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Teorias substancial e processual da coisa julgada

Capítulo II – Coisa Julgada: Noções Gerais

2.5. Teorias substancial e processual da coisa julgada

A discussão sobre a natureza material ou processual da coisa julgada suscitou grande debate na processualística. A teoria substancial propugna que a coisa julgada constitui fundamento da relação jurídica declarada em juízo, o que seria evidenciado pelas sentenças injustas, cuja prolação cria direito ou extingue o que até então existia169. Por sua vez, a teoria processual assinala que o vínculo entre coisa julgada e segurança jurídica demonstra que não há relação da res judicata com o direito material170.

166 LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia... Op. cit., p. 26 e ss.

167 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições... Op. cit., v. III, p. 308 e Coisa julgada rebus sic stantibus, transação superveniente, aquiescência e ação rescisória inadmissível, p. 1.170/1.171. Neste estudo o conceito é abordado para demonstrar que a finalidade eminentemente prática da coisa julgada, de evitar novos julgamentos sobre a mesma questão, não impede o juiz de outro processo de considerar fatos supervenientes.

168 MOREIRA, José Carlos Barbosa. Eficácia da sentença... Op. cit., p. 111/112.

169 LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia... Op. cit., p. 43

170 CABRAL, Antônio do Passo. Coisa julgada... Op. cit., p. 80.

Analisando o debate desenvolvido perante o direito alemão, ALLORIO procurou indicar as premissas da discussão. A função do processo, de acordo com a teoria substancial, é resolver o conflito, ao passo que para a abordagem processual a finalidade da jurisdição corresponderia à aplicação do direito. Daí decorre a impossibilidade, de acordo com a teoria processual, de que o processo crie relações jurídicas171. ALLORIO assinala que o processo de conhecimento é o campo no qual se aplica a ideia de que a finalidade da jurisdição é a resolução da controvérsia havida entre as partes, ao passo que no processo executivo prevaleceria a concepção de que o fim da atividade jurisdicional é a aplicação do direito172. Baseando-se nessa premissa, ALLORIO adota a teoria substancial da coisa julgada173.

A pedra de toque da teoria substancial é a ideia de que podem ser proferidas sentenças injustas, o que comprovaria que o processo cria direito. Com efeito, se há sentenças em desconformidade com o direito material, isso só poderia significar que criaram relação jurídica que antes não existia, ou que extinguiram relação antes existente. Segundo ALLORIO, defensores radicais da teoria processual – lastreada na ideia de que o processo aplica direitos, em vez de resolver conflitos – afirmariam que a sentença confirma o direito, de modo que não poderia ser injusta. Por outro lado, adeptos moderados da teoria processual veriam a possibilidade de que a sentença criasse direitos como uma anomalia, decorrente de circunstâncias do caso concreto174.

De sua parte, ALLORIO explicava as sentenças injustas, à luz da teoria substancial, ao argumento de que a relação jurídica criada ou extinta por referidos provimentos teria como única causa justificadora as próprias decisões, ao passo que com a sentença justa, agregar-se-ia, à relação jurídica, nova justificação além do componente previamente reconhecido pelo direito que já a justificava175. Dito de outro modo, a sentença justa reforçaria a justificação da relação jurídica, ao passo que a injusta seria seu único elemento de legitimação.

Analisando o tema, LIEBMAN afirmou categoricamente que a coisa julgada não seria nem material, nem processual, tendo a disputa se assentado sob falsa premissa176. Com efeito, quando se considera que a coisa julgada não é uma eficácia, mas qualidade que se agrega à

171 ALLORIO, Enrico. La cosa juzgada frente a terceros, p. 16.

172 Idem, p. 24/25.

173 Idem, p. 27: “En efecto, dado que 1) la sentencia es el acto final del proceso declarativo; 2) que en tal proceso la finalidad preponderante es la solución de la controvérsia, y 3) que la teoria substancial de la cosa juzgada se deriva directamente del planteamiento que concibe el proceso como un instrumento para la solución de controvérsias, es claro que la teoria substancial de la cosa juzgada es la verdadera”.

174 Idem, p. 18/19.

175 Idem, p. 28.

176 LIEBMAN, Enrico Tullio. Eficácia... Op. cit., p. 44/45.

decisão – seja aos seus efeitos, na opinião de LIEBMAN, seja ao seu conteúdo, na visão de Barbosa MOREIRA, seja ainda ao efeito declaratório, de acordo com Ovídio BAPTISTA – fica esvaziada a disputa nos termos propostos, conforme reconhecido pelo próprio ALLORIO177.

É certo que a engenhosa construção de ALLORIO, bem como as dos demais participantes da célebre polêmica, radicavam-se na premissa de que a coisa julgada constituiria a sentença (concepção material) ou asseguraria o bem da vida ao vencedor do processo, atrelando juízes de processos futuros (concepção processual)178. Ocorre que a coisa julgada, como visto, não é uma eficácia ou um dos efeitos da sentença. Daí se deduz que ela não cria a situação jurídica, nem atribui a qualquer das partes o bem da vida disputado. Trata-se, repita-se uma vez mais, de autoridade que se agrega ao efeito declaratório da decisão. A constituição de nova situação jurídica, a declaração de determinada relação ou a condenação do devedor ao pagamento de determinada soma, são efeitos das respectivas eficácias constitutiva, declaratória e condenatória. Não se relacionam com a coisa julgada, que somente estabiliza o resultado da prestação jurisdicional ao se atrelar à eficácia declaratória.

Será mais adequado, considerando que a coisa julgada é autoridade que atinge o efeito declaratório da decisão, reconhecer-lhe caráter precipuamente processual, sem que isso signifique inexistência de relação com o direito material, conforme postulava a teoria processualista da coisa julgada. O que não se admite é a ideia de que a própria coisa julgada constitua a relação jurídica. Sua relação com o direito material é nítida porque ela atinge o provimento jurisdicional, o qual recai sobre a esfera jurídica das partes, repercutindo em seus direitos materiais179.

Contra a abordagem liebmaniana, ALLORIO sustentou que a coisa julgada não recai sobre os efeitos, mas sobre a própria sentença. Ocorre que a imutabilidade da decisão jurisdicional seria a coisa julgada formal, de modo que LIEBMAN teria confundido os institutos da coisa julgada material, com a formal180. Todavia, a referida bipartição não é teoricamente justificável, pois coisa julgada formal nada mais é que preclusão, conforme visto alhures (item

177 ALLORIO, Enrico. Op. cit., p. 40.

178 Idem, p. 20 e 35.

179 TALAMINI, Eduardo. Coisa julgada... Op. cit., p. 46.

180 ALLORIO, Enrico. Op. cit., p. 42. É digno de nota que para o autor a coisa julgada não impediria as partes de dispor diversamente ao que fora decidido, o que demonstra que sequer para a teoria substancial da res judicata estaria proibida a regulação de direitos disponíveis contrariamente ao que fora estabelecido na sentença. Essa constatação é relevante para demonstrar que a concepção de coisa julgada como a qualidade que se agrega ao efeito declaratório não impede as partes de convencionar em sentido oposto à decisão. Note-se que para ALLORIO (p. 12) a coisa julgada corresponderia à “eficácia normativa da decisão”, tornando inúteis discussões sobre sua justiça e vinculando partes e juízes de outros processos, fazendo com que “en virtud de la sentencia, lo que fue decidido se convierte en Derecho”.

2.2). A imutabilidade, ademais, atinge o efeito declaratório da decisão, não ela própria. Ao se falar que a coisa julgada é precipuamente instituto de direito processual, enfatiza-se sua função de estabilizar o sentido da decisão, impedindo que haja posterior controvérsia perante o Judiciário, concomitantemente à determinação de que seja adotado o decisum quando ele for premissa para outra decisão. Embora processual, o instituto reflete na esfera jurídico-material das partes.

Pode-se considerar como superada a polêmica sobre a natureza da res judicata. Mais importante do que a discussão em si, são as questões de maior indagação que ela suscita. Viu-se que ao abordar o tema, ALLORIO o vincula à função que Viu-se pretende atribuir à jurisdição.

Seria a aplicação do Direito ou a resolução de conflitos? CABRAL, ao apreciar o embate entre as teorias substancial e processual, assinalou que essa questão tem suas raízes nas concepções monista e dualista de ordenamento jurídico. De acordo com a primeira, o processo criaria o direito, ao passo que na concepção dualista os direitos existem antes do processo, que os declara181. A aplicação de direitos, viu-se com ALLORIO, estaria correlacionada com a teoria processual, sendo que a resolução do caso concreto se vincularia à abordagem substancial da coisa julgada.

A análise da questão supera a finalidade deste trabalho. Todavia, dentro dos limites aqui propostos, pode-se afirmar que se reconhece a jurisdição como fonte do Direito. Conforme abordado no primeiro capítulo desta tese, o Judiciário, por meio do processo, confere sentido às proposições jurídicas, criando o Direito. Essa tarefa fica ainda mais evidente quando se leva em consideração as Cortes Supremas, a quem incumbe atribuir significado ao Direito constitucional e infraconstitucional federal. Mas essa atividade, ao levar em consideração o direito positivo, tem caráter certificativo. Declara-se o direito à luz das proposições normativas, mediante atribuição de significado. Na elegante definição de ALLORIO, “com a sentença, o que foi decidido se converte em Direito”. Essa ponderação é essencial para que se evite abordagem da coisa julgada centrada exclusivamente no processo, sem perceber que o instituto é fundamental para a racionalidade do discurso jurídico e para a segurança dos cidadãos.

Optou-se por restringir a análise às linhas gerais das teorias substancial e processual da coisa julgada, abordagens cuja importância, como visto, foi em grande parte diminuída por conta da concepção liebmaniana de que a coisa julgada não é um dos efeitos da sentença, com eles não se confundindo. Apesar dessa opção metodológica, não se ignora que essas teorias apresentavam diversas nuances a depender do autor. Assim, como aponta CABRAL, a teoria

181 CABRAL, Antônio do Passo. Coisa julgada... Op. cit., p. 81/82.

material se dividia nas abordagens da coisa julgada como presunção e ficção da verdade e como lex specialis. Por seu turno, a teoria processual ramificava-se nas concepções da coisa julgada como presunção de autoridade, como eficácia da declaração e como extinção do dever jurisdicional182. Contudo, a indicação pormenorizada dessas variações é desnecessária para os propósitos deste trabalho.

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