4 COMO UM ARTESÃO INTELECTUAL EM BUSCA DE COMPREENSÕES
4.4 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Analisar o que propõem as pesquisas da Linguística Textual sobre coerência e coesão textuais.
- Interpretar as concepções de coerência e coesão desenvolvidas por professoras de Língua Portuguesa do Ensino Médio.
- Explicar possíveis relações entre as concepções de coerência e coesão assumidas pelos sujeitos da pesquisa e as práticas de ensino-aprendizagem de leitura e produção de textos que esses sujeitos desenvolvem em sala de aula.
4.5 JUSTIFICATIVA
Segundo Lima (2014, p. 171), no “trabalho com a Língua Portuguesa, as atividades de leitura, produção de textos e análise linguística têm uma estreita relação com as concepções de linguagem adotadas pelos sujeitos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem.”. Concordamos com a ideia desta autora, mas concebemos que, ao pensar o texto e suas práticas de ensino, as concepções de coerência e coesão se sobrepõem; porque, sob a ótica do professor, a definição de texto comumente é formulada a partir desses conceitos1, que pressupõem as noções de língua, sujeitos e sentidos desenvolvidas pelo professor ao longo de sua formação e de suas experiências profissionais.
A escolha de professoras de Língua Portuguesa como sujeitos desta pesquisa não significa que elas foram vistas como indivíduos isolados de outros fatores intervenientes no processo escolar, pois o papel desempenhado pelas professoras nas instituições de ensino e as práticas de ensino-aprendizagem que elas desenvolvem cotidianamente por meio de suas respectivas atuações profissionais são tocados tanto pelos valores e ideias da sociedade da qual fazem parte quanto pelas normas e diretrizes da instituição de ensino na qual trabalham. Nesse sentido, concordamos com Cunha (2012, p. 25): “a importância e o significado do papel do professor não dependem exclusivamente dele.”.
1 Afirmamos isso com base nas interações realizadas durante a fase exploratória desta pesquisa, uma etapa que, segundo Kaufman (2013), não deve ser muito longa num trabalho de entrevista compreensiva, a fim de que o pesquisador não se desvie de seu objeto. No entanto, se feita de forma consciente e não muito profunda, a fase exploratória pode fornecer alguns esboços de ideias úteis ao desenvolvimento do plano de pesquisa. O aprofundamento dessas ideias deve ser feito durante o próprio desenvolvimento da entrevista compreensiva, que foi uma das metodologias adotadas neste trabalho.
Mas é preciso considerar também que a compreensão das concepções assumidas pelo professor em suas atividades docentes e dos delineamentos que ele atribui as suas práticas de ensino podem fornecer conhecimentos significativos sobre as propostas de ensino- aprendizagem que medeiam as relações entre professores, alunos e conhecimentos no ambiente escolar. No que se refere ao ensino da Língua Portuguesa, cujos estudos da Linguística Textual sugerem novas formas de ensinar e aprender, com foco no texto como unidade básica de ensino da língua, pode indicar se as compreensões e as práticas desses professores estão alinhadas com as propostas mais atuais sobre o ensino da língua materna nas escolas.
Outro aspecto que evidencia a importância científica desta pesquisa relaciona-se ao necessário intercâmbio entre os estudos textuais e o ensino de língua. Marcuschi (2012) argumenta que a Linguística Textual (LT) sempre se constituiu como uma área interdisciplinar de estudos, por isso, ao mesmo tempo em que desenvolvia novos conhecimentos sobre o seu objeto de estudo (o texto), criava expectativas de construção de novas abordagens para o ensino da língua na escola. Koch (2014) também reconhece que a LT tem fornecido alguns ensinamentos que respaldam as diretrizes oficiais sobre o ensino de língua na escola e fundamentam algumas propostas pedagógicas sobre o uso do texto em sala de aula; mas alerta que ainda é preciso estreitar mais esse diálogo, a fim de que as pesquisas em educação forneçam retorno à LT, possibilitando, com isso, a validação ou não das propostas advindas dos estudos textuais. Noutros termos:
Por tudo o que aqui foi exposto, é fácil verificar não só a possibilidade, mas a necessidade de um estreito intercâmbio entre a Linguística Textual e o ensino de língua materna, no sentido de explicitar os princípios e as estratégias que devem orientar o trabalho com o texto nas aulas de língua materna, para que os PCNs possam ser postos em prática com os resultados esperados. (KOCH, 2014, p. 185-6)
Importante, contudo, é salientar que esse intercâmbio precisa ser de mão dupla: não é somente a Linguística do Texto que deve embasar e alimentar teoricamente as práticas de sala de aula. São estas também que deverão trazer àquela o retorno necessário para a avaliação/validação de suas propostas e para a sua reformulação nos casos em que elas não se mostrarem operacionais e/ou produtivas. (KOCH, 2014, p. 186)
Pelo exposto, fica evidente que a escolha das professoras de Língua Portuguesa como sujeitos desta pesquisa - a fim de interpretar suas compreensões sobre questões centrais nos estudos sobre o texto e de analisar suas práticas de ensino-aprendizagem da leitura e da produção textual desenvolvidas em sala de aula - representa uma possibilidade de estabelecer intercâmbios entre Linguística Textual e ensino de língua materna, consubstanciando diálogos profícuos entre áreas do saber que precisam tecer relações contínuas, em busca de propostas
pedagógicas pautadas nos gêneros textuais que professores e alunos - sujeitos sócio-históricos e culturais imersos em contextos diversos de socialização - precisam compreender, refletir e produzir para atuarem conscientemente nas diversas situações de interação verbal que a vida em sociedade nos exige.
Além disso, é preciso ressaltar que esta pesquisa pode nos indiciar se está em curso, em nossas salas de aula, sobretudo no que se refere ao ensino-aprendizagem da Língua Portuguesa, a materialização de uma “revolução conceitual” (MORTATTI, 2014), qual seja: o texto na sala de aula como unidade básica do ensino da língua materna (GERALDI, 1999). Uma proposta germinada no Brasil na década de 1980, com o intuito de propiciar o desenvolvimento de práticas de ensino de língua centradas no desenvolvimento da capacidade do estudantes de falar, ouvir, ler e escrever proficientemente, em conformidade com as exigências dos diversos atos de interação verbal de que participem nas travessias de suas atividades cotidianas; atuando, portanto, como atores sociais imbuídos de uma competência que os torna aptos a desenvolverem projetos de dizer intencionalmente situados, motivados e com pretensões definidas.
Em suma: esta pesquisa justifica-se pela necessidade de socialização sobre os esforços empenhados por professoras de Língua Portuguesa na tentativa de superar uma “pedagogia do silenciamento” (FERRAREZI JUNIOR, 2014), que, ao priorizar o ensino de normas da gramática, esquecia-se de mobilizar o texto em sala de aula para promover o desenvolvimento da competência comunicativa do aluno. E superar uma pedagogia do silêncio – não aquele conquistado pela disciplina, mas aquele tipo de silêncio que se instaurou em nossas aulas de língua, levando à “prática irresponsável da palavra”, à “inutilização da inteligência” do aluno e à prática do “você não interessa” (FERRAREZI JUNIOR, 2014, p. 37-50) – pressupõe a leitura e a produção de gêneros textuais diversos, de forma contínua, nas aulas de língua, como meios de diálogo com o outro, de interação sociocognitiva e de reflexões sobre usos linguísticos e recursos expressivos acionados pelos sujeitos em suas buscas de compreensões.