 5.12 afirma que o pecado e a morte vieram reinar sobre toda a humanidade, e Romanos 6.16, 17, que os que não estão em Cristo são escravos do pecado, incapazes de evitá-lo ou de escapar de sua escravidão.
E preciso ressaltar que o contexto da discussão encontrada em Romanos 7.14- 25 é o debate da lei. Observe as importantes declarações que preparam para essa seção, em Romanos 7.5, 6, em que Paulo fala sobre crentes que, no passado, estavam na carne, e agora estão em Cristo (v. 6). Os crentes foram libertos da lei, como deixa claro a analogia com a morte do marido. Eles não estão mais sob sua jurisdição, não estão mais sujeitos a ela. Observe também, em Romanos 8.8, 9, que Paulo usa a expressão “na carne” exatamente como fez em Romanos 7.5, 6, para caracterizar a condição de uma pessoa antes de se tornar cristã. Todavia, a pessoa descrita em Romanos 7.14-25 se define como carnal e vendida à escravidão do pecado (v. 14), e clama por libertação. Essa não é uma pessoa que está livre em Cristo.
Já expliquei em detalhes, em outra oportunidade, quem é a pessoa identificada por Paulo com o pronome “eu”, em Romanos 7.14-25, considerando todas as principais opções.’ De fato, só existem duas possibilidades que dão sentido ao contexto de Romanos 7.14-25. Paulo pode estar falando do judeu que conhece a lei e se esforça para obedecer-lhe, mas um judeu como Paulo o vê agora, com a perfeita percepção de quem já viveu essa realidade e com o discernimento de Cristo. Essa pessoa sabe que a lei de Deus é boa, mas sua natureza pecaminosa o leva a fazer o que não deveria. A outra possibilidade é que Paulo esteja descrevendo a situação difícil de qualquer pessoa sem Cristo que toma consciência de sua culpa, tendo ouvido a Palavra de Deus — em particular, a lei — , sendo ainda escrava do pecado. É preciso lembrar que Paulo tinha dito anteriormente, em Romanos 2.14, 15, que a essência do que a lei requer está escrita no coração dos gentios. Portanto, Romanos 7.14-25 descreveria uma pessoa debaixo da culpa do pecado clamando por redenção; e Romanos 8.1-15 seria a resposta de Deus a esse clamor e a descrição da transformação ocorrida quando a pessoa passa a estar em Cristo.
Observe que Romanos 8.1-10 deixa claro não só que um veredicto de absolvição foi pronunciado, mas também que o Espírito entrou na vida da pessoa 5
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e a libertou da escravidão do pecado. O espírito dessa escravidão foi substituído pelo espírito de adoção, e esse Espírito leva a pessoa a dizer “Aba, Pai”, em vez de “Quem me livrará do corpo desta morte?” (compare 7.24 e 8.15). É claro que Paulo não diz que os crentes se tornam instantaneamente perfeitos ou que não são mais tentados pelo pecado, após a conversão. Embora a tentação de pecar continue a existir, ela não exerce mais domínio sobre o indivíduo. Essa é a questão. Mas, na verdade, após a jornada através de Romanos 7 e 8, tivemos uma prévia das próximas atrações. Fomos além da história e mostramos para onde ela vai. Depois de Adão, o próximo ponto crucial no universo do pensamento narrativo de Paulo é a história de Abraão.
Parece um tanto chocante que Paulo, ex-fariseu, enquanto devota bastante tempo e espaço à discussão de Abraão e sua história (cf. G1 3.6-18; 4.21-31; Romanos 4; 9.6-15; 11.1), gaste muito menos tinta com Moisés. Para Paulo, Abraão é o exemplo máximo de fé, antes da vinda de Cristo. Gálatas 3.8 explica desta forma: “E a Escritura, prevendo que Deus iria justificar os gentios pela fé, anunciou previamente a boa nova a Abraão...”. Abraão é o protótipo ou, como afirmou S. Fowl, o modelo de fé cristã, porque ele ouviu a primeira pregação das boas novas sobre a justificação pela fé e teve a reação certa. Abraão, portanto, é visto como o ancestral tanto dos judeus quanto dos gentios. Até mesmo os gentios compartilham a fé de Abraão (Rm 4.16) e, juntamente com os cristãos de origem judaica, se tornam seus herdeiros e beneficiários das promessas dadas a ele através de Cristo (G1 3.14).
Assim como ocorre com todas as histórias das Escrituras Hebraicas, Paulo vê a história de Abraão através de lentes escatológicas, cristológicas e, em menor grau, eclesiológicas. Os elementos das histórias que ele ressalta são os mais adequados ao público cristão. Contudo, o que Paulo omite em sua discussão (o sacrifício de Isaque, a história de Sodoma e Gomorra, a hospitalidade para com os anjos, o encontro com Melquisedeque) é tão revelador quanto o que ele inclui. O intuito de Paulo é mostrar que Abraão é um paradigma de fé, e que as promessas feitas a ele são cumpridas em sua semente, Cristo, e, desta forma, atingem todos os que estão em Cristo. Em parte, isso significa que um dos aspectos mais cruciais do material sobre Abraão é a sua cronologia.
É crucial não só que Abraão já tenha recebido a promessa de uma grande descendência em Gênesis 12.2, 3, mas também que a aliança de Deus com ele já tenha se iniciado em Gênesis 15. A observação mais importante é: “Ele creu no
S
enhor,
e isso lhe foi imputado para justiça” (15.6). Tudo isso ocorre antes de qualquer discussão sobre a circuncisão como sinal da aliança, que só aparece em Gênesis 17. Note que a história de Agar e Sara aparece apenas depois de Gênesis 15.6 (v. Gn 16 e 21.8-21). Em Gálatas, Paulo utiliza a história de Agar e Sara numa chocante alegoria, cujo objetivo é mostrar que a lei deveria ser associada à escrava e à velha Jerusalém e, portanto, não devia ser seguida. A ordem dos aconte cimentos em Gênesis permite que Paulo recorra ao procedimento original de Deus1 1 4 *r AS HISTÓRIAS DO NOVO TESTAMENTO
com Abraão em lugar de qualquer instituição posterior da circuncisão, seja de Abraão, seja de Moisés.
Isso leva a conclusões como as que encontramos em Romanos 4.11, 12: a circuncisão é só o selo ou sinal de uma retidão ou posição correta que Abraão já havia obtido por meio da fé em Deus. Paulo também considera que essa ordem de acontecimentos implica que Abraão pode ser o pai dos crentes gentios, assim como dos judeus, pois, da mesma forma que eles, Abraão creu sem ter sido antes circun- cidado e foi aceito nessa condição (v. Rm 4.1). Ele não é o antepassado de todos os crentes segundo a carne, mas segundo o fundamento da fé. Esse dado também pode levar a outro corolário. Nem todos os descendentes de sangue de Abraão são verdadeiros filhos de Deus, verdadeiros israelitas, pois os verdadeiros descendentes não são os filhos da carne, mas os da promessa (Rm 9.6, 7).
O caráter paradigmático de Abraão se torna evidente num texto como Romanos 4.23, 24. Abraão é o modelo número um do relacionamento com Deus segundo o fundamento correto da fé escatológica: “Mas não é só por causa dele que está escrito que isso lhe foi levado em conta; mas também por nossa causa, por quem a justiça será levada em conta, a nós os que cremos naquele que ressuscitou dos mortos a Jesus, nosso Senhor”. Não é uma história qualquer, é uma história escri- turística e, como tal, fornece um modelo normativo para o povo do Livro. Abraão não é meramente análogo aos cristãos; ele é o seu modelo ou paradigma escri- turístico.6 7
A história de Abraão tem uma reviravolta surpreendente em Gálatas 3.16, em que, numa argumentação magistral, Paulo sustenta que o termo “descendente” se refere, em particular, a Cristo. É bom ressaltar as voltas que Paulo acrescenta às histórias judaicas fundamentais.' Gênesis 17.6, 7 parece servir de cenário aqui. Essa é a versão da promessa feita a Abraão que se refere ao fato de que reis descenderão dele, e é a versão, também, que diz que a aliança é entre Deus e Abraão e a sua descendência. Romanos 9.6, 7 mostra que Paulo sabe muito bem que “descendência” é um termo coletivo, mas o contexto mais amplo de Gênesis 17 forneceu a Paulo a oportunidade legítima de falar sobre o mais importante rei judaico que descendería de Abraão. Nessa discussão, aprendemos que Paulo, na verdade, vê o Cristo ressur- reto como uma personalidade inclusiva ou onipresente, assim como Deus; alguém em quem muitos podem permanecer ou habitar. Cristo é o descendente, e os crentes em Cristo também são descendentes, se estiverem nele. Eles se tornam herdeiros pelo fato de estarem no descendente, que é Cristo. Portanto, “descendente”, em Gálatas 3.16, tem tanto um sentido individual quanto coletivo (Cristo e os que estão nele), assim como teve no caso de Abraão (Isaque e descendentes posteriores recebem a promessa). Isso significa que se Gálatas 3 for lido cuidadosamente à luz
f' V., de S. Fo w l, The Story ofC hrist in the Ethics o fP a u l (Sheffield: JSOT Press, 1990), p. 94. 7 V., de N. T. WRIGHT, The Netv Testament an d the People o f God (London: SPCK, 1992), p. 405-9.
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do contexto mais amplo de Gênesis 17, se ouvirmos o eco intertextual, então Paulo afinal não será, neste caso, culpado de prestidigitação exegética.
De importância crucial para entender o universo do pensamento narrativo de Paulo é a conexão traçada entre a aliança abraâmica e a nova aliança, em Gálatas 3 e 4. A aliança abraâmica é vista como tendo se cumprido em Cristo; portanto, a aliança que ele iniciou é a consumação da primeira. Essas duas alianças envolviam os circuncidados e os incircuncisos. Do ponto de vista de Paulo, a circuncisão não é o ponto essencial, e sim a fé, pois Gênesis 15 precede Gênesis 17. As duas alianças envolvem filhos dados pela graça de Deus e uma aliança eterna. Além disso, ambas estão ligadas ao fato de que, nesse contexto, todas as nações da terra serão abençoadas (v. Gn 17.6).
Em termos do fluxo narrativo do pensamento de Paulo, o custo de fazer essa íntima ligação entre a aliança abraâmica e a nova aliança é alto. Essa ligação significa que, para Paulo, a aliança mosaica deve ser vista como um arranjo temporário, um parêntesis entre as promessas feitas a Abraão e aquelas cumpridas em Cristo. Isso não significa que a lei tenha sido uma coisa ruim, mas que era algo provisório apenas, um guardião temporário para manter o povo de Deus na linha até a chegada do Messias.
Quando Paulo pensa em Adão, tem em mente toda a história do pecado e da Queda; quando pensa em Abraão, considera uma aliança baseada na fé e nas pro messas que decorreram dela. Mas, quando ele pensa em Moisés, se refere à lei, e particularmente a lei como algo dado pro tempore.
Em nenhuma outra passagem isso é mais evidente do que em Gálatas 3 e 4, mas Romanos insinua a mesma coisa.8 Como Paulo raciocina cristologicamente em relação à cronologia da história da salvação, no seu ponto de vista, quando Cristo veio, a situação no que diz respeito à lei e ao povo de Deus também mudou: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei, para resgatar os que estavam debaixo da lei, a fim de que recebéssemos a adoção de filhos” (G14.4, 5). A lei mosaica não é vista como oposta às promessas ou como uma anulação da aliança abraâmica (G1 3.17-21); simples mente, ela foi destinada para épocas e propósitos diferentes.
Paulo deixa clara sua opinião sobre a aliança mosaica em 2Coríntios 3. Nesse capítulo, a história da subida de Moisés ao monte Sinai é recontada, e, se o leitor não conhecer a história, não entenderá as nuanças das manobras interpretativas de Paulo. Podemos dizer que 2Coríntios 3 é uma história sobre os ministérios de dois servos chamados por Deus (Moisés e Paulo) que leva a comentários sobre duas alianças, a mosaica e a nova. Fica claro que não é uma história sobre as Escrituras Hebraicas em si. Paulo também não sugere que devamos adotar uma hermenêutica
8 V. meu livro G racein Gatatía: A Commentary on St. Pauis Letter to the Galatians (Grand Rapids: Eerdmans, 1998), p. 197-341, no qual faço uma defesa mais substancial dessa linha de argumentação.
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particular — espiritual versus literal — na interpretação desse texto, nem contrapõe a palavra escrita (aqui escrita — em pedra, por causa da alusão aos Dez Manda mentos) ao Espírito ou até mesmo à palavra falada. Ele apenas compara e contrasta ministérios e as alianças em nome das quais esses ministérios foram assumidos.
Moisés subiu ao monte Sinai e desceu com os dez mandamentos e nuvens de glória atrás de si. Para Paulo, os Dez Mandamentos — e todo o conjunto da lei — são santos, justos, bons e até espirituais (Rm 7.12, 14). Paulo não contesta de forma alguma que a lei tenha vindo acompanhada de esplendor. O fato, entretanto, é que sua glória ou esplendor, e a glória de Moisés, foram eclipsados pelo esplendor maior de Cristo e a nova aliança. Assim, não é só a glória da face de Moisés que está sendo anulada, mas a própria aliança mosaica (2Co 3.10,11). Infelizmente, embora a intenção e o propósito fossem outros, o efeito direto da lei sobre os seres humanos decaídos foi distribuir morte em vez de dar vida. O problema com a lei era que ela não podia dar vida; ela não podia capacitar alguém a obedecer-lhe, o que significa que ela somente podia condenar o comportamento humano repetidamente. Como resolver isso?
O verbo crucial em 2Coríntios 3.7, 11, 13, 14 é katargeõ. Das 27 ocorrências desse verbo, 21 estão no corpus paulino, e, sempre que é usado em outros textos paulinos, ele se refere a algo que foi substituído, invalidado, abolido, e não que meramente se desvaneceu. O contraste deliberado entre o ministério da vida e o da morte em 2Coríntios 3 é um forte indicativo de que devemos aqui interpretar esse verbo de forma semelhante. A vinda do glorioso Cristo ofuscou as glórias anteriores, tornando-as, com efeito, obsoletas. O argumento de Paulo está fundamentado na leitura sobre o modo como a história da salvação se processou. O ponto crucial não são as atitudes ou procedimentos humanos em relação à lei; também não se trata de um defeito da própria lei. O defeito está nos seres humanos decaídos. O efeito que a lei tem sobre esses seres é comparado com o efeito do Espírito. O código escrito mata; o Espírito dá vida. Gálatas 3.19 esclarece, então, que era necessária uma mudança de guias ou guardiães. A lei era só até a vinda de Cristo. Temos que reservar a discussão do tratamento que Paulo dá à história de Cristo e dos que estão em Cristo para um capítulo posterior.
Na forma como Paulo trabalha as histórias do AT, o que de fato chama a atenção é justamente quanto sua leitura dessas histórias é controlada pela aceitação da história de Cristo e seus seguidores. Paulo sustenta o que diz sobre Adão porque acredita que o último Adão apareceu e superou o primeiro. O mesmo vale para o que diz sobre Abraão porque consegue, por analogia histórica, ver Abraão como uma espécie de protótipo de cristão, fora de época. E vale para o que diz sobre Moisés, porque acredita que a glória de Moisés e a glória da lei foram eclipsadas pela nova aliança. É simplesmente surpreendente que um ex-fariseu possa associar a lei com Agar e com a escravidão, mas isso se deve à grande fé que Paulo deposita em Cristo e nos benefícios proporcionados por ele.