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A quem pertence a recompensa devida pelo apresamento?

Este era indubitavelmente o maior diferendo a que Correia de Araújo tinha de dar resposta. O § IV do alvará de 9 de Maio de 1797 reconhecia expressamente ao proprietário da Minerva, Sousa Portela, o direito a re- cuperar quer a embarcação quer as mercadorias que ela transportava na condição de «dar a quinta parte do valor do Navio, e Carga ao dono do Corsario Aprezador, para que elle depois a divida com os seus coopera- dores, conforme o ajuste que tiver feito antes de principiar o corso». Até aqui reinava o consenso entre as partes em litígio em Luanda. No en- tanto, o mesmo já não se podia dizer relativamente a outro aspecto fun- damental: quem era in casu o «Corsario Aprezador»? Os nove escravos marinheiros? Ou os seus proprietários?

A polémica instalou-se na sequência da convocação dos potenciais in- teressados ao 1/5 do valor da Minerva em jogo. Apresentaram-se então João Barbosa Rodrigues,30na qualidade de procurador de Bernardo Lou-

renço Viana, Paulo da Silva Rego e António José Rodrigues Chaves –

30Barbosa Rodrigues era um dos mais ricos e influentes comerciantes que mantinham à época interesses nas relações mercantis entre Angola e Brasil. Nascido em Viana do Castelo, morreu em Angola deixando uma herança muito significativa: «Colossal fortu- nes were made in this Angolan-Brazilian commerce, for example, that of the merchant João Barbosa Rodrigues who when he died left an estate of 3,000,000 cruzeiros» – José Honório Rodrigues, Brazil and Africa (Berkeley and Los Angeles: University of California Press, 1965), 125. No mesmo sentido, Gervase Clarence-Smith, The Third Portuguese Em- pire, 1827-1975: A Study in Economic Imperialism (Manchester: Manchester University Press, 1985), 47.

isto é, os proprietários dos escravos marinheiros à data do apresamento da galera por Mariette. O que alegavam? Em primeiro lugar, o seu direito à dita quantia por serem «Senhores dos nove Pretos restauradores da so- bredita Galera». Em momento algum contestavam o papel desempe- nhado pelos escravos marinheiros no resgate, nem tão-pouco discorda- vam de que lhes fosse entregue o prémio pecuniário estipulado por lei. Contudo, relembravam a necessidade de observância do princípio de di- reito romano segundo o qual «cedia em beneficio dos Senhores toda a acquisição, que fizessem os Escravos». A soma percebida pelos marinhei- ros deveria consequentemente passar acto imediato para as mãos dos res- petivos proprietários. Em segundo lugar, sublinham que mesmo que se procurasse ilidir a aplicação do referido princípio os próprios marinheiros tinham anuído em lhes transferir – em troca da alforria entretanto con- cedida pelos próprios Viana, Rego e Chaves – «todo, e qualquer direito, que tivessem, ou podessem ter na dita quinta parte, que a Lei applica».

Portanto, de duas uma: ou se estava perante escravos que por o serem eram obrigados a ceder a recompensa garantida pela lei aos respectivos senhores, ou se tratava de libertos que tinham conscientemente transmi- tido os seus direitos à mesma aos antigos proprietários.

De que modo encarou Correia de Araújo esta argumentação? Sur- preendente – e cremos que inovadoramente – tomou o partido dos ma- rinheiros responsáveis pelo apresamento. Como justificou porém uma decisão que não só parecia afastar-se de forma muito sensível da prática judiciária seguida na época como também contendia com grandes inte- resses comerciais e económicos angolanos e brasileiros? Fê-lo em duas frentes diferentes.

Por um lado, reconhece a existência e o valor do princípio invocado por Viana, Rego e Chaves. Contudo, argumenta que a sua aplicação devia ser evitada no caso em análise por duas razões. Em primeiro lugar, re- corda que por vezes uma disposição geral deve ceder face a um «extraor- dinario, especial, e omisso caso» como era o da recuperação da Minerva. Mais: acrescenta até que a aplicação do velho princípio latino contendia com os propósitos que tinham guiado o monarca na promulgação dos alvarás de 7 de Dezembro de 1796 e 9 de Maio de 1797. Em segundo lugar, como bom jurista influenciado pelas reformas pombalinas, não deixa de invocar a lei de 18 de agosto de 1769, sobretudo o seu artigo 18.º É sabido que aí se estabelece a relação desejável entre o direito ro- mano a aplicar e a bem conhecida boa razão que emprestou o nome ao diploma. E é certo que o referido artigo verberava particularmente as si- tuações particulares ou omissas cuja resolução «se tem tomado por pre-

texto; tanto para que nas allegações, e dicisões se vão pondo em esque- cimento as Leis Patrias, fazendo-se uso sómente das dos Romanos; como para se argumentar, e julgar pelas ditas Leis de Direito Civil geral, e in- distinctamente» – ou seja, casos semelhantes ao processo em análise.

Por outro lado, Correia de Araújo disserta sobre a necessidade da al- forria dada pelos seus antigos senhores aos escravos marinheiros depois de a galera Minerva ter dado entrada em Luanda – o que vale por dizer que procura rebater o segundo dos argumentos invocados por Viana, Rego e Chaves. Não estariam os nove homens «já livres, e forros, desde o instante, em que se libertárão dos Francezes»? O magistrado angolano admite que sim recorrendo ao seguinte raciocínio. Como vimos supra, o § IX do alvará de 7 de Dezembro de 1796 determinava que, por Mariette e seus parceiros já controlarem a Minerva há mais de 24 horas no mo- mento da recuperação da embarcação devida aos escravos marinheiros, esta podia ser considerada uma boa presa. Ora, se a lei reconhecia que os corsários franceses tinham «feito Preza» da galera e do que lá se encon- trava tal significava que também se tinham apoderado dos escravos ma- rinheiros que estavam a bordo. Assim sendo, podia-se considerar que estes «havião recobrado a sua liberdade, ou antes reverterão para o estado da natureza, donde tinhão sahido» no momento em que se sublevaram, venceram os franceses e assumiram o controlo da embarcação. Mais: este raciocínio não podia ser comprometido nem pela alegada ilegalidade da insurreição dos escravos contra os corsários seus novos proprietários (tra- tava-se de «hum acto permittido pela Lei», designadamente pelo alvará de 1796), nem pela corrente doutrinária que defendia que o direito de propriedade dos escravos só se transmitia para os corsários no momento em que estes chegassem a portos seus (ou seja, a portos franceses). Correia de Araújo não nega a existência deste entendimento, que era suportado por «alguns Publicistas». No entanto, considera que no caso português o mesmo era expressamente afastado pela legislação vigente: e de facto o alvará de 1796 dava continuidade à tradição de que bastavam 24 horas para se operar a transmissão do direito.

Com base em tais considerandos, o ouvidor entendia «pertencer a quinta parte do valor da Galera Minerva, e sua carga, aos mencionados nove Pretos restauradores, que até se achão declarados livres pelos mes- mos seus antigos Senhores».

Uma decisão deste jaez não podia passar com indiferença. Estavam em causa não só uma quantia significativa e interessados extremamente influentes mas também um precedente que poderia representar um pri- meiro passo no sentido de uma nova forma de julgar os casos do género.

Como era expectável, Bernardo Lourenço Viana (através de Barbosa Ro- drigues), Silva Rego e Rodrigues Chaves recorreram desta primeira sen- tença dada em 21 de Junho de 1799 apresentando vários embargos à mesma. O que invocavam?31

Começam por (i) expor a sua versão da questão. Explicam que depois de chegados a Luanda os escravos marinheiros apresentaram um reque- rimento solicitando a liberdade com base no disposto no alvará de 9 de Maio de 1797. Os seus senhores – e agora embargantes – opuseram-se. No entanto, acabaram por chegar a um acordo mediante o qual Viana, Rego e Chaves alforriavam os marinheiros «afim de sahirem logo da Es- cravidão, em que estavão, sem mais disputas» e estes em contrapartida desistiam «do requerimento que tinhão feito» e reconheciam aos seus antigos proprietários direito ao «premio, que o dito Alvará lhes concedia, como restauradores da mencionada Galera». As partes teriam assentado «que o seu ajuste, e contracto se julgasse por Sentença» e tudo fora redu- zido a escrito.

De seguida, (ii) sublinham que este contrato não podia ser considerado inválido por ter sido negociado «no tempo, em que os sobreditos Pretos erão Escravos». E justificam dever «entender-se, que para isso tinhão fa- culdade dos seus Senhores, sendo estes os mesmos, com quem fizerão a sua convenção». Mais ainda: lembram que os referidos marinheiros ha- viam «confirmado e ratificado o dito ajuste e contracto, depois de have- rem passado ao estado de livres» – o que também constava de escrituras. Entram depois em domínios de natureza mais marcadamente jurídica. Por um lado, (iii) enfatizam que está em questão um «caso meramente Civel», sendo «o direito que delle resulta, proprio, e particular das Partes, que no mesmo caso são ou podem ser interessadas». Não encontram consequentemente razões que obstem à celebração de «quaesquer con- tractos, convenções, ou transacções, que ás mesmas Partes interessadas bem parecesse» nem que justifiquem a intervenção do magistrado. Assim sendo, (iv) e como o contrato em questão pressupunha a desistência da acção que os marinheiros tinham inicialmente pretendido intentar a fim de lhes ser concedida a liberdade, esta renúncia devia considerar-se válida. Consequentemente, «tinha ficado peremptoriamente extincta a primeira acção» pelo que acrediam que «na doutissima Sentença Embargada senão podia mais tractar do ponto principal, que estava em questão». Como decidir algo que já estava previamente decidido? – perguntam, dando

31Estes embargos estão reproduzidos em Luiz Prates de Almeida Albuquerque, Sen- tenças..., 9-22.

prova de alguma argúcia. Esta seria inclusive (v) uma prática que se vinha sancionando nos tribunais.32

Partem de seguida para a análise de algumas das considerações tecidas por Correia de Araújo. Em primeiro lugar (vi) relembram que o princípio de que «tudo, o que os Escravos por qualquer modo adquirem, pertence a seus Senhores», para além de não se alicerçar somente no direito ro- mano (achava-se igualmente «nas Leis de todas as Nações, em que ha, ou tem havido a distinção de livres, e de escravos, e de senhores, e de servos»), era sancionado pelas «Leis Canonicas, Civís, e Patrias». Depois,

(vii) procuram rebater o carácter excepcional que Correia de Araújo per-

sistia em reconhecer ao caso. Não divisam os contornos extraordinários que o magistrado encontrava e chegam mesmo a sugerir que era menos meritório do que a situação de «hum Escravo, que se disposesse a defen- der a seu Senhor de hum insulto de facinorosos, ou ladrões, que viessem em disposição de lhe tirar os bens, e a vida». O que se passara a bordo da

Minerva fora uma reacção corajosa e digna de mérito – mas essa bravura

justificava as pretensões dos marinheiros que o ouvidor reconhecera? E, consequentemente, legitimava o afastamento de um princípio geral tão amplamente reconhecido?

Em paralelo (viii) discordam da tese de que se estaria perante um caso omisso – o que resulta da interpretação que fazem do alvará de 1797. En- tendem que este diploma apenas dispõe «que o premio, de que se trata, se aplique aos Restauradores dos Navios; deixando porém inteiramente ao arbitrio, e convenção dos Interessados a regulação do maior, ou menor commodo, que desse mesmo premio deve resultar a hum, ou a outro dos que cooperarem para o acto da restauração». Portanto, o alvará somente vela pela entrega da quantia aos marinheiros, já não curando se a mesma deve ou não ser imediatamente transmitida aos seus senhores (sendo es- cravos) ou a quem lhes deu a liberdade em troca do referido prémio (como os embargantes alegam ter acontecido no caso em análise). E (ix) reafirmam a legitimidade dos respectivos representantes legais para receber e gozar os prémios devidos nos termos do § IX daquele diploma aos responsáveis pela recuperação de uma embarcação que não gozem dessa capacidade. Vão inclusive ao ponto de fornecer exemplos: não se trata de uma questão que se colocasse somente quando estivessem em causa escravos; o mesmo aconteceria se se tratasse de um religioso que tivesse renunciado aos bens materiais, de uma mulher casada ou de um pródigo.33É lícito porém per-

32Luiz Prates de Almeida Albuquerque, Sentenças..., 12. 33Id., 14-15.

guntar: sem direito à compensação pecuniária devida pelo seu acto, a que poderiam almejar os escravos? Segundo os embargantes, ao «proveito em adquirirem para a familia a que pertencem, e na maior contemplação, que pódem esperar de seus Senhores, pela acção, que em beneficio praticarão, além do que conseguirão, livrando-se de perder para sempre a terra, que devião reputar por sua Patria, e as mais commodidades, que daqui lhes po- dião resultar».

Seguem-se dois argumentos de natureza económica. Por um lado,

(x) Viana, Rego e Chaves asseveram que apesar de tudo foram eles os

prejudicados no acordo celebrado com os marinheiros. Estes tinham ganho a sua liberdade em troca do quinto do preço da Minerva, sendo que os embargantes afirmavam que o prémio em discussão era inferior ao valor efectivo dos escravos entretanto alforriados. Por outro, (xi) sus- tentam que se os senhores de escravos são legalmente responsáveis pelos prejuízos materiais decorrentes de actos praticados pelos mesmos, então também deverão ser beneficiados pelos ganhos que eles obtenham. Este direito compensaria aquela obrigação.

Francamente mais polémico é o considerando que se segue. Os em- bargantes (xii) admitem que Correia de Araújo não fizera uma leitura correcta dos alvarás de 1796 e 1797. Isto porque o ouvidor partira do prin- cípio de que os marinheiros eram os responsáveis pela recuperação da galera e nessa qualidade tinham-se habilitado à remuneração prevista na lei. Contudo, esta não seria a única forma de encarar a questão, pois «su- posto que os ditos Pretos fossem restauradores da dita Galera com tudo nelles se dá a qualidade de cousa restaurada». E prosseguem: «Como res- tauradores, elles não podião ter mais do que o premio, que a Lei lhes concede, recebendo por elles seus Senhores, sem que podessem mudar de condição, que antes tinhão, porque a Lei o não determina [...] e como cousa restaurada elles devem sem duvida pertencer a seus Senhores, assim como as outras cousas, que igualmente foram apprezadas, e se tem man- dado restituir.»

A conclusão a retirar é evidente: caso prevalecesse semelhante ponto de vista, os marinheiros ter-se-iam conservado na condição de escravos até ao momento do contrato celebrado com os seus senhores. Isto por- que a liberdade não lhes era garantida por lei mas sim resultara da alforria que haviam negociado naquele acordo em troco do direito ao 1/5 do valor da Minerva.

Visto isto, Viana, Rego e Chaves pediam que Correia de Araújo refor- mulasse a sua decisão e declarasse válido o acordo que tinham celebrado com os nove marinheiros responsáveis pelo resgate da Minerva. Acredi-

tavam que dessa forma todos sairiam a ganhar: os antigos escravos rece- beriam a liberdade que os alvarás de 1796 e 1797 não lhes garantiam, os embargantes a recompensa devida pelo apresamento e a elite económica e esclavagista de Luanda poderia permanecer tranquila. Tal tornava-se necessário aos embargantes (e na verdade a todos os que se encontrassem no futuro em condições semelhantes) «para evitarem no futuro novas questões, que alguns emulos lhes pertendão suscitar, se houver de ficar em vigor o direito, que a Sapientissima Sentença tem declarado a favor dos ditos Pretos».

No entanto, não seria esse o intento de Correia de Araújo?

Data de 13 de Julho do mesmo ano de 1799 a Segunda, e ultima Senten -

ça do Juizo da Ouvidoria Geral.34Nela o ouvidor afasta qualquer pedido

apresentado nos embargos e determina o cumprimento integral da pri- meira sentença. No entanto, sente-se no dever de justificar a sua posição atendendo quer à determinação das Ordenações que recomendava a ne- cessidade de fundamentação das decisões judiciais, quer à novidade do caso (uma «controversia, que sem duvida, parece a primeira, que se li- quida no Foro»), quer ainda aos «Embargos assás doutos» apresentados e que «poderião fazer vacilar» alguns dos argumentos que apresentara a 21 de Junho.

Correia de Araújo estrutura a sua argumentação em seis grandes nú- cleos.

Começa por (i) afastar o argumento principal dos embargantes. A seu ver não era possível reduzir o processo a um contrato celebrado entre partes no qual o magistrado não deveria interferir mas tão-somente rati- ficar através de sentença. O que o levava a sustentar tal posição? O facto de quatro dos nove marinheiros envolvidos serem menores de 25 anos e terem celebrado o referido acordo sem a presença ou autorização de um curador nem a anuência de um juiz. Ora, atendendo a que os «me- nores não podem contratar, nem em Juizo, nem fora delle, sem authori- dade legitima» e «porque a Tutella dos menores he de Direito Publico», a intervenção do magistrado impunha-se. Depois de fundamentar dou- trinária e legalmente o seu ponto de vista, o ouvidor conclui: «como pódem ter validade huns contractos feitos por huns Menores, renun- ciando certos direitos, que elles até ignorão, e contractos feitos na casa de hum Escrivão, sem pessoa, que lhes explicasse o que perdião, e o que podião adquirir»? Vai mesmo mais longe e advoga inclusive a necessidade da existência de «hum Curador, que legitimasse não só ainda os quatro,

menores, de que se trata; mas ainda até os outros cinco Pretos, que, como pessoas rusticas, e miseraveis, necessitavão tambem de hum Curador».

Não reconhecendo assim valor a este aspecto dos «engenhosos Em- bargos» apresentados, (ii) Correia de Araújo parte para outra matéria po- lémica: o «dizer-se nos Embargos, que os Escravos em todos os casos devem sempre adquirir para seus Senhores». Tratava-se de uma máxima bebida do direito romano, pelo que o ouvidor envereda numa longa di- gressão pela Antiguidade – guiando-se em parte pelo De l’esprit des lois de Montesquieu – procurando demonstrar as muitas falhas no sistema es- clavagista daqueles tempos e o seu desajustamento face à realidade de fi- nais do século XVIII(para o que invoca uma vez mais os preceitos da Lei

da Boa Razão). É nesta sede que se encontra um dos trechos mais im-

pressivos da Segunda, e ultima Sentença:

Posto que em alguns Paizes se tenha tambem introduzido, ou tolerado o uso da Escravidão; com tudo, nunca esta foi tão dura como a daquelles [os romanos], nem padeceo as vicissitudes, que entre elles teve, reconhecendo com elles mesmos, que era contra o Direito natural; pois que sendo o homem a Imagem da Divindade, e ainda mais precioso homem, que a terra, que elle piza, parece impossivel, que hum Ente tão excellente, que tem lugar primeiro entre Deos, e as mais cousas creadas, se podesse reputar huma cousa, hum animal semelhante a um jumento, ou a huma mercadoria sus- ceptivel de compra, e venda, como ao depois com abuso elles mesmos in- troduzirão.35

Se é certo que Correia de Araújo dissertava acerca da Antiguidade Clás- sica, também o é que facilmente se encontram nas suas considerações algumas críticas dirigidas aos embargantes – os quais entendia estarem a comportar-se de forma anacrónica e particularmente reprovável. Isto por- que, advogava, estariam a pisar terreno onde nem os mais radicais legis- ladores latinos haviam ousado chegar.36Neste sentido (não sem antes

35Luiz Prates de Almeida Albuquerque, Sentenças..., 26.

36«He verdade, que pelo Alvará de nove de Maio de mil setecentos noventa e sete fez Sua Magestade especial Mercê aos Proprietarios das Prezas do Navio, e sua carga, pagando só a quinta parte aos Restauradores, e que por este principio, tambem se argumenta, que os nove Pretos Restauradores tendo sido antes Escravos, tambem se podião reputar carga; porém isto nem mesmo lembrou aos compiladores do Direito Romano, nos quaes res- plandencendo ainda a boa Ethica, que até lhes reconhece o pararafo nove da citada Lei de desoito de Agosto de mil setecentos sessenta e nove, dizem expressamente, que os ho- mens se não comprehendem debaixo do nome de mercadoria: se pois até os mesmos Romanos nunca se lembrarão chamar mercadoria, ou carga, os Escravos, parece que muito menos