João Lourival da Rocha Oliveira e Silva
5 Nesse número, um anúncio recordava que se podiam ainda adquirir colecções completas d’O Panorama, custando 6190 réis a primeira série e 397 réis a segunda.
povos que uma nação que não está a par do seu tempo é forçosamente uma nação miserável. (Alexandre Herculano, Da educação e instrução das classes laboriosas, O Panorama, 1838, vol. II, n.º 75, p. 316.)
Sem destinatário pessoal, criticando, transversalmente, toda a classe política, o discurso d’O Panorama raramente beliscou o poder, porque não afectava em concreto quem era poder num momento deter- minado. Esse facto ajuda a explicar por que razão os governos apoiaram ou, pelo menos, consentiram o periódico, que, além do mais, se destinava, predominantemente, a propagar conhecimento e a de- mocratizar o acesso à cultura e não a estabelecer doutrina, arregimentar partidários e fazer política partidária.
São vários os exemplos em que, n’O Panorama, se criticam (todos) os políticos e a política, nomeada- mente a propósito do estado calamitoso da educação em Portugal. Alexandre Herculano, sustentado pela autoridade moral que possuía, foi um dos que o fez:
É tão árida e espinhosa a política, e acaso tão falsa a maior parte das vezes, que nos custa, em verdade, o falar dela. (…) Não passaremos (…) avante sem apontarmos o que nos parece ser a causa de grande parte dos males públicos – um erro comum dos nossos políti- cos. (…) Onde vai, pois, o erro? Em andar a política do envez: em se estudar a ciência de administrar e reger os povos sinteticamente e aplicar-se analiticamente. (…) E era isto o que se devia ter feito? Ousaremos dizer que não. Deviam ter-se analisados todos os factos sociais do país e desta análise chegar a uma síntese – a um corpo geral de doutrina política e aplicar esta (…).
Mas para que veio isto aqui? Para que nos empregámos – nós profanos – no brejo aridíssi- mo da misteriosa política? Porque nos parece que se o método apontado se houvera segui- do, ter-se-ia achado que em lugar de se querer aniquilar o passado (…), mais avisadamente andaríamos se atendêssemos ao futuro (Alexandre Herculano, A educação e o estado, O
Panorama, 1839, vol. III, n.º 96, p. 67.)
O Panorama tinha, pois, acção política, exercida em nome daquilo que os seus redactores, considera-
riam o bem-comum da nação. Essa forma de intervenção no espaço público permitia aos redactores refugiarem-se por trás de uma espécie de lógica simbólica da intocabilidade política, precisamente por se posicionarem como vox populi, isto é, por dizerem o que tinham a dizer como uma espécie de voz
colectiva e pública dos portugueses. Veja-se, por exemplo, como a extinção das ordens religiosas agrá-
rias e beneficentes, provocada pelo radicalismo vintista de Joaquim António de Aguiar, apelidado de “Mata-Frades” (a sua lei de 30 de Maio de 1834 extinguia conventos, mosteiros e outras propriedades das ordens religiosas, cujos bens foram alienados em favor do estado e revendidos a particulares ricos alinhados com a nova ordem liberal), foi criticada civicamente pel’O Panorama, que, pela mão de Herculano, não hesitou em condenar – transversalmente – (todos) os políticos que, isolados nos seus gabinetes, decidiam contra o sentimento do povo (na verdade, arredado, pelo voto censitário, da esfera das decisões políticas), usando, para a extinção das ordens religiosas, os mesmos argumentos a que se poderia recorrer contra os novos latifundiários, tornados ricos pelo liberalismo:
Já no tempo dos godos os beneditinos estavam espalhados no Minho e nele se conservaram durante o domínio dos árabes. A esta ordem respeitada e que sempre será lembrada com gratidão pelos verdadeiros amigos da humanidade deveram em grande parte a cultura e a civilização os habitantes daquele território. Ainda hoje não ousaremos afirmar que a sua conservação fosse inteiramente desvantajosa. Deixaremos decidir esta questão gravíssima por aqueles que, sem nunca saírem do bulício das cidades julgam os monges dos campos pelos padres viciosos das povoações. Nós, que assistimos à supressão de uma parte dos velhos mosteiros do Minho e que vimos as lágrimas do povo que neles encontrava os socorros na doença e o pão na decrepitude não sabemos se aquelas lágrimas mentiam, se mentem as teorias dos políticos que escrevem no silêncio do seu gabinete. O que é certo é que todos os argumentos económicos que se hajam de fazer contra a existência das ordens monásticas, e que com mais propriedade poderíamos chamar sociedades agricultoras, vão ferir, talvez com mais força, os senhores das terras, os proprietários opulentos. Do que es- tamos seguros é de que estas nossas reflexões merecerão apenas um sorriso desses homens de espírito subido, para quem tem mais força um epigrama francês ou inglês acerca da superstição do que uma boa razão portuguesa, que sirva de defender-nos dos escárnios mesquinhos de estrangeiros ignorantes das nossas coisas. (Alexandre Herculano, O Minho romântico, O Panorama, 1837, vol. I, n.º 27, p. 212.)
Um outro ponto do texto anterior merece atenção. É uma das raras passagens d’O Panorama em que, em vez de se apelar ao exemplo europeu, se lembra que nem sempre as ideias e exemplos que vêm de fora são aqueles que melhor servem aos portugueses.
A protecção dos monumentos nacionais foi, efectivamente, uma causa, aberta pela transição do neoclassicismo para o romantismo (conforme se nota, aliás, no excerto de texto seguinte), cara a vários dos redactores d’O Panorama. Exortados, logo no primeiro número, pelo repto indignado e inconformado de Alexandre Herculano, em nome, subentende-se, do “interesse nacional” – e para que a restante Europa (sempre motivo de comparação) não acusasse os portugueses de barbarismo, tantas as afrontas ao património do país – os redactores do periódico procuraram exercer, civicamen- te, uma acção política pela protecção dos monumentos nacionais, em nome da defesa dos alegados interesses colectivos da nação:
Os velhos mosteiros do Minho e da Beira estão há muito convertidos em casarias seme- lhantes a alojamentos de soldados e os templos veneráveis da Idade Média se derrubaram para el lugar deles se levantarem salas ou armazéns (…) onde nem uma pedra fala do passado, onde nada respira uma ideia religiosa. (…) À hora em que isto escrevemos soam, talvez, as pancadas dos martelos na antiga colegiada de Guimarães, onde se vão gastando largas somas para destruir em parte, em parte tornar monstruosa, uma das mais formosas obras da arquitectura nacional.
Para salvar o que ainda resta, cumpria que o governo e as municipalidades vigiassem pela conservação destes monumentos e pudessem proibir estas bárbaras demolições. Na Ingla- terra e na França seriamente se cuida em conservar e reparar esses edifícios, que são como a história da inteligência e da grandeza do país e que talvez em breve serão modelo para os artífices, quando de todo acabar o preconceito de que em artes só o grego e romano é belo; quando se persuadirem que os hábitos, as opiniões e as crenças de uma nação devem estar
em harmonia com os seus monumentos. (Alexandre Herculano, A arquitectura gótica, O Panorama, 1837, vol. I, n.º 1, p. 2.)
O mais sentido e intenso brado de Herculano – que usa O Panorama como o seu púlpito político – a favor da conservação dos monumentos nacionais talvez seja o texto que, reproduzindo a estilística romântica, este pensador escreve nos números 69 e 70 do segundo volume d’O Panorama. Nesse texto, Herculano justifica a sua intervenção política e cívica, através do palco insuspeito d’O Pano-
rama, em nome das gerações futuras. O seu objectivo, ainda que não expresso, é o de influenciar a
governação e despertar o sentimento preservacionista entre os cidadãos. Alinhando o diapasão pelo tom de textos anteriores, para além de criticar, transversalmente, os decisores políticos carreiristas pela sua falta de visão, relembra Alexandre Herculano o valor histórico e patrimonial, cultural, dos antigos monumentos e também sugere, inovadoramente, que o património edificado antigo pode ter valor económico e turístico:
É contra o espírito destruidor desta geração (…) que erguemos a voz (…) em favor dos monumentos da história (…), que todos os dias vemos desabar em ruínas (…).
Corre o vandalismo despeado de um a outro extremo do reino, e tudo assola e desbarata (…). Aqui é o vereador municipal, ali o administrador de concelho, ora é ministro, logo deputado; hoje, escritor, amanhã, funcionário público. (…)
Desgraçadamente o velho Portugal estava cheio de recordações do passado. (…) Com isto tudo topou o vandalismo (…). Ergue-se e falou em feudos, em dízimos, em corrupções fradescas, em maninhadegos, em servos da gleba, em direitos de osas, em superstições, e se- meando estes vocábulos por meio de sentenças filosóficas, de lugares comuns do catecismo de Ramos Salas, chamou os homens do alvião e picareta, começou a derrubar, vitoriado pelo povo. Só ele, imóvel no meio de mil mudanças, no meio de opiniões contrárias (…), de comoções, tem apontado constante ao seu alvo: a demolição do passado. Ele pertence a todos os bandos políticos, aceita todos os princípios, curva-se a todos os jugos com tan- to que o deixem fazer-nos esquecer a glória nacional e de que somos um povo de ilustre ascendência (…).
Se com a nossa incúria e raiva assoladora desmentimos o passado, para desmentir tudo, até falseamos a índole do presente. É a economia a ciência do nosso tempo: todos fa- lam em capitais, em indústria, em riquezas sociais, em valores. Mas que serão os velhos edifícios (…)? São (…) uma riqueza social! (…) Um monumento, recomendável como objecto de arte, é um capital reprodutivo. Calculai quantos viajantes terão atravessado Portugal (…). Certo que não é para correrem nas nossas cómodas diligências por nossas belas estradas, ou navegarem nos nossos rápidos vapores por nossos espaçosos canais! Certo que não é para aprenderem a agricultar com os nossos agricultores, nem a fabricar com os nossos fabricantes, mas para admirarem (…) tantas obras-primas de arquitectura que encerra este cantinho do mundo. E dizei-nos: credes que o estrangeiro alcança o fim da sua peregrinação sem despender muito ouro? Ignorais que esse ouro se derrama por mãos de portugueses? E falais de economia política (…) e aniquilais o capital dos monumentos? (Alexandre Herculano, Os monumentos, O Panorama, 1838, vol. II, n.º 69, pp. 266-268, n.º 70, pp. 275-277)
Herculano propõe, pois, uma espécie de condenação simbólica dos demolimaníacos, uma “vingança pública”, segundo as suas próprias palavras, sintomaticamente exercida através dos jornais, que ser- viriam ao mesmo tempo para propagar esta condenação e de fonte documental para que as gerações futuras, em cujo julgamento crítico Alexandre Herculano cria, soubessem os nomes de quem atentou contra o património monumental do país:
Quiséramos que todos os homens que têm um coração português fizessem uma associa- ção cujos membros estivessem espalhados por todo o reino. Que os residentes em Lisboa formassem uma espécie de junta, à qual os das províncias, logo que à sua notícia chegasse a demolição de algum monumento da história ou da arte, remetessem uma breve nota, indicando as circunstâncias do edifício destruído e o nome do arrasador, quer este fosse autoridade pública, quer fosse algum particular. Quiséramos depois que essa breve nota, sem reflexões, sem afrontas, se legasse à posteridade, em todos os jornais, para que esta fizesse a devida justiça. Nenhuma lei proíbe que se narre singelamente um facto que o sé- culo julga indiferente; ninguém, portanto, se poderia queixar de semelhante publicação. E quanto aos vindouros, que importam as suas maldições ao que não cura nem da arte, nem do passado, nem do futuro, nem da glória nacional, nem da memória dos seus avós, nem dos sepulcros, nem das tradições, nem sequer, enfim, dos interesses materiais que resultam e hão-de resultar da conservação dos monumentos? Nada, e por certo eles ririam dessa vingança pública; mas talvez seus filhos e netos não rissem, vendo-se obrigados a renegar do nome paterno ou a aceitarem dos seus contemporâneos o ferrete infamante que eles sobre tais nomes hão-de forçosamente imprimir. (Alexandre Herculano, Os monumentos, O Panorama, 1838, vol. II, n.º 70, p.277.)
Num momento em que o palco político em Portugal se transferia, decisivamente, para o espaço sim- bólico dos jornais, eis, a seguir, outro texto em que, por vezes com o apoio de elucidativas metáforas (“os monumentos (…) são os documentos da história de uma nação”) e outras justificativas (“século ávido de ciência”), se manifesta a acção política d’O Panorama. O pretexto foi a constituição de uma organização filantrópica a favor da conservação do património histórico edificado nacional:
Os monumentos (…) são os documentos da história de uma nação, ou para melhor dizer, são essa mesma história, (…) estão continuamente dando lições do passado e indicando o presente. (…) Parece impossível que à vista destas considerações haja quem se atreva, no presente século, tão ávido de ciência, a demolir ou desfigurar (…) um monumento (…). Organiza-se actualmente uma sociedade, composta por pessoas de várias hierarquias sociais, que toma a seu cargo salvar as relíquias dos monumentos portugueses. Alcançou do governo o templo do extinto convento do Carmo (…) e o destina para (…) museu de todas as antiguidades artísticas que puder alcançar (…). Este pensamento é nobre, nacional e proveitoso. É também generoso, porque as subscrições pecuniárias dos sócios custearão os gastos (…). Redigem-se os estatutos desta associação benemérita, que se inti- tulará Conservadora dos Monumentos Nacionais (…). Os grandes edifícios nacionais estão salvos (…). Oxalá que os governantes tenham meios e vontade para preservar (…) esses (…) adornos do território português. Todos os governos civilizados mostram igual empe- nho (…). Exemplos são estes muito dignos (…) como convém à (…) nação. (Anónimo, Conservação dos monumentos nacionais, O Panorama, 1840, vol. IV, n.º 165, p. 205.)
Interessante também no excerto de texto anterior é notar a exortação ao governo português no sentido de seguir o exemplo estrangeiro. É uma opção comum do Panorama comparar o “cá dentro” com o “lá fora” para sugerir que se fizesse em Portugal o mesmo que se fazia nos países mais desenvolvidos.
Conclusões
A ambição deste trabalho foi contribuir para compreender o papel e as dinâmicas políticas do jornal O
Panorama no contexto em que surgiu, tendo como foco de atenção o discurso do mesmo.
Embora apartidário, embora não se referisse directamente à extraordinária instabilidade política e mes- mo militar que Portugal atravessou ao longo das suas duas primeiras séries (1837-1844), O Panorama não foi apolítico. À luz da ideologia progressista e liberal dos seus promotores, o jornal interveio ci- vicamente no espaço público burguês, constituído estruturalmente no espaço simbólico do impresso, em nome – intui-se – dos portugueses, do colectivo nacional. Fê-lo, por exemplo, para defender os mo- numentos nacionais e a causa da educação pública, ou também, nomeadamente, para criticar a classe
política no seu conjunto.
Deve assinalar-se, em consequência, que os jornais permitiam uma intervenção cívica que alargava o espaço público ao exterior das câmaras do Parlamento e propiciavam vozes até às franjas da população que não tinham representação parlamentar, sendo não raro assumirem-se – de acordo com o exemplo d’O Panorama – como a voz do povo português, colectivamente entendido.
Pode também atestar-se que O Panorama contribuiu para dar resposta à necessidade que o regime libe- ral manifestava de formar cidadãos cultos como forma de sustentação do modelo político e social que estava a ser proposto à população portuguesa, assente no princípio da soberania da nação.
Com efeito, para o constitucionalismo liberal, os cidadãos são, em tese, idealmente vistos como deten- do capital cultural suficiente para expressarem, em consciência e liberdade, a sua vontade política. O regime liberal corresponderia, assim, em tese, à emanação dos desejos dos cidadãos nacionais cultos e ilustrados, plasmados numa Constituição. Consequentemente, o movimento de democratização cul- tural, que acompanhou o movimento de democratização política do país (ainda que sujeito a ditames censitários), foi vital para assegurar a sobrevivência do regime, que – recorde-se – na primeira metade do século XIX não estava ainda devidamente consolidado. O Panorama, enquanto exemplo de jornal de divulgação cultural e de popularização do conhecimento, só é inteligível nesse contexto que exigia aos cidadãos a detenção de suficiente capital cultural para poderem decidir sobre o rumo do país e a forma como desejavam ser governados.
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Resumo curricular do autor
João Lourival da Rocha Oliveira e Silva é licenciado em Ciências da Comunicação, mestre em
Ciências da Comunicação – Jornalismo e doutor em Ciências da Informação, especialidade de Jor- nalismo e Estudos Mediáticos, pela Universidade Fernando Pessoa. Foi, enquanto jornalista, diretor da Rádio Clube de Matosinhos. Foi, ainda, quadro superior bancário, administrador, empresário, ator e sindicalista.