A fé cristã exprime-se através de diversos símbolos: «Creio em Jesus Cristo, que há-de vir a julgar os vivos e os mortos». O símbolo atribuído a Santo Atanásio diz mais: aquando da última vinda do Salvador, «todos os homens ressuscitarão na sua carne e deverão prestar contas dos seus actos». É de fé que, após a ressurreição geral, Cristo julgará todos os homens acerca do que tiverem pen sado, desejado, dito, feito e ouvido durante a sua vida ter rena, isto é, acerca das suas obras boas ou más e que dará a cada um segundo essas obras (Denzy, 54, 86, 287, 429, Ô93). Vejamos o que nos diz a Escritura a este respeito e como o explica a teologia.
O JUÍZO FINA L SE G U N D O A ESCRITURA As tradições religiosas de muitos povos transmitiram-nos a crença numa justiça suprema, que se manifestará pelas sanções de além-túmulo. Tal crença encontra-se, sob uma forma ou outra, em todas as religiões dos povos civilizados. Mostra a necessidade de uma retribuição individual e des creve o juízo que a deve decretar. Além deste juízo indivi-
dual, a religião dos antigos persas, entre as religiões pagãs, admite um juízo último e universal (x).
Os primeiros livros do Antigo Testamento, manifestam uma fc profunda na justiça dc Deus, mas falam de uma ma- rHrn ainda muifc o t ic r r s accrca das sanções dc alcm- -túmulo (2).
Todavia, encontram-se neles afirmações como a que se lê no Eclesiaste (XII, 14): «Deus fará dar contas no seu juízo de todas as faltas, mesmo ocultas, de todo o bem e mal que se tiver feito». Mas são sobretudo os profetas que anunciam com precisão o juízo final e universal. Isaías (LXVI, 15-24), refere-se à restauração de Israel para todo o sempre. Criados «os novos céus e a nova terra», diz ele em nome do Senhor, «toda a carne há-de vir prostrar-se diante mim». Depois anuncia aos ímpios os castigos eternos. Daniel (XII, 1-2), é mais explícito: «Muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha, para o horror eterno». Joel (III, 2), es creve: juntarei todas as nações, fá-las-ei descer ao vale de Josafá (3) e julgá-las-ei».
O Livro da Sabedoria (V, 15), do século II a. C., fala do mesmo modo. Depois de ter descrito as sanções reservadas aos maus, após a morte, diz: «mas os justos viverão eter namente, a sua recompensa está no Senhor» (cfr. ibid, VI, 6; XV, 8). N o Livro II dos Macabeus (VII, 9, 36) os sete
-Diet, de théol. cath., art. Jugement (croyances du paganisme,
c. 1727-1734) por J. Rivière.
(2) A razão deste facto é a seguinte: o Antigo Testamento está subordinado ao N ovo, isto é, à vinda do Salvador prometido, ao passo que o N ovo Testamento está imediatamente subordinado à vida eterna. Por isso, este fala muitas vezes nela e de uma forma mais explícita que o Antigo Testamento. ^
(3) Esta denominação é simbólica. A palavra Josafá quer dizer Yavé, juiz, e pode aplicar-se a qualquer lugar onde Deus realizar o juízo final.
96 O H O M E M E A E T E R N I D A D E O J U Í Z O F I N A L E U N I V E R S A L \97
irmãos mártires dizem ao seu juiz: «O Rei do universo
ressüscitar-nos-á para a vida eterna.,.'Tu,, porém, pelo juízo 1 de Deus, terás o justo castigo do teu orgulho».
*
N o N ovo Testamento, o próprio Jesus ânuncia o juízo universal em muitas passagens. {M at. XI, 22-23): «Ai de ti Corozain! Ai de ti Betsaida!... Por isso vos digo, que haverá menor rigor para Tiro e Sidónia no dia do juízo que para vós»; (XII, 41): «Os habitantes de Ninive levantar-se-ão no dia do juízo contra esta geração e condená-la-ão porque fizeram penitência com a pregação de Jonas e aqui está alguém que é mais do que Jonas». D o mesmo modo (Luc., X, 12-14; XI, 31-32; M at., X V I,« 27): «O Filho do homem dará a cada um segundo as suas obras».
Este juízo universal é apresentado no Evangelho quase sempre como obra de Cristo, sobretudo no grande sermão sobre o fim do mundo, transmitido nos três primeiros Evan gelhos (M at., XXIV, 31-46): «Quando, pois, vier o Filho do homem na sua majestade, e todos os anjos com ele, assen- tar-se-á num trono de glória. E serão ^odas as nações reu nidas à volta dele, e separará uns dos outros, como um pastor separa as ovelhas dos cabritos...» (M at., XXIV, 31;
M arc., XIII, 27; Luc., XXI, 27). Jesus, na Paixão, diz
para o Sumo Sacerdote: «Vereis depois o Filho do homem sentado à direita do poder de D eus e vir sobre as nuvens do céu...» (Mat., XXVI, 64).
N o Evangelho de São João (XII, 48) diz-se: «o que me despreza e não recebe as minhas palavras já tem quem o julgue; a palavra que eu anunciei essa o julgará no último dia». (João, VI, 40, 44, 55): «Quem crê em mim tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia»; (XI, 25; V, 28-29): «Virá tempo em que todos os que se encontram nos sepul
cros ouvirão a voz do Filho de Deus; e os qüe tiverem •feito obras boas,, sairão para a ressurreição da vida; mas os que .tiverem feitò obras más, sairão; ressuscitados para a con- denaçãò».
N os Actos dos Apóstolos (X, 42), Pedro diz: <Jesus man dou-nos. pregar ao povo e dar testemunho dc que ele é aquele que Deus constituiu juiz dos. vivos e dos^ mortos», s Ê Paulo escreve (II . Cor,, V, 10): «É necessário que. todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo para que cada um receba o que é devido ao corpo, segundo fez, o, bem ou o mal». Paulo fala ainda noutro lugar, com muita clareza, acerca da ressurreição geral e do juízo final; (I Cor., XV, 26): «O último inimigo a ser destruído será a morte... , Então, ainda o mesmo Filho estará sujeito àquele que su jeitou, a ele todas as coisas, para que Deus seja tudo em todas as coisas». (Rom., II, 11-16): «Deus não faz acepção de pessoas... isto ver-se-á naquele dia em que Deus há-de julgar as coisas ocultas dos homens por meio de Jesus
‘Cristo» 0 . ,
N o Apocalipse (XX, 12), João diz: «Vi os mortos grandes e pequenos, de pé, diante do trono. Foram abertos os livros... foram julgados os mortos pelâs coisas que estavam escritas ■nos livros,.segundo as. suas obras».
Os Padres da Igreja, gregos e latinos, não só falam expressamente deste dogma, mas descrevem ao vivo o juízo final. Basta citar Santo Agostinho (?) : «Ninguém nega ou põe em dúvida que Jesus Cristo, còmo anunciam as Sagra das Escrituras, pronunciará a decisão final».
A s circunstâncias que rodearão o juízo universal serão,
segundo a Escritura, as seguintes: ‘
O juiz será Jesus, na sua humanidade, porque foram os
(!) Cfr. ROM-, XIV, 12; II. Cor.s XI, 1.5; Tim., IV, 14. (2) Cidade de Deus. 1. X X , c, 30 n.° 3,
seus méritos que nos abriram as portas do céu. A matéria constituí-la-á a vida integral de cada um, os seus pensa mentos, palavras- e obras, as súas omissões, o bem e o mal que praticou. O tempo em que tal juízo se efectuará é certo mas só Deus o'conhece (M arc., XIII, 32), embora se for neçam na Escritura certos sinais para identificar a sua apro ximação (Marc., XÍII, 7-33) : «Levantar-se-á nação contra na ção... haverá tremores de terra, fomes... É-necessário que antes o Evangelho tenha sido pregado a todas as nações... Todos vos odiarão — diz Jesus aos seus discípulos — por causa do meu nome... Haverá nestes dias tribulações como nunca houve desde o começo do mundo... Levantar-se-ão falsos Cristos e falsos profetas que farão sinais e prodígios, para seduzirem, se fosse possível, até os próprios eleitos. Estai, pois, de sobreaviso, anunciei-vos tudo de antemão... Então verão o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória... Velai e orai, porque não sabeis quando será o momento». Paulo acrescenta (II Tess., II, 3): «Não vos deixeis seduzir... Enquanto não vier a apostasia e não tiver aparecido o homem do pecado (O Anticristo), o juízo não terá lugar» 0 .
Pedro (2) anuncia: «Os céus hão-de vir, em chamas, e os elementos, com o ardor do fogo, fundir-se-ão. N ós espe ramos, segundo a promessa do Senhor, novos céus e uma nova terra» (Isaías., LXV, 17), «onde a justiça habite». Paulo diz: (Rom., VIII, 19): «Este mundo criado espera com a esperança de que também ele se verá livre da sujeição à cor rupção, para participar da liberdade gloriosa dos filhos de Deus». O Apocalipse (XXI, 1), por último, anuncia uma renovação deste mundo em que viveu a humanidade de-
í1) A apostasia a que se refere Paulo é a mesma de Mat., XXIV, 11, 13, 22-25; L uc., XVIII, 8; XXI, 28; a apostasia dos povos, quando
a caridade de muitos tiver arrefecido. •