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O quadro institucional da naturalidade e da alteridade

Os municípios eram a forma normal de enquadramento político das comunidades locais autónomas.67A sua autonomia era formalizada por

uma carta régia de privilégios (foral). Nos territórios ultramarinos, a auto- nomia municipal formal não era a regra, sendo reservada para algumas comunidades mais prestigiadas, fortemente marcadas pela presença de eli- tes europeias. Foi o caso de São Vicente de Cabo Verde, Santo António do Príncipe e Luanda, em África; o de Cochim e Goa, na Índia; o de Ma- laca, na Indochina; o de Macau, na China; o da Baía, no Brasil.68Com o

passar do tempo, estas elites passaram a incorporar elementos crioulos.

66Apesar de nomeados pelo rei, os juízes de fora eram justiças locais, autónomas em re- lação à coroa, gozando de uma esfera de jurisdição protegida e decidindo de acordo com normas jurídicas locais.

67Ver António Manuel Hespanha, Vísperas del Leviatán: Instituciones y Poder Político, Por- tugal, Siglo XVII, trad. Fernando Bouza Álvarez (Madrid: Tecnos, 1989).

68Sobre os municípios ultramarinos, ver, em síntese, Charles R. Boxer, Portuguese Society in the Tropics: The Municipal Councils of Goa, Macao, Bahia, and Luanda, 1510-1800 (Madi- son: Wisconsin University Press, 1965); Edmundo Zenha, O Município no Brasil: 1532- -1700 (São Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1948); Paulo R. Fabris, «Um debate acerca da história do município no Brasil», Ciências Sociais, 2008, 71-95; Maria Eugénia Rodri- gues, «Municípios e poder senhorial nos Rios de Sena na segunda metade do século

XVIII», in O Município no Mundo Português (Funchal: Centro de Estudos de História do Atlântico e Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 1998), 587-608; Almerindo Lessa, Anthropologie et anthroposociologie de Macau. L’histoire et les hommes (Toulouse: Université de Toulouse, 1970), dissertação policopiada (versão portuguesa, A História e os Homens da Primeira República Democrática do Oriente. Biologia e Sociologia de uma Ilha Cívica (Macau, Imprensa Nacional, 1974); Ana Maria Amaro, «Eleições para o Leal Senado de Macau em 1842 e os homens bons da terra», Revista de Cultura, 19 (1994).

Frequentemente, tornaram-se baluartes da nobreza local (gente da gover-

nança),69reagindo, amiúde, contra os grupos inferiores, ou mais criouli-

zados, bem como contra os portugueses chegados da metrópole (reinóis). A um nível mais baixo, mesmo quando entidades políticas formais – como os municípios – não existiam, também eram reconhecidas como entes políticos, com algum governo e direito próprios pequenas comuni- dades de colonos. O direito consuetudinário e práticas jurídicas locais, usadas pelas comunidades e reforçadas pelas elites locais, formavam um ordenamento jurídico quotidiano e eficaz, embora discreto (usus diutur-

nus). A vitalidade e a autonomia destas ordens jurídicas locais eram uma

realidade quotidiana em toda a parte do império, como já o eram na me- trópole. O seu reconhecimento resultava da doutrina do direito comum relativa à relação entre os elementos de uma outra oposição semântica: a do direito natural (ius naturale-ius gentium),70direito comum (ius commune)

e direito particular (ius proprium). Esta doutrina estabelecia que o direito era inerente a cada comunidade organizada e que o autogoverno jurídico devia ser necessariamente reconhecido pelos níveis mais elevados do di- reito. Na já referida glosa do Digesto de Justiniano, Baldo degli Ubaldi (1327-1400) expressava enfaticamente esta ideia da naturalidade do auto- governo em cada comunidade auto-suficiente (communitas perfecta).

O princípio de uma jurisdição própria e espontânea aplicava-se aos

regna ou a extensas comunidades urbanas, mas também a populações pe-

quenas, fechadas e endogâmicas, isoladas no sertão, vivendo à sua ma- neira, e governadas segundo o seu próprio conjunto de normas, pelas fa- mílias ou facções mais poderosas (bandos, parcialidades). Em áreas de monocultura extensiva, como a do açúcar, as grandes propriedades fami- liares (engenhos, casas grandes e sanzalas, aldeias, arraiais) podiam ser assimi- ladas a comunidades perfeitas,71logo reconhecidas como centros com o

seu próprio direito e administrados pelo pai-senhor (disciplina domestica).72

69João Fragoso, «O Antigo Regime, o poder político e a governança dos povos no im- pério português (séculos XVII-XVIII)», Topoi, 1 (2000): 45-122; Maria Fernanda Bicalho,

«Conquista, mercês e poder local: a nobreza da terra na América portuguesa e a cultura política do Antigo Regime», Almanack Brasiliense, 2 (2005).

70Ius naturale e ius gentium eram conceitos facilmente intermutáveis no discurso jurídico medieval, quaisquer que fossem as diferenças existentes no direito romano clássico.

71De acordo com a teoria política tradicional (Aristóteles, São Tomás de Aquino [Summa, Ia-IIae, q. 90 a. 3]), uma comunidade perfeita era auto-suficiente e, por conse- guinte, autónoma de alguma outra e livre de subordinaçõs políticas externas.

72Nestes casos, na Europa e nas colónias, as tensões políticas costumavam surgir entre uma entidade municipal mais importante (por exemplo, o senado da câmara) e uma al- deia do seu termo).

Quanto mais fundo formos nesta análise, menos homogéneas surgem as populações destas comunidades. Nas pequenas comunidades, os co- lonos pobres misturaram-se com as populações nativas, ou com escravos e seus descendentes, tornando esta mescla cada vez mais relevante do ponto de vista demográfico. Como o colono era normalmente o pai – e não a mãe –,73a população crioula tendia a ser considerada portuguesa,

por ser filha de pai português.

As comunidades locais podiam receber, também, privilégios régios, confirmando o estatuto jurídico-político local, ou instituindo, ainda, novas prerrogativas.

A capacidade jurídico-política atribuída às comunidades locais pelo par- ticularismo do ius commune era muito grande, excluindo totalmente a ale- gada inércia política das comunidades de colonos afirmada quer pela his- toriografia imperial quer pela narrativa histórica que ainda comemora a saga das independências das antigas colónias. Por todo o império, os colo- nos e os seus «descendentes» gozavam do mesmo autogoverno e do mesmo direito autónomo atribuído na metrópole às comunidades locais, autono- mia ainda mais reforçada pela distância e pela consciência da singularidade ultramarina.74Na verdade, e apesar de não serem a sua fonte primária, as

singularidades ultramarinas podiam reforçar ainda mais o particularismo político.75O particularismo era a matriz geral do direito europeu. Refor-

çado, no império, pelas circunstâncias exóticas. Os territórios ultramarinos não eram espaços sem direito, onde os laços dos colonos ao seu direito pessoal eram apagados e substituídos por uma ordem dependente quer da distante metrópole quer de situações puramente conjunturais.

Excepcionalmente, em situações conjunturais de guerra ou revoltas locais, os estabelecimentos coloniais ficaram submetidos ao direito mi- litar, como aconteceu no império; nessas alturas, a justiça era delegada num capitão ou num governador militar, de acordo com o modelo tam- bém existente, quer no direito português [capitães das fortalezas dos lu-

73 Esta regra não era válida para filhos de uma escrava, os quais herdavam o estatuto da mãe.

74Como na metrópole, o papel político dos senados da câmara na organização das elites governantes dos colonos era reforçado pelo monopólio destas sobre as Misericórdias, o modelo dominante de associações de caridade: ver A. Russel-Wood, Fidalgos and Philanth- ropists: The Santa Casa da Misericordia of Bahia, 1550-1755 (Londres: MacMillan, 1968).

75A singularidade ultramarina era frequentemente argumentada como uma razão para pedir um privilégio particular contrário ao direito comum; em todo o caso, estar para além do oceano, em terras distantes e antes desconhecidas, sob um clima diferente, não era mais do que um instrumento retórico justificativo de uma situação invulgar que re- clamava um regime particular, semelhante à antiguidade, à nobreza, à fidelidade, etc.

gares de África, cujo regimento surgia explicitamente providenciado nas

Ordenações (Ord. Fil., 2,47); o governador – militar], quer no direito ro-

mano (o dux exercitus, como um extraordinarius magistratus; prateor provin-

ciae). Existia uma gradação entre este direito militar extraordinário, e o

carácter informal e frouxo do autogoverno civil, característico dos esta- belecimentos completamente novos, quer na fronteira das entidades po- líticas europeias, quer numa outra qualquer zona de colonização. Um ou outro substituíam, nestas zonas, o direito comum e ordinário do reino. Isto significa que as comunidades de colonos gozavam de um go- verno peculiar e difuso, fosse ele o autogoverno ordinário dos municí- pios, o governo extraordinário das chefias militares locais, ou os arranjos políticos e sociais mutáveis de um estabelecimento completamente novo.

Para além da sua capacidade inclusiva, a categoria de naturales (naturais) produzia, também, uma exclusão – a dos estrangeiros.

Também a semântica do estrangeiro espelhava esta ambiguidade – um estrangeiro (foraneus, exterus, externus) podia ser ou alguém estranho a uma comunidade particular (forasteiro, não vizinho), ou alguém que não era nascido no reino, conforme as Ordenações (Ord. Fil., 2,55 e 56). Nos ter- ritórios ultramarinos, os estrangeiros eram essencialmente os nativos lo- cais ou indígenas, automaticamente excluídos do direito e da jurisdição metropolitana.