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Existe uma outra espécie de documento particular que tem uma intervenção notarial ou ‘para-notarial’: o simplesmente reconhecido.

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Trata-se da exigência feita no art.º 54ºda Lei 91/95, de 2/9, na redação dada pela Lei nº64/2003, de 23/8. Há diversos pareceres do C.T. sobre este assunto. Cite-se apenas o proferido no Pº RP 277/2006 DSJ-CT. Quanto aos licenciamentos relativos aos prédios urbanos (de que falámos) estão previstos na ‘Lei do Loteamento’ (Dec-Lei nº 555/99, de 16/12, republicado pelo Dec-Lei nº 26/2010, de 30/3).

53 1. Referimos já que o documento particular não é, em princípio, feito pelo notário nem elaborado no cartório notarial. Contudo, no que é autenticado, ainda se exige a intervenção – dir-se-ia até uma intervenção elementarmente crível – para procurar saber se as partes são aquelas mesmas e se confirmam que o seu conteúdo corresponde ao que nele pretendem consignar. E esta é, em relação com o simplesmente reconhecido, a diferença essencial entre ele e o documento autenticado.

Na verdade, a questão da ‘identidade das partes’ é também verificada ao efetuar o (atualmente) mais habitual reconhecimento. Não o era quando existia o denominado “reconhecimento simples” da assinatura do subscritor, ou seja, quando a conformidade da mesma com a verdadeira era apenas verificada “por semelhança” com a que constava do documento de identificação apresentado por qualquer pessoa. Todavia, esse reconhecimento simples foi há anos abolido73 e, presentemente, só existe o presencial e o circunstanciado.

É certo que este último (vulgar quando se trata v.g. do reconhecimento na qualidade de procurador ou de representante) também pode ser feito por semelhança74, não havendo, pois, lugar à verificação da identidade de quem subscreve o documento. Contudo, nesse caso, a existência desse outro elemento soi-disant circunstancial, que é certificado, também contribui para comprovar a sobredita identidade.

2. Os reconhecimentos de assinatura que presentemente existem, além dos circunstanciados, são os “presenciais”, os quais podem ser apenas de assinatura ou de letra e assinatura. Em qualquer deles quem procede ao reconhecimento deve verificar a identidade desse subscritor – que, portanto, tem de estar presente no acto – através de um dos meios previstos no art.º 48º do C.N., como adiante se explicitará.

O Código prevê ainda um outro tipo de reconhecimento presencial de assinatura, que é a feita “a rogo” quando a pessoa que devia assinar o documento o não saiba ou não possa fazer (art.º 154º, nº 1, do C.N.). Neste caso, para que seja possível confirmar o que está contido no documento, exige-se que ele seja “lido ao rogante” (art.º 154º/ 2).

No que respeita à letra e assinatura, diremos o seguinte: a grande maioria dos documentos não é hoje manuscrita a tinta ou equivalente material, de modo a poder ser

73 Este tipo de reconhecimento foi abolido pelo Dec-Lei nº 250/96, de 24/12, que considerou, e parece

que bem, tratar-se de mera burocracia que nada acrescentava à credibilidade do documento, uma vez que nem a própria falsidade da assinatura era facilmente detectável com os habituais meios disponíveis em cartórios e escritórios.

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Neste sentido, cf. NETO FERREIRINHA e ZULMIRA NETO, op. cit.,”Manual”, pp. 1047-1050 e, também destes Autores, “A Função Notarial dos Advogados”, pp.31-33.

54 confirmada presencialmente a letra de quem o faz. São, sim, processados num computador e depois impressos. Como proceder nestes casos? Dir-se-á o seguinte: trata- se de situações que ainda não se acham previstas na lei civil, nem na notarial e, por isso, e mesmo porque neste domínio não podemos “inventar”, parece-nos que não restará alternativa que não seja a da confirmação do conteúdo, isto é, a da autenticação do documento. Note-se que o termo de autenticação “substitui” o reconhecimento presencial de letra e assinatura75.

3. Os reconhecimentos devem conter as indicações referentes ao lugar e dia em que são feitos, a identificação de quem o subscreve e o modo como foi verificada a respetiva identidade e bem assim a assinatura do autor do reconhecimento. Trata-se de menções básicas previstas no art.º 46º, nº 1, do C.N. para os instrumentos, mas que são aplicáveis aos reconhecimentos ex vi do disposto no art.º 155º do mesmo Código.

Esta disposição prevê ainda que possa haver lugar a outras referências, tais como a indicação de abonadores e de documentos exibidos. E há também comprovativos que pode ser necessário mencionar, como a da declaração fiscal do IMT, a que aludimos a propósito do documento autenticado. Também merecedor de atenção é o que a seguir estabelece o art.º 157º, proibindo que se façam reconhecimentos em certos casos: a leitura do documento não ser facultada ou se ele nada contiver escrito, ou se o estiver “em língua estrangeira que o notário não domine”, bem como se o texto ou a assinatura tiverem sido escritos a lápis. Trata-se obviamente de situações que em que a lei não pode consentir que se faça o reconhecimento, visto que poderiam facilitar a alteração ou mesmo a adulteração do conteúdo do documento.

Não se acha especialmente previsto, nem nesta, nem noutra norma, o que também se nos afigura óbvio: não pode ser reconhecido um documento que se verifique ter um conteúdo manifestamente ilegal (v.g. a promessa de cometer um crime), muito embora o mero reconhecimento de assinaturas não englobe a qualificação da conformidade jurídica do conteúdo do documento.

A lei substantiva confere aos reconhecimentos uma força probatória plena no que toca “às declarações atribuídas ao autor” (art.º 376º/1 do C.C.) o que, a nosso ver, é

75 Este reconhecimento é havido como ‘reconhecimento autêntico’ e a sua substituição pelo termo de

autenticação estava, expressamente referida no nº 3 do art.º 162º do anterior C.N. (aprovado pelo Dec- Lei nº 47 619, de 31/3/1967) No citado C.N. ed. do M.J. diz-se que o notário deverá lavar o termo de autenticação quando lhe for solicitado tal reconhecimento autêntico (cf. p. 195). A disposição legal foi eliminada por se ter considerado supérflua e porque se quis um código mais conciso, mas não porque o legislador tivesse passado a considerar coisa diferente.

55 excessivo - mesmo atento o disposto no nº 276 -, sobretudo porque no mero reconhecimento a conformidade das declarações com o real intuito do declarante é questão que não tem de ser ‘minimamente’ apurada por quem faz o reconhecimento.

Contudo, como referimos não pretender abordar aqui a matéria da força probatória dos documentos – que, aliás, tem sido abundantemente tratada – sobre o assunto nada mais diremos.

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No Código Civil anotado de PIRES DE LIMA e ANTUNES VARELA, em comentário ao artº 376º (no vol. I, p. 332), diz-se que “de harmonia com o disposto no nº 2” deste artigo,“só as declarações contrárias aos interesses do declarante se devem considerar plenamente provadas”. Não nos parece que seja exatamente isso o que o preceito refere. Contudo, nada acrescentaremos, uma vez que, como se esclarece no texto, não vamos tratar aqui do (importante) tema da força probatória dos documentos.

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