ELSA HAVIA RETORNADO.
E ainda que Anna soubesse que sua irmã tinha acordado muito antes dela, que tinha organizado uma reunião com os aldeões, visitado uma fazenda, vasculhado uma biblioteca e então ido a outra fazenda, ela ainda estava notavelmente linda e elegante; sua trança loira era como um raio de sol contra o vinho do cachecol fofinho de sua mãe, que agora estava enrolado em volta dos seus ombros. Ela estava parada, com a boca aberta, observando, com o que poderia ser chamado de espanto, Anna e Olaf dentro do cômodo secreto.
– C-como? Eu quero dizer, você… – Elsa gaguejava. – O que é este lugar?
Felicidade e alívio percorreram Anna. Pela expressão no rosto de Elsa e pela forma como a sua voz estava trêmula, Anna soube – da mesma forma como sabia que gelo era frio e fogo era quente – que Elsa não conhecia esse segredo em particular. Pela primeira vez, Anna não era a última a saber.
– Nós encontramos um cômodo oculto – informou Olaf. – Oculto significa “secreto”. Mas acho que agora não é mais tão oculto assim. A menos que você possa guardar um… Qual é o substantivo para “oculto”?
Guardar um “ocultamento”? – Ele ainda segurava o globo de neve nas mãos. – Você se importaria se eu mostrasse isso pro Sven? – E antes que as irmãs pudessem responder, ele se foi.
– Eu não sei exatamente – Anna disse em resposta à pergunta de Elsa. – Mas não é maravilhoso? – Ela fez um gesto para as prateleiras e lutou contra a vontade de rir, enquanto Elsa adentrava o cômodo e observava o entorno com olhos arregalados, tocando as ervas secas, o telescópio de cobre brilhante e uma espiral de pérola, que parecia a presa de um narval.
Elsa se aproximou das prateleiras.
– Como você encontrou este lugar? – Elsa perguntou.
– Olaf – disse Anna.
Ela contou a Elsa sobre os itens, o mapa, as anotações e o livro que imaginava conter as respostas para os problemas delas. Ao mencionar que
seus pais tinham visitado esse cômodo, Elsa suspirou, surpresa.
– E então – Anna concluiu –, aposto que podemos encontrar algo aqui sobre a ferrugem branca.
– Eu não saberia dizer – disse Elsa. – Mas o que quer que esteja influenciando as vacas de SoYun também está afetando as cabras dos Westen. Não consegui acordá-las. Tentei de tudo.
– Quero dizer, olhe para este título! – Anna tirou o Almanaque do alquimista da prateleira e o virou para Elsa, porém a atenção dela parecia ter assumido outra posição: uma velha moldura dourada cuidadosamente apoiada contra a parede. A pintura estava turva de poeira, mas Anna reconheceu um par de olhos e uma mandíbula forte. Era um retrato.
Ao pegá-lo, Elsa deu um sopro e uma fumaça de poeira subiu pelo ar, pousando no rosto de Anna. Ela espirrou, enquanto Elsa segurava a pintura com os braços esticados e observava atentamente.
– Eu acho que esse deve ser Aren de Arendelle, mas a pintura está tão suja que é difícil de identificar.
Anna colocou o almanaque de volta na prateleira e espiou por sobre os ombros de Elsa.
– O que faz você pensar que seja Aren?
Aren fora um lendário líder dos tempos antigos – aqueles tempos muito, muito antigos, antes mesmo da era do gelo. Era tão velho, de fato, que era mais provável que esse guerreiro famoso nunca tivesse nem existido.
– Viu isso? – Elsa apontou para uma mancha escura. – Acho que isso supostamente deve ser a Revoluta, a espada com um diamante amarelo tão brilhante quanto um olho.
Anna encarou a irmã.
– Você está… citando algo?
– Sim – admitiu Elsa. – Uma fala da Saga de Aren, escrita por um poeta desconhecido, que alguns alegaram ser o verdadeiro amor de Aren.
Isso soava familiar para Anna. Mesmo que ela soubesse de tudo sobre Arendelle, ainda havia algumas coisas, como esses detalhes incríveis, que já tinha escutado em algum momento, mas que foram esquecidos. Essas informações que havia esquecido eram normalmente histórias que seus pais contavam. A vergonha tomou conta dela. Ela odiava esquecer as coisas!
Tentou se lembrar de tudo o que conseguia sobre Aren. Havia histórias infinitas e poemas épicos sobre seus feitos heroicos – desde ajudar os
Huldrefólk a esconder suas caudas até embarcar em uma jornada pelo mar a fim de cantar com sereias ou partir em busca dos cumes mais altos das montanhas para se encontrar com o Sol. De acordo com essa história em particular, Anna lembrou, o Sol ficou tão impressionado com Aren que lhe deu uma espada chamada Lâmina Revoluta. Com a espada do sol em mãos, Aren esculpiu um fiorde entre as montanhas. E não qualquer fiorde, mas o fiorde: Arenfjord, a espinha dorsal do reino de Arendelle.
– É essa que diz: “A lua que gira e sol que rodopia forjaram uma lâmina crescente”, e… alguma coisa, alguma coisa, alguma coisa, “Que a bandeira de Arendelle tremule”? – perguntou Anna.
Elsa concordou:
– Exatamente. – A vergonha de Anna diminuiu, enquanto Elsa apontava para um borrão acima da mancha. – Acho que esse pode ser o diamante amarelo no pomo, e também aqui – ela moveu a mão –, vê como a lâmina se curva? De acordo com o mito, a curva é onde a espada atingiu primeiro a Terra. E por isso ela tem esse nome. “Revoluta” significa “curvada”.
– Espadas mágicas são legais e tudo mais – disse Anna, inclinando a cabeça e se abanando com a mão. Estava ficando quente naquele lugar sem janelas. – Mas não vejo como abrir cortes na Terra pode ser útil.
Elsa mexeu em sua trança, olhando para a pintura.
– Aparentemente, o Sol concedeu grandes poderes à Revoluta, e, com a espada em mãos, Aren se tornou o protetor de toda essa gente, unindo-os contra uma ameaça obscura. Ele era um grande líder. – Uma estranha expressão se instaurou no rosto de Elsa. – A história parece estar cheia de grandes líderes.
Anna olhou para sua irmã. Por alguma razão que ela não entendia ao certo, Elsa parecia ter deixado o ambiente, ainda que fisicamente não tivesse ido a lugar algum. Ela não estava mais olhando para Anna. Em vez disso, sua atenção estava fixa em uma prateleira cheia de livros, garrafas e jarras.
– Por que eles estavam estudando magia? E por que eles trancaram esse cômodo e nunca nos contaram sobre ele? – perguntou, com a voz tão baixa que Anna não soube se ela realmente queria dizer algo. Elsa ficou parada ali, com as costas impossivelmente eretas, a postura de uma rainha. Mas, naquele exato momento, Anna não via Elsa, a rainha de Arendelle. Ela via Elsa, a criança solitária, que passava seus dias sozinha em seu quarto com estampas de gelo para lhe fazer companhia.
Anna se aproximou para encostar no braço de Elsa. Sua irmã estava tensa, como se não tivesse poderes gélidos de neve, mas fosse feita de gelo.
– Também me pergunto o mesmo – Anna admitiu, contente por estarem nessa juntas. – Mas pense: por que as pessoas estudam arte? Por que o padeiro Blodget passou sua vida inteira tentando fazer os melhores biscoitos amanteigados do mundo? Por que Kristoff ainda insiste em cantar?
Elsa continuou em silêncio, então Anna respondeu por ela, pegando Os segredos dos detentores de magia.
– Porque vale a pena explorar talentos. Porque biscoitos amanteigados são deliciosos, cantar é divertido e sua mágica é linda, Elsa. Talvez eles quisessem saber mais sobre isso.
Ela pousou a mão sobre a de Elsa e esperou. Segundos mais tarde, Elsa apertou seus dedos e Anna retribuiu. Sem fitar os olhos da irmã, Elsa se afastou e se dirigiu para a saída.
– Preciso ir – a voz de Elsa estava calma. – Este lugar me dá calafrios.
– O que quer dizer? – Anna pensou que nunca estivera em um cômodo tão lindo quanto aquele, com tantas coisas para explorar. As possibilidades eram infinitas!
– São essas coisas nos potes. – Elsa gesticulou. – Controladas e trancadas.
– Bem – disse Anna, enfiando o livro embaixo do braço –, talvez signifique que é hora disso tudo ser levado para fora, para a luz do dia. – A emoção surgiu novamente dentro dela. – As respostas sobre como parar a ferrugem branca podem estar aqui! Talvez exista ainda mais mágica por aí, mágica que pode de fato nos ajudar!
Elsa recuou.
– E-eu não quis falar desse jeito – disse Anna. – Sua mágica tem sido realmente muito útil. Porém, talvez não tanto para esta situação.
Elsa deu um passo para trás.
– Preciso ajudar os rebanhos antes de começar a investigar esse cômodo, ok? – anunciou Elsa. – Não há tempo a perder. Eu… tenho que ir.
– Claro. Mas-mas nós… Posso ficar aqui e continuar procurando – sugeriu Anna. – Talvez nós possamos encontrar as respostas para o que está acontecendo com…
Elsa sacudiu a cabeça.
– Realmente acho que precisamos sair deste lugar agora.
– Espere – disse Anna, desesperada para manter seu plano, desesperada para ajudar. – Há tantas coisas que ainda não descobrimos! Os livros podem ter as respostas!
– Tenho que ir agora. – A voz de Elsa estava fria como um bloco de gelo.
– Mas nós…
– Nós devemos deixar este lugar no passado. Havia uma razão para a mamãe e o papai manterem segredo. Além disso – ela disse enquanto fazia um gesto na direção da porta –, as respostas para os nossos problemas estão aqui fora.
Não, pensou Anna, sentindo o medo crescer e apertar seu peito. Estava acontecendo de novo. Seu plano para provar seu valor para Elsa estava desmoronando! Quem se importava em partir em uma grande viagem estúpida? Anna queria fazer o melhor para todos, mas nos últimos tempos parecia ter a habilidade de fazer completamente o oposto.
– Fique longe deste quarto, Anna – Elsa continuou, se afastando dela e saindo da biblioteca. – Ele está escondido por uma razão. Vamos mantê-lo desse modo.
– Elsa…
– Esqueça. – E quando Elsa falava nesse tom, mais como rainha do que como irmã, Anna sabia que não havia o que argumentar.
Silenciosamente, Anna assentiu. Conforme ela colocava Os segredos dos detentores de magia de volta na prateleira, Elsa voltou-se para a biblioteca e saiu, dando pesados passos, seguindo para o compromisso que tinha agendado. Mas Anna não conseguia sair de lá – pelo menos não ainda. Ela deixou-se admirar uma última vez o quarto secreto, imaginando sua mãe sentada à mesa, traduzindo símbolos, enquanto seu pai estudava os objetos das prateleiras e fazia alguma piada inteligente.
Sem realmente pensar muito sobre isso, Anna tocou o Os segredos dos detentores de magia com os dedos, porém eles pararam após encostar no couro macio. Elsa poderia ficar mesmo muito chateada com Anna se descobrisse o que ela estava pensando, mas ficaria ainda mais chateada se os animais continuassem adoecendo. Isso valeria a pena, Anna disse firmemente para si mesma, quando tudo estivesse consertado – quando Anna tivesse consertado as coisas. Além disso, Elsa havia dito somente que Anna ficasse longe do cômodo, mas não havia dito – ou pelo menos
não havia dito especificamente – que Anna não podia levar um pouco do cômodo com ela.
E assim, Anna pegou o livro de sua mãe e saiu apressada.