POSICIONANDO UM PROBLEMA POLÍTICO-METODOLÓGICO
4. A verdade e a vontade de verdade – um jogo de forças
Admitamos, por ora, que é mesmo da própria verdade que Foucault trata. O que isto significa? Que Foucault investiga as condições epistemológicas ou transcendentais para que o sujeito tenha acesso à verdade? Que ele insere seu trabalho no campo das investigações lógicas, ontológicas ou metafísicas no sentido de explicitar qual é a essência da verdade? Ou, ainda, isto significa que suas análises estariam situadas no campo da semântica, da linguística ou do estruturalismo e teriam por objeto as enunciações de verdade ou a significação do discurso verdadeiro?
De forma alguma. Será em um registro bem distinto que se inscreverá o espaço analítico de Foucault em relação à temática da verdade. Apontarei aqui algumas coordenadas que situam a formação deste campo.
Se o contexto dessa partição estratégica entre a verdade e aquilo que a entorna parece ter iniciado suas principais movimentações n’A Ordem do Discurso, talvez uma formulação mais acabada disto aparecerá em A Verdade e as Formas Jurídicas. Nessas cinco conferências proferidas na PUC-RJ em maio de 1973, Foucault (2011c) situa o âmbito específico de suas análises acerca da verdade mediante uma importante distinção. Haveria uma história interna da verdade, no contexto da qual se situariam as chamadas Teorias da Verdade (tal como entendidas, por exemplo, por Kirkham, 2003; França, 2008; Costa, 2005; Abe, 1991), mas também as Filosofias da ciência e todo o
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Da expressão grega istor, deriva tanto “história”, “historiador”, como “aquele que viu” (LARROSA, 2002). Aqui, utilizamos também o termo para movimentar o pronome demonstrativo isto, compondo um agenciamento de afinidade entre a história e o presente.
campo da epistemologia/teoria do conhecimento. Distinguindo o seu trabalho daquele realizado nestes campos, Foucault (2011c) propõe-se realizar uma história externa da
verdade. Esta última tematizará as “regras de jogo a partir das quais vemos nascer certas
formas de subjetividade, certos domínios de objeto, certos tipos de saber” (FOUCAULT, 2011a, p.11), na medida em que implicam um movimento de atribuição de verdade a um sujeito e/ou a um enunciado. O campo de uma história externa da verdade será aquele no qual se analisará a relação entre a verdade e a vontade de verdade; nele a verdade não aparecerá em si mesma, como índice de si própria, tal como aqueles que se situariam em uma história interna da verdade assim entenderiam. Apareceria, sim, em sua relação com a vontade de verdade enquanto movimento de atribuição de algo como verdadeiro. É, portanto, este movimento de inclinação a uma
verdade, como atribuição de algo como verdadeiro e obediência ao poder da verdade,
que caracteriza o modo como Foucault perspectiva o tema da verdade – o que o distancia do questionamento realista acerca quando feito por meio da distinção objetiva entre enunciados verdadeiros e enunciados falsos, característica de uma história interna da verdade, de uma verdade predicativa, do discurso verdadeiro.
Alguns anos mais tarde, em Do Governo dos Vivos – curso ministrado por Foucault no Collège de France em 1980 – podemos perceber aquilo que seria não exatamente uma mudança de perspectiva, mas uma ampliação do campo sobre o qual recaem os problemas relacionados à verdade. Não mais unicamente sob o signo restrito da utilidade e docilização, como em Vigiar e Punir (FOUCAULT, 1997a); nem mesmo somente a partir de uma racionalidade indexada à Economia Política como forma de governo dos homens, como em O Nascimento da Biopolítica (FOUCAULT, 2008a); e, ainda, um pouco mais além de um biopoder agenciado pelas disciplinas médico-psi e estatísticas na instauração de uma ciência da vida, como em A Vontade de Saber (FOUCAULT, 2009b). Nestes três exemplos, a problemática da verdade permanece intimamente relacionada aos mecanismos de saber/poder que estão em jogo nas práticas de objetivação – e, fundamentalmente, da objetivação do sujeito. Em síntese, temos aqui a circunscrição da verdade em termos de utilidade, racionalidade e cientificidade (a Psiquiatria , a Psicologia, a Pedagogia, a Criminologia, a Medicina, a Demografia, a Economia Política, a Estatística, etc.).
Mas no curso de 1980, Foucault (2010a) refere-se a uma “manifestação suplementar, excessiva (...) não econômica, de verdade (...) esse verdadeiro um pouco luxuoso, um pouco suplementar, um pouco excessivo” (p.34). Ou, então, a “uma
manifestação da verdade entendida no sentido amplo” (p.35). Quer dizer, trata-se aqui de uma manifestação da verdade que excede o âmbito da objetivação do sujeito e das práticas de governo, tais como presentes, por exemplo, em Vigiar e Punir, A Vontade de
Saber e O Nascimento da Biopolítica. Essa manifestação da verdade, em um sentido amplo, é chamada por Foucault (2010a) de aleturgia11.
Novos contornos serão traçados nesse campo composto pelas manifestações da verdade em sentido amplo, principalmente no último curso ministrado por Foucault no Collège de France. Em A Coragem da Verdade, será feita uma distinção entre análise
das estruturas epistemológicas (estrutura e condições de possibilidade do
conhecimento/discurso verdadeiro) e análise das formas aletúrgicas. Identificando seu campo de análise ao das formas aletúrgicas, Foucault (2011a) diz que nele se trata de investigar
O tipo de ato pelo qual o sujeito, dizendo a verdade, se manifesta, e com isso quero dizer: representa a si mesmo e é reconhecido pelos outros como dizendo a verdade. Não se trataria, de modo algum, de analisar quais são as formas do discurso tal como ele é reconhecido como verdadeiro, mas sim: sob que forma, em seu ato de dizer a verdade, o indivíduo se constitui e é constituído pelos outros como dizendo a verdade (p.4).
Ora, mais haveria aí tão-somente um deslocamento – a saber, uma passagem de um campo temático a outro? Esta passagem implicaria que o pensamento de Foucault estaria completamente inscrito nesse terreno de uma história externa da verdade, das práticas de objetivação do sujeito e das formas aletúrgicas? Isso, ainda, significaria que Foucault não tocaria, em nenhum momento e de forma nenhuma, nos problemas referentes a uma história interna da verdade, em uma investigação sobre a verdade do sujeito aquém de suas objetivações, ou mesmo uma análise das formas epistemológicas? Havendo, pois, uma diferença entre esses registros, essa diferença não marcaria nenhum
conflito, ou qualquer jogo de forças?
Mais uma vez terei que responder de forma negativa às perguntas que mesmo formulei. As questões foucaultianas acerca da verdade gravitarão em torno precisamente dessas relações de forças que se estabelecem entre o discurso verdadeiro e
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Foucault (2010a) utilizou este nome fictício para fazer referência a Heráclides Pôntico (388-322 a.C.), que certa vez utilizou a expressão alêthourguês para designar aquele que diz a verdade, o verídico. Aleturgia será, então, entendida enquanto “a manifestação da verdade como um conjunto de procedimentos possíveis, verbais ou não, pelos quais se atualiza isso que é colocado como verdadeiro por oposição ao falso, ao oculto, ao invisível, ao imprevisível, etc.” (p. 36, grifos meus).
a vontade de verdade, entre a verdade-predicado da transcendência e a verdade-objeto da imanência, ou mesmo entre a verdade e a vontade. Assim, temos dois movimentos:
1) A verdade é deslocada do âmbito lógico, predicativo e interno ao discurso para o âmbito das relações de força, das relações políticas e, portanto, da vontade de verdade. Chamarei, por ora, esse campo de política da verdade.
2) Uma vez feito este deslocamento, uma vez situado este espaço analítico da verdade, é possível perguntar: de que forma os saberes que posicionam a verdade no âmbito lógico, predicativo e interno ao discurso fazem funcionar sua política da verdade?
É precisamente este segundo questionamento que considero insuficientemente trabalhado no campo dos estudos foucaultianos. Muito se tem insistido na importante tarefa de investigar as relações de poder que estão em jogo nas práticas de objetivação do sujeito, do governo de suas condutas e dos saberes que estrategicamente se configuram para tal. E também no próprio apagamento dessas relações de poder para que seus mecanismos não sejam percebidos e, assim, o sujeito possa aparecer como um dado real prévio, em sua existência muda e subterrânea, como uma evidência dada por uma experiência de si irrefratável e irredutível a qualquer poder e a qualquer saber. Mas também para que esses saberes possam aparecer como os porta-vozes da verdade. Esses nobres movimentos analíticos, esses louváveis empreendimentos para fazer aparecer e desconcertar essas práticas de objetivação do sujeito, todavia, dificilmente mantêm um diálogo significativo com todo um campo ligado às Teorias da Verdade, à Filosofia Analítica, ao Neo-pragmatismo, às Filosofias da Ciência ou a todo um agencimento presente na Filosofia moderna e na Filosofia Contemporânea que operam com a verdade de forma apartada das relações de força, da vontade de verdade e da política da verdade. Uma vez que é realmente o problema da verdade que interessa a este trabalho – e não o problema do saber ou da objetivação – será indispensável infiltrar-se no âmbito desses domínios, uma vez que são eles que definem e instituem para si mesmos o direito de falar da verdade.
Portanto, as questões foucaultianas não estarão somente inscritas do outro lado da verdade – o lado externo à verdade. Gostaria de insistir nesse ponto: essas questões gravitarão em torno das relações de forças que se estabelecerão entre o discurso
verdadeiro e a vontade de verdade; entre a verdade-predicado da transcendência (a pergunta pelo valor de verdade: isto é verdade?) e a verdade-objeto da imanência (a pergunta pelo valor da verdade: o que quer a vontade de verdade? O que é a
verdade?12); ou mesmo entre a verdade em si e a vontade de verdade. Assim, se a verdade é deslocada do âmbito lógico, predicativo e interno ao discurso para o campo imanente das relações de força, das relações políticas e da vontade de verdade, aquele âmbito deverá não desaparecer, mas retornar reinscrito neste campo imanente.
Este jogo de forças entre a verdade e a vontade de verdade parece ter uma de suas formulações mais valiosas n’A Ordem do Discurso. Sigamos, por ora, as trilhas desse deslocamento, uma vez que ele será a via régia para o posicionamento do problema que move este trabalho.
É dela [da vontade de verdade] sem dúvida que menos se fala. Como se para nós a vontade de verdade e suas peripécias fossem mascaradas pela própria verdade em seu desenrolar necessário. E a razão disto é, talvez, esta: é que se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que responde ao desejo ou aquele que exerce o poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso verdadeiro, o que está em jogo se não o desejo e o poder? O discurso verdadeiro, que a necessidade de sua forma liberta do desejo e libera do poder, não pode reconhecer a vontade de verdade que o atravessa; e a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdade que ela quer não pode deixar de mascará-la [a vontade]. (FOUCAULT, 2011b, p.19-20).
Assim, se há – sob a forma de um pano de fundo mais geral e fundamental – uma relação de imanência entre a verdade e os entornos da verdade, aparecerão também no pensamento de Foucault alguns traços que apontam uma importante repulsão entre a
verdade e a vontade de verdade. A vontade de verdade quer uma verdade, e a verdade
que ela quer não pode fazer outra coisa se não esconder essa vontade, mascará-la, empurrá-la para debaixo do tapete, fazê-la desaparecer. Isto nos é dado nas situações mais práticas e cotidianas: quando a vontade aparece, quando o desejo, o querer e o interesse entram em cena, logo recai a suspeita de que aí a verdade pode ser torcida, distorcida, retorcida e tolhida. E, por um lado que não é outro, quando a verdade aparece, parece aparecer independentemente de todo querer, de qualquer desejo, de tudo que tenha parentesco com uma vontade. Mais do que isso: caso queiramos dizer a verdade, teremos que dar constantemente provas de que esta verdade que estamos a dizer em nada tem se relaciona com nossa vontade, nosso desejo, nossos quereres.
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Esta distinção entre o valor de verdade e o valor da verdade será devidamente explicitada no terceiro capítulo deste trabalho.
Assim dizemos: “é verdade... simplesmente é verdade... não porque eu quero, mas porque é”. Tal como Foucault (2011b) apresenta nesta ocasião, trata-se de uma vontade cujo objeto, uma vez alcançado, anularia sua própria força, ato, ou impulso que lhe dá existência e vida.
Veiga-Neto (2007) apresenta-nos algumas importantes coordenadas para pensarmos em que sentido uma série de temáticas importantes para o pensamento foucaultiano são desdobradas a partir da vontade de verdade:
A vontade de verdade não deve ser entendida no sentido clássico do “amor à verdade”, mas sim no sentido de busca de dominação que cada um empreende, marcando e sinalizando os discursos por sistemas de exclusão. Tais sistemas definem o dizível e o indizível, o pensável e o impensável; e, dentro do dizível e do pensável, distinguem o que é verdadeiro daquilo que não o é. Chamamos disciplina a cada campo formado por um conjunto de enunciados que, ao mesmo tempo em que estatuem sobre um dado conteúdo, sinalizam os limites do próprio campo. É o conjunto dessas marcas e sinais que nos levam, automaticamente, a mapear o campo do pensável e do dizível – aí apontando e separando para nós o que é verdadeiro daquilo que não é – e a deixar nas áreas de sombra o impensável e o indizível (p.103).
O conjunto de problemáticas a ser enfrentado dirá respeito, assim, aos mecanismos de objetivação da verdade, ao reconhecimento das manifestações de verdade, à qualificação do sujeito que diz a verdade, à assunção de um dito como verdadeiro e, enfim, à obediência ao poder da verdade. Sob o signo vontade de verdade desdobram-se as temáticas relacionadas à análise das formas aletúrgicas: aí aparecem os problemas relativos a uma história (externa) da verdade, história na qual aparecem seus laços com o poder e com o sujeito. Mas o que constitui o núcleo, o átomo, o centro, ou o ponto de apoio destes entornos? Existe qualquer coisa aí neste lugar?
5. O dispositivo da verdade: sobre a inscrição político-metodológica da existência