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Tutela jurisdicional do direito e liberdade

1.5. Liberdade e processo

1.5.3. Tutela jurisdicional do direito e liberdade

A mais evidente vinculação entre a tutela jurisdicional do Direito e a liberdade está traduzida nos princípios da demanda e dispositivo, previstos no art. 2º do CPC. Incumbe à parte interessada provocar o Poder Judiciário com vistas à obtenção de tutela do Direito86. Cabe destacar que os princípios da demanda e dispositivo não se confundem. O primeiro diz respeito à disponibilidade do interessado em acionar a estrutura judiciária, submetendo ao juiz certa causa de pedir e formulando pedido, em relação aos quais o órgão jurisdicional está adstrito. O princípio dispositivo, por sua vez, limita a atuação do juiz no âmbito da demanda proposta.

Todavia, à medida que é outorgada ao juiz a possibilidade de produzir provas, há uma suavização desse princípio (CPC, art. 370, caput) 87.

84 Adiante, nos itens 3.4.4 e 3.4.5 serão indicadas outras hipóteses de ampliação do objeto litigioso.

85 Poder-se-ia supor, em uma primeira mirada, que a questão atinente à modificação do pedido e da causa de pedir diz respeito somente à liberdade das partes. Todavia, o sentido da modificação do pedido é a compensação da deficiência na postulação de uma das partes, em evidente prejuízo à igualdade no processo. Logo, é inequívoca a ligação do tema com a igualdade.

86 FULLER, Lon. The forms and limits of adjudication (1977), p. 385/387. O autor enfatiza que existem sólidas razões para que o processo não seja iniciado pelo próprio julgador. Primeiramente, a instauração de ofício pressupõe certo compromisso e, não raras vezes, uma teoria sobre os fatos, o que poderia comprometer a imparcialidade. Ademais, a instauração ex officio do processo reduziria a participação dos litigantes mediante provas e razões fundamentadas. Em terceiro lugar, a maioria das pretensões se baseia em contratos e acordos, cabendo aos interessados verificar a necessidade de instaurar o processo.

87 SILVA, Ovídio Araújo Baptista da. Curso de processo civil, v. I (1987), p. 65. Nas palavras do jurista: “O primeiro princípio preserva a soberania das partes na determinação das ações sobre as quais elas pretendam litigar, ao passo que o outro – uma vez já determinadas as causas sobre que há de versar o litígio – define e limita o poder de iniciativa do juiz com relação a essas causas efetivamente ajuizadas pelas partes, no que respeita à condução do processo e à coleta do material probatório”. Enrico Tullio LIEBMAN, Problemi del processo civile (1962), p.

4. No mesmo sentido, Sérgio Cruz ARENHART, A tutela coletiva de interesses individuais (2013), p. 165 e ss., afirma que o princípio da demanda se relaciona com o objeto do processo, delimitando a atuação jurisdicional, ao passo que o princípio dispositivo se vincula à maneira como o processo deve tramitar. O jurista salienta que o princípio dispositivo é mitigado pelos poderes instrutórios concedidos ao juiz. Por sua vez, o princípio da demanda é suavizado pela possibilidade de concessão de meios executivos diferentes do que foi postulado pelo autor.

Há exceções ao princípio da demanda. O CPC/73 previa a possibilidade de instauração ex officio de inventário (art. 989) e realização, por iniciativa do juiz, de alienação judicial (art.

1.113). A CLT, no art. 878, prevê a deflagração ex officio do cumprimento de sentença por execução. No código processual vigente, o art. 536 autoriza o juiz a determinar de ofício as medidas necessárias para a satisfação de obrigação de fazer ou de não fazer. Da mesma forma que ocorria sob o código revogado, o princípio da demanda é mitigado pela possibilidade de cominação de medidas não requeridas pela parte ou, ainda, de medidas diferentes da que fora postulada, no objetivo de que seja satisfeita a obrigação.

A conservação da imparcialidade é o principal fundamento para impedir que o juiz instaure processos de ofício. É lícito supor que ao constatar a necessidade de instauração do processo o juiz perceba, simultaneamente, a imprescindibilidade da tutela jurisdicional88. Em outras palavras, ao deflagrar o processo o juiz está inclinado a conceder a tutela correlacionada ao objeto litigioso.

Mencionou-se, no tópico anterior, que o juiz não pode adotar postura paternalista ou assistencialista perante as partes. A modificação da causa de pedir e do pedido, ao bel-prazer do magistrado, é completamente incompatível com a igualdade das partes e com a imparcialidade. Mas também o é com a liberdade das partes de demarcarem o mérito da demanda, sem interferência estatal, recebendo tutela jurisdicional nos limites do pedido. É certo, todavia, que o princípio da colaboração autoriza ao juiz apontar problemas na correlação entre a causa de pedir e o pedido, evitando a extinção do processo sem resolução de mérito, conforme assenta o art. 317 do CPC. A propósito, como reflexo do dever de prevenção, não é possível decretar a inépcia da petição inicial sem que antes o autor seja intimado a suprir eventual defeito89.

Questão mais delicada diz respeito à possibilidade de o juiz informar a parte sobre a insuficiência do pedido ou, em outros termos, sobre a possibilidade de obtenção de bem da vida

Mesmo reconhecendo a importância do princípio da demanda na assecuração da imparcialidade do juiz, ARENHART afirma que é recomendável a ampliação dos poderes do juiz, não exatamente para a instauração de processos ex officio, mas para esclarecer as partes sobre suas pretensões. Nesse contexto, essa majoração de poderes decorre do princípio do contraditório e tem o louvável objetivo de tutelar a parte hipossuficiente. Crê-se, todavia, que mesmo este abrandamento do princípio da demanda exige previsão legal. Acrescente-se que o dever de prevenção contido no princípio da colaboração não autoriza o juiz a tutelar direitos não postulados ou decidir sobre fatos não submetidos à sua apreciação.

88 ARENHART, Sérgio Cruz. Reflexões sobre o princípio da demanda (2006), p. 572 e ss. O autor indica o caráter disponível dos direitos objeto de tutela no processo civil e a proteção à imparcialidade como fundamentos do princípio da demanda. O primeiro dos fundamentos é descartado. O segundo é suavizado, ao argumento de que o juiz pode, em circunstâncias nas quais seja manifesto o equívoco, sem perder a imparcialidade, sugerir a modificação da causa de pedir e do pedido.

89 MITIDIERO, Daniel. Colaboração... Op. cit., p. 113.

mais vantajoso do que o que fora postulado. Tome-se, como hipótese, o pedido de implantação de determinado benefício previdenciário, menos vantajoso do que aquele que poderia ser implementado em favor do autor à luz das circunstâncias fáticas. Se o juiz, baseando-se no princípio da cooperação, alertar a parte sobre essa circunstância, estará violando a imparcialidade. É inequívoco, em tal situação, que o juiz favorece o autor, indicando a possibilidade de concessão de benefício que será efetivamente concedido.

Poder-se-ia argumentar que o apontamento do juiz não significa deferimento do benefício, à medida que não teriam, ainda, sido averiguadas as circunstâncias narradas na inicial. Ocorre que a mera indicação sobre a possibilidade de majorar o pedido já caracteriza quebra da imparcialidade. Admitida a exceção neste exemplo, forçosamente ter-se-ia de admiti-la em quaisquer outros casos em que a parte tenha pedido menos do que o entendimento do juiz reputa adequado.

A eventual hipossuficiência econômica do autor não conduz a solução diversa. A litigância responsável pressupõe profissionais competentes. A incúria do procurador deve ser combatida na esfera administrativa, perante o órgão de classe. Ademais, tratando-se de incorreção do pedido, sob o ponto de vista técnico é possível a propositura de nova demanda, já que a alteração de um dos elementos – o pedido – impede a caracterização de litispendência ou de coisa julgada.

Crê-se que a possibilidade de ampliação dos limites objetivos da coisa julgada às questões prejudiciais, ex vi do art. 503, §1º, pode ser enquadrada como outra exceção ao princípio da demanda. Note-se que a hipótese encerra ampliação do mérito, pois o juiz decide, com força de coisa julgada, parcela do objeto litigioso sobre a qual não havia pedido expresso.

Diferentemente do que ocorria no sistema anterior, a decisão sobre a questão prejudicial estabiliza-se, sendo coberta pela coisa julgada. Não há qualquer diferença entre o que ocorre com a questão prejudicial e com o que acontece com o pedido efetivamente submetido à apreciação jurisdicional.

O saneamento compartilhado (CPC, art. 357, §2º) e a celebração de convenções processuais (CPC, art. 190) são outros exemplos da relação entre liberdade e processo civil, mas o estudo do tema supera os propósitos deste trabalho. Nestes limites, contudo, cabe destacar que apesar de o art. 329, inc. II, limitar a modificação ou aditamento da causa petendi e do pedido até o saneamento do processo, nada obsta que as partes, mediante convenção processual,

estabeleçam a possibilidade de alteração ou acréscimo de causa de pedir ou de pedido em momento posterior90.

Por fim, além da liberdade no processo, é possível vislumbrar a liberdade pelo processo. Pretende-se aludir, com essa expressão, à segurança jurídica, nos aspectos da previsibilidade e da confiabilidade na tutela jurisdicional. Seguros de que seus direitos serão garantidos, os cidadãos podem projetar suas ações com maior liberdade. Ademais, o Direito, inclusive aquele criado por meio da tutela jurisdicional, estabelece os limites dentro dos quais a liberdade é exercida, promovendo-a também nesse aspecto.

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