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HISTÓRIAS EXTRAÍDAS DO ANTIGO TESTAMENTO *5* 11

AS HISTÓRIAS DO NOVO TESTAMENTO

HISTÓRIAS EXTRAÍDAS DO ANTIGO TESTAMENTO *5* 11

As

HISTÓRIAS ANTIGAS EM OUTRAS PASSAGENS DAS EPÍSTOLAS

A apropriação de histórias do AT em outras partes do NT é às vezes sublime e às vezes muito surpreendente. Observe, por exemplo, o uso da história dos anjos decaídos em Judas e em 1 e 2Pedro.

Judas 2Pedro 1 Pedro

(v. 6) (2.4) (3 .1 9 ,2 0 )

“Os anjos que não mantiveram seus domínios, mas deixaram sua própria habitação, ele os tem con­ finado nas trevas em algemas eternas, para o juízo do

grande dia.”

“Porque Deus não poupou anjos quando pecaram, mas lançou-os no tártaro, e os entregou aos abismos de trevas, reservando-os para o juízo.”

“no qual [Cristo] também foi e pregou aos espíritos em prisão; os quais, noutro tempo, foram rebeldes, quando a paciência de Deus esperava, nos dias de Noé, enquanto a arca era construída...”

Obviamente, os dois primeiros textos são muito mais semelhantes entre si do que ao terceiro e não têm importância cristológica; apesar de que — se a referência a Cristo como Senhor em Judas 4 prepara para o versículo 5, onde o Senhor é quem salvou o povo do Egito e manteve os anjos acorrentados — temos, então, um comentário sobre a preexistência de Cristo e seu papel na história de Israel, apoiado em noções de sabedoria semelhantes às que encontramos em 1 Coríntios

10.4 (cf. Sabedoria de Salomão 11.4). O autor de 2Pedro, entretanto, considera claramente que foi Deus e não Cristo quem acorrentou os anjos desobedientes.

Esses textos se referem à história de Gênesis 6.1-4, na qual Deus foi tão afrontado pelo que os anjos (filhos de Deus) fizeram com as filhas dos homens, que trouxe o dilúvio sobre a terra. Esse contexto de Gênesis é mais óbvio no uso que 1 Pedro 3 faz desse material, e é em 1 Pedro 3 que encontramos algo de clara importância cristológica. Nessa passagem, Cristo (o v. 18 deixa claro que é ele) prega aos anjos em prisão. Embora o texto de 1 Pedro 3 seja a base da declaração do credo que diz “ele desceu ao inferno”, e também de várias teologias da “segunda chance”, é duvidoso que ele tenha algo a ver com tais idéias. Na verdade, não há nada dizendo que Cristo “desceu” a algum lugar. O texto diz unicamente que, depois que Cristo morreu e foi “vivificado pelo Espírito”, ele foi e pregou ou fez uma proclamação e esses espíritos ou anjos. Talvez haja um traço de todo esse desenvolvimento teológico no fragmento de hino de 1 Timóteo 3.16, no qual lemos que Cristo foi “justificado no Espírito”, observação seguida imediatamente por “visto pelos anjos”. Os comentaristas sempre acharam que essa observação estava fora de lugar. Se ela se refere à entrada de Cristo nos céus, ficaria melhor se estivesse colocada logo antes ou logo depois da última linha do hino, onde está escrito

118 ❖ as h i s t ó r i a s do n o v o t e s t a m e n t o

“recebido acima na glória”. Entretanto, essa menção a ter sido visto por anjos pode não estar deslocada de forma alguma se estiver se referindo à visita de Cristo ao Tártaro. Também não é impossível que Efésios 4.8 seja importante para entender essa passagem, pois lá é dito a respeito de Cristo, citando Salmos 68.18 com alterações, que, “Subindo para o alto, levou cativo o cativeiro”.

Para compreender esse material, se faz necessário certo conhecimento da angelologia e demonologia judaica. Para os nossos propósitos, basta dizer que os judeus acreditavam que as potestades e os principados, e na verdade o próprio Satanás, habitavam as regiões celestes entre o céu e a terra. Essa é uma das razões pelas quais às vezes se supunha que os planetas eram seres celestiais ou anjos (“o exército do céu”); também é por isso que Satanás é chamado no NT de “príncipe da potestade do ar” (Ef 2.2). Portanto, parece que 1 Pedro 3, longe de referir-se a uma descida de Cristo a seres humanos, alude à sua passagem pela esfera dos anjos quando subia ao céu, ocasião em que proclamou sua vitória sobre as potestades e, dessa forma, tornou o cativeiro delas ainda mais permanente e sua perdição mais certa. Ainda não ressaltamos até aqui que esses três textos não apenas tomam por base a história de Gênesis 6.1-4 e a recontam. Eles também se baseiam em leituras ainda mais antigas dessa história, encontradas em Isaías 24.21, 22 e lEnoque

104.4-6. O primeiro texto diz: “Naquele dia, o Senhor castigará, no céu, as

hostes celestes, e os reis da terra, na terra. Serão ajuntados como presos em mas­ morra, e encerrados num cárcere, e castigados depois de muitos dias”. O texto de

lEnoque diz: “O Senhor disse a Rafael: Amarra os pés e as mãos de Azazel, lança- o nas trevas. E ele fez uma cova no deserto que estava em Dudael e lançou-o nela; e jogou sobre ele rochas escarpadas. E ele cobriu sua face para que não pudesse ver a luz e para que ele pudesse ser mandado para o grande fogo no dia do juízo”. Também devemos salientar que essa é a mesma história contada a respeito do Diabo em Apocalipse 20.1-3.9 O conhecimento da história e de seus precursores deveria ter evitado que os criadores do Credo apostólico cometessem o erro de pensar que 1 Pedro 3 dizia que Cristo desceu aos mortos, quando, na realidade, a passagem fala de sua subida à prisão dos anjos decaídos.

Outra breve história do AT que acabou tendo um tratamento de algum desta­ que no NT é a de Melquisedeque. Aqui, mais uma vez, estamos diante do fenômeno de que existe uma história de uso e interpretação de um texto — nesse caso, Gênesis 14.18-20, que é retomada em Salmos 110.4. O misterioso Melquisedeque é um sacerdote de Salém (Jerusalém) que abençoa Abraão e recebe dele o dízimo. No salmo, é dito que aquele a quem o salmista se dirige foi ordenado sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.

O uso que o autor de Hebreus faz desse material sobre Melquisedeque não é pequeno. Ele começa a falar sobre o assunto em Hebreus 6.20, no contexto de sua

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discussão sobre Abraão (cf. v. 15). O primeiro texto a que ele faz alusão é o de salmos, porque seu objetivo principal é provar que só Jesus pode ser um sacerdote eterno (no santuário celestial), e, como ele é esse sacerdote, tem dc ser da ordem de Melquisedeque, à luz do texto do salmo. Assim, surpreendentemente, a história de Melquisedeque é usada para explicar não uma função de Jesus na terra, mas seu papel nos céus, após a vida terrena.

Temos, depois, uma nova narrativa bastante detalhada da história de Melqui­ sedeque, em Hebreus 7.1-10, a partir da qual o autor tira algumas conclusões teológicas a respeito de Jesus. Um dos aspectos mais surpreendentes, interessantes e marcantemente judaicos dessa nova narrativa da história é a observação feita em Hebreus 7.3 de que Melquisedeque não tinha pai nem mãe, nem genealogia, nem início nem fim. Essa conclusão parece estar baseada no fato de que o narrador de Gênesis não diz de onde o homem veio nem para onde foi. Não se sabe sua proce­ dência, exceto pela informação de que era rei de Salem. As lacunas da história estão supostamente cheias de significado; e, numa cultura em que a genealogia determina a identidade, sua ausência leva a interessantes conclusões. Deduz-se também que ele era uma pessoa muito importante, uma vez que o grande Abraão, o pai da fé, pagou-lhe o dízimo.

O autor de Hebreus consegue tirar dessa história a legitimação de uma crítica aos sacerdócios levítico e araônico. Por que haveria necessidade de outro sacerdócio como o de Melquisedeque se aqueles dois ainda fossem suficientes? O autor, então, argumenta que Cristo é um sacerdote superior porque foi capaz de ser um sacerdote eterno, como previra o salmista. Ele tornou-se o sumo sacerdote celestial não por causa de sua genealogia terrena, mas pelo “poder de uma vida indestrutível” (7.16). Afirmar que se trata de uma utilização criativa do AT é, certamente, muito pouco. Observe que, assim como ocorre com Paulo, o que gera a releitura dos textos do AT são as crenças do autor a respeito de Jesus — neste caso, suas crenças sobre as funções que ele exerce no céu.

As vezes, encontramos apenas alusões ou referências a histórias de Gênesis ou posteriores, baseadas numa história de Gênesis. Por exemplo, até mesmo na breve carta de Judas temos referências à história da destruição de Sodoma e Gomorra (v. 7), à história apócrifa sobre o anjo Miguel disputando o corpo de Moisés com o Diabo (v. 9), à história de Caim (v. 11), à de Balaão (v. 11). à da rebelião de Corá (v. 11) e à de Enoque, o sétimo depois de Adão, ampliada por uma citação posterior, extraída de um antigo texto judaico. E interessante como um texto tão pequeno pode ser tão dependente das histórias do AT, enquanto outros documentos do NT não mencionam nem sequer um personagem, história ou texto do AT. Em 2Pedro, encontramos uma dependência em relação a Judas, no que se refere ao material que acabamos de listar (v. 2Pe 2.4-16), embora o autor o amplie com mais alguns detalhes sobre Balaão, Ló e outros. Uma dedução que podemos fazer, considerando tudo o que discutimos neste capítulo até este ponto, é que Gênesis era o livro a

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