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PELA JANELA DE SEU QUARTO, Anna observou a partida dos trabalhadores do castelo marchando pela Ponte dos Arcos em direção à vila, que escurecia.

Naquela tarde, Elsa havia dado aos trabalhadores a opção de tirar um dia de folga remunerada para ajudar seus parentes que moravam por perto e que tinham animais e plantações sofrendo de ferrugem branca. Depois de escrever as cartas, Anna colocou sua capa de viagem e passou o resto do dia ajudando a descarregar a comida do navio real e entregando-a para os aldeões em meio ao grunhido dos animais doentes.

Ela queria tapar as orelhas, mas achou que seria covarde de sua parte.

Ela não podia somente ignorar as coisas ruins do mundo à sua volta. Se as pessoas fizessem isso, ninguém se ajudaria e a situação nunca voltaria ao normal. Então, Anna foi ajudar os fazendeiros a passar um pano úmido nos pelos brancos dos gados para mantê-los alertas. Acariciou as orelhas peludas de um triste potro enquanto o animal se recostava na sua mãe adormecida, que não mexia um músculo enquanto ele relinchava.

Anna saiu de perto da janela e começou a andar, ainda vestindo sua capa de viagem. Como imaginou, Elsa não apareceu para vê-la. Ela sabia que a irmã estava ocupada, mas… Anna olhou para a janela novamente e tomou uma decisão. Acendendo um lampião, saiu correndo pelos cômodos vazios do castelo em direção à câmara do Conselho de Elsa.

Ao se aproximar das portas, Anna ficou surpresa ao ver uma luz amarela saindo por debaixo do vão. Sua respiração acelerou. Talvez outra coisa tivesse dado errado na vila, algo tão ruim que fez Elsa parar de assinar as cartas dos dignitários.

Anna bateu na porta e, quando não obteve resposta, entrou no cômodo.

Elsa não estava lá.

Mas… Anna sentiu sua boca franzir.

Ali, fechado sobre a mesa, estava o livro Os segredos dos detentores de magia. Estava claro que Elsa não tinha nem encostado nele. Mas ela precisava! Anna sabia que as pessoas diziam que ela era muito otimista, inocente sobre como o mundo funcionava, e talvez fosse verdade, mas ela

tinha fé nas histórias. Ela tinha fé de que, se continuasse procurando, seria possível encontrar uma solução para qualquer problema. Ela só precisava fazer com que Elsa a ouvisse.

Anna correu pelo castelo segurando o livro. Procurou sua irmã em todos os lugares até seus olhos ficarem pesados de sono à medida que a escuridão do céu envolvia o castelo. Talvez Elsa não estivesse ali.

Relutante, Anna caminhou pisando fundo até seu quarto.

E então…

Vozes.

Vozes saindo do quarto de Elsa. Anna encostou a orelha na porta e, embora não conseguisse identificar as palavras, reconheceu o timbre da voz de Kai, assim como o sotaque do norte de Gerda.

Ela cambaleou para longe da porta. Elsa estava fazendo uma reunião sem ela! Houve um tempo em que Anna sabia que a irmã a convidaria para toda e qualquer reunião, pediria seu conselho, mas agora… agora parecia que Elsa não precisava mais de sua irmã caçula para nada. Elsa tinha escolhido se manter longe dela mais uma vez.

Com toda a dignidade que conseguiu juntar, Anna afastou-se vagarosamente, mas assim que perdeu o quarto de Elsa de vista começou a correr, tentando escapar da emoção que ameaçava tomar conta de seu corpo. Correndo para a segurança do próprio quarto, Anna bateu a porta e se sentou de pernas cruzadas no tapete rosa e felpudo, com o livro Os segredos dos detentores de magia aberto à sua frente. Estudou o livro, apesar de a vista ter ficado um pouco embaçada por conta das lágrimas que caíam de seus olhos. Folheou as páginas e descobriu uma que parecia ter sido arrancada de outro livro.

Ao segurá-la, Anna lembrou-se da mesma página solta que lhe trouxera tanta esperança na noite anterior. Aquela com um feitiço para transformar sonhos em realidade. Suas lágrimas secaram e ela sentiu outra emoção crescendo tão rápido que parecia ter vida própria. Por um momento, pensou ter entendido o que Elsa sentiu quando usou sua magia. Anna precisava liberar essa esperança selvagem – mesmo que Elsa achasse que não funcionaria, ela não via problema em tentar. Caso funcionasse, talvez Anna pudesse participar das reuniões do Conselho novamente. Talvez a tensão hostil entre as duas irmãs desaparecesse. Esse era seu maior sonho:

ajudar as pessoas de Arendelle, trabalhando junto a Elsa para encontrar a solução que consertaria tudo. No processo, Anna torcia para que Elsa

percebesse que precisava da irmã caçula, assim como Anna precisava de Elsa.

Puxando a página solta, Anna sussurrou as palavras com força:

Selvagem, desperta!

Ventania e neve!

Planta a semente E ela crescerá em breve!

Diga este feitiço, E verá de repente Todos os seus sonhos Surgirem à sua frente!

Um momento de silêncio. Anna se sentiu boba. O que pensou que aconteceria depois de ler o feitiço? Que sua irmã apareceria na sua frente, correndo em sua direção de braços abertos para levá-la até a sala secreta?

Sem sua esperança selvagem a impulsionando, Anna ficou desanimada.

Ela amassou a página do feitiço do sonho e a colocou no bolso de sua capa, sem vontade de olhar para ela novamente.

Do quarto, Anna de repente ouviu passos seguidos de vozes.

– Coitada, tem tanta coisa na cabeça – uma voz ecoou pela porta. Anna reconheceu a voz de Gerda.

– Ela aguenta tanta coisa – Kai concordou, em tom alto e claro, enquanto passavam na frente de sua porta.

A reunião do Conselho devia ter acabado, o que significava que, a qualquer momento, Elsa bateria à sua porta e pediria para entrar. A qualquer minuto, ela diria a Anna que sentia muito por ter demorado tanto para ouvir sua sugestão e que Anna estava certa, que elas precisavam procurar nos livros do quarto secreto. Então, Anna lhe mostraria o livro Os segredos dos detentores de magia, a página solta com o feitiço e elas consertariam tudo. Elas fariam isso juntas. Afinal, eram irmãs…

Anna sentou-se ereta no tapete e esperou… e esperou. A batida na porta nunca veio.

De novo, os sonhos de Anna foram invadidos por pesadelos. Ela sonhou com sombras no topo das árvores, Gigantes da Terra destruindo a vila e um naufrágio. E, em seguida, gelo. Anna havia dito para Elsa que não se lembrava do que tinha acontecido quando ela se transformara em gelo.

Mas era mentira. Ela nunca esqueceria a sensação horrível da carne quente ficando gelada, do sangue morno congelando em suas veias. Nunca esqueceria o resto de calor escapando com seu último suspiro, nunca esqueceria sua irmã chorando e a dor de não poder fazer absolutamente nada. Naquela noite, os pesadelos de Anna não a deixariam esquecer.

Então, o seu sonho se transformou…

Ela era uma menina de gelo, parada em frente ao castelo, podendo apenas espiar pelas janelas, mas não entrar nele. Lá dentro, ela podia ver Elsa lendo em voz alta para uma menina, cujos cabelos brancos estavam presos em duas tranças. Anna não reconheceu a menina, que estava de costas para a janela, mas reconheceu seu vestido, um verde-claro com estampa de girassóis. O vestido de aniversário de Anna. Ela conseguia ver Kristoff entrando no quarto, dedilhando seu violão e sorrindo para a garota.

Quem é você?, Anna queria gritar para a menina de cabelos cor de marfim. Vire-se! Mas seus lábios congelados não conseguiam falar, e Anna teve que esperar, impaciente, até finalmente a menina se virar e revelar…

olhos iguais aos dela. Nariz igual ao dela. Um sorriso igual ao dela. A menina de cabelos brancos era Anna – mas não era. Anna tinha sido substituída. Por essa outra pessoa. E ninguém no cômodo, nem Kristoff, Olaf, Kai, Gerda, nem mesmo sua própria irmã, percebera. Ou talvez perceberam, mas não se importaram. Um uivo alto tomou conta do ar e o gelo se quebrou. Separou-se do corpo de Anna como uma armadura, revelando seu verdadeiro corpo. De repente, ela podia correr, mas o castelo havia se transformado numa enorme e branca tundra e não havia onde se esconder antes que o lobo aparecesse, pois ele já estava ali.

Sem se virar, Anna sentiu os olhos amarelos do lobo fixos em suas costas. Ela correu. Ainda assim, independentemente de quão rápido ela corresse ou quão forte seu coração batesse, nada parecia mudar. Havia somente o chão plano, coberto de neve cinza abaixo dela, e um céu ainda mais cinza sobre sua cabeça. O mundo estava opaco e sombrio, sem esperanças, até que…

Uma explosão de dor vermelha emergiu em seu corpo enquanto o lobo enfiava as garras em suas costas.

Anna esperou acordar… ela sempre acordava.

Mas, dessa vez, não acordou.

Em vez disso, o lobo a virou de costas, abriu sua enorme boca e a engoliu inteira.

Os olhos de Anna se abriram. O suor brilhava em sua pele e ela se sentiu vazia, como se suas entranhas tivessem sido arrancadas, como uma abóbora eviscerada.

– Dedos de troll! – Anna exclamou para o nada, enquanto tirava o livro de baixo de si. Devia ter pegado no sono no chão em algum momento durante a noite e rolado para cima do livro. A lombada machucou a sua coluna, o que explicava a dor aguda das garras do lobo em seu pesadelo.

Anna encostou a cabeça no chão novamente e a balançou com as mãos em frente aos olhos.

– Isso está ficando ridículo – ela murmurou, torcendo para que o som da sua voz afastasse o medo. – Você está velha demais para esse tipo de coisa.

– Mesmo que não se sentisse velha. Na verdade, esse era o problema. Nos últimos dois dias, ela se sentia nova demais. E aquela dor que sempre espreitava no mar de seus pensamentos surgiu, causando uma onda de tristeza.

Como ela sentia falta dos pais… Sua mãe teria arrumado tudo com uma ou duas histórias sobre coisas bobas e mágicas, como cabras peludas enganando trolls, ou uma imperatriz que esquecera suas roupas. E seu pai teria espantado qualquer medo com uma vela que estalava e emanava um cheiro doce e calmante, ou uma caneca de chocolate quente.

Hummm… chocolate quente… com marshmallows.

– Qual é, Anna? – ela falou em voz alta novamente, tentando afastar a solidão. – Eles não estão aqui, mas você pode fazer a sua própria caneca de chocolate quente. Não é como se o lobo estivesse se escondendo embaixo da cama ou algo do tipo. – Ela deixou escapar um pequeno “rá!” para garantir. O barulho não foi muito convincente, mas só precisava convencer a si mesma. Então, levantou-se, e o terrível, horroroso pesadelo que acabara diferente dessa vez, com o lobo finalmente ganhando, sumiu de sua mente cansada.

Anna percebeu que ainda estava vestindo sua capa de viagem, mas não se importou. Ela colocaria seus pijamas quando voltasse. Pegando uma

vela tremeluzente da cabeceira, Anna era sua própria fonte de luz em um castelo de escuridão. A chama estava fraca, tinha força suficiente só para ajudá-la a passar pelos corredores e chegar na cozinha. Mas… espera. O que era aquilo?

Levantando a vela um pouco mais alto, Anna parou nas escadas. Pensou ter visto um pouco de movimento, um pouco de branco. Mas, quando semicerrou os olhos para ver através da luz da vela, não viu nada estranho, fora do lugar ou com garras e rosnando…

– Você está sendo boba – ela se repreendeu. – Continue. Lembre-se:

marshmallows! – Ainda assim, a lembrança do pesadelo reapareceu e a seguiu pelos corredores, pela escada e pela cozinha.

A cozinha era o coração do castelo, o brilho vermelho que saía do fogão enquanto preparavam banquetes deliciosos e o calor que cortava a umidade macabra do outono.

Naquela noite, porém, a cozinha parecia estranhamente vazia e silenciosa. As panelas e frigideiras, em vez de fazerem barulho por estarem sendo usadas pelos cozinheiros, estavam em seus ganchos, silenciosa e organizadamente ao lado de uma guirlanda colorida de alho, pimenta seca e ervas penduradas pelo teto, encostando nas tampas dos potes de geleia, beterrabas e arenque em conserva. Geralmente, pelo menos um cozinheiro ficava de olho nos fogões a lenha, mas Elsa tinha dispensado a equipe da cozinha também, incluindo Olina – o que significava que somente Anna, Elsa, Olaf, Gerda e Kai dormiriam no castelo naquela noite. Isso explicava o porquê de tudo parecer tão quieto, escuro e vazio.

Isso e o fato de que Sven e Kristoff ainda não tinham voltado. Ou Anna achava que eles não tinham voltado ainda, ela não tinha certeza.

Normalmente, os passeios até o Vale das Rochas Vivas não demoravam tanto assim, e como ele sabia que as coisas não iam muito bem para os aldeões, não deveria demorar muito. Ele era um homem da montanha, podia tomar conta de si mesmo. Mas, ainda assim, Anna começou a se preocupar e torceu para que eles voltassem. Apesar do seu otimismo, ela sempre se preocupava com as pessoas que amava. Era o que tornava Anna… Anna.

Ela suspirou fundo e foi lentamente até o fogão. Fazer chocolate quente era simples e, embora ela não fosse boa com receitas que exigiam passos detalhados, ingredientes diferentes e cortes perfeitos, estava acostumada a

mexer o delicioso pó de chocolate com leite e esquentar no fogão. Mas, enquanto mexia a panela com o leite quente para não formar nata, ouviu um barulho suave.

Ela parou.

– Olá? – chamou, esperançosa. – Kristoff, é você?

Nenhuma resposta.

Ela pensou ter ouvido o som de passos se distanciando do outro lado da cozinha e indo em direção às escadas. Talvez Kristoff estivesse usando seu protetor de ouvidos e não conseguisse ouvir seu chamado. Bem a cara do Kristoff. Ou talvez fosse Olaf. Talvez ele estivesse acordado lendo uma passagem emocionante sobre existencialismo ou algum livro sobre qualquer outro “ismo”.

Rapidamente, Anna desligou o fogão e tirou o leite. O chocolate quente teria que ficar para mais tarde. O barulho de pegadas era muito intrigante.

Se fosse Kristoff, ela precisaria saber o que os trolls tinham dito sobre a ferrugem branca. Ainda assim… não estava frio o suficiente para Kristoff estar usando seu protetor de ouvidos. Assim como Elsa, o frio não parecia incomodá-lo tanto quanto incomodava o povo que não era da montanha.

Afinal, ele tinha crescido no frio. Pegando a vela, Anna seguiu o barulho dos passos pelas escadas e pelo resto do castelo.

– Kristoff? É você? – ela perguntou.

Parecia que a pessoa estava andando pela galeria de retratos, depois pelo segundo grande saguão e, finalmente, pelo Saguão Principal. Anna parou na entrada, erguendo a vela o mais alto que conseguiu. Só iluminou o piso polido de madeira. Não ouviu os passos saindo do Saguão Principal, o que significava que Kristoff, se fosse ele, ainda estava ali no cômodo escuro com ela. Deu um passo para dentro, espiando atrás de cada coluna que revestia a parede do recinto cavernoso. Chacoalhou as cortinas uma a uma.

– Kristoff? – A chama de sua vela dançava de lá para cá. Nada, nada, nada, dois olhos amarelos, nada, nada… Anna prendeu a respiração.

Dois olhos amarelos.

Ela trouxe a vela para perto e viu a forma de um lobo.

Branco e enorme, exatamente como aquele de seu pesadelo.

Exceto que, dessa vez, era diferente.

Anna estava acordada.